Parte 2 - capítulo 1
Talvez ela também estivesse atolada em algum lugar por ali. E estava, só que pior, com o carro quebrado.
Não deveria, mas isso a aborreceu um pouco. Balançou a cabeça. Era impressionante como as pessoas só se preocupavam com elas próprias, eram egoístas demais nesses dias atuais.
Nem mesmo um simples obrigado se dizia. Queriam que todos fizessem seus gostos e depois não sabiam porque o mundo andava tão difícil e ruim atualmente.
Ela sabia bem que Margô era uma pessoa egoísta e mimada. e de certa forma, a culpa não era só dela, mas de seus pais que a criaram como se ela fosse a dona do mundo.
Ou pelo menos a dona da cidade de Torres. O que aliás, a cidade quase toda sabia e pensava igual.
Não tinha muito contato com ela ou com a família em geral. Conhecia de vista alguns tios e primos dela. Margô vinha de uma família das mais antigas da cidade e era muito rica e próspera.
Tinham vários tipos de negócios em Torres, inclusive um banco e uma concessionária de carros importados. Era a única que vendia esse tipo de veículo de luxo em Torres.
A própria Margô cansava de desfilar pela cidade com um desses de luxo. Margô era muito bonita com seus olhos azuis e seu cabelo preto com mechas mais claras, sempre bem vestida, sorrindo, mas com pessoas de seu nível.
Com ela e com pessoas que não eram de seu círculo de amizades era muito desagradável.
Não entendia bem dessas coisas de relacionamento, mas parecia que todos os homens a achavam irresistível. Não era difícil ver algum deles que frequentava sua casa, fazer tudo o que ela queria, era só ela sorrir ou falar o que queria.
Piscava o olho e pronto, o que ela queria aparecia sem esforço nenhum. Magê estava acostumada a ser paparicada. E até que não deveria ser uma coisa ruim.
Ás vezes ela se cansava de lutar sozinha por tudo. Não era mimada como Margô, mas se pudesse ter alguém ao lado para dividir as obrigações seria muito bom.
Nunca tinha visto o homem que estava com ela agora. Com certeza um novo namorado.
Ela conhecia bastante gente na cidade desde pequena. Tinha nascido e crescido ali em Torres e provavelmente ficaria ali até envelhecer e morrer.
Nem mesmo uma viagem longa ela tinha feito. Só conhecia as cidades mais próximas. Por causa de seu trabalho e de sua família ela tinha muitos conhecidos. Tinha quase certeza de nunca ter visto esse namorado de Margô.
“E que me importa isso? Tanto faz quem ele seja”
Ela se recriminou.
O homem era muito mandão e nem tinha notado que ela era uma mulher. Nem mesmo a olhou duas vezes para conferir quem era.
Tudo bem que não estava vestida adequadamente. Mais parecia um garoto malvestido do que uma mulher de vinte e três anos que cuidava de dois irmãos mais novos.
E também achou o homem bem arrogante e mal educado. Vai ver por isso que estava namorando com Margô. Deveria ser mais um de seu grupinho de esnobes que se achavam superiores aos outros.
Se não estivesse precisando de ajuda para tirar o carro talvez nunca nem olhasse para ela. Nunca iria notar sua presença.
Sabia que tinha certas coisas que poderia aprender, mas não tinha uma pessoa mais próxima para a ensinar, como uma boa amiga ou uma irmã mais velha.
Não tentava se maquiar sozinha porque nas poucas vezes em que tentou ficou parecendo uma palhaça ou então que tinha entrado em uma briga corporal.
Não tinha ideia certa de como usar maquiagem. Gostava e achava bonito, mas quando precisava sair mais arrumada, pedia ajuda de Suzana, uma vizinha que tinha um salão.
O máximo que ela sabia usar direito era batom e delineador. Também não precisava mais do que isso. Gostava de sua aparência limpa e isso não era um problema para ela.
Não tinha e nunca teve um namorado. Não havia motivo para ficar se maquiando o tempo todo e menos para trabalhar.
Seu cabelo era bem comprido, castanho escuro quase um ruivo. Liso como o de sua mãe, mas a cor puxara de seu pai. Era longo e chegava quase na cintura, vivendo preso a maior parte do tempo por causa do trabalho.
Seu irmão Bruno tinha o cabelo idêntico ao dela, porém curtinho. Já Bianca era loirinha como sua mãe. Os traços dos três eram semelhantes. De longe se via que eram irmãos.
Ela não quis olhar diretamente para o homem, mas conseguiu perceber que ele tinha o rosto quadrado, cabelo curto escuro e o que parecia ser uma cicatriz que descia da lateral de sua testa e seguia até se perder na gola alta do sobretudo.
