A campainha tocou dois dias depois.
André, o artista sensível do trio, praticamente saltou do sofá para atender.
"Ela chegou!", ele gritou, a voz brilhando de excitação.
Eu estava sentada em uma poltrona perto da janela, fingindo ler. Meus olhos, no entanto, estavam fixos na porta, meu estômago se contorcendo em um nó frio e duro.
A garota que entrou era exatamente como eu me lembrava.
Kaila Rocha.
Ela usava um vestido simples, um pouco gasto, que deveria destacar seu status de bolsista. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo modesto, e seu rosto era uma máscara perfeita de inocência doce e de olhos arregalados.
Ela era a imagem de uma garota pobre e grata que não conseguia acreditar na própria sorte.
Ela também era a cobra mais cruel e ambiciosa que eu já conheci.
"João Pedro! Bernardo! André!", ela disse, sua voz uma coisa suave e melódica.
"Kaila! Você conseguiu!", João Pedro a cumprimentou, seu sorriso mais largo e genuíno do que qualquer um que ele já tinha me dado.
"Vim assim que soube!", disse ela, com os olhos brilhando de lágrimas contidas. Ela ergueu um objeto pequeno e reluzente. "Eu ganhei! A competição do Prêmio InovaBrasil! Meu projeto ganhou o primeiro lugar!"
Seu rosto era uma imagem perfeita de descrença alegre.
Eu observei da minha cadeira enquanto meus três irmãos se derretiam por ela.
Lembrei-me dos votos que eles sussurraram para mim ao longo dos anos.
"Eu sempre vou te proteger, Bia."
"Seus sonhos são os meus sonhos."
"Ninguém nunca vai importar mais do que você."
Agora, esses votos estavam sendo oferecidos a outra.
"Isso é incrível, Kaila!", disse Bernardo, batendo em seu ombro. "Nós sabíamos que você conseguiria!"
"Deixe-me ver", disse André, pegando a medalha de ouro da mão dela com uma reverência que ele geralmente reservava para obras de arte de valor inestimável. "É linda. Assim como você."
Kaila corou, um rosa delicado manchando suas bochechas. "Eu não teria conseguido sem o apoio de vocês. A fundação me dando a bolsa, todos vocês me incentivando..."
Sua voz falhou, e uma única lágrima perfeita rolou por sua bochecha.
"Ei, não chore", disse João Pedro instantaneamente, sua voz um murmúrio baixo e reconfortante. Ele a puxou para um abraço gentil. "Você mereceu isso. Você é brilhante."
A cena era tão enjoativamente familiar.
Todos aqueles anos deles me cobrindo de elogios, tudo foi apenas prática. Prática para ela.
O amor que eu pensei que era meu estava apenas emprestado, esperando sua verdadeira dona chegar.
Kaila se afastou de João Pedro, enxugando os olhos, e então se virou para mim. Seu sorriso era doce, mas seus olhos continham um brilho de triunfo.
"Beatriz, eu queria que você fosse a primeira a saber. Você sempre foi tão gentil comigo."
Ela se aproximou e estendeu a medalha.
"Eu queria te dar isso. Como um agradecimento."
Meus olhos caíram para a medalha em sua mão. Eu vi a gravação.
Prêmio InovaBrasil - Primeiro Lugar
Eu conhecia bem o concurso. Eu mesma havia submetido um projeto a ele.
Meu olhar passou da medalha para o pequeno certificado dobrado atrás dela.
Projeto Vencedor: 'AURA' - Uma IA Preditiva para Alocação de Bem-Estar Social
Designer: Kaila Rocha
Mas a designer não era Kaila Rocha.
A designer era eu.
'AURA' era meu trabalho de conclusão de curso, o projeto no qual eu havia derramado meu coração e alma por mais de um ano. Eu tinha mostrado a proposta final para João Pedro no mês passado, tão orgulhosa do meu trabalho. Ele tinha sido tão encorajador.
Ele deve ter dado a ela.
Minha mão, escondida nas dobras do meu livro, apertou meu celular. Meus nós dos dedos estavam brancos.
"Essa medalha", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Me pertence."
Minhas palavras caíram na sala como uma pedra.
A medalha escorregou dos dedos subitamente frouxos de Kaila. Bateu no chão de mármore com um estrépito, um pequeno pedaço se quebrando na lateral.
Kaila olhou para a medalha quebrada, seu rosto se desfazendo.
"Beatriz... eu... eu não entendo", ela gaguejou, a voz embargada de mágoa. "Eu só queria compartilhar minha felicidade com você. Se... se você não gostou, não precisava..."
