Meu plano era esperar o período de reflexão do divórcio e depois me mudar com Léo. Mas Caio e Cássia tornaram impossível ficar.
Na manhã seguinte, Caio entrou na cozinha, esperando que seu café estivesse pronto, como esteve todos os dias nos últimos dez anos. Ele me viu preparando um lanche para Léo e franziu a testa.
"Sem café hoje?" ele perguntou, um toque de irritação em sua voz.
Eu nem olhei para ele.
Mais tarde, ele me abordou enquanto eu estava em uma ligação de trabalho. Cássia pairava atrás dele, parecendo pálida e frágil.
"Bianca", disse ele, interrompendo minha ligação. "Cássia não dormiu bem ontem à noite. Ela disse que o choro de Léo a manteve acordada. Acho que seria melhor se você e Léo se mudassem para o seu antigo apartamento por um tempo."
Ele estava nos expulsando de nossa própria casa. Por ela.
Uma parte de mim queria gritar, lutar, jogar sua hipocrisia na cara dele. Mas outra parte, mais fria, viu a oportunidade. Esta era minha chance de fugir.
"Tudo bem", eu disse, minha voz desprovida de emoção.
Ele pareceu surpreso com minha fácil conformidade. Ele se aproximou, tentando colocar o braço em volta de mim. "Eu sei que isso é difícil, mas é para o bem de todos. Cássia é muito sensível."
Eu me afastei de seu toque. "Não. Apenas não." Eu o olhei nos olhos. "Espero que ela durma bem esta noite."
Seu rosto escureceu. "O que isso quer dizer? Sua mente é tão suja, Bianca."
"É mesmo?" Eu ri, um som amargo e oco.
Ele se inclinou, sua voz um rosnado baixo. "Estou te avisando. Não saia espalhando boatos."
Eu apenas sorri. Ele não tinha ideia do que estava por vir.
Arrumei nossas coisas e nos mudamos para o meu apartamento de solteira naquele mesmo dia. Parecia um santuário, uma lousa em branco.
Mas a paz não durou. Alguns dias depois, Cássia entrou no meu escritório na minha agência de marketing. Ela olhou ao redor com um ar de proprietária, como se já fosse dona do lugar.
"Preciso de um emprego", ela anunciou para minha assistente, sem nem se dar ao trabalho de olhá-la.
"Desculpe, você tem hora marcada?" minha assistente perguntou educadamente.
Cássia zombou. "Eu não preciso de uma. Eu sou Cássia Flores. Caio Clark é meu irmão."
Ela entrou no meu escritório e sentou na minha cadeira. "Esta é uma boa estrutura. Vou aceitar um cargo de diretora sênior de marketing. Tenho muitos seguidores no Instagram, sabe. Posso agregar muito valor."
Sua arrogância era de tirar o fôlego. Eu construí esta agência do zero, com meu próprio sangue, suor e lágrimas.
"Não", eu disse calmamente.
Seus olhos se estreitaram. "O que você disse?"
"Eu disse não. Você não é qualificada."
Ela se levantou da cadeira. "Você vai se arrepender disso! Caio vai saber disso!"
"Fora", eu disse, minha voz baixa e perigosa. "Agora."
Ela me encarou, seu rosto contorcido de raiva, e então saiu furiosa. Chamei a segurança.
"Acompanhem a Sra. Flores para fora do prédio. E certifiquem-se de que ela nunca mais pise aqui."
Menos de uma hora depois, Caio invadiu meu escritório. Ele abandonou uma reunião de fusão de milhões de reais para correr até aqui. Por ela.
"Qual é o seu problema?" ele gritou. "Cássia é da família! Por que você não pode ser mais tolerante?"
"Esta é a minha empresa, Caio", eu disse, minha voz firme apesar da raiva que fervia dentro de mim. "Eu decido quem trabalha aqui. E ela não é bem-vinda."
Ele me encarou, sua mandíbula tensa. Ele agarrou o braço de Cássia. "Tudo bem. Vamos, Cássia. Não precisamos da caridade dela."
Eles saíram, e um silêncio pesado desceu sobre o escritório.
Na manhã seguinte, a crise atingiu.
Meus três principais executivos pediram demissão. Em seguida, uma onda de funcionários juniores os seguiu. Todos eles foram cooptados, com ofertas do dobro de seus salários para trabalhar em uma nova empresa rival.
Uma empresa que havia sido secretamente financiada por Caio.
Tentei contratar novas pessoas, mas ninguém aceitava o emprego. A notícia se espalhou de que minha empresa era tóxica, que eu era um pesadelo para se trabalhar. Mentiras, tudo isso, espalhadas por Caio e Cássia.
