Capítulo 2

Acordei no meu quarto ainda envolta pelo silêncio confortável do apartamento que meu pai havia alugado para mim. A luz da manhã atravessava as cortinas claras, desenhando sombras suaves nas paredes, e por alguns segundos permaneci ali, deitada, apenas respirando. Ainda era estranho pensar que eu realmente estava em Harvard. Segundo semestre. Meu lugar no mundo… ou pelo menos, o mais próximo disso que eu já havia chegado.

Eu amava tudo ali.

Mesmo com os olhares.

Mesmo com os sussurros.

Mesmo com as risadas que, muitas vezes, eu fingia não ouvir.

Eu sabia que não me encaixava. Meus vestidos largos, discretos, sem graça aos olhos deles… meus óculos grossos demais, minha franja certinha demais. Eu parecia um rascunho mal acabado em meio a pessoas que nasceram prontas. E ainda assim… eu gostava de quem eu era. Gostava do conforto das minhas roupas, da segurança silenciosa que elas me davam.

Naquele dia, porém, nada disso importava.

Era dia de prova.

E eu estava pronta.

Tinha passado a noite inteira revisando, repetindo fórmulas, conceitos, ideias. Minha mente funcionava melhor assim — organizada, focada, disciplinada. Eu não tinha dúvidas: tiraria uma boa nota. Eu sempre dava tudo de mim. Não era apenas sobre estudar… era sobre provar. Provar ao meu pai. Provar ao mundo. Provar a mim mesma que eu era capaz de ir além.

Levantei-me, tomei um banho rápido e me arrumei sem pressa. Escolhi um vestido marrom de botões, simples, confortável, combinado com uma bota escura. Soltei os cabelos, ajustei os óculos no rosto e ignorei completamente a ideia de maquiagem. Nunca gostei. Nunca precisei.

Peguei meus livros, minha bolsa e saí.

O caminho até a universidade era curto, e eu gostava disso. Caminhar me ajudava a pensar, a organizar o dia, a ensaiar mentalmente cada passo. Eu repetia conteúdos na cabeça, planejava horários, revisava tudo como se estivesse me preparando para uma batalha silenciosa.

Quando atravessei o gramado e entrei no corredor principal, fui recebida pelo caos habitual. Alunos por toda parte, vozes, risadas, conversas cruzadas. Um mundo inteiro em movimento.

Mas eu já estava acostumada a passar por ele como um fantasma.

As horas pareceram se arrastar até a aula da prova. Quando entrei na sala, o cenário era o de sempre. Burburinhos, grupos reunidos, e, claro… Scarlett.

Scarlett e seu namorado.

O casal perfeito.

Ela gargalhava alto, contando histórias irrelevantes como se fossem acontecimentos históricos. Ele ria junto, exibindo-se para todos ao redor. E, como sempre, uma pequena plateia se formava ao redor deles.

Revirei os olhos, silenciosamente.

Fui para o meu lugar.

O meu canto.

Sentei-me, ajustei meus materiais e esperei. Fingindo não perceber quando Scarlett elevava a voz propositalmente ao falar de assuntos “femininos”, sabendo exatamente para onde os olhares se voltariam. Para mim.

Sempre para mim.

Encostei a mão na carteira, respirei fundo e esperei o dia começar de verdade.

Quando o professor entrou, a sala finalmente se aquietou. A prova foi distribuída, e ali… tudo desapareceu.

Era só eu.

As questões.

E o silêncio confortável da concentração.

Quando terminei, senti aquele alívio conhecido — a certeza tranquila de que tinha feito o meu melhor. Guardei minhas coisas e saí da sala, já me preparando mentalmente para a próxima aula.

E então…

Eu bati em alguém.

O impacto foi rápido, desajeitado o suficiente para que meus livros escapassem das minhas mãos e se espalhassem pelo chão. Meu corpo vacilou, quase caindo, mas consegui me equilibrar. Sem pensar, me agachei imediatamente para recolhê-los.

Eu nem olhei para ele.

Não no início.

Minha única preocupação era juntar tudo rápido, desaparecer rápido, seguir em frente como sempre fazia.

Mas então…

— Você está bem?

A voz.

Eu congelei.

Levantei o olhar.

E o mundo… simplesmente parou.

Ele estava ali.

Os olhos azuis, claros demais para serem reais, como o céu de um dia perfeito. A pele clara, o rosto bem desenhado, a barba rala que parecia calculada, os cabelos negros levemente desalinhados. Ombros largos. Postura firme. Um casaco vermelho com traços pretos — o time.

Claro.

Um jogador.

Mas, naquele momento… nada disso importava.

Tudo o que eu conseguia pensar era em como ele parecia… impossível.

— Desculpa ter entrado na sua frente — ele continuou, ainda com aquele sorriso.

Eu não conseguia responder.

Minha língua parecia presa.

Minha mente… vazia.

— Eu… estou bem — consegui dizer, finalmente, em um fio de voz. — Não foi nada.

