Ponto de Vista da Grazi
O Grande Salão cheirava a perfume caro e dinheiro lavado.
Era o Baile de Gala Beneficente anual da Família.
Uma maneira educada e brilhante para a família criminosa Vitiello lavar seu dinheiro de sangue em público enquanto a elite da cidade aplaudia o espetáculo.
Fiquei ao lado da minha escultura.
Era uma fênix de um metro e vinte erguendo-se de uma cama de cacos de aço irregulares.
Passei seis meses soldando aquilo.
Minhas mãos estavam cobertas de pequenas queimaduras brancas do maçarico, cicatrizes que me recusei a esconder.
Eram a prova de que eu era real em uma sala cheia de falsificações.
— É agressivo — uma voz arrastada soou atrás de mim.
Não me virei.
Reconheci o cheiro enjoativo de Chanel Nº 5 e arrogância imediatamente.
Alexandria "Letícia" Moretti entrou no meu campo de visão.
Ela usava um vestido vermelho que custava mais do que o seguro de vida dos meus pais.
Ela segurava sua taça de champanhe como uma arma.
— Grazi — disse ela, o sorriso não alcançando os olhos. — Ainda brincando com sucata? Parece perigoso. Alguém pode se machucar.
Ela petelecou a asa da minha fênix com uma unha manicurada.
— Cuidado — sinalizei, meus movimentos bruscos.
Ela riu. — Ah, é. As mãos. Esqueci que você não usa palavras.
Jonas apareceu atrás dela.
Ele parecia um rei esta noite — ou talvez um sacrifício vestido de seda.
Smoking, cabelo penteado para trás, o peso da organização visível na postura dos ombros.
Ele colocou a mão na base das costas de Letícia.
Era uma reivindicação possessiva, um gesto de propriedade.
Ele não olhou para mim.
Ele olhou para a minha arte, e seus olhos estavam vazios, desprovidos do calor que eu costumava encontrar lá.
— Os juízes estão prontos — disse Jonas.
Madame Dubois, a negociante de arte francesa que a Família usava para mover obras-primas roubadas, aproximou-se.
Ela ajustou os óculos, olhando atentamente para minha fênix.
— Magnífico — sussurrou ela. — A dor... é palpável. Ela grita.
Ela se virou para a obra de Letícia.
Era um busto de mármore genérico de um soldado romano.
Tecnicamente proficiente, mas sem alma. Parecia algo que você compra em uma loja de móveis de luxo para preencher espaço vazio.
— E isto — disse Madame Dubois educadamente. — É muito... tradicional.
O Capo Dantas entrou no círculo.
Ele era o juiz.
Ele também era o homem que administrava as docas que o pai de Letícia controlava.
Dantas olhou para Jonas.
Jonas olhou para o chão, um músculo tremendo em seu maxilar, antes de seu olhar oscilar para Letícia.
Letícia se inclinou para ele, sussurrando algo em seu ouvido.
Provavelmente um lembrete das rotas comerciais.
— A vencedora da bolsa deste ano — anunciou Dantas, sua voz ecoando pelo salão — é Alexandria Moretti. Por capturar a força de nossa herança.
Aplausos ondularam pela sala.
Eram aplausos educados, comprados.
Madame Dubois parecia chocada. Ela começou a falar, mas um olhar severo de Dantas a silenciou.
Letícia gritou de alegria e beijou Jonas na bochecha.
Ele não se afastou.
Ele sorriu.
Era o sorriso frio e treinado de um homem fechando um negócio.
Letícia se virou para mim, agarrando seu troféu.
— Talvez no ano que vem, querida — disse ela alto o suficiente para o círculo ouvir. — Embora, a arte realmente exija uma voz para vendê-la. Bonecas quebradas não são boas vendedoras.
A sala ficou quieta.
As pessoas assistiam.
Elas queriam ver a garota muda chorar.
Elas queriam ver o caso de caridade desmoronar.
Olhei para Jonas.
Esperei pelo protetor.
Ele tomou um gole de sua bebida e desviou o olhar.
Ele escolheu as rotas comerciais.
Ele escolheu a política.
Algo quente e afiado estalou no meu peito.
Dei um passo à frente.
Invadi o espaço pessoal de Letícia.
Ela recuou, esbarrando em Jonas.
Olhei bem no fundo dos olhos dela, depois desviei meu olhar para Jonas.
Não sinalizei.
