Capítulo 2

A tela do celular iluminou o quarto escuro, e o nome que apareceu me fez parar de respirar.

Daniel.

Era uma mensagem dele. Depois de três anos de silêncio absoluto, bem na véspera do meu novo casamento, ele me enviava uma mensagem.

"Sofia, não se case. Fuja."

Meu coração disparou, batendo forte contra as minhas costelas. Era o número antigo dele, o mesmo que eu liguei incessantemente durante meses, sempre caindo na caixa postal ou ouvindo a gravação de que o número não existia mais.

Amanhã eu deveria me casar com Marcos, um homem bom e paciente que esperou por mim, que entendeu a minha dor. Mas Daniel... Daniel era diferente.

Ele desapareceu há três anos, no dia em que deveríamos nos casar pela primeira vez. Simplesmente sumiu. Deixou o carro no estacionamento da igreja, com a porta aberta e o celular no banco do passageiro. Sem bilhete, sem explicação.

Todos, incluindo minha mãe, meu pai, e até a polícia, chegaram à mesma conclusão: ele fugiu. Não aguentou a pressão do casamento, do futuro, da vida adulta. Um covarde.

Mas eu sabia que não era verdade. Eu sentia isso em cada fibra do meu ser.

Daniel nunca me abandonaria.

Ele me fez uma promessa. Algo que ele disse ser mais importante que a própria vida. Ele jamais quebraria essa promessa.

Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o celular cair. Li a mensagem de novo e de novo, cada palavra cravando um buraco de confusão e medo dentro de mim. Fugir? Por quê? O que ele sabia? Onde ele esteve todo esse tempo?

Instintivamente, cliquei no botão de ligar. O som que veio a seguir foi o mesmo de sempre, frio e eletrônico.

"O número para o qual você ligou está fora de serviço."

Uma onda de frustração e pânico me atingiu. Era uma piada de mau gosto? Alguém encontrou o celular antigo dele e estava tentando me atormentar? Mas o texto era tão direto, tão urgente.

Uma nova mensagem chegou, vibrando na minha mão.

"É sério, Sofia. FUJA. AGORA."

E mais uma.

"NÃO SE CASE."

A urgência era palpável, quase como se ele estivesse gritando comigo através da tela. O pânico começou a subir pela minha garganta, gelado e afiado. Eu precisava sair, precisava entender.

A porta do quarto se abriu com um rangido, e a luz do corredor invadiu a escuridão.

"Sofia? Você ainda não está pronta? O que está fazendo aí no escuro?"

Era minha mãe. Sua voz, normalmente cheia de carinho, agora soava tensa e impaciente. Ela estava obcecada com este casamento, com a ideia de uma cerimônia "perfeita" para apagar a vergonha do primeiro.

"Só... pensando um pouco, mãe" , eu disse, tentando manter a voz firme enquanto escondia o celular sob o cobertor.

Ela acendeu a luz, e a claridade me fez piscar. Ela carregava o meu vestido de noiva, uma massa branca e imaculada, como se fosse um artefato sagrado.

"Pensando? Não há tempo para pensar. Temos que fazer a última prova. Quero que tudo esteja impecável."

Ela se aproximou, e seus olhos de falcão imediatamente focaram na minha mão escondida debaixo do cobertor.

"O que você está escondendo aí?"

"Nada, mãe. É só..."

Antes que eu pudesse terminar, ela avançou e puxou o cobertor com uma força surpreendente. Mas meus reflexos foram mais rápidos. No último segundo, troquei o celular por uma pequena caixa de música de madeira que estava na minha mesa de cabeceira, um presente que Daniel me deu na infância. Minha mão se fechou ao redor dela.

Minha mãe viu a caixinha em minha mão, e seu rosto mudou. A obsessão pelo casamento deu lugar a uma expressão de desprezo.

"Isso? Você ainda guarda essa porcaria?"

Sua voz era carregada de um veneno que me chocou.

"Ele te abandonou, Sofia. Te humilhou na frente de todos. E você ainda se agarra a esse lixo que ele te deu?"

