Larissa acordou com o branco estéril de um quarto de hospital. Estava vazio. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo bipe rítmico de uma máquina ao lado de sua cama.
Uma dor aguda subiu por sua perna quando ela tentou se mover. Ela olhou para baixo e viu o gesso branco e grosso que a envolvia da coxa ao tornozelo.
Uma enfermeira entrou, sua expressão profissionalmente alegre. "Oh, você acordou! Como está se sentindo?"
"Como se tivesse sido atropelada por um caminhão", murmurou Larissa.
"Você tem sorte. Um fêmur quebrado e uma concussão, mas você vai se recuperar", disse a enfermeira, verificando seus sinais vitais. "Seu... amigo está muito preocupado com você."
"Meu amigo?"
"Sim, o Sr. Monteiro. Ele esteve aqui a noite toda. Ele está no quarto ao lado, com a namorada dele. A coitadinha só tem alguns arranhões, mas estava com tanto medo."
A namorada dele. A palavra foi um tapa na cara.
"Ele nos disse que você era uma amiga de infância, visitando de fora da cidade", continuou a enfermeira, alheia à turbulência de Larissa. "É tão fofo como ele está cuidando de vocês duas. Ele e a Srta. Castilho formam um casal tão adorável, não acha?"
Larissa forçou um sorriso tenso. "Sim. Adorável."
A porta se abriu e Bernardo entrou. Ele parecia exausto, o cabelo bagunçado e olheiras escuras sob os olhos. Ele parou quando viu que ela estava acordada. Ele segurava o celular dela, aquele com a tela estilhaçada.
"Encontrei isso no elevador", disse ele, a voz rouca. "Eu vi seu histórico de busca."
Ele olhou para ela, sua expressão indecifrável. "Você estava procurando voos para São José dos Campos. E o escritório de admissões do ITA."
Larissa deu uma risada amarga e sem humor. "O quê, você achou que eu ia te perseguir? Não se preocupe, Bernardo. Eu sei o meu lugar."
Ele pareceu aliviado com as palavras dela, e isso doeu mais do que qualquer coisa. Confirmou que ele também a via como algo menor, algo que poderia ser facilmente deixado para trás. Ela soube então que ele não se importaria se ela fosse embora. Ele provavelmente ficaria feliz.
"Lari, me desculpe", disse ele, sentando-se na beirada da cama dela.
"Tudo bem", disse ela, virando o rosto. "Você estava preocupado com a Jéssica. Eu entendo."
"Ela é... delicada", ele tentou explicar. "Ela não está acostumada com dificuldades. Você está. Você é forte."
A força dela. A coisa que ele sempre elogiava era agora a desculpa para sua traição. Porque ela aguentava a dor, esperava-se que ela aguentasse. A injustiça disso a fez querer gritar. Mas ela estava cansada demais. Quebrada demais.
Ela apenas assentiu.
Os anos que passaram juntos, os sacrifícios que ela fez, o amor que compartilharam - tudo era sem sentido agora. No mundo dele, a força de uma mulher não era uma virtude a ser admirada, mas uma conveniência a ser explorada.
"Jéssica tem um tipo sanguíneo raro", disse ele, sua voz de repente baixa e urgente. "E ela perdeu um pouco de sangue. O hospital está com pouco estoque do tipo dela. É O-negativo."
Larissa sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia onde isso ia dar. Ela também era O-negativo.
Seu rosto deve ter ficado pálido, porque ele se apressou em falar.
"Lari, por favor", ele implorou, a voz embargada. "Ela precisa de uma transfusão. Você pode... você pode fazer isso por mim?"
Por ele. Não por uma estranha necessitada, mas por ele. Um favor. Como se ela lhe devesse alguma coisa.
A audácia era de tirar o fôlego. Ele havia escolhido Jéssica em vez dela, a deixado quebrada e sangrando em uma caixa de metal, e agora estava pedindo que ela desse seu sangue a Jéssica. Para literalmente derramar sua força vital na mulher que havia tomado seu lugar.
O quarto ficou em silêncio. Larissa podia ouvir a batida frenética de seu próprio coração.
Então, ela sorriu. Um sorriso largo, brilhante e aterrorizante.
"Claro, Bê." O antigo apelido parecia ácido em sua língua. "Qualquer coisa por você."
Bernardo pareceu surpreso com seu consentimento fácil, mas seu alívio era palpável.
Nesse momento, outra enfermeira entrou correndo no quarto. "Sr. Monteiro! A pressão da Srta. Castilho está caindo! Precisamos desse sangue agora!"
Bernardo levantou-se da cama. "Lari, por favor", disse ele novamente, os olhos arregalados de pânico.
Sem esperar por uma resposta, ele a pegou da cama, com gesso e tudo. O movimento súbito enviou uma onda de agonia por sua perna, mas ele não pareceu notar. Ele correu, carregando-a como um saco de batatas, pelo corredor até a sala de coleta.