"Kaila, não", disse João Pedro, correndo para o lado dela e afastando-a do prêmio quebrado no chão. "Nem tente pegar. Você vai se cortar."
"É só uma medalha estúpida", disse Bernardo, me fuzilando com o olhar. "Podemos comprar cem delas para você, Kaila."
André a pegou nos braços. "Está tudo bem. Sabemos o quanto você trabalhou duro. Você é a pessoa mais talentosa que conhecemos."
Ele lançou um olhar de puro veneno na minha direção.
"Beatriz, qual é o seu problema? Kaila vem aqui para compartilhar uma boa notícia, e você faz uma birra como uma criança?"
Kaila, aninhada nos braços de André, olhou para eles com olhos marejados e gratos. Um pequeno sorriso triunfante brincou em seus lábios por uma fração de segundo antes que ela enterrasse o rosto no ombro dele.
Eu me senti como uma estranha na minha própria casa.
Uma intrusa em sua pequena e perfeita história de amor.
Eles achavam que eu estava apenas com ciúmes. Eles não tinham ideia.
Não foi Kaila quem roubou meu projeto. Ela não era inteligente o suficiente.
Foram eles. Tinha que ser João Pedro. Ele era o único que tinha o acesso e o conhecimento técnico para reenviá-lo sob o nome dela. Eles roubaram meu trabalho, meu sonho, e entregaram a ela em uma bandeja de prata.
"Peça desculpas para a Kaila", disse João Pedro, sua voz baixando para aquele tom baixo e ameaçador que ele usava quando estava realmente com raiva. "Agora mesmo."
Ele deu um passo em minha direção.
"Se você não pedir desculpas, Beatriz, eu juro que você e eu terminamos."
Na minha vida passada, eu teria desmoronado. Teria soluçado e implorado por perdão, aterrorizada de perder o amor dele.
Eu teria pedido desculpas por um crime que não cometi, apenas para manter a paz.
Eu me lembrava daquela garota. Lembro-me de sua fraqueza.
Ela estava morta.
"Não", eu disse, encontrando seu olhar furioso sem vacilar.
Os irmãos todos me encararam, seu choque palpável. Eu nunca, nem uma vez na vida, desafiei João Pedro.
Kaila espiou por cima do ombro de André, sua atuação falhando por um momento. Ela parecia genuinamente surpresa.
Então ela se recuperou rapidamente, sua voz tremendo novamente.
"A culpa é minha", ela sussurrou, puxando as mangas deles. "Eu não deveria ter vindo. Sou apenas uma garota pobre com uma bolsa de estudos. Eu não sou... não sou uma de vocês. Não sou digna da sua bondade."
Foi uma performance magistral.
"Não diga isso!", disse Bernardo imediatamente.
"Você vale mais do que qualquer um, Kaila", acrescentou André, abraçando-a com mais força.
Os olhos de João Pedro se suavizaram ao olhar para ela, depois endureceram novamente quando ele se virou para mim.
A dor no meu peito era uma pontada surda e familiar.
Lembrei-me do meu aniversário de dezoito anos. Eu tinha ganhado meu primeiro grande prêmio de design. Eles fizeram uma festa enorme para mim.
"Você é um gênio, Bia", João Pedro tinha dito, me beijando sob os fogos de artifício. "Nosso gênio."
Agora, o gênio deles era outra pessoa.
Será que eles sequer se lembravam?
Alguma daquelas promessas significou alguma coisa?
Virei-me para sair. Não suportava ficar na mesma sala que eles, com aquele afeto sufocante e falso por ela.
"Onde você pensa que vai?"
A mão de João Pedro se fechou no meu braço, seus dedos cravando na minha pele.
"Eu mandei você pedir desculpas."
Seus olhos estavam frios, cheios de uma raiva aguda e cortante que eu só tinha visto dirigida a rivais de negócios.
Nunca a mim. Até agora.
Uma onda de náusea me invadiu.
Lembrei-me de outra vez em que ele agarrou meu braço assim. Foi depois que eu acidentalmente derramei café em um dos livros de Kaila. Ela chorou, e ele me forçou a ficar de joelhos para pedir desculpas, para implorar seu perdão na frente de toda a equipe da casa.
A memória, a humilhação, queimava em minhas entranhas.
Eu estava cansada disso. Tão cansada de ser o peão deles.
"Deixe que eles fiquem um com o outro", uma voz fria sussurrou na minha cabeça. "Deixe que eles tenham tudo."
Com uma força que eu não sabia que possuía, arranquei meu braço de seu aperto.
"Eu disse não."