A forma como ela falou o nome dele, com tanto ódio, era estranha. Ela sempre expressou decepção, tristeza, mas nunca esse tipo de raiva crua. Fiquei paralisada, olhando para ela, sem saber o que dizer.

Capítulo 3

A pequena caixa de música de madeira parecia fria na minha mão. Eu me lembrava do dia em que Daniel me deu. Tínhamos dezesseis anos e estávamos sentados sob a grande mangueira no quintal da minha casa. Ele a esculpiu à mão, e dentro, tocava nossa melodia favorita. Era um símbolo, uma promessa silenciosa de um futuro juntos.

"Mãe, é só uma lembrança" , eu sussurrei, sentindo uma pontada de dor.

"Lembrança de quê? De um covarde?" ela gritou, sua voz subindo uma oitava. "Jogue isso fora! Agora!"

Ela tentou arrancar a caixa da minha mão, e sua reação foi tão desproporcional que me assustou de verdade.

"Pare com isso! O que deu em você?" eu gritei de volta, puxando meu braço.

"Eu não vou deixar você estragar este casamento também! Não vou! Você vai se casar com o Marcos e vai esquecer aquele desgraçado para sempre!"

Seus olhos estavam injetados de sangue, e ela agarrou meus ombros, sacudindo-me com força. O rosto dela estava a centímetros do meu, contorcido em uma máscara de fúria que eu nunca tinha visto. Era irracional, aterrorizante. Ela não era minha mãe naquele momento, era uma estranha furiosa.

"Mãe, você está me machucando!"

Ela me empurrou para trás, e eu tropecei, caindo sentada na cama. Por um breve momento, ela ficou parada, ofegante, com o peito subindo e descendo. Nesse instante de calma tensa, algo chamou minha atenção.

No grande espelho do guarda-roupa atrás dela, vi seu reflexo. E por uma fração de segundo, algo estava terrivelmente errado. O rosto dela no espelho pareceu... derreter. As feições escorreram para baixo, como cera quente, antes de voltarem ao normal tão rápido que pensei ter imaginado.

Meu cérebro gritou que era o estresse, o choque. Mas eu não conseguia tirar a imagem da cabeça.

Ela se virou para o espelho para arrumar o cabelo, tentando se recompor. E foi então que eu vi.

Minha mãe tinha uma pequena cicatriz branca acima da sobrancelha esquerda, de uma queda quando eu era criança. Eu beijei aquela cicatriz centenas de vezes. Era uma parte dela, tão familiar quanto suas próprias mãos.

Mas a mulher no meu quarto, a mulher que se parecia exatamente com a minha mãe, tinha a cicatriz acima da sobrancelha direita.

Um arrepio gelado percorreu minha espinha. Não era uma ilusão. Não era estresse. Era um fato. Um detalhe impossível de errar.

Esta mulher não era minha mãe.

O pânico ameaçou me sufocar, mas eu o engoli. Se eu gritasse, se eu mostrasse que sabia, o que ela faria? A fúria que vi em seus olhos... não era normal.

Ela se virou para mim, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos.

"Desculpe, querida. Eu só... estou muito nervosa. Quero que tudo seja perfeito para você."

Sua voz era calma de novo, mas agora soava oca, falsa.

"Tudo bem, mãe" , eu disse, minha voz um fio trêmulo. Eu precisava manter a calma. Precisava fingir. "Você tem razão. Eu vou... vou me livrar disso."

Fingi que ia jogar a caixa de música no lixo.

Ela sorriu, visivelmente aliviada. "Ótimo. Agora, vamos, coloque o vestido. Seu pai está esperando lá embaixo para te ver."

Meu pai.

Uma pequena faísca de esperança se acendeu em meio ao terror. Meu pai me protegeria. Ele acreditaria em mim. Eu só precisava chegar até ele.

"Claro, mãe. Vou me vestir agora mesmo" , eu disse, forçando o sorriso mais convincente que consegui.

Eu precisava sair daquele quarto. Precisava chegar até meu pai.

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