Capítulo 2

Júlia Oliveira POV:

Dez minutos depois, estou no banco do passageiro do Porsche Cayenne prata de Léo Ferreira.

No retrovisor, Caio e Viviane estão espremidos no banco de trás, sussurrando. Parecem gêmeos siameses, fundidos por sua mentira compartilhada. Caio continua me olhando, sua expressão uma mistura de suspeita e alívio. Viviane apenas sorri de canto, um olhar de puro e absoluto triunfo em seu rosto.

Um cheiro de cedro e algo frio, como ar de inverno, me envolve quando Léo se inclina sobre o console. Eu me encolho, meu corpo tenso, minha respiração presa na garganta.

Sua expressão é indecifrável. Ele não diz nada, seus movimentos econômicos e precisos enquanto clica meu cinto de segurança no lugar. Ele se recosta em seu assento, suas mãos grandes repousando no volante.

O motor ronrona, ganhando vida.

"Isso é normal?", ele pergunta, sua voz baixa e com um estranho toque de diversão. Seus olhos encontram os meus no retrovisor. "Colocar o cinto na minha noiva? Eu já fiz isso antes?"

Eu engulo o nó de pânico no meu peito e me viro para olhar pela janela. "Eu não me lembro."

Sua mão se estende, seus dedos roçando as costas da minha. É um toque leve e fugaz, mas envia um choque através de mim. "Não se preocupe", ele diz, sua voz uma promessa suave. "Você vai se lembrar."

As palavras, que deveriam ser reconfortantes, parecem uma provocação direta ao homem no banco de trás.

O rosto de Caio escurece. Ele puxa o braço para longe de Viviane. "Léo", ele adverte, a voz tensa. "A família Ferreira preza pela decência. Até o casamento ser oficial, você não toca na Júlia."

Léo solta um bufo suave e desdenhoso. Ele nem vira a cabeça, mas sinto o peso de sua zombaria. "Isso é entre minha noiva e eu", diz ele, enfatizando a palavra. "Você está passando dos limites, primo."

A expressão triunfante de Viviane vacila. Ela se inclina para frente, sua voz pingando falsa preocupação. "Júlia, você realmente não se lembra de nada?"

Encontro seu olhar no espelho e balanço a cabeça pequena e impotente.

A tensão em seus ombros relaxa visivelmente. Ela se torna falante, preenchendo ansiosamente o silêncio com uma versão cuidadosamente selecionada de nossa história compartilhada. Ela fala sobre nossa amizade, desde o colégio particular onde nos conhecemos até os anos em que ela "cuidou de mim" depois que minha família caiu em desgraça.

Cada palavra é tecnicamente verdadeira, mas agora elas parecem pequenas e afiadas adagas deslizando em meu coração.

"Meus pais sempre te trataram melhor do que a mim", diz ela, o braço mais uma vez entrelaçado ao de Caio. Há um sorriso em sua voz, mas seus olhos são duros. Ela olha rapidamente para Léo, depois de volta para mim. "Estou tão feliz que você finalmente encontrou sua felicidade. Eu realmente te desejo tudo de bom."

As palavras soam tão genuínas que fazem meus olhos arderem. Eu me viro, focando no borrão das luzes da cidade do lado de fora da janela.

Alguns minutos depois, Caio se endireita. "Espere, este é o caminho errado. Para onde estamos indo?", ele gagueja, apontando para fora da janela. "O apartamento da Viviane é na outra direção."

Os olhos de Léo estão fixos na estrada, mas sinto seu olhar em mim. Uma mão repousa casualmente no volante.

"Estou levando minha noiva de volta para nossa casa", ele afirma, sua voz calma e final.

Eu olho para ele então, olho de verdade. O chefão. Na dor ofuscante da traição, eu quase tinha esquecido. O homem sentado ao meu lado, meu suposto protetor, era muito mais perigoso do que as duas víboras no banco de trás.

Ele era, talvez, a única pessoa no mundo que mais desejaria que eu tivesse amnésia.

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Capítulo 3

Júlia Oliveira POV:

Três anos atrás, o gigantesco projeto imobiliário do Grupo Ferreira na margem sul do Rio Pinheiros parou completamente.

