Capítulo 2

Ponto de Vista: Carla Beatriz

Eu fiquei sentada ali, o celular ainda em minhas mãos, o fantasma da voz de Bruna ecoando na sala silenciosa.

A náusea se intensificou, um gosto amargo subindo pela minha garganta.

Minha cabeça girava, um turbilhão vertiginoso de descrença e dor.

Era uma manifestação física do ataque emocional.

Meu corpo, já frágil com as demandas de uma nova vida, se rebelou contra o choque.

Lembrei-me das palavras de Gui anos atrás, como ele me chamou de "mansa" em comparação com o "fogo" de Bruna.

Ele disse que Bruna era a "emoção" que ele desejava.

Ele havia prometido que mudara, que agora valorizava a estabilidade, que me valorizava.

Mas era tudo mentira, uma ilusão cuidadosamente construída para me atrair de volta para sua gaiola de ouro.

Sua voz profunda e ressonante, cheia de tanta ternura quando falava comigo, era capaz de tanto veneno, de tanta crueldade casual, ao me descrever para sua amante.

A palavra "confortável" doía mais do que qualquer insulto.

Ela me despojava de toda paixão, de todo desejo, me reduzindo a um objeto conveniente, um corpo quente, uma mãe para seus herdeiros.

A ideia de seu toque, de seus beijos, depois de ouvir aquela gravação, fazia minha pele arrepiar.

Cada "eu te amo" que ele sussurrou parecia uma traição antes mesmo de sair de seus lábios.

A ironia era uma reviravolta cruel da faca.

Ele havia retornado, implorando, prometendo o mundo, e eu, tola que era, acreditei nele.

Eu baixei minha guarda, abri meu coração e o convidei a entrar novamente, apenas para ele me apunhalar de novo, mais fundo desta vez.

Mas desta vez, era diferente.

Desta vez, havia pequenos corações batendo dentro de mim, frágeis e inocentes.

Eles mereciam algo melhor do que um pai que mentia, um pai que ainda estava enredado com uma mulher que zombava ativamente de sua mãe.

Um instinto protetor feroz se acendeu dentro de mim, queimando os últimos vestígios da minha esperança ingênua.

Não. Desta vez não.

Desta vez, eu não seria a Carla Beatriz quieta e perdoadora.

Eu não seria a esposa "confortável".

Eu seria livre.

Respirei fundo, um suspiro trêmulo, tentando acalmar meu coração acelerado.

Minhas mãos, ainda tremendo, baixaram lentamente o celular.

A decisão se solidificou em minha mente, fria e clara como gelo.

Eu tinha que ir embora. Para sempre.

E desta vez, não haveria volta.

Ouvi a porta da frente se abrir, os passos familiares de Gui no hall de entrada.

Meu estômago se contraiu, mas minha determinação se fortaleceu.

Esta conversa seria curta, brutal e definitiva.

Ele entrou no escritório, um sorriso no rosto, uma garrafa de champanhe na mão.

"Celebrando nosso futuro, meu amor", disse ele, alheio, seus olhos brilhando.

Ele viu o celular na minha mão, a tela ainda fracamente iluminada.

Seu sorriso vacilou, um brilho de algo indecifrável em seus olhos.

"Carla? O que você está fazendo com meu celular?", ele perguntou, sua voz perdendo o calor.

"Eu ouvi", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção.

O sorriso desapareceu. Seu rosto empalideceu.

"Ouviu o quê?", ele gaguejou, tentando parecer inocente.

"Tudo", respondi, meu olhar inabalável, cravando nele todo o peso de seu engano.

Seus olhos se desviaram, um sinal revelador de culpa.

Ele abriu a boca, provavelmente para mentir, para negar, para me encantar e sair dessa.

Mas antes que ele pudesse dizer uma palavra, seu celular vibrou novamente.

Outra mensagem. De Bruna.

Ele olhou para baixo, seu rosto uma máscara de conflito.

"Pode esperar", eu disse, minha voz mais afiada do que eu pretendia.

"Não, não pode", ele murmurou, já pegando o celular.

"Ela sempre vem primeiro, não é?", perguntei, uma risada amarga escapando dos meus lábios.

Ele me ignorou, seu polegar já voando pela tela.

Ele olhou para cima, seus olhos arregalados, um pânico súbito neles.

"Eu tenho que ir", disse ele, sua voz apressada. "A Bruna está com problemas."

"Claro", sussurrei, as palavras com gosto de cinzas na minha boca.

Ele nem olhou para trás enquanto corria para fora da sala, me deixando ali, em pedaços, em meio às ruínas do nosso suposto novo começo.

Ouvi o rugido do motor do seu carro, acelerando para longe.

Minhas pernas cederam e eu desabei no chão, o mármore frio implacável sob mim.

Uma dor aguda atravessou meu ventre.

Depois outra, e outra.

Minha visão turvou e uma onda de tontura me dominou.

Agarrei minha barriga, uma súplica desesperada se formando em meus lábios.

Os bebês não. Por favor, os bebês não.

Mas a dor se intensificou, um fogo ardente se espalhando pelo meu corpo.

O pânico arranhou minha garganta.

Tentei gritar, mas nenhum som saiu, apenas um suspiro engasgado.

A última coisa que vi antes que a escuridão me consumisse foi a garrafa de champanhe, ainda de pé na mesa, um símbolo zombeteiro do futuro que nunca deveria ter sido.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Carla Beatriz

O mundo voltou a ter foco, um caleidoscópio embaçado de branco e cheiros estéreis.

Ouvi vozes abafadas, o bipe rítmico de máquinas.

Minha cabeça latejava, uma dor surda atrás dos meus olhos.