A agulha era grossa. Doeu ao entrar. Larissa observou seu próprio sangue vermelho escuro fluir pelo tubo transparente, levando sua vida para salvar sua rival.
Lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto. Ela se lembrou de uma vez em que teve que doar sangue para um exame físico. Ela tinha medo de agulhas. Bernardo estava lá, segurando sua mão, soprando suavemente na picada depois, dizendo que ela era a garota mais corajosa do mundo.
Agora, ele estava parado perto da porta, os olhos fixos na bolsa de sangue, sua expressão ansiosa e impaciente. Seu olhar nunca encontrou o dela.
A enfermeira finalmente tirou a agulha e pressionou um algodão na dobra de seu braço. Bernardo correu para frente, pegando a bolsa de sangue da enfermeira e saindo apressado do quarto sem olhar para trás.
A enfermeira teve dificuldade em encontrar a veia de Larissa, e seu braço já era uma tela de hematomas azuis e roxos.
Bernardo voltou alguns minutos depois. Ele pegou o algodão da enfermeira e o pressionou no braço de Larissa.
Ele se inclinou e soprou suavemente na ferida, um fantasma de um gesto familiar. "Dói?"
A ternura em sua voz, tão deslocada, tão terrivelmente tardia, foi a gota d'água que faltava para quebrar sua compostura. Uma lágrima quente caiu de seu olho e pousou nas costas da mão dele.
Ele se encolheu, olhando para ela, confuso. "Lari?"
Ela queria gritar, bater nele, exigir como ele podia ser tão cruel e depois fingir ser tão gentil.
Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, um médico entrou correndo. "Sr. Monteiro! A Srta. Castilho está acordada, mas está agitada. Ela caiu tentando sair da cama e está perguntando por você."
Bernardo largou o braço dela instantaneamente. O algodão caiu no chão. Ele sumiu em um piscar de olhos, deixando-a sozinha mais uma vez.
O pequeno algodão branco jazia no chão estéril, um símbolo de seu pedido de desculpas fugaz e inútil.
Larissa olhou para ele, seu coração um peso frio e morto no peito.
Ela não esperou que ele voltasse. Ela mesma se deu alta do hospital, ignorando os protestos do médico. Apoiando-se pesadamente em suas muletas, seu corpo gritando em protesto, ela foi para casa.
Quando abriu a porta da casa que ele havia comprado para eles, a casa que deveria ser o futuro deles, ela o viu.
Ele estava na sala de estar, embalando Jéssica em seus braços, sussurrando palavras de conforto enquanto ela soluçava contra seu peito.
Jéssica viu Larissa primeiro. Ela rapidamente enxugou as lágrimas e ofereceu um sorriso fraco e apologético.
"Larissa, você está em casa. Me desculpe, Bernardo estava prestes a ir te buscar."
Ela se levantou, apoiando-se em Bernardo. "E obrigada. Pelo sangue. Eu não sei o que teria feito sem você."
Jéssica estendeu a mão e pegou a de Larissa, seu toque leve e suave. Mas ao fazer isso, seu polegar pressionou, com força, diretamente sobre o hematoma fresco e escuro no braço de Larissa.
A dor subiu pelo braço de Larissa, e ela instintivamente recuou.
Jéssica ofegou, tropeçando para trás como se Larissa a tivesse empurrado. "Oh!"
Bernardo a segurou instantaneamente. "Jéssica! Você está bem?"
Ele lançou a Larissa um olhar de puro gelo. "Qual é o seu problema? Ela acabou de sair do hospital!"
Larissa o encarou, a boca aberta em descrença. O mundo girou em seu eixo. Ele nem perguntou. Apenas presumiu.
Ela estava tão cansada. Cansada de lutar, cansada de explicar, cansada de ser aquela que tinha que ser forte e compreensiva.
"Me desculpe", disse ela, as palavras com gosto de cinzas. "Não foi minha intenção."
A expressão de Bernardo suavizou ligeiramente. Jéssica, sempre magnânima, sorriu. "Tudo bem. Eu sei que você também passou por muita coisa. Na verdade, eu esperava que você pudesse vir conosco amanhã. Bernardo tem uma grande audiência de patente, e ele vai precisar do nosso apoio."
Ela olhou para Bernardo, seus olhos brilhando de adoração. "Você vai ser incrível."
Larissa viu o orgulho nos olhos de Bernardo enquanto ele olhava para Jéssica. Ele amava que ela entendesse seu mundo, seu trabalho. Ele nunca a olhou daquela maneira quando ela falava de seus próprios sonhos de engenharia.
"Já está na hora de você ver o mundo em que Bernardo vive", acrescentou Jéssica, seu tom doce e meloso. "Você ficou enclausurada por muito tempo."