Afastei uma mecha do meu cabelo loiro atrás da orelha, um gesto automático, nervoso demais. Peguei meus livros, levantei… e por alguns segundos, ficamos ali.

Ele me olhou.

E naquele instante, um pensamento atravessou minha mente como uma lâmina:

Ele está vendo tudo.

Minha roupa.

Meus óculos.

Meu jeito.

Eu quis desaparecer.

Quis, por um segundo, ser outra pessoa. Alguém como Scarlett. Bonita, confiante, perfeita. Alguém que soubesse exatamente o que dizer.

Mas eu não era.

Nunca fui.

E, talvez por isso, fiz o que sempre fazia.

Fugi.

Saí andando rápido, sem sequer perguntar o nome dele, sem olhar para trás.

Mas era tarde demais.

Porque algo dentro de mim… já tinha mudado.

O restante do dia passou como um borrão. Aulas, vozes, palavras… nada fazia sentido. Minha mente estava presa naquele momento, repetindo cada detalhe, cada expressão, cada segundo.

Quem era ele?

De onde vinha?

Qual curso?

Qual ano?

As perguntas começaram a se acumular, inquietas, insistentes.

E então, pela primeira vez desde que cheguei ali…

Eu fiz algo diferente.

Falei com alguém.

Nina.

Ela não era exatamente minha amiga, mas também não era cruel como a maioria. Parecia… neutra. E naquele momento, era o suficiente.

Descrevi cada detalhe que lembrava, meio sem jeito, tropeçando nas palavras.

Ela riu.

— Querida… olha em volta. Metade desses caras são iguais.

Corei.

Mas insisti.

Descrevi melhor.

E então…

Como se o universo estivesse brincando comigo…

Ele passou.

Ali.

Bem na nossa frente.

Meu corpo paralisou.

O tempo desacelerou.

Ele conversava com outros caras, rindo, completamente alheio à minha existência. Cada movimento dele parecia… hipnotizante.

Ele não olhou para mim.

Nem por um segundo.

Para ele, eu fui só um esbarrão.

Um acidente.

Nada mais.

Engoli seco, apontando discretamente.

Nina seguiu meu olhar e então sorriu, reconhecendo imediatamente.

— Ah… esse é o Ian Novak. Filho de um dos homens mais poderosos de Nova York.

Ian Novak.

O nome ecoou dentro de mim.

Gravou-se.

Marcou.

E, a partir daquele momento… tudo mudou.

Quando o dia terminou, voltei para o apartamento em silêncio. Tomei banho, vesti meu pijama confortável e me sentei na cama, deixando os livros de lado pela primeira vez sem culpa.

Peguei o celular.

E procurei por ele.

Ian Novak.

Era como se aquele nome tivesse se tornado… o centro de tudo.

Homens nunca me interessaram.

Nunca.

Meu mundo sempre foi feito de páginas, metas, conquistas. Eu queria crescer, construir uma carreira, me tornar alguém. Harvard era só o começo.

Mas agora…

Minha mente insistia em voltar àquele momento.

Àquele olhar.

Àquele sorriso.

Era como se algo tivesse sido despertado dentro de mim… algo que eu não entendia, que eu nunca tinha sentido.

Uma inquietação.

Um desejo.

Uma curiosidade quase perigosa.

Deitei na cama, olhando para o teto, sentindo meu coração bater um pouco mais rápido do que deveria.

E, pela primeira vez…

Eu não estava pensando no meu futuro.

Estava pensando nele.

Capítulo 3

Cinco anos depois…

Entrei no restaurante com o coração acelerado, como se cada passo meu ecoasse mais alto do que deveria. Havia algo diferente naquele dia — não era apenas nervosismo. Era expectativa. Era o peso silencioso de tudo o que eu havia construído até ali… e do que estava prestes a começar.

Hugo já me esperava.

Assim que meus olhos o encontraram, impecável como sempre em seu terno Armani, senti um pequeno alívio. Cinco anos tinham sido generosos comigo. Eu já não era mais a garota invisível do corredor. Ganhei disciplina, confiança… coragem. Mas, ainda assim, havia partes minhas que pareciam presas no passado.

Principalmente quando se tratava dele.

Ian Novak.

Meu coração deu um salto discreto só de pensar.

Aproximei-me de Hugo, ignorando os olhares ao meu redor — ou tentando ignorar. Algumas pessoas cochichavam, outras me analisavam de forma rápida, quase avaliativa. Eu estava bem vestida, sim. Roupas caras, discretas… mas, de alguma forma, eu ainda sentia que não pertencia completamente àquele ambiente.

Talvez Hugo estivesse certo.

— Hanna, você sabe que eu te amo… mas esse seu modelo me dá dor de cabeça — ele disse, assim que me abraçou e se afastou o suficiente para me analisar dos pés à cabeça.

Soltei uma risada baixa, já esperando.

— Eu também senti sua falta, Hugo.

Sentei-me à sua frente, cruzando as mãos sobre a mesa para conter a leve inquietação que sempre surgia quando ele começava com suas críticas.