"Ela está acordando", murmurou uma voz suave.

Um rosto gentil, emoldurado por cabelos escuros e olhos amáveis, olhou para mim.

Uma enfermeira.

"Onde... onde estou?", grasnei, minha garganta seca e áspera.

"Você está no hospital, querida", disse ela, sua voz calmante. "Você levou um susto."

Um susto. Isso era um eufemismo.

Então tudo voltou de uma vez: a mensagem de voz, as mentiras de Gui, sua saída apressada, a dor.

Os bebês. Minhas mãos voaram para minha barriga, uma busca frenética pela protuberância familiar.

Estava lisa. Terrivelmente lisa.

O rosto da enfermeira se suavizou, um olhar de profunda tristeza sombreando suas feições.

"Eu sinto muito, querida", ela sussurrou, sua mão cobrindo gentilmente a minha. "Fizemos tudo o que podíamos."

Meu coração se partiu, de novo.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto, quentes e silenciosas.

Os gêmeos. Se foram.

O último e frágil fio que me conectava a Gui, rompido.

Mas mesmo através da dor avassaladora, uma estranha sensação de clareza emergiu.

Eles se foram por causa dele, por causa de sua traição, de seu descaso insensível.

Ele havia tirado tudo de mim.

Minha confiança, meu futuro, meus bebês.

Não havia mais nada a perder.

Nada mais para ele tirar.

A porta rangeu ao se abrir e Gui entrou, seu rosto marcado pela preocupação, mas também com um toque de impaciência.

Ele correu para o meu lado da cama, sua mão buscando a minha.

Eu me afastei, meu olhar frio.

"Carla, meu amor", ele começou, sua voz tingida de uma ternura forçada. "Voltei correndo assim que soube. O que aconteceu?"

Sua preocupação parecia uma performance, uma zombaria cruel do que eu acabara de perder.

"Não", eu disse, minha voz pouco acima de um sussurro, mas afiada o suficiente para cortar.

Ele parou, sua mão pairando no ar.

"Não o quê, Carla?", ele perguntou, a testa franzida.

"Não finja", respondi, meu olhar queimando nele. "Não finja que se importa."

Ele recuou como se eu o tivesse atingido.

"Claro que me importo! Você é minha esposa! E... e os bebês..." Sua voz sumiu, um brilho de tristeza genuína em seus olhos.

Mas era tarde demais.

As palavras eram ocas, sem sentido.

"Eles se foram, Gui", eu disse, a verdade uma pílula amarga. "Por sua causa."

Seu rosto perdeu a cor.

"Do que você está falando?", ele gaguejou, seus olhos arregalados com uma confusão que parecia real.

"Eu ouvi a mensagem de voz", repeti, minha voz mais forte agora. "A Bruna. Sua 'paixão'. Sua 'adrenalina'. E eu? Apenas 'confortável'. Apenas um 'estepe'."

As palavras pairaram no ar, pesadas de acusação.

Ele se afundou na cadeira ao lado da minha cama, a cabeça entre as mãos.

"Carla, eu posso explicar", ele murmurou, sua voz abafada.

"Não há nada a explicar", eu disse, minha voz fria como gelo. "Acabou, Gui. Desta vez, para sempre."

Ele olhou para cima, seus olhos avermelhados, um brilho de pânico neles.

"Não", disse ele, sua voz suplicante. "Por favor, Carla. Não diga isso. Podemos consertar isso. Eu vou terminar com a Bruna, completamente. Eu juro."

"Você jurou antes", lembrei-o, uma risada sem alegria escapando dos meus lábios. "E o que aconteceu? Você correu para ela no momento em que ela ligou, me deixando aqui, sangrando, perdendo nossos filhos."

As palavras pairaram no ar, um soco em seu estômago.

Ele desviou o olhar, incapaz de encontrar o meu.

"Eu te dou qualquer coisa", disse ele, desesperado agora. "Qualquer coisa que você quiser. Mais dinheiro, uma casa nova, qualquer coisa."

"Eu não quero seu dinheiro, Gui", eu disse, minha voz cheia de uma finalidade que abalou até a mim. "Eu quero minha vida de volta. A que você roubou, duas vezes."

Uma enfermeira entrou no quarto, sua voz suave, mas firme.

"Sr. Schwartz, o horário de visitas acabou. A Sra. Schwartz precisa descansar."

Gui a fuzilou com o olhar, mas ela se manteve firme.

Ele se virou para mim, seus olhos suplicantes.

"Carla, por favor. Pense sobre isso. Não tome nenhuma decisão precipitada."

"A decisão foi tomada", eu disse, minha voz firme. "Vou me divorciar de você, Gui."

Seu queixo caiu, mas nenhuma palavra saiu.

"E", continuei, uma satisfação fria se espalhando por mim, "vou embora. De São Paulo. De você. De tudo."

Ele me encarou, seus olhos arregalados com uma mistura de choque e descrença.

Ele achou que me tinha, não é?

Ele achou que eu sempre voltaria, sempre perdoaria, sempre seria sua Carla "confortável".

Ele estava enganado. Tão enganado.

Ele tentou dizer algo, mas a enfermeira, gentilmente, mas com firmeza, o acompanhou para fora do quarto.

Ele desapareceu, me deixando sozinha no silêncio do quarto de hospital.

Sozinha, mas livre.

A dor em meu coração ainda era imensa, um buraco negro de luto.

Mas por baixo dela, uma pequena faísca de algo novo se acendeu.

Liberdade.

Fechei os olhos, uma única lágrima escapando, não de tristeza, mas de uma resolução feroz e inabalável.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED