Capítulo 2

Oh,, parabéns, congratulou-se Josie. Que tato. Que sutileza.

Mas era difícil ser sutil quando se está do tamanho de um rinoceronte.

Suprimiu um suspiro e concentre-se em parecer o mais indiferente possível. Não era fácil. Na verdade, era mais difícil do que imaginava.

Nos últimos seis meses, desde que percebera que a noite que passara com Sam Fletcher teria outras repercussões além das de natureza emocional, sabia que aquele momento viria. Adiara o inevitável, resistindo às críticas contínuas de Hattie para que contasse a Sam, em vez de "enfiar a cabeça na areia como um avestruz", parodiando a querida protetora.

Pois preferia chamar de sobrevivência.

De que outra maneira definir aquela relutância em dar ao homem com quem passara uma única noite a notícia de que ia ser pai quando ele parecia descontente apenas por revê-la?

A noite de intimidade acontecera por "efeito do uísque". Não fora essa a explicação dele? Quanto a ela, sempre sou¬bera disso, mas simplesmente não fora capaz de resistir.

Josie Nolan amava Sam Fletcher secreta e desoladamente desde os quinze anos de idade.

Realista, ela nunca cogitara que o empresário milionário se apaixonaria pela filha adotiva do vizinho da tia Hattie.

Ainda que agora fosse a gerente da pousada, o fato era que começara como arrumadeira. Até conhecia a história de Cinderela, mas isso não significava que era idiota.

De algum modo, porém, deixara-se envolver pelo clima de conto de fadas, pois, quando Sam Fletcher aparecera em sua porta, na noite de seu vigésimo quinto aniversário, todo compaixão, gentileza e amizade, fora incapaz de dispensá-lo.

Assim, passara os últimos seis meses tentando imaginar um modo de contar-lhe sobre os resultados daquela noite.

Não parecia haver uma forma satisfatória. Qualquer ar¬gumento levaria Sam a pensar que ela era uma aproveita¬dora, disposta a forçá-lo a um casamento indesejável.

As vezes, na calada da noite, por exemplo, quando se lembrava da ternura do toque, da urgência, da persuasão dos lábios dele, entregava-se à ilusão de que realmente ocor¬rera algo especial entre eles, de que ele receberia bem a notícia da gravidez, de que ele sentia sua falta tanto quanto ela sentia a dele.

A luz do dia, sabia que era tudo bobagem.

Mas, enquanto ele não aparecesse e declarasse que tudo não passara de um lamentável equívoco, não ousaria perder o fiozinho de esperança.

Acabava de perdê-la.

Sam gaguejava incontrolavelmente:

— Nun... nunca tive a intenção de... de...

Nem ela.

Mas acontecera. Agora, teriam um filho.

Josie levantou-se, preparada para receber os golpes ver¬bais. Sam esbravejaria, assim como Kurt esbravejara. De dedo em riste, questionaria, frio: "Bem, o que você vai fazer a esse respeito?", exatamente como o ex-noivo.

Mas Sam não lhe apontou o dedo. Estava pálido, apesar do bronzeado. E sua voz não saiu fria. Saiu emocionada ao confirmar, incrédulo:

— É... é meu?

Não, Sam não esbravejaria. Sua maneira de falar confortava. Atónito, ele se mantinha ali parado como se hou¬vessem atirado uma bomba a seus pés.

Tratava-se mesmo de uma bomba, concluiu Josie. Sam fora a Dubuque a fim de tratar do legado de tia Hattie, não para receber a notícia de que seria pai.

— Tem certeza? — indagou Sam.

Ela se enrijeceu e a angústia que sentia por ele se dis¬sipou. Ruborizou.

— Sim, tenho certeza. Apesar da impressão que possa ter causado, não ando por aí dormindo com um homem a cada noite!

— Não foi o que eu quis dizer... — Ele se calou, indefeso. Suspirando, passou a mão pelos cabelos curtos. — Bolas, talvez quisesse dizer isso mesmo, mas é porque estou cho¬cado. Desculpe-me...

Ele não a encarava. Parecia não conseguir desviar o olhar da barriga dela.

Josie recebeu a desculpa no espírito em que foi emitida: de má vontade. Pegou mais dois vasos e voltou-se para o carrinho. Não ficaria ali, vendo-o pasmo! E não quereria vê-lo raciocinando, tampouco.

Queria sair correndo dali, mas também não daria esse prazer a ninguém.

Permaneceu, ciente do silêncio, ciente do passo adiante, ciente do pigarro de Sam ao indagar-lhe:

— Então... você ia me contar?

O tom era cordial, quase casual, mas ela sentia o nervosismo dele, sabia o quanto ele se esforçava para se controlar.

Ela passou a língua nos lábios e encolheu os ombros na tentativa de parecer descontraída.

— Num dado momento, imagino, eu teria que contar.

— Você teria que contar? — Sam espantou-se. — Não imaginou que eu talvez quisesse saber?

— Para ser franca, não.

Sam encarou-a boquiaberto. Então, como se tivesse per¬cebido, fechou a boca. Não deixou de encará-la nem por um instante.

Desafiadora, Josie devolveu o olhar.

— Bem, este não é exatamente um momento típico dos romances, não é?

Sam remexeu o maxilar.

— Está querendo dizer que não quer esse filho?

Josie pressionou a mão protetoralmente sobre a barriga.

— Não, não estou dizendo nada disso! Eu quero esta criança.

Era a única coisa de que tinha certeza. Filha de pais desnaturados, fora abandonada e passara por vários lares adotivos desde os seis anos. Não deixaria que isso aconte¬cesse com seu filho. Cuidaria dele com todo o amor. Quanto a isso, estava decidida.

— Mas não consigo imaginá-lo com a mesma disposição — completou. — Você consegue? — disparou, tão rude quan¬to ele se mostrara pouco antes.

Sam pareceu ficar sem resposta.

Satisfeita, Josie começou a empurrar o carrinho na direção da sala de jantar.

Pouca coisa perturbava Sam Fletcher.

Afinal, era um empresário de renome internacional. Ne¬gociara até o privilégio de fornecer mobília nobre ao paxá de um pequeno reino asiático, algo que a concorrência daria tudo para obter. Estava acostumado a fechar contratos de milhões de dólares, colocando em jogo as finanças de muitas pessoas, incluindo a sua. E até manteve a compostura quan¬do a noiva o trocou por outro homem.

Sim, sim, sim, sim e sim novamente.

Mas a notícia de que teria um filho com uma mulher a quem nem se lembrava de ter levado para a cama... Beta, isso tiraria do sério o mais calmo dos homens.

Sam estava para lá de agitado. Estava se descabelando.

Quase acusara Josie Nolan de estar maluca, certo de que não era irresponsável a ponto de fazer um filho com uma mulher com a qual nem era casado! Mas o fato de não se lembrar dos acontecimentos naquela noite era prova cabal do quanto fora irresponsável.

Em seguida, teve vontade de fugir. Ele, que nunca fugira de nada na vida.

Fora criado para assumir a responsabilidade por seus atos, para aceitar desafios, para exercer liderança, para fa¬zer a coisa certa.

Fora a Dubuque na esperança de fazer o que era certo, dar um destino aos bichos que tinham feito parte da vida de tia Hattie. Esperava encontrar um comprador para a pousada e até encontrar um novo lar para os três gatos, o cachorro e o periquito.

Quanto a Josie, pretendera pedir-lhe desculpas, garan¬tindo que só podia ser brincadeira de tia Hattie tê-la legado a ele.

Começava a entender a atitude da tia Hattie.

Jamais lhe passara pela cabeça estar às vésperas de ser pai.

O testamento da tia Hattie fizera o que Josie não ousara: levá-lo a Dubuque para inteirar-se de um fato da maior importância.

Talvez devesse agradecer a tia Hattie. Agradeceria, se não estivesse tão abalado.

Ia ser pai?

Idéia perturbadora. E imaginar que, se tia Hattie não o houvesse forçado a tomar posse da pousada, talvez ele nunca viesse a saber.

Era como esperar a gota d'água.