A mão de João Pedro ficou suspensa no ar. Seu rosto era uma máscara de incredulidade.
Eu nunca tinha me afastado dele antes. Sempre me derretia com seu toque, ansiava por sua atenção.
Sua expressão escureceu.
"Nós pegamos leve demais com você, Beatriz?", ele disse, a voz perigosamente baixa. "É esse o problema?"
Soltei uma risada curta e sem humor.
"Leve demais comigo? Não, João Pedro. Acho que eu peguei leve demais com todos vocês."
Desde que Kaila chegou, foi como se uma chave tivesse sido virada.
As pequenas atenções, os afetos casuais, as piadas internas — tudo fluía para ela agora.
Eu ficava com as migalhas.
Na minha primeira vida, eu tentei desesperadamente reconquistá-los. Engoli cada insulto, ignorei cada desprezo, suportei cada humilhação.
Lutei por um amor que nunca foi realmente meu.
E isso me matou. Queimada viva em um incêndio que eles mesmos provocaram.
A memória da dor lancinante, da minha pele derretendo, passou pela minha mente.
"Você é só uma pirralha mimada", rosnou João Pedro, o rosto se contorcendo de raiva. "Você é nossa irmã adotiva. Nós te demos tudo. Um lar, uma vida que você nunca poderia ter sonhado."
Ele deu outro passo, me encurralando contra a parede.
"Você não tem direito a nada. Deveria ser grata por sequer te considerarmos. O testamento diz que você tem que se casar com um de nós. Você deveria estar de joelhos, me implorando para te escolher."
Ele praticamente cuspia as palavras em mim.
"Não", eu disse novamente, minha voz trêmula, mas firme. "Eu não vou."
Kaila escolheu aquele momento para fazer sua parte. Ela puxou a manga de Bernardo, os olhos arregalados de falsa angústia.
"Talvez... talvez eu devesse ir embora", ela sussurrou.
"Não, você não vai a lugar nenhum!", disseram os três em uníssono, virando-se para confortá-la.
Era uma peça bem ensaiada.
"Nós te amamos, Kaila", disse Bernardo suavemente, acariciando seu cabelo. As palavras eram para ela, mas foram uma faca no meu coração.
Eles tentaram explicar. Tentaram me dizer que seus sentimentos por Kaila eram diferentes, que ela era apenas uma amiga que eles estavam ajudando.
Mentiras.
Uma frieza se espalhou por mim, tão profunda que era quase pacífica. Eu finalmente, verdadeiramente, tinha acabado.
De repente, ouviu-se um forte gemido vindo de cima. Minha cabeça se ergueu, a memória da luz piscando e do aviso da governanta passando pela minha mente. O enorme lustre de cristal no hall de entrada balançava violentamente. Uma nuvem espessa de poeira caiu da luminária do teto.
"KAILA!", gritaram os três irmãos de uma vez.
Eles se lançaram em direção a ela, criando uma parede humana entre ela e o perigo, bloqueando meu caminho para a segurança.
Eu estava presa.
A última coisa que vi foi o lustre se soltando, despencando em minha direção.
Então, um universo de dor. Uma sensação aguda e estalante na minha costela.
Minha visão ficou turva. Lutei para olhar para cima, minha cabeça pendendo para o lado.
Através de uma névoa de agonia, eu os vi.
Eles estavam amontoados ao redor de Kaila, que estava perfeitamente bem, sem um arranhão.
"Você está bem? Se machucou?", perguntava João Pedro, suas mãos a examinando freneticamente.
Kaila balançou a cabeça, os olhos arregalados. Então seu olhar se voltou para mim, caída e quebrada no chão.
Só então eles pareceram se lembrar que eu existia.
Eles correram, seus rostos uma mistura confusa de alarme e irritação.
"Bia? Meu Deus, desculpe", disse Bernardo, ajoelhando-se ao meu lado. "Nós pensamos que era... nós te confundimos."
Eles me confundiram.
Eu era apenas um dano colateral em sua obsessão por ela.
Eu, que tinha sido o sol, a lua, as estrelas deles.
Comecei a rir, um som úmido e borbulhante que enviou uma nova onda de agonia pelo meu peito. Minhas costelas pareciam estar em chamas.
Lágrimas de dor e fúria picaram meus olhos. Eu não conseguia me levantar. Não conseguia nem respirar direito.
O mundo começou a escurecer nas bordas.
Eu apaguei.
A última coisa que vi foi o rosto de João Pedro, sua testa franzida, uma expressão estranha e indecifrável em seus olhos.
A última coisa que ouvi foi sua voz, chamando meu nome em um pânico que soava quase real.
"Bia!"