— Estou animada — confessei, sem conseguir esconder o brilho nos olhos. — Consegui o estágio nas Empresas Novak… você sabe o quanto isso significa pra mim.

Ele levou o copo de água aos lábios, observando-me por cima da borda, como se estivesse avaliando não apenas minhas palavras… mas minhas intenções.

— Sei — respondeu, seco. — Mas você e eu sabemos que isso vai muito além de um estágio.

Sorri.

Não neguei.

— Eu vou conseguir conquistar esse homem, Hugo.

Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços, como se já estivesse esperando por aquela resposta.

— Certo. Então vamos falar dos seus problemas.

Revirei os olhos.

— Eu sei.

— Não, você não sabe — ele rebateu, direto. — Primeiro: você precisa manter esse emprego. Segundo: você não pode continuar se vestindo como se tivesse herdado o guarda-roupa da sua avó.

— Hugo!

Ele ignorou completamente minha indignação.

— Você já viu as mulheres com quem ele sai?

Suspirei.

Claro que tinha visto.

Fotos, eventos, capas de revistas… mulheres impecáveis, confiantes, deslumbrantes.

— Eu sei — repeti, mais baixo dessa vez.

— Então você precisa fazer compras.

Aquilo me atingiu mais do que deveria.

Balancei a perna sob a mesa, inquieta. Não era apenas sobre roupas. Nunca foi. Era sobre sair da minha zona de conforto… sobre me expor… sobre me transformar em algo que eu nunca fui.

Mas, ainda assim…

— Por isso eu preciso da sua ajuda.

Hugo me observou com mais atenção dessa vez. E, por um breve instante, senti um frio na barriga. Ele não estava mais sendo apenas sarcástico… estava sendo honesto.

— Ele é Ian Novak — disse, sem rodeios. — E você é linda, Hanna… mas o seu estilo… e, principalmente, a forma como você se esconde… isso não vai chamar a atenção dele.

Meu coração apertou.

Desviei o olhar, sentindo aquele velho incômodo voltar — aquele que eu achava que tinha deixado para trás.

— Eu… eu mudei um pouco — murmurei.

Hugo suavizou a expressão. Segurou minha mão.

— Eu sei. Mas você precisa mostrar isso.

Respirei fundo.

Antes que eu pudesse responder, o ambiente mudou.

Foi sutil no início. Um burburinho. Um movimento diferente. Olhares se voltando para a entrada.

E então…

Eu o vi.

Ian Novak.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

O tempo… desacelerou.

Ele entrou no restaurante como se aquele espaço fosse apenas mais um território sob seu domínio. Terno escuro, perfeitamente ajustado, postura firme, olhar seguro. Ao lado dele, uma mulher alta, elegante, deslumbrante em um vestido preto que parecia ter sido feito sob medida para destacar cada curva.

Mas ainda assim…

Nada se comparava a ele.

O poder que ele carregava não era apenas sobre aparência. Era presença. Era controle. Era… inevitável.

As pessoas paravam.

Observavam.

E eu…

Eu não conseguia desviar o olhar.

Era como estar de volta àquele corredor da universidade. A mesma sensação de inferioridade me atingiu, crua, direta. As risadas do passado ecoaram na minha mente, e por um instante… eu fui novamente aquela garota invisível.

— Isso só pode ser o destino brincando comigo… — sussurrei.

— Hanna — Hugo respondeu, tranquilo —, nós escolhemos esse lugar por causa dele.

Virei para ele, irritada.

— Eu sei! Mas eu não sabia que seria hoje… olha pra mim.

Ele sorriu.

— Eu avisei que devíamos ter ido às compras primeiro.

Voltei o olhar para Ian.

Ele passou por nós.

Sem olhar.

Sem perceber.

Sem sequer saber que eu existia.

Meu peito apertou.

— Eu não tenho como competir com isso… — murmurei, observando a mulher ao lado dele.

Hugo riu baixo.

— Então pare de competir… e comece a jogar.

Franzi a testa, confusa.

— Se você o quer tanto assim, Hanna… então faça algo sobre isso. Você sabe o que precisa fazer.

Suas palavras ficaram no ar.

E, pela primeira vez… fizeram sentido.

Talvez não fosse apenas sobre aparência.

Mas… talvez fosse o começo.

Respirei fundo, sentindo algo dentro de mim mudar. Como uma peça se encaixando, finalmente.

— Está bem… — disse, olhando para ele. — Você venceu.

O sorriso de Hugo se abriu imediatamente, satisfeito.

— Ah, minha querida… agora sim. Temos muito trabalho pela frente.

Ele segurou minhas mãos com entusiasmo.

— Esse final de semana é nosso. Vamos transformar você.

Soltei uma pequena risada, nervosa.

— Espero não me arrepender disso…

— Você não vai — ele garantiu. — Em breve, Ian Novak vai conhecer a sua nova funcionária… e ele não vai conseguir ignorar você.

Olhei novamente na direção onde Ian havia desaparecido.

Meu coração ainda batia forte.

Mas agora…

Não era só nervosismo.

Era determinação.

E, dessa vez…

Eu não seria invisível.

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