Ao mesmo tempo que distribuía os vasos de flores pelos cómodos, atendia os hóspedes, oferecia champanhe aos recém-casados, telefonava a restaurantes fazendo reservas e esclarecia sobre as atrações locais, Josie mantinha-se olhan¬do por sobre o ombro, esperando Sam aparecer.

Ele não estava mais na cozinha quando ela voltara.

— Saiu — informara Cletus.

— Caiu em cima dele, não foi? — deduziu Benjamin.

Josie negou, mas vira a expressão de Sam. Talvez ele houvesse ido embora. Não, o carro alugado dele ainda estava rui vaga. Aonde quer que tivesse ido, fora a pé. Lembrou-se de que ele ia até o atracadouro, ou caminhava à beira do rio, sempre que queria pensar.

— Ele precisa de espaço — explicara Hattie. — Pers¬pectiva. Precisa recuar um passo para entender as suas responsabilidades.

Estaria fazendo isso naquele momento?

De qualquer forma, Josie gostaria de não estar envolvida.

Não sabia se seria melhor que ele voltasse para que re¬solvessem a questão, ou que ele permanecesse longe, de modo que ela pudesse fingir que nada acontecera.

Teria que ser a primeira opção, a menos que ele concor¬dasse em desaparecer pelo resto da vida dela!

A tarde passou rápido. Novos hóspedes se registraram, as flores foram entregues, as reservas foram feitas e as perguntas foram respondidas, mas nenhum sinal de Sam.

Otimo, pensou Josie. Não. Não estava nada ótimo.

Bolas. Não sabia o que fazer, além de se descabelar. Ficou andando pelo saguão de entrada. Olhou pela janela. Até saiu à varanda e esticou o pescoço para ver o fim da rua, na esperança de ver Sam, determinada a não permitir que ele a surpreendesse novamente.

Logo, já era noite. O ar frio de abril obrigou-a a entrar. Deu mais alguns passos pelo saguão de entrada e então foi para a cozinha, ainda impregnada das lembranças do de¬sastroso reencontro.

Agitada, desceu a escada de madeira que levava à la¬vanderia no porão. Precisava dobrar dezenas de toalhas e lençóis. Se Sam fosse procurá-la ali, ouviria o ranger dos degraus e não seria pega de surpresa.

Ora, por que se preocupar tanto? Sua realidade não se alteraria agora que Sam também estava ciente dela. Ela con¬tinuava grávida e seu amor por ele não seria correspondido.

Perguntou a si mesma, pela milésima vez, por que não se satisfizera com Kurt, apesar de ele dar mais importância a sua missão religiosa do que a ela.

Talvez ele estivesse certo.

Mas ele não precisava ter salientado o quanto ela fora idiota experimentando o fruto proibido.

Desceu a escada com cuidado, segurando no corrimão. Sempre se deslocara pelo casarão vitoriano sem pensar, leve e solta, mas nos últimos meses, com a barriga se avolu¬mando, passara a andar mais devagar.

Devia ter olhado bem por onde andava sete meses antes!

Na lavanderia, inclinou-se e tirou um monte de toalhas do cesto, dispondo-as sobre o balcão para dobrá-las. Era um trabalho mecânico, calmante. Acabou uma pilha e então pegou mais toalhas do cesto.

Dentro da barriga, o bebê deu um chute.

Josie sorriu. Mesmo estando muito aborrecida, aquela criança sempre podia fazê-la sorrir. Talvez fosse tolice pen¬sar que já tinha uma ligação com o bebê, mas era o que sentia. Não se tratava mais de Josie e o resto do mundo. Agora eram Josie, seu bebê e o resto do mundo.

— Acordou, hein? — sussurrou, branda.

Largou as toalhas, acariciou a barriga e foi recompensada com outro empurrão. Deu um tapinha no bebê e sorriu no¬vamente. Às vezes, imaginava poder comunicar-se com aquele ser que ocupava provisoriamente seu corpo.

— Como foi o seu dia? — indagou, precisando desabafar. — O meu foi difícil. E acho que vai piorar ainda mais — confidenciou. Pegou uma toalha e se abanou com ela antes de dobrá-la.

O bebê chutou novamente. Forte. Tão forte que Josie fez uma careta de dor.

— O que foi?

Josie reagiu com um pulo, deixando cair a pilha de toa¬lhas. Dando meia-volta, olhou assustada para a adega no outro extremo do porão. Sam estava de pé nas sombras.

— Olhe o que você fez! — ralhou ela, brava.

— Parece que isso é pouco em relação ao que fiz da outra vez. — replicou ele, e avançou um passo.

Instintivamente, Josie recuou.

— O que foi? — indagou ele. — Está sentindo dor?

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Não. Foi... foi um chute, só isso.

— Chute?

— Do bebê.

Ele olhou para a barriga dela e abriu a boca como se fosse dizer algo. Mas apenas passou a língua pelos lábios e balançou a cabeça. Inclinou-se para pegar as toalhas.

Josie desejava poder recolher as toalhas sozinha, mas nào podia. Havia um bebê entre ela e o chão.

— O que estava fazendo escondido na adega? — pergun¬tou, contrariada.

— Não estava pegando outra garrafa, se é essa a sua preocupação. — Sam endireitou-se e pousou as toalhas no balcão.

— Pode colocá-las na máquina outra vez? — pediu Josie. — Não posso usá-las mais.

Obediente, ele colocou as peças felpudas na máquina de lavar.

— Eu estava pensando — esclareceu, em resposta à per¬gunta anterior.

— Na adega?

— É um bom lugar para isso.

Josie fechou a máquina e foi buscar o sabão em pó. Sem pressa, colocou o sabão no local adequado, e selecionou o programa de lavagem requerido. Não conseguia pensar em nada para dizer.

Sam não ia embora. Após apertar os botões, Josie abriu a tampa da máquina e verificou a distribuição das toalhas.

— Vim porque tia Hattie me deixou a pousada — co¬mentou Sam, desconfortável com todo aquele silêncio.

— Eu sei.

— Sempre pensei que ela deixaria a propriedade para você — comentou ele.

Josie fechou a tampa e ligou a máquina.

— Por que deixaria? Não sou da família.

— Você era mais chegada a ela do que qualquer pessoa da família. Era a neta que ela e Walter nunca tiveram. Ela amava você.

Sam falava em tom quase acusador.

— Eu a amava também — afirmou Josie, e voltou-se para encará-lo. — Ela foi a mãe, a avó, a família que eu nunca tive. Mas nunca esperei que ela me deixasse a pou¬sada! Já tinha feito muito por mim, providenciou até um fundo. O sr. Zupper pode falar-lhe a respeito, se quiser. Um para mim e... e um para o bebê.

— Você devia ter recebido a pousada também — insistiu Sam. — Quando estive aqui no outono, na época em que Izzy e eu...

— Eu sei quando — adiantou-se Josie. Ele achava que ela podia se esquecer?

Sam respirou fundo.

— Certo. Você sabe quando. Bem, naquele ocasião, tia Hattie me disse que eu não precisaria me preocupar com a pousada quando ela partisse. Eu respondi que ela não iria a lugar algum.

Ele fez uma pausa e Josie percebeu que ele sofria. Com¬binava com sua própria dor, mas não ia oferecer-lhe conforto.

— Você não sabia que ela ia morrer — concluiu ela. — Nenhum de nós sabia.

— Tia Hattie sabia. Ela disse: "Este velho coração pode parar a qualquer momento. Então quero que saiba de uma coisa..." Ela disse que não queria desrespeitar a família, mas que ia deixar a propriedade para você. — Sam passou a mão pela nuca. — Sendo assim, ao me legar a pousada, junto com você, ela estava querendo enviar uma mensagem.

Josie fitou-o no rosto.

— Ela me deixou para você?

— Pensei que fosse brincadeira.

Brincadeira sem graça, pensou Josie.

— E era — afirmou ela.

Sam balançou a cabeça.

— Não, ela estava certa.

