Ponto de Vista de Helena:
Um suspiro coletivo varreu a multidão. Os Anciãos começaram a gritar perguntas, suas vozes um zumbido caótico em meus ouvidos, mas eu não dei atenção. Virei as costas para a cerimônia, para os sussurros, para o olhar de pena do Rei Alfa, e fui embora.
Deixei os terrenos sagrados, ignorando os chamados para que eu voltasse. Encontrei um carro por aplicativo que levava membros da alcateia para a cidade humana próxima, Campos do Jordão, e entrei, minha mente uma lousa em branco de dor. No meio do caminho, um propósito frio e duro se instalou em minhas entranhas.
— Dê a volta — eu disse ao motorista. — Leve-me para a Ala dos Curandeiros.
A Ala dos Curandeiros era o hospital da alcateia, um lugar que sempre cheirava a ervas secas e antisséptico. Não parei na frente. Fui direto para os quartos privados nos fundos, meu coração batendo em um ritmo furioso.
Eu a encontrei no último quarto. Marina.
Ela estava sentada na beira de uma cama, vestindo uma camisola branca simples que parecia suspeitosamente com a que eu deveria vestir após a cerimônia. Uma bandagem grossa estava enrolada em um de seus pulsos, mas o cheiro enjoativo de sangue e ervas curativas ainda pairava no ar.
Seus olhos se arregalaram quando me viu, um brilho de medo — ou talvez triunfo — em suas profundezas. Ela imediatamente se escondeu atrás de Bruno, agarrando seu braço como uma criança assustada.
Bruno não tinha me notado a princípio. Ele estava cuidando dela, de costas para a porta. Mas quando Marina se encolheu, sua cabeça se ergueu bruscamente. Seu corpo ficou rígido, seu lobo instantaneamente aflorando enquanto a protegia de mim. Um rosnado baixo retumbou em seu peito.
— O que você está fazendo aqui? — ele rosnou.
Eu o ignorei. Meu olhar estava fixo em Marina, frio e afiado.
— Ouvi dizer que você estava morrendo. Vim ver por mim mesma. As renegadas são mais resistentes do que parecem, eu acho.
Lágrimas brotaram nos olhos de Marina. Sua voz era um sussurro patético e trêmulo.
— Sinto muito... Eu nunca quis que o Bruno deixasse você... Eu só... eu o amo tanto.
As palavras eram um pedido de desculpas, mas o tom era pura vitória. Ela estava se exibindo. Exibindo que ele a escolheu, uma vira-lata, em vez de mim, sua companheira prometida.
Algo dentro de mim se partiu.
Todos os anos sendo a Ômega perfeita e submissa, de engolir meu orgulho por ele, desapareceram em um clarão de fúria. Eu avancei. Minha mão acertou sua bochecha com um tapa tão forte que o som estalou na sala silenciosa.
Marina gritou.
Bruno rugiu. Não era um som humano. Era a raiva pura e desenfreada de seu lobo.
— Você está louca! — ele berrou, e com um empurrão brutal, me jogou do outro lado da sala.
Ponto de Vista de Helena:
Minhas costas bateram em um pesado armário de madeira cheio de potes de vidro com ervas. Uma dor excruciante explodiu ao longo da minha coluna, aguda e cegante. Para uma Ômega como eu, a força de um Beta era avassaladora. Caí no chão, o ar expulso dos meus pulmões.
— Quem é o louco aqui? — ofeguei, me levantando, meu corpo gritando em protesto. — Você! Você é quem perdeu o juízo!
Minha voz subiu para um grito histérico.
— Você me fez um juramento diante da Deusa da Lua! Você me deixou sozinha, uma mera Ômega, para enfrentar o julgamento do Rei Alfa e as risadas de duas alcateias!
— Quando você se tornou tão irracional? — Bruno retrucou, seu rosto contorcido de raiva. — Você nunca foi assim!
— Eu nunca fui publicamente humilhada antes! — gritei.
— A cerimônia pode ser remarcada! — ele argumentou, gesticulando descontroladamente para Marina, que agora soluçava em suas mãos. — Minha reputação pode aguentar um atraso. A vida dela não! Ela estaria morta se eu não tivesse vindo!
Soltei uma risada amarga e quebrada. O som era feio, cheio de desespero. O truque barato de uma renegada, e ele havia caído completamente. Ele trocou minha honra por uma mentira.
Naquele momento, o último resquício de amor que eu tinha por ele morreu. Murchou e virou cinzas em meu peito. Um homem que não conseguia proteger a dignidade de sua própria companheira não merecia ter uma.
Uma calma estranha tomou conta de mim. Fiquei de pé, ereta, ignorando a dor latejante nas minhas costas. Olhei-o diretamente nos olhos, minha voz nivelada e fria como gelo.
— Bruno, nosso noivado está oficialmente terminado.
Virei-me e caminhei em direção à porta, sem olhar para trás. Eu não lhe daria mais um segundo da minha vida.
Quando cheguei à porta, ouvi a voz enjoativamente doce de Marina.
— Bruno, você deveria ir atrás dela...
E então a resposta dele, pingando arrogância e desdém.
— Deixe-a ir. Ela é apenas uma Ômega. Vai voltar chorando para mim em alguns dias.