Capítulo 2

Priscila Barcella

Depois de um voo de três horas e meia, aluguei um carro e dirigi por mais cinco horas, finalmente chegando em um pequeno povoado do município de Santo Antônio dos Milagres. A estrada era de terra e parecia que o tempo naquele lugar passava em câmera lenta e pouquíssimas coisas tinham mudado em 16 anos. As casas eram simples e a única diferença era nos fios de energia e novas construções, mas mesmo assim parecia existir apenas uma rua e uma praça como novidade.

Fui devagar pela estrada de terra batida até chegar na casinha onde crescemos. Pouquíssimas coisas tinham mudado, mas a única diferença era que, além do reboco, a pequena casa estava pintada de branco, que já estava amarelada, com dois quartos. Apesar de ser bem diferente da minha cobertura, estar naquele lugar me causava arrepios, como se as paredes pudessem falar ou apenas de ver sentir os arrepios pelo meu corpo me pedindo para fugir daquele lugar.

A casa estava cheia, e respirei fundo antes de sair do carro. Pedi coragem e dei ré indo até o pequeno cemitério ali perto.

Ele, diferente da minha antiga casa, me trazia alívio e como estava vazio, não demorei a ir até o túmulo da minha mãe e me sentei em cima dele.

— Oi mainha — falei, mas perdi a minha voz quando vi o túmulo da minha irmã ainda recém mexido. — Isso não é justo.

Falei tentando não chorar, eu não podia demonstrar fraqueza.

— Estou conseguindo, sabe mainha, estou vencendo na vida como eu te prometi, e sem chorar, eu não vou ser fraca — falei olhando para uma pequena foto e peguei o meu celular para tirar uma foto, não era nítido, mas conseguia ver alguma coisa. — Eu não lembrava como era o seu rosto, como a senhora era linda, cuida da Pilar, por favor. — uma lágrima teimosa insistia em cair, mas logo a limpei.

Voltei para o carro pouco tempo depois e precisei me recompor para voltar para aquele lugar.

Ao descer do carro, sujei meu salto em uma bolsa de lama, o que me deixou irritada, afinal, meu salto com certeza custava mais do que todos os bens daquela casa. A expressão de surpresa das pessoas ao me ver era clara. Haviam cerca de dez pessoas na porta e mais algumas na sala. Tirei meus óculos de sol, e uma menininha de cabelos castanhos, com um vestidinho simples, correu até mim com um sorriso enorme no rosto.

— Mainha, eu sabia que você não tinha morrido — a menininha falou correndo até mim e me abraçando. Eu simplesmente paralisei naquele momento, não estou acostumada com crianças, muito menos com abraços.

— Isabela, está aí, não é a mainha — disse uma garota que com certeza era a Iris, a filha da minha irmã, ela parecia muito com a minha irmã.

— Iris — falei quase em um sussurro.

— O que você veio fazer aqui, Priscila? — a vizinha e amiga da minha irmã perguntou. Eu nunca fui com a cara dessa garota e sinceramente não queria ver ninguém, mas todos os olhares estavam em mim.

— Oi, Amanda. Eu vim por causa dos meus sobrinhos — respondi. Ela tentou me olhar com desdém, mas eu a observei de cima a baixo. Realmente, esses anos não foram gentis com ela.

— Nós podemos cuidar deles — uma senhora disse. Eu a conhecia, e ela nunca me ajudou. — Eles não merecem viver como uma pessoa como você — ela falou tentando pegar a Isabela, que ainda estava segurando a minha perna.

— Priscila — ouvi meu nome em murmúrios, as pessoas me olhavam como se eu fosse um animal de zoológico. Eu simplesmente odiava isso.

— Então você é a Priscila — uma senhora de uns quarenta anos, um pouco acima do peso e baixa, falou. Eu não a conhecia. — Sou Samara, a assistente social responsável pelo caso dos seus sobrinhos. Falei com a sua secretária sobre o assunto.

— Sim, minha secretária já me explicou a situação. Podemos conversar em particular? — perguntei, e entramos no quarto que eu e minha irmã dividíamos. Agora, havia duas beliches e vários desenhos na parede.

Eu já estava ficando sufocada naquele lugar. Eu prometi a mim mesma que jamais voltaria ali, e nunca quebrei uma promessa.

— Sua secretária disse que viria para levar as crianças e explicou que você não poderia ficar aqui...

— Eu realmente sou a única parente deles? — perguntei, ainda incrédula. Ela fez que sim com a cabeça. — Eu sinceramente não sou a pessoa certa para cuidar de crianças. Eu trabalho muito, não tenho tempo para outro ser vivo.

— Se você não quer ou não pode, é um direito seu. Ninguém está te obrigando a nada. Preciso da sua decisão. Se não puder, eles serão levados hoje mesmo para o abrigo. Infelizmente, não posso mantê-los no mesmo lugar, pois têm idades diferentes e os abrigos mais próximos estão no limite. Hoje, há crianças demais no sistema, e, sinceramente, para os menores terem chance de serem adotados, seria a melhor opção — ela começou a me explicar.

Mesmo não suportando a ideia de ter crianças em minha vida, não podia separá-los. Eu devia isso à minha irmã.

— Os vizinhos querem cuidar das crianças e...

— Senhorita Alcântara, você cresceu nesta comunidade. Quando sua mãe morreu, você era muito pequena. Nos laudos, não conseguimos encontrar a idade de vocês, mas essas pessoas ajudaram de alguma forma? — ela falou, como se soubesse de algo a mais.

Sinceramente, se eu fosse sem eles, estaria deixando essas criaturas à própria sorte.

— Se as crianças não ficarem com você, a única opção que terão é um abrigo. Vou entender se você não quiser cuidar dos quatro.

Tive que tomar uma decisão. Eu nem sabia que minha irmã tinha quatro filhos, e ainda estava em choque. Só me perguntava como seria agora. Ela não poderia ter tido um pingo de juízo antes de trazer tantas crianças ao mundo. Quatro filhos não são o mesmo que quatro peixinhos dourados.

— Crianças, agora vocês vão ficar com a tia Priscila. Ela será responsável por vocês — Samara explicou para eles, que me olhavam. Havia uma adolescente, um menino de oito anos chamado Ítalo, que me olhava como se esperasse algo, e a pequena Isabela, que me lembrava muito a Pilar. Faltava apenas a Nina. Eu teria que aprender esses nomes.

Naquele momento, ouvi um choro de bebê e só esperava que não fosse a sobrinha que faltava. Caminhei na direção do choro, mas parei na porta do quarto. Simplesmente não conseguia entrar. A assistente social pegou a bebê, que era linda e estava vermelha. Quando ela me viu, parou de chorar por um momento. Fiquei com medo, algo que não sentia há muito tempo. A assistente tentou fazer com que eu a pegasse no colo, mas não sou boa com bebês, e ela parecia tão frágil. Por fim, acabei segurando meio sem jeito, ela ainda era meio molinha, mas a Samara me ajudou, pois quase a deixei cair. Eu só tinha pego um bebê no colo uma vez, e isso já fazia muito tempo.

— É bom conversar com ela, isso a acalma — a assistente social disse, saindo e me deixando sozinha com aquele projeto de gente.

— Oi, eu sou sua tia. Sei que não nos conhecemos, só espero que tudo dê certo — falei para a bebê, que tentava pegar meu seio.

Samara voltou com uma mamadeira e me mostrou como dar o leite. Tentei alimentá-la, mas parecia uma tarefa impossível. Vi ali que não seria fácil.

Como eu morava longe e não pretendia passar a noite naquele lugar. Sinceramente, não queria passar nem mais um minuto ali.

— Crianças, vão arrumar suas coisas — foi a única coisa que disse para os três.

— Tia — a pequena disse baixinho, abraçada no irmão, enquanto eu tentava dar leite para o bebê no meu colo.