Transferiu o peso de uma perna a outra, mantendo as mãos nos bolsos. Ficou olhando para o chão por um longo tempo. A máquina de lavar parou de girar e a água começou a entrar, iniciando outro ciclo. Ele ergueu o olhar e encarou Josie.

— Vamos nos casar.

Como pedido, aquilo deixava muito a desejar.

Na verdade, Josie sentia como se ele tivesse apunhalado seu coração.

Vamos nos casar. Desse jeito. Como se fosse uma conclusão óbvia, uma transação comercial com uma única possibilidade.

Ela supunha que, quando se tratava de Sam Fletcher, só havia uma única possibilidade de desfecho. Do jeito dele.

Mas ele não queria se casar!

Sabia que ele não queria. Podia ver em seu semblante, em seus olhos. Sentia no tom resignado de sua voz.

Por que se prontificava àquilo, então? Ele não a amava. Não queria o filho.

Sam submetia-se ao dever porque sua tia Hattie o obri¬gara. Tomava aquela atitude porque estava acostumado a fazer a coisa certa, a fazer o que era necessário.

Exatamente como Hattie imaginara que ele faria.

Exatamente como Josie temia que ele faria. Era por isso que não lhe contara sobre o bebê.

— A criança tem o direito de conhecer o pai — comentara Hattie, usando um tom muito mais gentil do que o seu normal.

— Eu sei disso — afirmara Josie. — Mas é que... não posso contar. Não agora.

— Quando?

— Qualquer dia — declarara à protetora, vagamente.

— O pai tem o direito de conhecer o filho também — insistira Hattie, implacável.

— Eu direi a ele — prometera Josie. Só não dissera quan¬do. E sempre mudara de assunto quando Hattie retomara a questão.

— Pode contar a ele no Natal — sugerira Hattie, preo¬cupada, no fim da vida.

Mas Sam não fora passar o Natal em Dubuque. Josie percebera o quanto Hattie ficara decepcionada com sua au¬sência. Ela mesma não se espantara tanto, pois sabia por que Sam não aparecera.

Depois dessa ocasião, Hattie não tocara mais no assunto.

Josie até pensara que ela desistira.

Obviamente, após a leitura do testamento, entendeu que se enganara. Hattie garantira que Sam tomasse conheci¬mento do fato.

Agora, a par de tudo, Sam agia exatamente conforme Hattie desejara, e exatamente conforme Josie temera.

Não era assim que Sam imaginara fazer um pedido de casamento. De pé, na lavanderia da pousada, a uma mulher já grávida de seu filho.

Com certeza, não fora nessas circunstâncias que pedira Izzy em casamento. Daquela vez, providenciara um jantar caprichado à luz de velas num restaurante caro. Após a refeição requintada, dançaram de corpo colado ao som de músicas românticas, quando concluíram que tamanho ar¬roubo era bom demais para partilharem só de vez em quando.

Desta vez, ele estava parado, muito tenso, com a cabeça meio inclinada, pois o teto do porão era baixo. Sua voz saíra nervosa e atrapalhada. E Josie, longe de sorrir radiante, olhava-o como se fosse um monstro.

Não podia estar surpresa. Tinham que se casar e ponto final. Era a única alternativa responsável. Se houvesse qual¬quer outra, ele a teria escolhido.

Ora, o que ela esperava, afinal? Uma declaração de amor eterno? Ele já afirmara que aquilo que acontecera entre ambos naquela noite fatídica fora um equívoco.

Bastava a intenção de fazer o que era direito, assegu¬rou-se. Olhou para ela apreensivo, esperando que ela to¬masse a decisão acertada também.

Mas Josie respondeu:

— Não.

Sam ficou boquiaberto. Não estava mais sob efeito da mudança de fuso horário, mas achou que a audição estava prejudicada. Confirmou:

— Não?

— Não. Obrigada — acrescentou ela, após um momento, mas ele não achava que ela se sentia agradecida.

Ele remexeu o maxilar.

— Por que não?

Não era como se ele quisesse se casar com ela! Ele estava sendo correto, afinal, fazendo o pedido. O mínimo que ela podia fazer era aceitar!

— Quando me casar, vai ser por amor — declarou Josie, simplesmente.

Ele ficou olhando para ela. Deu uma olhada pela lavanderia e, então, focalizou o dedo dela sem a aliança de noivado.

— Perdoe-me se estiver errado, mas não estou vendo em seu dedo a prova do seu amor...

Josie olhou para as próprias mãos e ele imediatamente sentiu-se um canalha. Oh, bolas. Era como chutar um cachorrinho.

— Não quis dizer... — murmurou Sam, finalmente, a voz rouca. Avançou para confortá-la, mas então lembrou-se de como aquilo acabara da última vez. Conteve-se. — Desculpe-me.

Na verdade, Sam não lamentava nada. Imaginava o motivo do rompimento do noivado. De qualquer forma, o futuro pastor Kurt Masters nunca merecera uma mulher tão gentil, generosa, voluntariosa e... bolas, adorável quanto Josie. Obviamente, ela não queria ouvir nada da¬quilo naquele momento.

— Não é por causa de Kurt — garantiu Josie, serena.

Sam nem ia argumentar.

— Fico feliz em saber. Nesse caso, por que está recusando?

— Eu já lhe disse.

— Porque quer se casar por amor. — Ele despejou a palavra como se não fosse nada. — E quanto ao bebê? Você não quer que ele seja amado?

Ela respirou fundo.

— Claro que quero! Do que está falando?

— Você está negando-lhe o amor paterno.

— Você não o ama — concluiu Josie, dura.

— Como pode saber?

— Você não pode amá-lo.

Sam exasperava-se:

— Por que não?

— Porque nestes dez anos em que o conheço nunca ouvi comentário seu sobre ter filhos ou algo assim.

— Talvez eu tenha mudado de idéia.

Josie revirou os olhos.

— Não dá para acreditar.

— Pode me dar um crédito? Afinal, você teve tempo para se acostumar à idéia. Eu caí de pára-quedas...

— Não havia nada impedindo-o de voltar nestes sete me¬ses — observou Josie, rude.

— Eu achei que estava beneficiando aos dois ficando longe.

— E estava.

Ele respirou fundo.

— Agora, estou sendo responsável. Estou preparado para fazer o que é certo...

— E como tem certeza de qual seja a atitude correta?

Ele abriu a boca e hesitou.

Aquilo foi o suficiente para Josie cruzar os braços.

— Você não quer se casar comigo, Sam. Você não quer um filho. Você quer vender a pousada, dar o fora daqui e nunca mais voltar. Não é isso? Não foi por isso que voltou?

— Voltei porque tia Hattie me deixou este abacaxi!

— Exatamente. E eu lhe digo, você não precisa descascar este abacaxi. Hattie o queria aqui. Eu não. Foi tudo um equívoco, como você já disse antes. — Ela olhou para a escada e voltou a encará-lo. — Foi "efeito do uísque", não é mesmo?

— Eu não quis dizer...

— Sim, você quis. Você foi honesto. E agora tem sorte, pois não vou responsabilizá-lo pelo que fez sob efeito da bebida.

— E se eu quiser me responsabilizar?

Seguiu-se um duelo de olhares.

— Não me amole, Sam — disparou ela e foi para a escada. Ele a seguiu.

— Não me deixe falando sozinho!

Josie voltou-se, o rosto afogueado.

— Não grite comigo! — avisou ela, a voz mais baixa, mas firme. — Não se quiser manter a reputação deste estabelecimento.

— Às favas com a pousada!

Josie encolheu os ombros.

— Bem, como quiser. É a sua casa. É o seu negócio.

— Eu ofereci parceria.

— E eu disse não. Obrigada — acrescentou. A educação excessiva de Josie era tão irritante quanto a recusa. — Não bata a porta quando sair. — Subindo a escada, deixou-o ali parado.

Sam ficou olhando para as costas dela até que sumisse de vista. Então, subiu à cozinha e saiu ao saguão de entrada. Conseguiu não franzir o cenho aos hóspedes que estavam na sala, mas aquilo era o máximo que podia fazer.