Os olhos ela teve a impressão de serem castanho escuro e a boca era grande de lábios bem vermelhos talvez pelo frio. A iluminação era fraca, o poste ficava um pouco mais á frente.
Não gostou de ser confundida com um homem, foi estranho. A roupa e a falta de iluminação não ajudavam muito, mas ainda assim ela não parecia um homem.
Andava encolhida por causa do frio e com o casaco um pouco folgado, mas ele poderia ter percebido que era uma garota.
Realmente o homem lhe pareceu esnobe, assim como sua acompanhante, Margô.
Já estava ficando tarde e com certeza seus irmãos estariam preocupados com ela, mas não teve culpa. A velha pick-up resolveu parar de vez e a deixou na mão.
Sabia que isso aconteceria uma hora. O carro já estava com eles há muito tempo e já tinha feito até demais. Passou de seu pai para sua mãe e depois para ela.
Tinha tempo demais nas costas e era usada para tudo o que eles precisavam. Já vinha dando sinais de que precisava de uma boa manutenção, mas ela ainda não tinha o valor suficiente para deixá-la em uma oficina para dar uma geral.
E chegava a ser irônico. Ela tinha parado para ajudar alguém que estava em dificuldade com o carro e estava voltando para casa á pé e sozinha. Á noite. Com seu próprio carro parado bem perto, alguns metros antes de onde os encontrou.
Poderia até dizer que isso era uma piada de mau gosto.
E é claro que isso só poderia acontecer com ela. Quando contasse aos irmãos com certeza iriam rir e depois reclamar por ela não ter pedido ajuda em troca.
Autora: Ninha Cardoso
Parte 3 - o Ceo Conhece O Amor
Até que ela era uma pessoa positiva, apesar de tudo o que já tinha passado na vida, mesmo jovem como era. Só que de vez em quando ficava desanimada com a demora em algumas coisas para acontecer.
Estava acostumada a esperar o momento de cada coisa acontecer, mas isso não queria dizer que ficava tranquila sempre. Já tinha imaginado tantas coisas boas para ela e os irmãos, mas elas aconteciam devagar e nem sempre da mesma forma como planejara.
Mas continuava positiva. Fazer o que?
Quando era mais jovem, até tinha muitos sonhos, mas muitos foram ficando pelo caminho diante das dificuldades e escolhas que precisava fazer. Chegava a sonhar acordada com coisas que queria realizar e ter, mas com o tempo e com as obrigações exigindo muito, isso foi ficando sempre para depois e algumas foram ficando esquecidas.
De vez em quando ela ainda tinha algum tipo de desejo ou sonho para realizar e se fosse com calma, acabava conseguindo o que ajudava a amenizar um pouco a dificuldade da vida.
Não podia reclamar de seu último ano. Tinha sido muito bom com relação ao trabalho e também em casa. Tinha aprendido a ser paciente com a vida e com os rumos que ela criava.
Gostava de ficar atenta ao que ocorria em volta para não perder uma boa oportunidade quando ela aparecia e sempre dizia o mesmo aos irmãos.
O vento soprou mais forte e ela se arrepiou de frio. Suspirando ajeitou o capuz sobre a cabeça e cruzou os braços para se esquentar e continuou seu caminho solitário até chegar em casa, apressando o passo.
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Gustavo deu uma olhada na garota ao seu lado. Balançou a cabeça ao ouvir sua conversa boba que não mudou desde que saíram do atoleiro lá atrás.
Margô era muito bonita, sem dúvida nenhuma e fazia questão de mostrar isso, não só para ele, mas no momento estava sem paciência para flertes e conversas bobinhas de futilidades. Ainda mais depois de ter que fazer um esforço pesado pra retirar o carro do atoleiro de neve.
Suas costas doíam mais agora e o estavam matando. Ele queria chegar logo ao hotel para poder tomar seus remédios e um bom banho quente para ajudar a relaxar e deitar em sua cama. Queria dormir o resto da noite e não ficar ouvindo bobagens sobre artistas e fofocas sobre os moradores da cidade.
Ele já estava saindo quando ela chegou apressada ao seu lado e lhe pediu que a levasse em casa.
Tudo o que queria era voltar para o hotel e descansar, mas não queria ser mal educado e depois da conversa melosa dela, ofereceu levá-la, mas não queria perder tempo com sua paquera.
Ele sabia bem o que ela esperava dele, mas não estava ali para isso e nem estava com humor nessa noite.