— Oi, vocês não sabem arrumar suas coisas? — perguntei a ela, já sem paciência para o choro do bebê.

— Para onde vamos? — o menino perguntou.

— Vamos para minha casa. Agora, arrumem suas coisas e sem mais perguntas. Isis, ajude seus irmãos.

— É Iris, tia.

— Tanto faz, só se apressem. Temos que pegar um voo. Tenho uma reunião importante amanhã que não posso adiar. Vocês têm dois minutos a partir de agora — falei, e eles correram para arrumar suas coisas.

Fiquei na sala com o bebê que não parava de chorar e não comia. Estava ficando louca. Não aguentava passar nem mais um minuto naquele lugar. Depois de dois minutos, comecei a chamá-los, e eles vieram correndo com suas mochilas. Isabela estava agarrada a uma boneca de pano.

— Pegaram tudo? — perguntei, questionando o tamanho das mochilas.

— Faltam só as coisas da Nina. Vou pegar, mas podemos nos despedir? — Barcella perguntou.

— Se for rápido, sim. Agora, vão logo — falei, e eles saíram.

E como era esperado foi aquele choro sem fim, se despedindo dos vizinhos, e não demorei para colocar a cadeirinha do bebê no carro, depois de ver um tutorial na internet e minha sorte era que a minha irmã tinha uma.

— Você não deveria levar eles assim — a Amanda falou pegando a bebê do meu colo e dando o próprio o seio, o que fez ela se acalmar.

— Então fique com eles cri os quatro que eu mando o dinheiro — falei e ela se espantou este povo acha mesmo que eu tô aqui feliz da vida fazendo isso, até parece que eu quero quatro âncoras na minha vida.

— Só não fico porque eu tenho cinco filhos e as coisas não tão fáceis, mas eles acabaram de perder os pais e você vai os levar para longe pensar neles você deveria...

— Eu não deveria nada, eu estou fazendo uma favor em levar eles, e não se preocupe quando eles tiverem idade e quiserem volta eles vão fazer isso, agora só me deixa em paz — falei e ela se afastou sentada com a menina em uma cadeira na porta de casa.

Levou o tempo até longo para eles se despedirem, mas não reclamei porque a bebê estava se alimentando e quando a Amanda terminou me entregou a menina dormindo e a coloquei no bebê conforto, os outros mesmo precisando de cadeirinhas eu não tinha e só estava torcendo para não ser parados.

Finalmente saímos daquela cidade, o caminho foi completamente em silêncio da minha parte, mesmo eles chorando, mas eu tentei ignorar isso, é bom chorar limpa a alma, quando chegamos em Teresina, e pode ver eles encantados com certeza nunca tinham conhecido a capital, e como eu precisava resolver umas questões aluguei um quarto de hotel.

Pedi o jantar enquanto tentava comprar as passagens já que si estava tendo voos com muitas escolas demoradas e precisava pegar os documentos então o jeito era dormi ali e ir no outro dia cedo.

Eu praticamente não dormi e sair muito cedo para onde precisava ir de acordo com a assistente social e depois de duas horas já estava com os documentos e a guarda provisória, comprei as passagens, e para a minha tristeza a bebê acordou e tive que ficar balançando ela, tentando fazer ela comer, mas não tive sucesso, fui até uma farmácia comprei outras mamadeiras e uma chupeta para ver se ajudava a calar a boca desta menina.

Precisei comprar uma roupa para mim, e fiz o mesmo trazendo uma roupa para cada e quando cheguei no aeroporto eu já estava louca com aquela menina chorando.

— Me de ela — a íris pediu e eu a entreguei, já não sabia o que fazer, mas pelo jeito ela também não obteve sucesso, e ela cansou e me devolveu, a pequena tentava a todo custo pegar o meu seio, e sinceramente não entendia como um ser tão pequeno podia ter uma garganta tão potente ela só tem dois meses não deveria ter tanta força nas cordas vocais.