Não havia como discutir de forma satisfatória quando não se podia nem bater a porta!

O embate fora tão desastroso quanto Josie temera.

Pior.

Sam a pedira em casamento, pois era um cavalheiro, um homem responsável. Um homem gentil.

Tudo o que ela queria num marido, mas que não teria, porque ele não a amava.

E ele fora honesto o suficiente para não mentir e dizer que a amava. Aquilo tornara tudo pior.

Josie estava parada junto à cortina e olhava para a aléia. Lá fora, Sam contemplava a cidade de ombros curvados, as mãos nos bolsos. O vento agitava seus cabelos curtos. Pa¬recia miserável.

Ele devia estar contente.

Ela dissera não, não dissera?

Talvez ele não houvesse compreendido bem ainda. Quan¬do isso acontecesse, ficaria feliz.

Mesmo assim, continuaria se sentindo responsável. Queria fazer tudo certo. Sam era assim, sempre fora. Pois não fora consolá-la no dia em que Kurt a fizera esperar em vão?

Dissipou esses pensamentos. Não fizera nada além de pensar nisso nos últimos sete meses. Tivera esperança... sonhara... desejara... fora a idiota que prometera que jamais seria. Não conseguira eliminar a esperança de que um dia Sam viesse a se apaixonar por ela.

Ele não se apaixonara. E tudo estava acabado.

Amanhã seria outro dia para ambos. Ele ainda tentaria fazer a coisa certa, claro, mas desta vez apresentaria uma proposta mais razoável. Ofereceria ajuda à criança, pron¬tificando-se a dar-lhe seu nome, talvez providenciasse um fundo. Seu filho não enfrentaria problemas financeiros, pen¬sou, e sorriu triste.

Tratando-se de Sam, ela permitiria que ele ficasse com o filho durante duas semanas no verão.

Sim, aquilo era o certo. Educada, ela se mostraria agra¬decida. Sam experimentaria grande alívio por não ter que levar adiante o casamento, mas não o demonstraria, polido como era. Seria tudo muito civilizado.

E ela ficaria ligada a Sam Fletcher para o resto da vida.

Seria difícil, mas suportaria, por causa da criança.

— E não por si mesma? — questionou, inclinando-se para ver melhor o único homem que já amara.

Para ser franca, tinha que admitir que não a desagradava a idéia de ter Sam em sua vida.

Não era como se fosse se casar com ele. Não seria res¬ponsável por envolvê-lo num relacionamento de conveniên¬cia, em vez de baseado no amor.

Mas saber como ele era, onde estava, o que fazia...

Só ficar sabendo...

Ela dissera não?

Não?

Sam ainda não acreditava.

Ou talvez acreditasse. As mulheres pareciam não querer se casar com ele. Primeiro Izzy, agora Josie. Por quê?

Andava tão tenso que começou a sentir dor de cabeça. Forçou-se a respirar fundo, mas não conseguiu relaxar. Fi¬cou andando junto à encosta, olhando para a cidade sem ver nada. Só vislumbrava o desastre que acontecera à tarde. Não, o desastre que acontecera em sua vida.

Não se achava uma pessoa difícil. Com certeza, podia sustentar uma esposa num padrão muito acima do normal. E não era um homem feio.

Ou era?

Não, raios, não era.

Então, qual era o problema?

— Quando me casar, vai ser por amor — resmungou, imitando a voz de Josie, ao mesmo tempo que chutava uma pedra com força. — Bem, querida, eu também.

Deviam pensar na criança agora. Seu filho. O filho dela.

O filho deles.

Aquela criança devia a própria existência a circunstâncias deturpadas pela bebida, mas o ato de amor não fora incon¬sequente, sem sentimento. Podia não se lembrar de todos os acontecimentos daquela noite, mas seu corpo reagira mo¬vido a emoções.

Estava apostando que Josie ainda sentia-se atraída por ele!

Olhou por sobre o ombro na direção da casa. No andar de cima, viu uma cortina se movimentar. Remexeu o maxilar e estreitou o olhar.

— Acha que a resposta final é não, Josie Nolan? — sus¬surrou à mulher que sabia estar por trás das cortinas.

Bem, Sam Fletcher nunca recuava diante de um desafio.

Capítulo 3

Era o destino, concluiu Josie. De que outra forma explicar que, numa pou¬sada com vinte cômodos, Sam fosse se acomodar justamente no quarto ao lado do dela! Aliás, o quarto que fora de Hattie até sua morte...

E pensar que cogitara não hospedá-lo. A pousada estava lotada, até o terceiro andar, onde ficava o antigo aposento de Josie. Havia apenas três dias, ela, Benjamim e Cletus o prepararam para receber hóspedes.

— Você devia ficar satisfeito — comentara ela com Sam, quando ele observou que não havia vagas. — Outro quarto alugado significa mais lucro para você.

— Às favas com os rendimentos. Onde eu vou dormir?

Ele batera à sua porta por volta das dez horas e ela atendera cautelosa, mas ele não mencionara mais nada so¬bre casamento. Educado, perguntara onde poderia se ins¬talar, mas irritou-se ao saber que não havia vaga.

— Vou ver se encontro um lugar para você na pousada Taylor — prontificara-se Josie.

Tratava-se de outra hospedaria instalada em outra velha construção vitoriana, não tão bonita quanto a pousada de Hattie, mas bastante confortável.

— Vou dormir na saleta — declarou Sam, olhando por sobre o ombro dela para o sofá que ficava em seus aposentos.

Josie sabia que Hattie às vezes alojava Sam ali, quando não havia vaga.

Mas ela não era Hattie.

— Receio que não seja possível — declarou.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Por que não? Alugou esse espaço também?

Josie prendeu a respiração.

— Estou fazendo o melhor possível para administrar o seu negócio de maneira profissional e isso significa basica¬mente alugar quartos. É isso o que tenho feito. Isso não significa que deva renunciar a mim mesma.

— Você dorme na saleta?

— A saleta faz parte de meus aposentos.

Quase um apartamento, o amplo cômodo contava com dois ambientes, um quarto e uma saleta, além de um banheiro. Josie não dormia na saleta, mas não queria que Sam dormisse ali, tampouco. Seria íntimo demais, próximo demais.

— Você não demorou para se mudar para cá, não é? — observou ele, acusador. — Tia Hattie está na cova há quanto tempo? Duas semanas?

Josie empalideceu, como se houvesse levado um tapa. Ele passou a mão na nuca e resmungou:

— Desculpe-me, não quis dizer isso. Geralmente, não sou tão rude.

— Pois sim — ironizou ela.

Sam observou-a.

— Também, não é todo dia que um homem descobre que vai ser pai.

Josie contraiu os lábios e abraçou a si mesma, protegen¬do-se, mas não ia pedir desculpas.

— Vou ligar para a outra pousada.

— Não se incomode. Vou dormir na copa.

— Josie arregalou os olhos.

— Na copa?!

— Qual o problema? Alugou o local também?

— Ora, Sam, só tem uma namoradeira ali!

— Para mim, serve.

Josie olhou para o teto.

— Não seja ridículo.

— É isso, ou você me deixa ficar na saleta...

Josie cerrou os dentes.

— Na saleta, não.

Sam ergueu o sobrolho, malicioso.

— Não é como se nunca tivéssemos estado tão perto...

Ela sentiu o rosto queimar.

— Eu disse não!

Sam recuou um passo e ergueu as mãos, defensivo.

— Tudo bem. Vou ficar na copa, então.

Vendo-o seguir para a escadaria, Josie insistiu:

— Vou ligar para a outra pousada!

— Faça o que quiser. Eu não vou embora.

Josie olhou-o frustrada e irritada.

— Vá em frente! Durma na namoradeira! Arranje um torcicolo. Vai ser bem feito por sua teimosia.

E bateu a porta, determinada a ignorá-lo. Dali a um pouco, chegaria um casal de hóspedes e, normalmente, aguardaria na copa, lendo ou vendo televisão.

Não tinha mais aquela opção.