Abri minha boca.
Minha voz estava rouca pelo desuso, baixa e áspera como cascalho sendo moído.
— Ele escolheu os negócios.
Não foi um grito.
Foi um veredito.
Jonas deixou cair o copo.
Ele se estilhaçou no chão de mármore, o champanhe explodindo como uma pequena bomba.
O som ecoou no silêncio do salão.
Virei as costas para eles.
Saí pelas portas duplas, deixando os cacos de vidro e os cacos do meu herói para trás.
Ponto de Vista da Grazi
O ar da noite estava amargo, cortando o tecido fino do meu vestido para morder meus braços nus, mas eu não sentia.
Eu estava queimando de dentro para fora.
Caminhei em direção aos jardins da propriedade, meus saltos afundando na grama macia e úmida a cada passo furioso.
— Grazi!
Passos pesados batiam atrás de mim. Urgentes.
Não parei.
Uma mão agarrou meu cotovelo, me girando.
Jonas.
Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados com uma mistura de horror e choque.
— Você falou — ele respirou, o peito arfando. — Grazi, você... você falou.
Puxei meu braço do aperto dele com um movimento brusco e violento.
Olhei para ele com a fria indiferença de uma estranha.
— Por que você não me contou? — exigiu ele, a voz subindo em pânico. — O Dr. Esteves disse que poderia levar anos. Você disse aquilo na frente de todo mundo. Na frente dos Capos.
Encarei-o, estudando o medo em seus olhos.
Ele não estava feliz por eu ter recuperado minha voz.
Ele não estava olhando para um milagre; ele estava olhando para um problema.
Ele estava preocupado com o protocolo. Ele estava preocupado que eu o tivesse envergonhado.
— Diga de novo — ordenou ele, o desespero vazando em seu tom. — Fale comigo.
Fiquei em silêncio.
Meu silêncio não era mais uma deficiência.
Era uma arma.
Ele passou a mão pelo cabelo, andando em um círculo apertado como um animal enjaulado.
— Você não entende a pressão que estou sofrendo — disse ele, voltando-se para mim. — Dantas controla os sindicatos. O pai da Letícia controla as importações. Tive que deixá-la ganhar. É política, Grazi. É pela Família.
*Pela Família.*
A desculpa para todo pecado.
— Fiz isso por nós — disse ele, aproximando-se, a voz suavizando. — Para garantir minha posição e poder manter você segura.
Olhei para o pulso dele.
Ele estava estendendo a mão para a minha.
A manga do smoking subiu.
Ele estava usando um Rolex.
Dourado. Chamativo. Novinho em folha.
Na semana passada, ele estava usando a pulseira de couro trançado que fiz para ele.
Aquela que passei três dias tecendo até meus dedos sangrarem.
Aquela que ele jurou que nunca tiraria porque era sua "armadura".
Tinha sumido.
Substituída por ouro.
Substituída por Letícia.
Olhei de volta para os olhos dele.
Ele viu para onde eu estava olhando.
Ele estremeceu, puxando a manga para baixo rapidamente para esconder a evidência.
— Ela me deu hoje à noite — murmurou ele, incapaz de sustentar meu olhar. — Não pude recusar. Seria um insulto.
Dei um passo lento para trás.
O protetor que eu amava não existia.
Ele era apenas um garoto brincando de se vestir com o terno de um gângster, apavorado com a ideia de perder sua coroa.
— Partimos para a Cúpula na sexta-feira — disse ele, a voz endurecendo, tentando recuperar o controle que sabia estar perdendo. — O chalé de caça. Você vem.
Balancei a cabeça.
— Não é um pedido — ele retrucou. — Você é minha protegida. Você vai aonde eu for. Especialmente agora. Preciso saber o que mais você está escondendo.
Ele agarrou meu queixo, forçando-me a olhar para ele.
Seus dedos eram ásperos.
— Você pertence a mim, Grazi. Não se esqueça disso.
Não pisquei.
Deixei que ele visse o vazio nos meus olhos.
Eu iria para a Cúpula.
Não porque ele me ordenou.
Mas porque o chalé de caça ficava a dezesseis quilômetros da rodovia interestadual.
Era o lugar perfeito para desaparecer.
Afastei-me do toque dele e caminhei de volta para a casa.
Não olhei para trás.
Derramei uma única lágrima na escuridão.
Foi a última coisa que ele receberia de mim.