Vinte minutos depois, entramos na sala de embarque e a menorzinha está agarrada nas minhas pernas com medo, eles nunca tinham viajado de avião e estão nervosos, eu realmente não tinha noção do que estava fazendo, só queria acorda desse pesadelo.

Segurei a mão da pequena com a bebê no colo, logo atrás está o Ítalo e a Iris, eles olham para tudo e para todos, dando as mãos bem apertadas.

Por fim entramos no avião, nunca pensei que fosse ser tão difícil viajar com crianças, e muito menos que ira receber tantos olhares tortos por causa do bebê que só parou de chorar quando dormiu que foi exatamente quando o avião pousou em Brasília onde ficamos por três horas esperando o próximo vôo, as maiores foram comer e a pequena não aceitava por nada a mamadeira. O segundo vôo foi ainda pior que o primeiro, ela não parava de chorar.

Já tinha avisado a Joyce a hora que ia chegar para mandar o meu motorista, já eram quase uma hora da manhã eles pareciam cansados, a Isabela mesmo entrou no carro e dormiu logo em seguida.

Demorou um pouco para chegarmos no edifício onde moro, pedi para o Sebastião (o motorista) levar a Isabela enquanto estou com a bebê no meu colo, ela finalmente tinha adormecido e não havia comido nada e estou preocupada, eu nunca quis filhos porque sempre soube que sou péssima com crianças, agora eu tenho que cuidar de quatro e não faço ideia do que fazer, como será daqui para frente.

— Onde coloco ela? — o Sebastião pergunta.

— No último quarto do corredor esquerdo — falei

— A Senhora quer que eu acorde a Josefa.

— Não de maneira nenhuma já está muito tarde, coloca a menina na cama e pode ir para sua casa e tira a manhã para descansar.

— Obrigado senhora Barcella.

— Você mora aqui? — o menino falou olhando pela janela, e depois correu se jogando no meu sofá. — Você não tem televisão, não — ele falou indo até a minha parede e tocou em um botão e a tela virou mudando a televisão apareceu. —Uau olha o tamanho desta televisão Iris.

— Por favor não toquem em nada, a maioria destas peças são mais cara que os rins de vocês e eu não suporto marca de dedinhos, e já está muito tarde já passou da hora de vocês irem dormir, e vamos deixar bem claro uma coisa você não pode de maneira nenhuma mexer em nada sem pedir autorização antes — falei para eles e o menino abraçou as pernas da irmã e parecia ter se assustado. — Vamos podem subir que vou mostrar onde você vai ficar.

Subi as escadas com as crianças, deixei eles no quarto de hóspedes, lá possui apenas uma cama de casal, mas para quem dormia naquele quarto minúsculo está de bom tamanho, e eles ainda têm sorte deu ter este quarto com móveis a maioria dos cômodos estão vazios eu não gosto de visitas.

— Já está tarde, vocês se ajeitem aqui, depois resolvemos como vai ficar. Eu tenho uma reunião importante, então vocês vão ficar com a Josefa, ela é minha governanta, quando chegar vou passar as regras da casa, espero que o tempo que vocês passem aqui seja calmo e sem nenhuma confusão — falei antes de sair do quarto e ir para o meu com aquele bebê.

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Continua...

Capítulo 3

Você me ajuda a da um título para este capítulo. Priscila Barcella

— O que eu faço com o bebê? — perguntei a mim mesma, sem saber o que fazer.

Assim que entrei no quarto, coloquei-a na cama e a cercou de travesseiros, pois precisava tomar um banho. Fui para o banheiro e deixei a água tirar o suor e, junto com ele, as lágrimas. Eu precisava manter uma postura firme, mas minha irmã era toda a família que eu tinha. Enquanto começava a me ensaboar, ouvi um chorinho que se intensificava a cada minuto. Sem saber o que fazer, parei o banho, coloquei uma toalha rapidamente e peguei o bebê no colo, mesmo ainda estando molhada.

— Eu não sou a mamãe — falei quando ela tentou pegar meus seios desesperadamente. Ela estava com fome e eu não tinha o que ela queria.