Assim, permaneceu no quarto, ora lendo, ora dando voltas pelo aposento. No horário previsto para a chegada do casal, o telefone tocou. Era a esposa, cancelando a reserva.

— Desculpe-me por ligar tão tarde — pediu ela. — Foi uma emergência de família.

— Sem problemas — assegurou Josie. Então, desligou e fechou os olhos. — Oh, raios.

Não precisava avisar Sam. Estava decidida a não avisá-lo.

Mas em sua vida já passara noites dormindo em locais desconfortáveis o bastante para se compadecer, até mesmo por Sam. Relutante, desceu até a copa.

Estava escuro, mas o luar entrava pela janela alta e estreita, Sam estava deitado na namoradeira, todo desajeitado.

— Veio ver se estou confortável? — disparou ele.

— Vim avisar que você pode ocupar o quarto que cha¬mamos de Coleman — respondeu Josie, com os dentes cer¬rados. — Os hóspedes acabaram de cancelar a reserva.

Ao luar, ela discerniu o sorriso sarcástico que ele deu antes de se levantar. Trajava apenas um short masculino.

E Josie retornara febril ao quarto, a imagem de Sam seminu grudada em sua mente.

Agora, constatava que tê-lo no aposento ao lado, com apenas uma parede a separá-los, era pior do que imaginara.

Subiu na cama e puxou o lençol até o queixo. Determi¬nada, deu as costas à parede. A lembrança. A Sam.

Não adiantou. Sabia que ele estava ali.

Assim como estivera da última vez...

Era o dia de seu aniversário. Nove de setembro. E estava convencida de que aquele seria o aniversário mais especial de todos os tempos.

Durante anos, fingira indiferença em relação ao próprio aniversário, por ser filha adotiva. Evitavam-se decepções quando não se esperava muito de ninguém. Mesmo quando morava com os próprios pais, tudo era tão imprevisível que aprendera a não esperar nada.

Só ao ir morar na pousada com Hattie e Walter, passou a comemorar o aniversário, pois eles faziam questão. Fora o mais próximo de uma família de verdade, e aniversários de verdade, que já tivera.

Quando completara quinze anos, Sam estivera presente a comemoração e até lhe dera um presente.

Naturalmente, sabia que ele não havia escolhido nada es¬pecial para ela. De volta ao país após sua primeira viagem ao Oriente, passara em Dubuque para visitar Hattie e Walter.

Era a primeira vez que o via, e suas fantasias tomaram uma nova dimensão. Comparado aos rapazes do colégio, Sam era como um deus. Elegante, de corpo bem feito,e rosto bonito, ele fazia disparar seu coração adolescente. Não se sentia atraída somente pela bela aparência dele, mas lambem pelo entusiasmo com que se dispunha a ajudar Walter. Longe de considerar as tarefas braçais indignas de sua pessoa, ele despira a camisa e pusera mãos à obra, rindo e conversando o tempo todo.

Sam e Walter lembravam marinheiros com suas histórias de viagens. Josie não se interessava muito pelas do pai adotivo, mas ouvia fascinada as que o rapaz contava. Mergulhando nos detalhes, era como se o acompanhasse em cada uma da¬quelas aventuras por países longínquos e exóticos.

Sam devia ter notado e apreciado tanta atenção, tanto que lhe oferecera o presente no dia de seu aniversário.

— É só uma lembrança que comprei nesta viagem — comentara, quase pedindo desculpas, enquanto ela abria o embrulho. — Nada de mais...

Para Josie, porém, foi como ganhar o mundo. A miniatura de cavalo esculpido em jade era de uma beleza indescritível. Acariciando o objeto, sorriu e manteve-o na palma da mão.

— Obrigada — murmurara ela, a emoção nos olhos. — Será meu tesouro.

Ele pareceu desconcertado.

— Não é grande coisa.

Para Josie, era tudo.

Ainda tinha a miniatura sobre o criado-mudo. Ainda se lembrava daquele aniversário como o melhor que já tivera. Meses depois, ainda sonhava comemorar todos os aniver¬sários de sua vida com Sam.

Por fim, tornou-se adulta e deu-se conta de que contos de Cinderela não aconteciam na vida real.

E ficou satisfeita quando Kurt começou a cortejá-la. Ele não era formidável, como Sam, mas era tranquilo, compe¬netrado. Não era tão viajado quanto Sam, mas com certeza fora muito além do que ela mesma. Estava sempre ocupado e quase nunca lhe dava atenção. Mas ele precisava dela, enquanto Sam, não. Já era um começo.

Conhecera Kurt quando fora preparar biscoitos para uma quermesse na igreja. Ele devorara toda uma fornada, elo¬giando e comentando o quanto estavam maravilhosos. A partir de então, ela participara da organização de vários eventos na igreja e até datilografara os trabalhos que Kurt precisava apresentar para obter o grau de pastor, enquanto ele "cuidava do rebanho".

Josie orgulhava-se por merecer a companhia de um futuro pastor, tão inteligente, nos poucos momentos livres de que ele dispunha. Não havia mesmo muitos outros homens con¬correndo a esse privilégio...

Se bem que o único homem que ela já desejara era Sam Fletcher.

Então, soube que ele estava noivo.

Espantou-se com o desespero que sentiu na tarde em que Hattie deu-lhe a notícia. Afinal, nunca acreditara que um homem sofisticado como ele poderia se interessar por ela, correto?

Bem, não, mas...

Até aquele momento, contrariando toda a razão, ousara ter esperança.

De repente, seus sonhos viravam pó ante o compromisso firmado entre Sam e Isobel Rule. Não havia mais esperan¬ças. Concentrara-se em Kurt.

Não obstante, ficara surpresa quando ele a pedira em casamento, em maio.

— Você quer se casar? Está falando de nós? — questionou ela, sem saber se ouvira direito.

Kurt sorriu, assentiu e inclinou-se para beijar-lhe os lábios.

— Claro que estou falando de nós — confirmou. — Por que não? Nós formamos uma bela dupla.

Por que não?, considerara ela. De fato, eles formavam uma boa dupla. Kurt tomava conta do mundo e Josie tomava conta dele.

— Você me ama? — indagara ela.

— Claro que eu a amo.

Ela sabia o que aquilo significava: Kurt amava todo mundo. Mais tarde, sozinha, repetira seus nomes:

— Kurt e Josie. Josie e Kurt. — Gostava do som. Fazia com que se sentisse parte de alguma coisa.

Não tinha o mesmo apelo de "Sam e Josie", mas... que remédio?

Além disso, amava Kurt, da mesma forma que ele a amava. Considerando tudo isso, disse sim. Planejaram casar-se no ano seguinte, depois que Kurt obtivesse seu grau e conseguisse uma paróquia na qual pregar. Parecia muito tempo, mas ela não se importava em esperar. Formariam um casal.

Para o aniversário de Kurt, em julho, Josie fizera reservas num restaurante romântico junto ao rio. Dedicara um bom tempo escolhendo o presente, até optar por uma coleção de trabalhos de teologia que ele admirava e um CD de um conjunto a cujo show ele assistira em Chicago. Também tricotara um suéter em tons azulados que realçavam a cor dos olhos dele e preparara mais uma fornada dos biscoitos que ele tanto adorava.

Kurt ficara maravilhado. Beijara-a e dissera que aquilo tudo significava muito para ele, que ela significava muito para ele. Em seguida, desculpara-se, pois não poderiam jan¬tar juntos devido a uma reunião na igreja.

Josie compreendera. Sem graça, cancelara as reservas. Ha¬veria outras oportunidades, assegurara ao noivo e a si mesma.

— Claro que haverá — prometera ele. — Iremos no seu aniversário..

Ela se agarrara a essa idéia e, em setembro, fizera novas reservas.

Talvez devesse ter deixado a iniciativa para Kurt. Assim, talvez ele houvesse se lembrado...

Na noite anterior, quando ele passara na pousada para jantar e pegar os trabalhos datilografados, ela lembrara:

— Não se esqueça do jantar amanhã. Às seis e meia.

— Claro — repetira Kurt, distraído, e a beijara na testa. Ela o observou descer a rua, a cabeça baixa, já revisando o trabalho acadêmico.

