A cozinha da mansão Vitiello era uma vasta extensão de aço inoxidável e mármore frio, uma paisagem árida que espelhava o homem que a possuía.
Eu não era mais a dona da casa. Eu era a empregada.
"Quente demais", declarou Sofia, empurrando a tigela de sopa para longe.
Ela deslizou pelo balcão antes de tombar na beirada e se estilhaçar no chão.
Sopa de tomate escaldante espirrou nas minhas pernas nuas. O calor era lancinante, mas eu não vacilei. Por dentro, eu estava entorpecida demais para me importar.
"Limpe isso", ordenou Dante. Ele estava sentado na cabeceira da ilha, lendo um jornal, sem nem mesmo olhar para a queimadura que deixava minha pele vermelha e empolada.
Eu me ajoelhei.
Minha bolsa do DAV bateu no meu quadril, a bateria pesada arrastando o cós do uniforme de empregada que eu fora forçada a vestir.
*Zumbido-clique-zumbido.*
Era o único som na sala, além do raspar dos cacos de cerâmica.
"Faltou um pedaço", disse Sofia.
Ela se levantou, seu salto alto descendo com força na minha mão.
Eu arquejei, mordendo o lábio até o gosto de cobre encher minha boca. Ela moeu o salto nas minhas juntas, torcendo-o para causar o máximo de dor.
"Dante", ela choramingou, virando-se para ele com olhos grandes e inocentes. "Ela está me olhando como se quisesse me matar."
Dante ergueu os olhos bruscamente. Ele viu sua noiva — a mulher que ele acreditava ter salvado sua vida — sendo encarada pela filha do assassino de seu pai.
Ele se levantou, cruzou a distância em duas passadas predatórias e enterrou a bota nas minhas costelas.
O ar saiu dos meus pulmões em uma golfada violenta. Eu me encolhi em uma bola, agarrando meu lado onde o tubo entrava no meu abdômen. A agonia explodiu, branca e ofuscante.
"Nunca mais olhe para ela com desrespeito", rosnou Dante.
Ele me agarrou pelos cabelos, me arrastando pelo chão. "Você precisa se acalmar."
Ele me arrastou pelos corredores, passando pelos olhares julgadores dos retratos de seus ancestrais, até o porão. Ele chutou a pesada porta de aço da câmara frigorífica industrial — A Câmara Fria.
Ele me atirou para dentro.
Eu deslizei pelo chão de metal congelado, batendo em uma carcaça de boi pendurada. O frio me atingiu instantaneamente. Não era apenas frio; era uma agressão física. Minha circulação já era ruim por causa da bomba. O frio era perigoso. Engrossava o sangue. Fazia a máquina trabalhar mais.
"Dante", eu bati os dentes, que se chocavam. "A bateria... o frio a descarrega..."
"Ótimo", disse ele, com a mão na maçaneta. "Pense no seu pai enquanto congela."
A porta bateu. A escuridão me engoliu.
Eu me encolhi no canto, puxando os joelhos contra o peito em uma tentativa fútil de conservar o calor. O frio mordia meus ossos.
À medida que a hipotermia se instalava, a realidade se turvava. Vi Dante de três anos atrás, sentado ao lado da minha cama de hospital, segurando minha mão, prometendo-me o para sempre.
*"Eu queimaria o mundo por você, Elena."*
Agora, ele era o fogo, e eu era a bruxa queimando na fogueira.
O tempo perdeu o sentido. Meus dedos ficaram azuis. O *zumbido-clique-zumbido* da bomba do meu coração começou a desacelerar, o ritmo lutando contra o sangue que engrossava.
*Bip. Bip. Bip.*
O alarme de bateria fraca.
Fechei os olhos, acolhendo o silêncio.
De repente, a porta foi escancarada. Uma luz forte inundou o local. Um guarda estava lá, parecendo apavorado.
"O chefe mandou trazê-la para cima. Sofia cortou o dedo. Ela precisa de um curativo."
Ele me arrastou para fora. Eu não conseguia andar; minhas pernas eram blocos de gelo. Ele me largou no corredor.
Dante estava lá, enrolando cuidadosamente um pequeno band-aid no dedo indicador de Sofia, e depois beijando a ponta com ternura.
Ele olhou para mim, tremendo violentamente no chão, meus lábios azuis, minha pele cinza.
"Ela está viva?", ele perguntou ao guarda, parecendo desapontado.
"Por pouco, chefe."
Dante se virou de volta para Sofia. "Vamos para o hospital só por segurança, *amore*. Um corte pode infeccionar."
Ele passou por cima de mim.