Mesmo sendo uma e meia da manhã, decidi ligar para Natália, minha única amiga que sempre me ajudava. Embora não nos víssemos muito desde que ela se casou, teve filhos e se mudou para o litoral, ela sempre arranjava tempo para se envolver na minha vida, principalmente na parte amorosa. Como ela tinha filhos, eu imaginei que saberia o que fazer.

Ela atendeu prontamente no primeiro toque, o que me surpreendeu.

— Se não for uma emergência, eu te mato — ela falou assim que atendeu, e o choro de Nina aumentou ainda mais. — Você está com um bebê, não é? — ela perguntou, histérica.

— Eu não sei o que fazer, me ajuda por favor — implorei, sentindo a emoção transbordar.

— Você sabe que eu não sou boa com crianças, quem foi o louco que deixou um bebê com você? — ela falou, claramente chocada. Ela me conhecia muito bem. E pelo som da sua voz, eu podia dizer que ela estava se levantando.

— Minha irmã faleceu em um acidente com o marido e agora sou a única responsável pelos quatro filhos dela. Ela era louca por ter tantos filhos e eu estou perdida. Este bebê não para de chorar e se recusa a comer...

— Calma, amiga, estou a caminho. Para sua sorte, estou em São Paulo. Tive uma reunião que se estendeu até tarde, até te liguei, mas você não atendeu. Chegarei em quinze minutos — ela disse antes de desligar o telefone. Realmente, havia duas chamadas perdidas dela.

Quase dez minutos depois, consegui vestir um vestido que nem sabia que tinha e fui para a sala com o bebê ainda chorando no colo.

— Por favor, pare de chorar, pequena. Eu não sei o que fazer. Acho que o melhor seria deixá-los em um abrigo. Não tenho jeito com essas coisas. Eu não nasci para ser mãe — desabafei para o bebê que não cessava o choro.

A campainha tocou e fui atender. Natália estava de pijama com um sobretudo por cima.

— Que bom que você chegou. Olha, acho que ela está com defeito — brinquei, entregando o bebê para ela.

— Ah, que menininha linda. Deixe a Dinda ver essa fralda — ela falou, entrando.

— Dinda? — perguntei, confusa, enquanto ela examinava a fralda.

— Como a sua nova mãe não viu isso? — ela falou, e eu revirei os olhos. — Sério, amiga, ela deve estar toda assada por causa do tanto de xixi aqui.

— Eu sou a tia dela — corrigi, percebendo que o choro da bebê aumentava desde que ela a pegara no colo.

— Vou te ensinar a trocar. Onde estão as coisas dela? — mostrei a bolsa em cima do sofá e ela me ensinou a trocar, mas a pequena continuou chorando. — Ela está assada. Vou dizer o que você tem que comprar para tratar. Ela é muito pequenininha e tão linda. Você sabia que eu sempre quis uma menina.

— Você pode levá-la. Ela tem mais dois irmãos e um menino.

— Sua mãe é uma figura. Ela fala assim, mas é só da boca para fora. Viu, princesa da Dinda, eu sou a madrinha, não é? Sou sua única amiga — ela disse, e eu olhei para ela incrédula.

Tanta coisa estava acontecendo e ela continuava com essa história de que eu era a mãe.

— Você sabe que ela não é minha filha.

— Você não vai adotá-la? — ela perguntou e eu não sabia o que responder. Não sabia se queria ficar com essas crianças e apenas olhei para ela, o que ela interpretou como uma afirmativa. — Então você é a mãe. Será melhor assim do que ficar dizendo para ela que você não é a mãe. Quando ela crescer, você explicará tudo. Agora, em que momento você a alimentou? — ela perguntou.

— Já faz mais de sete horas. Ela nem pegou a mamadeira que dei. Veja, sou péssima nisso. O melhor para eles seria ficarem longe de mim...

Eu estava frustrada e exausta. Não aguentaria por muito tempo. Eu sentia isso.