— O que você vai preparar para ele amanhã?

Josie levara um susto ao ouvir a voz de Sam às costas. Acreditara já ter-se habituado à presença dele na pousada, naquelas duas semanas que ele passara lá, calado e amuado, atirando-se ao trabalho ao menor pedido da tia.

Até esperara que ele desabafasse, mas ele só pensava em serrar, martelar e parafusar.

A explicação viera de Hattie:

— Ele desmanchou o noivado.

Josie tentara ignorar a onda de alegria que assolou seu coração. Na verdade, tentara desesperadamente ignorar Sam. Não queria mais amá-lo, considerando que ele nem notava sua existência. Além disso, tinha Kurt.

— Ele vai me levar para jantar fora — esclarecera, em resposta à pergunta de Sam.

— E ele sabe disso? Você escolheu o restaurante e fez as reservas.

— Porque eu quero ir lá — justificara Josie, cerrando os dentes. Eu fiz as reservas porque Kurt é muito ocupado.

— Ocupado com todo mundo, menos com você.

— Ele tem tempo para mim — teimara ela. — Ele vai me dar toda a atenção amanhã à noite.

Sam desdenhou.

— Se ele se lembrar...

Josie sabia que Sam testemunhara a distração de Kurt mais de uma vez naquelas duas semanas, chegando a co¬mentar a respeito.

Josie sabia que o noivo não era perfeito, mas Sam não escolhera bem seu par, tampouco. Isobel Rule o dispensara.

— Não se preocupe comigo — finalizara Josie, chateada.

— Não vou me preocupar.

"Kurt não vai se esquecer", acreditara ela. Claro que não. Ele sabia o quanto aquela comemoração significava para ela.

Na noite do aniversário, Josie preparara o jantar para Hattie e Sam, mas não fizera a refeição, evidentemente. Em vez disso, subiu para se aprontar. Depois, sentou-se na recepção e aguardou, sorrindo contente enquanto conversa¬va com os hóspedes. Deu seis e meia. Sete horas. Inquieta, ela deixou de prestar atenção aos comentários dos hóspedes.

Sam aparecera vindo da adega com uma garrafa de uísque, brindando a sua presença ainda na pousada. Ela des¬viara o olhar.

Às sete e quarenta e cinco, ela pediu licença e foi até a varanda, ainda sorrindo, mas um pouco preocupada. O carro de Kurt não era dos mais novos e não estava em boas con¬dições. Teria apresentado problemas?

Ela olhou para o fim da rua. Foi até a encosta e estreitou o olhar para tentar localizar o carro. Ficou esperando do lado de fora até as oito e meia. Sozinha.

Finalmente, às nove, desistiu. Foi para a recepção, de cabeça baixa, grata por Sam não estar ali para tripudiar.

Hattie estava descascando maçãs. Ao vê-la, franziu o cenho.

— Já de volta?

Josie esboçou um sorriso.

— Nem saí. Kurt deve ter tido alguma emergência. — Desejou que a voz não houvesse saído trêmula.

— Nesse caso, teria telefonado — observou Hattie.

— Talvez não tenha encontrado um telefone. — Josie pegou a faca de legumes da mão de Hattie. — Pode deixar que eu faço isso...

Precisava se ocupar. Precisava não pensar em nada. Pre¬cisava não se magoar.

Após cumprir aquela tarefa, começou a arrumar a cozi¬nha. Dobrou os guardanapos em forma de cisne, desdobrou-os e dobrou-os novamente em forma de gaivota. Poliu a cafeteira, a chaleira, a bandeja, o porta-creme e o açucareiro. Durante todo o tempo, manteve-se atenta ao som de passos e reprimiu a vontade de verter lágrimas.

Venha, Kurt, desejou, silenciosamente. Por favor, venha.

Ele não veio.

Convenceu-se de que ele tivera um bom motivo. Estava sendo tola em dar tanta importância ao fato. Era ridículo ficar tão magoada.

Mas estava. A dor residia ali dentro, real. Reais também eram as lágrimas, que deixou extravasar, sozinha no quarto, depois das onze horas.

Josie não chorava à toa. Era um moça do tipo durona, que nunca se deixava abater.

Mas naquela noite ela chorou.

Despiu o vestido rosado de organdi que comprara espe¬cialmente para aquela ocasião. Passou a língua pelos lábios

enquanto guardava a peça no guarda-roupa. Foi ao banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes. Desfez o coque elaborado que fizera no cabelo à tarde. Durante todo o tempo, soluçou, piscando forte, tentando controlar as lágrimas.

Ao apagar a luz e ajeitar-se sob as cobertas, porém, elas rolaram.

Devagar, foram brotando entre pálpebras. Tentou apla¬cá-las. Engoliu em seco, sentindo dor. Mentalizou que devia desistir. Mas daquela vez não houve argumento.

Chorou.

Chorou pelo jantar perdido, pelo aniversário solitário, pela tola esperançosa que fora, pela idiota que era. Chorou pela menininha que sempre ficava do lado de fora, observando. Chorou pela moça a quem ninguém parecia dar importância.

Não sabia por quanto tempo chorara. Por fim, percebeu uma batida à porta.

Engoliu em seco, nervosa, tentando aplacar os soluços, tentando se recompor. A última coisa que desejava era um dos hóspedes reclamando de seus soluços! Não estava fazendo tanto barulho, estava?

Não, claro que não. O quarto a seu lado estava ocupado por Sam, mas ele não devia estar lá em pleno sábado à noite. Deviam ser os hóspedes da suíte, precisando de tra¬vesseiros, de café ou do telefone sem fio. Quando eles se registraram, informara-os de que, se precisassem de qual¬quer coisa, poderiam chamá-la a qualquer hora.

Josie enxugou as lágrimas no lençol. Vestiu o robe e ca¬rimbou o sorriso de gerente de pousada no rosto ao abrir a porta.

Era Sam.

— Você está bem? — indagou ele.

A voz dele saiu tão suave quanto a batida na porta, e ele já não exibia a expressão irônica. Parecia meio desolado, com os cabelos meio desgrenhados, como se ele os houvesse penteado com a mão, e a camisa desabotoada, para fora da calça jeans.

Josie suprimiu um soluço e assentiu, piscando para lim¬par os olhos.

— Claro, estou ótima.

— Eu ouvi você chorando.

Ela quis negar. Não queria que Sam Fletcher conhecesse suas fraquezas. O problema era que ele já conhecia. Encolheu os ombros, desajeitada.

— Não é nada grave.

— Ele deu o bolo? — Não havia censura na declaração, nem mesmo o tantinho que Hattie sempre usava. Ele parecia triste.

Josie encolheu os ombros novamente.

— Tenho certeza de que ele teve um bom motivo. Sam não parecia tão crente.

— Espero que sim.

Josie tentou captar o sarcasmo que sempre permeava qualquer comentário de Sam com relação a Kurt, mas não notou nada.

— Precisa de alguma coisa? — perguntou, finalmente. Ele ergueu a mão e ela notou a garrafa que ele trazia.

Uísque irlandês.

— Dizem que a miséria adora companhia — comentou ele. — Venha tomar uma bebida comigo.

Josie franziu o cenho.

— Uma bebida?

— É seu aniversário, não é? Vamos comemorar.

A voz dele estava meio arrastada e Josie olhou-o desconfiada.

— Você está bêbado, Sam?

— Ainda não. — Ele ergueu a garrafa mais uma vez. — Mas estou me esforçando.

— Por quê?

— Vamos, Josie. Vai ficar aí sentada sentindo pena de si mesma a noite toda? É só o seu aniversário, não a noite de seu casamento. Você não é a primeira nem vai ser a última a levar o cano, sabe.

Então, ela entendeu.

Perdida em sua própria miséria, esquecera-se completamente de que naquele sábado Isobel casava-se com outro homem. De repente, brotou em seu peito um sentimento de pro

teção por aquele homem parado em sua frente. Bonito, forte, inteligente, justo, Sam era perfeito. Sam, o homem a quem amava platonicamente desde os quinze anos. Como Isobel pudera preferir outro?