Meus clientes começaram a desistir, um por um. A empresa na qual eu havia investido minha vida estava sangrando.
Fui forçada a vender. A única oferta na mesa era uma proposta baixa, mal suficiente para cobrir minhas dívidas. Não tive escolha a não ser aceitar.
No dia em que fui assinar os papéis finais, entrei no meu antigo escritório pela última vez.
E lá estava ela. Cássia. Sentada na minha cadeira, com os pés apoiados na minha mesa.
"Bem-vinda ao meu escritório", disse ela com um sorriso presunçoso. "Ou devo dizer, meu novo escritório."
Ela gesticulou ao redor da sala. "Caio comprou a empresa para mim. Um presentinho. Ele não é o mais doce?"
Meu coração se apertou no peito. Este lugar era meu bebê, minha criação. E eles o roubaram, o esvaziaram e me deixaram com as migalhas.
Caio entrou então, um olhar de falsa simpatia no rosto. "Bianca, sinto muito que tenha chegado a isso. Mas não se preocupe, eu cuidarei de você."
Eu apenas ri. O som era frágil, vazio. "Você é muito gentil."
Fui até a mesa e assinei os documentos de transferência. Estava acabado.
Quando me virei para sair, Cássia pegou um dos meus prêmios da prateleira, um troféu de 'Inovadora de Marketing do Ano'.
"O que é esse lixo?" ela debochou, e então o deixou cair. Ele se espatifou no chão.
Ela então seguiu pela prateleira, quebrando cada placa, cada troféu, cada símbolo do meu sucesso.
Um prêmio permaneceu. O primeiro que eu já havia ganhado. Era uma placa de vidro pequena e simples, mas significava o mundo para mim. Representava o momento em que soube que poderia conseguir sozinha.
Eu me lancei para pegá-lo, tentando salvá-lo.
Cássia gritou, tropeçando para trás. "Ai! Você me empurrou!" Ela levantou a mão, onde um arranhão minúsculo, quase invisível, estava com uma única gota de sangue.
Caio correu para o lado dela instantaneamente. "Cássia! Você está bem? Deixa eu ver!" Ele se preocupou com o arranhão insignificante dela, ignorando a ferida aberta na minha alma.
Ele se virou para mim, seus olhos frios. "Me dê o prêmio, Bianca. Você a machucou."
Ele estendeu a mão, esperando que eu obedecesse. Ele ofereceu uma substituição, uma tentativa patética de solução.
"Vou mandar fazer um novo para você", disse ele, sua voz doentiamente razoável. "Um melhor. Vou até pedir para o Léo me ajudar a desenhar."
Naquele momento, eu o vi como ele realmente era. Superficial. Indiferente. Ele pensava que um objeto novo e brilhante poderia substituir os anos de trabalho duro, a paixão, a própria essência de quem eu era.
Olhei para o prêmio em minha mão, a última peça da minha vida antiga.
Então olhei para ele.
E o espatifei no chão eu mesma.
O som do vidro se quebrando ecoou a quebra do último laço que eu tinha com ele.
Caio encarou os cacos no chão, seu rosto uma mistura de choque e algo que parecia perda. Por um momento, um vislumbre do homem que eu pensei ter casado apareceu.
Ele notou o corte na minha mão da borda afiada da placa quebrada. "Você está sangrando."
Ele estendeu a mão para mim, mas sua preocupação veio um segundo tarde demais. Seu primeiro instinto foi verificar o arranhão superficial de Cássia.
Eu puxei minha mão de volta. "Estou bem."
Virei-me e saí do escritório, da empresa que eu construí, sem olhar para trás.
Naquela noite, rolei o Instagram de Cássia. Ela já estava postando de seu novo escritório de "CEO". Em seguida, vieram as fotos de um resort de luxo em Fernando de Noronha. Uma "viagem de integração da empresa".
Caio estava em todas as fotos, sorrindo, participando de dinâmicas de confiança e jogos bobos. Ele parecia mais feliz do que eu jamais o vira.
Lembrei-me de todas as vezes que implorei para ele ir aos eventos da minha empresa. Ele sempre tinha uma desculpa. Ocupado demais. Cansado demais. Corporativo demais para nossa cultura "boutique".
A diferença foi um soco no estômago. O amor que ele demonstrava por ela, mesmo em um ambiente profissional, estava a um mundo de distância do apoio relutante que ele me dera.
Então, uma mensagem privada de Cássia apareceu. Era uma foto dela e de Caio, bochecha com bochecha, em uma praia ao pôr do sol. A legenda dizia: "Algumas coisas simplesmente são para ser. #almasgêmeas"
Eu calmamente gravei a tela da mensagem, salvando-a como prova.