— Não diga isso. Se você está com eles é porque, caso contrário, iriam para um abrigo. E veja, realmente é desafiador criar crianças, mas você é capaz. Você pode providenciar um futuro melhor para eles. Você pode contratar alguém para ajudar. Tem mães famosas com três, quatro babás, mal veem os filhos. Basta você seguir o mesmo caminho,e as babás te ajudarão muito. Você verá que será capaz. Vamos, vamos fazer a mamadeira dela — ela disse, me entregando a bebê que parou de chorar ao chegar nos meus braços. "Parece que ela gosta de você."

— Não, ela não gosta de mim. Ela me vê como a mãe dela, mas na verdade, eu sou a vilã — respondi, sorrindo, lembrando que eu era a Raquel das gêmeas.

— Você não é vilã, e ela gosta de você. Mas também está com fome. Henrique, com essa idade, estava sempre mamando. A pobrezinha está passando fome...

— Veja que isso não é para mim. Diga-me o que fazer com essas crianças. Nunca consegui manter um peixe vivo por mais de dois dias. Eu não sei lidar com isso...

— Mas você aprenderá. Sempre foi esforçada. Olhe onde chegou, Pri. Você aprenderá. Na verdade, é algo que terá que aprender, porque, queira ou não, é a única família deles agora — disse, revirando os olhos, embora soubesse que era a pura verdade.

Fomos para a cozinha e ela me ensinou a fazer o leite e colocar na mamadeira, na temperatura adequada. No entanto, a bebê não mamava, recusava a mamadeira.

— O que estou fazendo de errado? — perguntei a Natália, que me olhou com pena, expressão que eu detestava.

— Amiga, acho que sua irmã nunca deu mamadeira, chupeta ou qualquer coisa do tipo. Meu filho também só mamava no peito.

— E agora, o que faço? Deixo a menina morrer de fome?

— Calma um pouco. Realmente não sei o que você pode fazer. Que tal agendar uma consulta com o pediatra para explicar a situação? Ela saberá o que fazer. A pediatra do Henrique é muito boa. Vou marcar uma consulta para mais tarde.

— E até lá, ela ficará assim, chorando? Com fome?

— Não. Vamos tentar resolver a situação. Bebês choram, então, quando ela chorar, você precisará verificar se é cólica ou fome. Sei que você não gosta de crianças, mas agora terá que fazer um esforço. Você não é vilã...

— Eu sou, e não ligo para o que os outros pensam. Mas como conseguirei minha promoção com essas crianças? Nunca quis ter filhos porque não sei cuidar de outro ser vivo. Você mesma sabe quantos peixes eu já matei.

— Até eu desisti de ter peixes — ela disse, rindo e mexendo no celular.

— O que está fazendo? Não me diga que vai me dar um peixe.

— Pri, estou comprando um conta-gotas. Quem sabe assim ela se alimente. E estou comprando o remédio para assaduras e outras coisas de que você precisará na farmácia 24 horas. Vamos dar um jeito.

— Tem certeza de que não quer adotá-los? Você é boa com crianças, e eu não sei o que estou fazendo.

— Mas agora você aprenderá. Você sempre foi esforçada. Veja, você pode dar um ótimo futuro para eles, não será fácil, mas se você consegue gerenciar uma grande empresa, poderá gerenciar sua vida com seus "filhos" também — eu estava prestes a corrigi-la quando ela colocou a mão na minha boca. — Querendo ou não, agora são seus.

Eu ia dizer a verdade, mas ela me abraçou e naquele momento não consegui mais manter a pose, ela me conhecia muito bem e sabia que eu estava sofrendo.

— Não sei se consigo, Natália. Não tenho experiência em lidar com crianças. Eles sentirão falta de sua mãe, de sua família. Não sei se consigo preencher esse vazio.

— Você não precisa fazer isso de uma vez. Apenas esteja presente por eles, cuide deles, dê-lhes amor e carinho. Eles entenderão, mesmo sendo tão pequenos. E nós vamos te ajudar... vamos dar um jeito.

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Continua.....

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