Fiquei ali no chão frio, observando suas costas se afastarem. Tirei meu celular do bolso com os dedos rígidos e trêmulos. A tela se acendeu no corredor escuro.
Seis dias restantes.
A chuva de São Paulo era uma mistura gelada de gelo e lama cinzenta, um frio cortante que encharcava instantaneamente o tecido fino do meu vestido.
Estávamos no cemitério. À frente, o mausoléu da família Vitiello se erguia contra o céu de ardósia, um palácio escuro para os mortos.
"Saia", ordenou Dante do calor climatizado de seu SUV blindado.
Pisei no asfalto molhado, minhas pernas tremendo. Meu corpo era uma tapeçaria de hematomas da cozinha, meus pulmões ruidosos com o congestionamento de fluidos da pneumonia adquirida na câmara fria.
"Seu pai negou a vida ao meu pai", disse Dante, baixando a janela apenas um centímetro para que sua voz passasse pelo vento. "Você vai prestar suas homenagens."
Ele apontou para o caminho que levava à cripta. Não era pavimentado. Estava coberto de cascalho esmagado e, hoje, espalhado com brasas quentes que ele ordenara a seus homens que colocassem. Uma "Caminhada de Fogo" — uma antiga penitência siciliana.
"Rasteje", disse ele.
Eu olhei para ele, o pânico apertando meu peito. "Dante, por favor. Minha máquina..."
"Rasteje, ou eu desligo a bateria agora mesmo."
Ele ergueu o controle remoto.
Caí de joelhos. O cascalho afiado cortou minha pele instantaneamente, misturando-se com o frio cortante da chuva. O calor das brasas irradiava para cima, chamuscando a barra do meu vestido antes mesmo de eu me mover.
Comecei a me mover.
Cada centímetro era agonia. As pedras rasgavam. As brasas queimavam. Eu podia sentir o cheiro acre da minha própria pele queimando. O sangue se misturava com a chuva, deixando um rastro vermelho diluído para trás.
Dante dirigia o carro lentamente ao meu lado, acompanhando meu ritmo torturante. Sofia estava no banco do passageiro, rindo de algo em seu celular. Ela segurava uma xícara de chocolate quente, o vapor subindo zombeteiramente no ar frio.
"Olha, Dante", ela riu, gesticulando vagamente para mim. "Ela parece um cachorro."
Dante não riu. Ele apenas observava, seu rosto uma máscara de pedra. "Cães são leais. Ela é filha de um traidor."
Continuei rastejando.
*Zumbido-clique-zumbido.*
A máquina embutida no meu peito era minha única companhia. Concentrei-me no ritmo mecânico. Se parasse, eu pararia.
Cheguei ao túmulo. Meus joelhos eram carne desfiada. Minhas palmas eram queimaduras empoladas.
Dante saiu do carro. Ele caminhou até mim, agarrou a parte de trás do meu pescoço com um aperto de torno e bateu minha testa contra o mármore frio da lápide de seu pai.
*Crack.*
Sangue quente escorreu pelo meu rosto, misturando-se com a chuva e cegando um olho.
"Peça desculpas", ele sibilou no meu ouvido.
"Sinto muito", solucei contra a pedra. "Sinto muito."
"Mais alto."
"SINTO MUITO!", gritei, minha voz rasgando crua pela minha garganta.
Dante me soltou. Eu desabei contra o túmulo, uma boneca quebrada descartada na lama.
"Levante-se", disse ele, limpando a mão em um lenço de seda. "Temos uma festa para planejar."
Olhei para ele através de um olho inchado, a visão embaçada. "Festa?"
"O aniversário de Sofia está chegando", disse ele, envolvendo um braço em volta de Sofia enquanto ela saía do carro, pisando delicadamente sobre meu sangue com seus saltos de grife. "Ela quer uma grande celebração. Com tema de casamento."
Meu coração — o metafórico, a alma que eu ainda possuía apesar da bomba de plástico no meu peito — se estilhaçou.
"Mas...", sussurrei, minha voz mal audível sobre a chuva. "Nós deveríamos nos casar no aniversário dela."
"Exatamente", disse Dante, um sorriso cruel torcendo seus lábios. "Você já fez o planejamento. As flores, o local, a música. Está tudo pronto. Só vamos mudar o nome no convite."
Ele abriu a porta do carro para Sofia.
"Você pode voltar a pé", disse ele.
Eles foram embora, as luzes traseiras desaparecendo na névoa. Fiquei deitada no túmulo dos meus pais, a chuva lavando meu sangue, percebendo que meu casamento dos sonhos era agora a celebração da minha tortura.