Uma semana depois, Cássia apareceu no meu apartamento. Ela estava chorando, alegando que seu novo negócio estava falindo por causa de "rumores maliciosos" que eu supostamente havia espalhado.
"Bianca, você tem que me ajudar", ela implorou, caindo de joelhos em uma exibição dramática. "A empresa do Caio está prestes a abrir o capital. Qualquer notícia negativa pode arruinar tudo!"
"Seu negócio está falindo porque você é incompetente", eu disse, minha voz plana.
Nesse momento, a porta se abriu e Caio entrou correndo. Ele devia estar esperando do lado de fora. Ele viu Cássia de joelhos, eu de pé sobre ela.
Ele não viu a verdade. Ele viu a cena que ela havia criado.
Ele avançou e me empurrou. "O que você fez com ela?"
Eu cambaleei para trás, minha cabeça batendo na quina da mesa de centro. Uma dor aguda atravessou meu crânio.
Caio nem olhou para mim. Ele se ajoelhou ao lado de Cássia, verificando seus joelhos em busca de arranhões. "Você está bem, Cássia? Ela te machucou?"
"A culpa é minha", soluçou Cássia. "Eu não deveria ter vindo."
Ele me fuzilou com o olhar. "Olha o que você fez. Você é tão intolerante."
A dor, tanto física quanto emocional, me inundou. Ele tinha uma memória seletiva, sempre reescrevendo a história para me fazer a vilã e ela a vítima.
"Prove", eu disse, minha voz tremendo. "Prove que eu fiz alguma coisa."
Ele não tinha provas, é claro. Ele só tinha as lágrimas dela.
Virei-me e me afastei, a dor latejante na minha cabeça um eco surdo da dor no meu coração.
Meu primeiro pensamento foi Léo. Eu tinha que pegá-lo. Corri para a creche dele, uma sensação de pavor crescendo a cada passo.
Cheguei bem a tempo de ver dois homens grandes o agarrando, tentando forçá-lo a entrar em uma van preta sem identificação.
"Léo!" gritei, correndo em direção a eles.
Eu lutei com eles, arranhando e chutando, mas eles eram muito fortes. Um deles me deu um tapa no rosto, e eu caí no chão, minha visão embaçada.
Peguei meu celular, discando 190 com as mãos trêmulas. Então liguei para Caio.
Cássia atendeu.
"Ele está ocupado", disse ela, sua voz pingando satisfação, antes de desligar.
O mundo escureceu.
Acordei em um quarto de hospital. A primeira coisa que vi foi Caio, parado perto da janela.
"Léo", grasnei. "Onde está o Léo?"
"Ele está bem", disse Caio, me interrompendo. Ele se aproximou da cama. "O 'sequestro' foi um mal-entendido. Eu autorizei. Eram amigos da Cássia. Eu só queria trazê-lo para casa."
Ele havia orquestrado isso. Ele aterrorizou nosso filho e me agrediu, tudo para conseguir o que queria.
"Você precisa ir à polícia e limpar o nome da Cássia", ele exigiu. "Diga a eles que foi tudo um engano."
Ele tentou me ajudar a sentar, mas eu gemi de dor. Minhas costelas estavam machucadas, minha cabeça latejava.
Ele não pareceu notar. Sua única preocupação era ela.
"Quero ver meu filho", eu disse, minha voz um sussurro quebrado.
"Primeiro, você retira a queixa", disse ele, sua voz fria. "Depois você pode vê-lo."
Eu o encarei, o homem que um dia amei, e não senti nada além de repulsa. "Você nem se importa que eu esteja machucada."
Ele finalmente olhou para o meu rosto machucado, um vislumbre de algo indecifrável em seus olhos. Mas desapareceu tão rápido quanto veio.
Eu não tinha escolha. Fiz o que ele pediu. Menti para a polícia.
Uma hora depois, Cássia trouxe Léo para o meu quarto. Meu filho parecia pálido e retraído. Ele correu para mim, enterrando o rosto ao meu lado.
"Mamãe", ele sussurrou, sua voz abafada. "Desculpa, eu não ouvi você me chamando."
Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu o abracei forte, notando que Caio nem sequer olhou para ele. Seus olhos eram apenas para Cássia.
Instintivamente, afastei Léo dela, protegendo-o com meu corpo.
Cássia sorriu, um olhar cruel e conhecedor em seus olhos. "Eu trouxe um presente de 'melhoras' para ele", disse ela, sua voz melosa. "Ele foi um menino tão bom."
Suas palavras me deram um arrepio na espinha.