A implicação era clara. Este é o nosso mundo. Você é apenas uma visitante.
"Ok", disse Larissa em voz baixa. Ela já havia assinado os papéis. Ela iria embora em breve. Uma última humilhação não faria diferença.
O tribunal era intimidador, todo em madeira escura e tetos altos. Bernardo e Jéssica sentaram-se à mesa do autor, uma equipe perfeita. Eles sussurravam um para o outro, as cabeças próximas, uma imagem de intimidade e parceria.
Jéssica se virou para Larissa, que estava sentada na galeria atrás deles. "Larissa, você poderia ir buscar um café para nós? Dois puros, sem açúcar."
Não era um pedido. Era uma ordem.
Bernardo nem olhou para ela. "Agora não, Jéssica. E a Larissa não saberia onde ir." Ele disse isso com a displicência casual de alguém enxotando uma criança.
Jéssica deu a Larissa um sorriso presunçoso e triunfante por cima do ombro.
Larissa sentiu uma queimação familiar de vergonha. Ela era um inconveniente. Um pedaço de seu passado que não se encaixava em seu futuro brilhante. Ele tinha vergonha dela. Vergonha da garota que trabalhava em uma lanchonete, que o salvara quando ele não tinha nada.
Ela estava de partida. Em breve, ela seria apenas uma memória que ele poderia apagar.
A audiência começou. Jéssica foi brilhante, seus argumentos afiados e precisos. Mas então o advogado de oposição apresentou uma prova surpresa, um documento técnico que parecia minar toda a reivindicação de patente de Bernardo.
O tribunal zumbiu. Jéssica empalideceu, remexendo em suas anotações. O rosto de Bernardo era uma máscara de frustração sombria.
O coração de Larissa batia forte. Essa patente era tudo para ele. Era a base de seu novo império.
Ela olhou para o documento projetado na tela. Sua mente, aprimorada por anos de autoestudo e um dom natural para a engenharia, viu instantaneamente. Uma falha no argumento deles. Um detalhe que eles haviam perdido.
Sem pensar, ela se inclinou para frente. "O carimbo de data e hora", ela sussurrou com urgência. "O carimbo de data e hora no código-fonte do protótipo deles é pós-datado. É depois da sua data de registro. Eles falsificaram."
O advogado de oposição, que ouviu, congelou. Seu rosto ficou branco.
Jéssica encarou Larissa, seus olhos arregalados de choque e fúria. Como ousa essa cozinheira entender algo que ela, uma formada em direito pela USP, havia perdido?
Bernardo olhou de Larissa para a tela, seus próprios olhos se arregalando em compreensão. Ele se levantou abruptamente.
"Meritíssimo, solicitamos um breve recesso para examinar esta nova informação."
O juiz concedeu. Bernardo agarrou a mão de Jéssica e a puxou para fora do tribunal, sem nem olhar para Larissa.
Larissa os seguiu, um sentimento oco no estômago. Ela ouviu suas vozes do outro lado do corredor.
"Não acredito que perdi isso", dizia Jéssica, a voz tensa de frustração. "Ela me fez parecer uma idiota!"
"Não é sua culpa", a voz de Bernardo era baixa e suave. "Ela é... esperta. Ela pega as coisas no ar. Você é a verdadeira, Jéssica. Você é uma advogada brilhante. Ela é só uma cozinheira que deu sorte."
Suas palavras a atingiram como um golpe físico. Só uma cozinheira que deu sorte.
Seu coração, que ela pensava não poder se quebrar mais, se transformou em pó.
Ela o viu apertar suavemente o ombro de Jéssica, um gesto de conforto e intimidade. Da mesma forma que ele costumava tocá-la.
Ela tropeçou para trás, um soluço sufocado subindo em sua garganta. Algo em uma pequena mesa na parede chamou sua atenção. Era um modelo do primeiro dispositivo que ele projetou, uma coisinha pequena e intrincada que ele construiu em sua pequena quitinete. Ela havia comprado as peças para ele com o dinheiro da gorjeta. Ele o dera a ela, dizendo que era a pedra fundamental de seu futuro. Ele lhe dissera para sempre mantê-lo seguro.
Agora, estava ali, uma relíquia esquecida. Enquanto ela observava, um faxineiro esbarrou na mesa. O modelo deslizou e se espatifou no chão de mármore.
Era uma metáfora perfeita e brutal.
Larissa se virou e correu. Ela fugiu para o banheiro, trancando-se em uma cabine. Ela encarou seu próprio reflexo no cromo polido do dispensador de papel higiênico. Um rosto pálido e manchado de lágrimas a encarava de volta.
A porta do banheiro se abriu. Jéssica Castilho estava lá, de braços cruzados, sua expressão uma máscara de puro ódio.
"Você simplesmente não conseguia ficar de fora, não é?"