Mais de dois mil moradores foram realocados, suas casas demolidas para dar lugar a um novo e reluzente empreendimento. Mas uma propriedade, um único casarão coberto de hera, permanecia desafiadoramente em um local chave, segurando todo o projeto.

Aquele casarão era meu.

Era a única coisa que meus pais me deixaram. Depois que o avião deles caiu no oceano, seu império foi fatiado por aliados traiçoeiros e abutres que circulavam. Eu era uma criança, passada entre parentes que me viam como uma fonte de renda. Quando fiz dezoito anos e retomei o controle da propriedade, era uma ruína em pedaços, lar apenas de gatos de rua e dos fantasmas de uma vida que eu havia perdido.

Passei meses limpando-o, mas era inabitável. Deixei-o para os vira-latas, um santuário silencioso que eu visitava para me sentir perto dos meus pais.

Então o Grupo Ferreira apareceu. As escavadeiras já estavam estacionadas do lado de fora quando seus homens apareceram com um contrato, suas vozes frias enquanto falavam de preço.

Minha recusa em vender tornou Léo Ferreira e eu inimigos mortais.

Seus homens vieram em ondas. Primeiro educados, depois ameaçadores. Eles invadiram, vandalizaram e tentaram me intimidar.

Eu estava com Caio naquela época. Ele sempre parecia tão impotente, tão frustrado por mim. Ele alegava que suas mãos estavam atadas. A Família não aceitaria nosso relacionamento. Ele não era um sócio nomeado no Grupo Ferreira. Léo controlava tudo. Eu sabia que Caio ressentia seu tio, Heitor Ferreira, por tê-lo deixado de lado, então acreditei nele quando disse que não podia defender minha causa.

Então eu lutei minhas próprias batalhas. Quebrei a janela do carro de Léo. Joguei tinta em seus homens. Tornei-me um espinho no lado do homem mais poderoso da cidade.

Nos últimos seis meses, os ataques diminuíram. Caio alegou que seus apelos constantes finalmente funcionaram, que Léo havia concordado em pausar o projeto. Ele prometeu que, assim que nos casássemos, sua família teria que respeitar nossa união e deixar minha propriedade em paz.

Ele disse que tínhamos que esperar um ano. Para construir sua carreira, ele alegou. Para se provar.

Agora eu sabia a verdade. O atraso não era sobre sua carreira. Era sobre Viviane. Ele não queria deixá-la ir.

Meu peito dói. Lembro-me de como Viviane, depois que nos formamos, me convidou com tanto entusiasmo para morar com ela. O apartamento de dois quartos de seus pais. Eu o vi como um lar. Eu a vi como minha única família.

A voz fria de Léo corta a névoa de minhas memórias. "Chegamos."

O Porsche desliza até parar em frente a uma vila moderna e ampla. Ele sai, dá a volta e abre minha porta. Ele olha para os dois no banco de trás, sua expressão desdenhosa. "Júlia não está se sentindo bem. Vocês podem sair e chamar um táxi."

Caio lança a Léo um olhar complicado e raivoso antes de puxar uma Viviane protestante para fora do carro.

Léo se vira para mim. Ao se esticar para soltar meu cinto, ele não hesita. Em um movimento suave, ele me pega em seus braços.

Um pequeno suspiro escapa dos meus lábios. A súbita leveza me faz instintivamente envolver meus braços em seu pescoço.

"O que você está fazendo?" Caio se vira, sua voz um grito rouco. Seu choque e raiva são ainda maiores que os meus. "Coloque-a no chão!"

Léo apenas ajusta seu aperto, sua mão alisando o tecido do meu vestido. Um sorriso lento e calmo se espalha por seu rosto. "Estou apenas segurando minha garota."

Ele sobe confiantemente os degraus de pedra em direção à porta da frente, me carregando como se eu não pesasse nada.

Um fio de inquietação, afiado e frio, perfura a dormência em meu coração.

Ele inclina a cabeça, seus lábios roçando minha orelha enquanto fala, sua voz um sussurro baixo e privado só para mim.

"Se divertindo fingindo ser amnésica?"

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