Quando aceitou o convite dela para sair, não achou que a garota fosse tão fútil e que seus amigos seriam iguais. Logo que a viram com ele já começaram as perguntas bobas.
Ele até aproveitou a festinha para observar as pessoas e conhecer alguns moradores do lugar. Conversou um pouco com eles, perguntando sobre como era morar em torres, seu comércio, o que faziam para movimentar o lugar e outras perguntas básicas para ajudar a decidir se ficaria ou não morando ali por um tempo.
A chance de ir embora surgiu e ele se despediu do grupo que conversava, mas Margô o viu se afastar e foi logo correndo, entrando no carro e fazendo uma cara de menina dengosa. Pediu que a levasse para casa e claro que ele disse que sim.
Desde o dia em que conheceu Margô, ela já tinha começado a dar em cima dele, mas fazia que não entendia. Só que depois de duas semanas na cidade, o flerte dela começava a ficar mais intenso.
Agora ele tinha que se fazer de calmo e educado, deixá-la em casa para só depois poder voltar para o conforto de seu quarto de hotel.
Nem sempre ser gentil é bom, muitas vezes é um saco. Como no caso agora. Lembrou-se do rapaz lá atrás que o ajudou e de que nem mesmo tinha lhe dado um obrigado, nem perguntou se precisava de algo.
De repente estava por ali pelo mesmo motivo que ele. Foi um relaxado, deveria ter perguntado.
— Você conhece aquele rapaz lá atrás?
— Que rapaz? – ela riu franzindo a testa — Ah, você quer dizer a garota. O nome dela é Beatriz – abanou a mão.
— Era uma garota? — olhou admirado.
Ela começou a rir e bateu as mãos.
— Meu Deus, não acredito nisso, que divertido. Você não viu que era uma mulher? Achou que era um homem? - cobriu a boca com a mão _ Ah, essa eu tenho que contar ao pessoal assim que chegar em casa — riu mais — Vai ser a nova piada interna. Eles vão rir muito comigo.
— É sério isso? – ele balançou a cabeça — Eu não olhei direito. Estava um pouco escuro no local. Só queria sair dali logo.
“Ótimo, tinha sido um babaca completo”.
Ouvir isso só fez sua cabeça começar a doer e sua perna direita a ficar dormente. Detestava sentir dor. Esfregou a perna com força para a circulação retornar ao normal.
Assim que chegasse ao hotel iria tomar logo seu remédio.
Queria muito se ver livre de Margô. A pressa tinha sido sua inimiga mais uma vez. Se tivesse tido a calma de falar com a pessoa que o ajudou, saberia que se tratava de uma mulher.
Já tinham se passado nove meses desde que sofrera o acidente e ainda sentia no corpo as consequências disso. O que mais o incomodava era a dor na perna e nas costas. De vez em quando sua cabeça, mas só quando se sentia frustrado, como agora.
Sabia que o clima em Torres seria frio, mas não pensou que teria tanta neve. Quando procurou saber, as fotos mostravam ruas com neve baixa. Esse frio contribuía para sentir dores.
Ele tinha alguns pinos e parafusos em sua perna e nesse tempo parecia que gelava de dentro para fora.
Na tarde anterior sua perna tinha começado a incomodar e á noite as costas deram uma fisgada de leve. Ele tinha até tido cuidado de não se abaixar de mau jeito para não estirar os músculos.
Olhando sua imagem no espelho retrovisor viu que parecia estranho, talvez até um pouco assustador. Estava todo de preto e com a cicatriz que saía da lateral de sua testa e descia até quase seu peito, se ramificando pelo ombro e costas, ele parecia mais um vampiro do que um homem comum. No mínimo parecia com um bruxo suspeito.
Até que se ele fosse um bruxo ou vampiro seria bom. Isso queria dizer que ele teria vida longa oua té seria imortal.
Sorriu de leve sem que Margô percebesse. Se fosse mesmo um imortal, mandaria todos á merda e viveria do modo que quisesse, sem precisar ter contato com certos tipos de pessoa.
Depois de um tempo enfiado nesse meio dos negócios, se começa a perceber que nem tudo é como parece. Estava cansado da maioria das pessoas.
Ficou aliviado ao ver a casa de Margô se aproximando.
— Pronto, chegamos, está entregue senhora – ele nem desligou o carro porque queria que ela saísse logo.
— Ai, não me chame de senhora - fez uma careta — Parece coisa de velha - jogou o cabelo para trás — Não quer entrar e tomar algo para se aquecer? – de novo ela fez um biquinho que achava ser sexy e piscou — Ainda está cedo.
Autora: Ninha Cardoso