— Oh, Sam...

Ele franziu o cenho, interpretando as palavras como uma recusa.

— Não é bom beber sozinho. Não quer que eu faça isso, quer? — Ergueu o canto do lábio de forma triste. — E o melhor uísque de Walter — anunciou, erguendo a garrafa. — Peguei de uma reserva que o meu estimado tataravô deu a eles em seu casamento. Só restam cinco garrafas.

Josie arregalou os olhos. Aquelas garrafas eram pratica¬mente sagradas.

— E você pegou uma?

— Hattie não se importa. E pareceu apropriado. — Ele ergueu a garrafa mais uma vez. — Eu tinha que brindar à felicidade da noiva, não tinha?

— Oh, Sam —' repetiu Josie.

O tom triste na voz de Sam combinado ao amor reprimido de Josie levou por água abaixo os últimos vestígios de bom senso de ambos.

Josie saiu ao corredor, fechou a porta do quarto e acom¬panhou Sam.

Ele abriu a porta do aposento dele, que deixara apenas encostada, e ficou de lado para que ela entrasse primeiro.

Josie ainda hesitou por um segundo. Mas foi só um segundo.

Não queria ficar só naquela noite. Não mais do que Sam.

Ambos tinham sido passados para trás. Poderiam conso¬lar um ao outro. Sorrir um para o outro. Beber um pouco do uísque maravilhoso de Walter.

Que mal faria?

Sam entrou depois dela e fechou a porta.

Aquele aposento era um dos menores. Mas parecia menor do que nunca com o fogo crepitando na lareira e a cama

de latão parecendo maior do que quando ela a arrumara naquela manhã.

Sam preparou duas doses de uísque. A garrafa já estava quase vazia. Ótimo, pensou. Assim, não perderia a cabeça.

— Sente-se — convidou ele.

Josie olhou ao redor. A cadeira de balanço estava cheia de livros, papéis e convites para congressos. Não havia lugar, exceto... na cama.

Passou a língua pelos lábios, olhou para a cadeira mais uma vez, esperançosa, desejando que houvesse ficado vaga. Ilusão.

Sam observava-a, aguardando que se decidisse. Se ela ten¬tasse remover os objetos da cadeira, ele a acharia ridícula. Era evidente que não a relacionava a assuntos de alcova!

Ela respirou fundo e sentou-se na cama, constrangida. O colchão cedeu um pouco e sentiu-se idiota por estar tão na beirada. Apoiou-se contra os travesseiros e aceitou o copo com uísque.

Seus dedos se tocaram apenas por um instante, mas es¬tabeleceu-se uma corrente, semelhante à da eletricidade.

Oh, Josie, sua idiota. Sua sonhadora.

Sam pousou a garrafa sobre o criado-mudo, ergueu o copo para brindar e esboçou um sorriso triste,

— A eles — saudou.

Josie sabia o que ele queria dizer. No seu caso, Kurt. No caso dele, Isobel.

Ela encostou o copo nos lábios. O líquido frio atingiu-lhe a língua, ardendo e anestesiando ao mesmo tempo. Manti¬nha os olhos úmidos fixos em Sam. Engoliu a bebida.

Sam passou a língua pelos lábios sem deixar de encará-la.

— A nós. Nós?

Josie observou-o. Engoliu em seco. Estremeceu. Mas Sam já estava tomando outro gole. Então, também tomou. A nós. Ainda sentia os efeitos do primeiro gole, um calor que já chegava à ponta dos pés. O segundo gole pareceu suavizar, anestesiar. Segurou o copo com mais firmeza. Sam estava de pé junto à cama, olhando-a de cima.

48

— Tome tudo — sugeriu.

Josie hesitou por um instante, então, aceitou a sugestão. Ele se sentou na cama e recostou-se à cabeceira ao lado dela. O calor de seu corpo atravessava o tecido fino de seu robe, mais ardente que o efeito do álcool. Tentou se afastar. Sam segurou-a pelo joelho.

— Não — pediu ele, rouco. — Fique.

Josie fitou-o no rosto. Os olhos castanhos dele estavam a poucos centímetros dos seus. A boca estava quase no mes¬mo nível da sua. Sob a luz difusa da lareira, via nitidamente sua barba por fazer, o dente da frente levemente lascado, que ele dissera ser lembrança da infância, e a marca quase imperceptível de catapora que transformara-se em covinha. Desejou poder tocá-la.

Era perigoso demais.

Josie tomou mais um gole do uísque. O perigo diminuiu.

Era só Sam. Nada podia acontecer entre ela e Sam. Em dez anos, nada acontecera.

Então, ele a beijou.

Josie pensou que fosse a bebida, provocando-lhe alucina¬ções. O toque dos lábios dele era suave e cálido. Mais gentil que o uísque. Mais caloroso. Mais suave. Mais reconfortante. Não feria. Mas a ardência estava lá. Lenta e possessiva. Como uma chama, tremeluzente, crescente e muito consis¬tente em seu calor e luz.

Sam estava beijando-a!

Era loucura, convenceu-se. Era tolice. Era errado.

Aquele era Sam.

Ela fechou os olhos e entreabriu os lábios. Experimentou o gosto da língua dele. Apresentou alguma resistência, mas não por muito tempo. Logo, mordiscou os lábios. Só um pouquinho. Só para ver. Para tocar. Para sentir o gosto.

O gosto dele era bom. Mais do que bom. Maravilhoso. E, quando ele abandonou os lábios para trilhar seu queixo e rosto com beijos, reclamou, querendo-o de volta. Mas o es¬tímulo da pele áspera dele contra seu rosto era quase tão bom quanto o beijo na boca. Sem perceber, gemeu de prazer.

49

O desejo que Josie acumulara dentro de si desde que conhecera Sam começou a aflorar, a se mostrar, a responder ao toque.

Aquele era Sam!, afirmou a si mesma. Sam!

A razão ainda tentou adverti-la. Mas o corpo só respondia: Sim. Sim, é. E o coração parecia só dizer: Finalmente.

Um fio de juízo tentava se impor, protestando: Não de¬vemos... Josie empurrou Sam de leve no peito, na tentativa de afastá-lo.

O que deveria dizer, ou fazer, se ele concordava? Se ele dizia: "Eu sei. Eu sei", mas não parava? Se ele continuava distribuindo aqueles beijos suaves e gentis, um— melhor do que o outro?

Parecia certo estar nos braços dele.

Quando, imaginou, estivera em seus braços? Não impor¬tava. Estava lá. Acolhida. Sentindo-se segura. Sentindo-se a salvo.

Não, um copo de uísque não podia deixá-la tão confusa.

— Sam, não podemos...

— Shhh — sussurrou ele contra seus lábios. — Nós não vamos.

Então, ele se levantou da cama e foi encher seus copos novamente. De volta, aninhou-a junto ao braço e descansou o queixo sobre sua cabeça. — Não vamos — repetiu ele, a voz suave e arrastada. Tomou mais um gole.

Josie imitou-o.

— Ele é um idiota — comentou Sam, finalmente. To¬mando-lhe a mão, entrelaçou seus dedos.

— E ela também — sussurrou Josie, acariciando-lhe os dedos. Sentiu que ele sorria.

— Ela não pensa assim.

Josie queria que ele olhasse para ela. Ergueu a mão e tocou-lhe o rosto, passando o dedo ao longo do maxilar. Es¬tavam tão próximos que quase podia acariciá-lo com os cílios. Como não podia enxergar nada, simplesmente o beijou.

Josie achou engraçado o fato de ter considerado o beijo que partilharam havia poucos minutos uma aberração, uma oportunidade única na vida, e, pouco depois, acreditar que Sam era tudo o que sempre esperara na vida.

— Lamento — sussurrou ela, junto à boca dele. — La¬mento muito. — Pela dor dele, quis dizer. Pela dor que Isobel lhe infringira.

Não por aquilo.

Mas deveria lamentar o beijo. Era uma idiota por não lamentar. Não devia se sentir compadecida com a dor dele, mas com a sua própria.

Talvez estivesse.

Talvez sentisse pena dos dois e, por isso, o beijou. Por isso, deixou-o beijá-la. Novamente.

E novamente.

Aquela era uma das fantasias que imaginara durante os anos: a de que Sam finalmente a notaria como mulher e passaria a desejá-la.

Os beijos mudaram. Não tinham nada a ver com com¬paixão. Josie ficou imaginando quando Sam parou de mur¬murar a respeito de Kurt, declarando: Eu quero você.

Não sabia dizer, só sabia que havia fome de amor nos lábios dele quando se beijaram. Havia urgência e persuasão no toque. Ele procurava, experimentava, provocava, exigia.

Josie entendia a necessidade. Também a sentia. Não sa¬beria dizer quando a imagem de Kurt se dissipou de sua mente. Não saberia dizer quando se esqueceu do próprio aniversário, da solidão e dos sonhos. Tudo pareceu desapa¬recer diante da realidade daquele momento.

Da realidade de ter Sam.

Entregou-se à sensação quando ele começou a tatear seu corpo, alisando, acariciando, aprendendo a topografia cur¬vilínea. Ela permitiu que ele continuasse, pois queria .ser tocada. Por ele.

Jamais fantasiou que era Kurt no lugar de Sam. A bebida podia ter diminuído sua resistência, mas não a deixara con¬fusa. Sabia de quem era a mão que a tateava através da camisola. Sabia de quem era o corpo que reagia ao prazer, de quem era o hálito que lhe aquecia a pele do rosto. Sabia.

E sabia que não se importava.

Ou talvez se importasse demais, com o homem errado. Com Sam.

Não sabia o que Sam imaginava. Ou o quanto se importava.

Naquele momento, apenas tê-lo em seus braços bastava. Deleitou-se com a sensação despertada pela pele áspera dos dedos dele ao longo de seu braço. Estremeceu ao perceber que chegara a vez dos seios. Ele afastou seu robe, expondo-a.

De repente, só aquilo já não bastava. Josie precisava tocá-lo também.

Deitando-se de lado, experimentou passar a mão sobre o braço dele. Adorou o toque sedoso dos pêlos queimados de sol. Avançou para a parte coberta pela camisa, invadindo a área musculosa do tórax.

Nunca tocara o peito de Sam antes. Desejara, sonhara, mas nunca, até aquele momento, tivera a oportunidade.

O tórax musculoso era quente e firme. Também apre¬sentava pêlos e era tão rijo quanto o braço. Sam como um típico homem de negócios que passava a maior parte do tempo no escritório ao telefone, mas com corpo de quem necessitava dos músculos para viver. O que ele fazia quando não estava assinando documentos e viajando pelo mundo?

Não sabia. Mas queria saber.

Queria saber tudo sobre ele. O que ele achava de tudo, os sonhos que tinha, a resposta do corpo dele às suas carícias.

Ele inclinou o rosto sobre seus seios, estimulando-a com beijos úmidos através do tecido do robe. Ela estremeceu de prazer, de desejo. Agarrou-lhe os cabelos e arqueou o corpo, oferecendo-se mais completamente.

Ele tateou sua camisola e levantou-a até a altura dos quadris. Ela sabia que, se não quisesse seguir adiante, aque¬le era o momento de parar. Mas não o deteve. Agora, ele não poderia mais se conter.

Nem ela.

Talvez houvesse se iludido ao acreditar que poderia se casar com Kurt. Amava-o, claro que sim. Mas como a um irmão, jamais daquele jeito!

Os sentimentos que Sam despertava nela eram o resul¬tado de anos de cultivo. E eram tão fortes que pareciam inevitáveis.

Ele se ergueu um pouco para desabotoar a calça, mas suas tnãos estavam trémulas. Ele resmungou qualquer coisa.

Josie sorriu.

— Deixe que eu faço isso.

Ele ficou quieto, ofegante, enquanto ela lhe desabotoava a calça e baixava o zíper. Pressionou a palma da mão contra d órgão dentro da cueca e ouviu-o prender a respiração.

Num instante, ele se livrou da calça e da cueca.

Foi a vez de Josie ficar ofegante. Já vira Sam na piscina. Já imaginara a masculinidade dele, mas a realidade de tê-lo ali completamente nu ultrapassava suas fantasias mais delirantes.

Infelizmente, não havia tempo. Não quando Sam Fletcher, inteiramente nu, erguia-se sobre ela e alojava-se entre suas coxas. Não quando ela lançava os braços e pernas ao redor dele, adorando, e amando, cada centímetro daquele corpo.

Nunca fizera aquilo com Kurt, nem com homem nenhum. Devia estar assustada, preocupada. Devia sentir-se desa¬jeitada, cometendo erros, em pânico. Mas não sentia nada daquilo.

Não importava o quanto viesse a considerar errado no í aturo, naquele momento, parecia certo. Porque era Sam. Mesmo que a razão afirmasse que cometiam um erro, o coração argumentava que o amor justificava tudo.

Sentiu uma dor, rápida e aguda. De repente, a calmaria, enquanto Sam se posicionava sobre ela expressando choque e compreensão.

O tempo parou.

Sam parou. Um leve tremor de desespero tomou-lhe o corpo. Ele estremecia devido ao esforço de permanecer pa¬rado. Ela o viu engolir em seco e morder o lábio inferior, controlando-se.

Josie movimentou um dedo para acariciar-lhe a nuca.

Ele estremeceu e arqueou as costas, os olhos fechados e o semblante transtornado. Ela afrouxou o toque e acari¬ciou-lhe o rosto.

— Sam — sussurrou, e passou o dedo sobre seus lábios. — Meu Sam.

Ele perdeu o controle.

— Ah, Josie — murmurou, e enterrou o rosto em seu ombro, tomando-a completamente. Josie sentiu a dor crescer e, então, sem pensar, arqueou o corpo para que seus corpos se ajustassem melhor.

Sentiu que ele estremecia em seus braços e pressionou-se contra ele, mantendo-o bem seguro. Foi como se uma se¬quência de ondas suaves invadisse seu corpo pelas coxas. Não havia fogos de artifício. Não havia nenhum cataclisma.

Mas, por tudo o que era sagrado, havia amor.

E, sendo ela uma idiota, ainda havia amor.

Só porque Sam estava a poucos centímetros de distância, ainda que do outro lado da parede, flagrava-se revivendo aquele momento de amor.

Um momento que não tivera a menor importância para ele.

De repente, finalmente, compreendia isso.

Oh, pelo resto daquela noite, fora capaz de se enganar acreditando que ele a amava de verdade. Permanecera em seu quarto, em sua cama, abraçando-o enquanto ele dormia. Ficou ali, convencendo-se de que tudo daria certo entre eles.

Pela manhã, comunicaria a Kurt que o noivado fora uni equívoco, que ela não era a mulher certa para ele. E era a mais pura verdade. Conformara-se com aquela união ao saber que Sam ia se casar com Isobel.

Chegara a convencer-se de que o que sentia por Kurt era amor. Podia até ser. Mas não era o tipo de amor que sentia por Sam.

Não pudera impor-se a ele naquela noite. Quando ele se insinuou, não conseguira dizer não.

Agora, estava pagando o preço.

Casar-se com Sam?

Em certo momento, pensara que aquilo era a única coisa que a faria realmente feliz. Mas agora sabia que casar-se com ele quando ele amava outra mulher era o caminho mais rápido para a desilusão.

Não.

E repetia em voz alta:

— Não. — O som saiu fraco e sem emoção na tranqui¬lidade da noite. Tentou se agarrar à idéia.

Sam não a amava. Aquela noite acontecera por efeito do uísque, somado à necessidade dele de espantar a miséria o a solidão.

— Não — repetiu mais uma vez, mais convicta. Devia ter dito isso sete meses antes, sabia muito bem. E sabia tão bem também que estava contente por não ler dito. Passou a mão pela barriga, onde o filho de Sam aninhava-se.

Só por seu filho ousaria dizer sim.

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