Capítulo 2

Ponto de Vista: Sofia

Passei as duas semanas seguintes no hospital. Dante nunca veio.

Nenhuma vez.

Ele mandou flores. Lírios, brancos e fúnebres, que enchiam o quarto com um cheiro enjoativo que eu não suportava. Ele mandou presentes através de um associado — cobertores de caxemira, chocolates caros, livros que eu nunca leria. Eu doei cada um deles.

Eram gestos de dever, não de afeto. Pagamentos de uma dívida inconveniente.

Eu não precisava dos presentes dele. Eu tinha meu celular.

O Instagram da Isabella era uma obra-prima curada da devoção do meu marido. Uma foto de suas mãos entrelaçadas em uma praia ensolarada, o polegar dele acariciando os nós dos dedos dela. Um vídeo dele cozinhando para ela em uma casa de praia rústica — aquela que ele uma vez me prometeu. Uma selfie deles enrolados em um cobertor perto de uma fogueira, a legenda dela uma ode enjoativamente doce ao "amor verdadeiro" e "curando com minha alma gêmea".

Eu não senti nada. A dor tinha sido tão aguda, por tanto tempo, que finalmente esculpiu um pedaço de mim, deixando um vazio limpo e entorpecido. Eu olhava para as imagens do homem com quem me casei mimando outra mulher, e era como assistir a um filme sobre estranhos.

Quando recebi alta, voltei para o silêncio ecoante da mansão. Eu estava sentada no terraço, uma brisa fresca no rosto, quando ouvi vozes do jardim abaixo. Marco, o Capo mais confiável de Dante, e outro de seus homens.

"Ele levou o ex-marido dela à falência", disse o homem, sua voz um murmúrio baixo. "Usou os advogados da Família para uma vingança pessoal. O Don não está nada feliz."

Marco suspirou, um som pesado e cansado. "Ele sempre foi obcecado. Desde que eram crianças."

"Eu sei, mas ontem à noite foi diferente", contrapôs o homem. Eu me inclinei para frente, prendendo a respiração. "Ele estava bêbado, fora de si. Ficava chamando um nome. Não era o da Isabella."

Meu coração deu um salto tolo e doloroso.

"Ele estava chamando por Sofia."

Eu o encontrei desmaiado no sofá de seu escritório, o quarto fedendo a uísque caro. Garrafas vazias espalhadas pelo chão como soldados caídos. Sua gravata estava frouxa, seu cabelo uma bagunça. Ele parecia... quebrado.

Uma parte traiçoeira de mim, uma parte que eu pensei estar morta há muito tempo, quis cobri-lo com um cobertor.

Ele murmurou algo durante o sono, a testa franzida de dor. Eu me aproximei, me esforçando para ouvir.

"Isabella", ele sussurrou, o nome um fantasma em seus lábios. "Me desculpe... desculpe por cinco anos perdidos."

As palavras do homem tinham sido uma mentira. Ou um engano. Não importava.

"Ela é a esposa perfeita", a voz do homem ecoou em minha memória. "A Regina perfeita. Por que ele não consegue ver o que está bem na frente dele?"

Dante se mexeu, seus lábios se movendo novamente, um julgamento final e arrastado das profundezas de seu subconsciente.

"Ela não é a pessoa certa."

As palavras não pareceram uma facada. Pareceram uma chave girando em uma fechadura. Eu não tinha sido apenas uma esposa; eu tinha sido um tapa-buraco. Eu tinha desperdiçado três anos da minha vida tentando ganhar o coração de um homem que me via como nada mais.

Uma onda de alívio profundo me invadiu, tão pura e absoluta que me deixou tonta. A verdade cruel e inegável finalmente, completamente, me libertou.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Sofia

Passei a noite no jardim, encolhida em um banco de pedra, observando a lua traçar seu caminho prateado pelo céu.

Quando o amanhecer rompeu, pintando o horizonte em tons de cinza e rosa pálido, voltei para dentro. Dante ainda estava no sofá, ainda murmurando o nome de Isabella em seu sono.

Eu não sentia amor. Nem ódio. Apenas uma calma profunda e arrepiante.

Peguei meu caderno e anotei as deduções finais. Minha mão nem tremeu.

Então comecei a fazer as malas.

Eu fui metódica. Limpei meu lado do closet, deixando um vasto espaço vazio. Embalei cada joia, cada vestido, cada par de sapatos que ele já me deu. Não eram meus. Eram parte do uniforme — o uniforme de Sofia Rossi.

Dante acordou por volta do meio-dia, com os olhos vermelhos. Ele me viu fechando uma caixa com fita adesiva e franziu a testa. "Você está fazendo faxina?"

Seu telefone tocou antes que eu pudesse responder. Isabella. Sua expressão se suavizou, as linhas duras do subchefe se derretendo. "Estou a caminho", ele prometeu ao telefone, sua voz um murmúrio baixo e íntimo. Ele pegou as chaves e saiu correndo, a porta da frente batendo atrás dele.

Eu sussurrei para a sala vazia: "Não, você não vai."

Ele ficou fora por dias. As redes sociais de Isabella pintavam um quadro doentio e perfeito. Ele a levou a um vinhedo em Bento Gonçalves. Comprou para ela um filhote de golden retriever. Levou-a para Paris no fim de semana.

Eu usei o tempo. Contratei uma empresa de mudanças para levar minhas caixas para um depósito em Florianópolis. Fechei minhas contas bancárias. Liguei para a Bruna e disse que a Fênix Arquitetura estava de pé. Metodicamente, apaguei todos os vestígios de Sofia Rossi daquela casa.

No terceiro aniversário da morte da minha mãe, enquanto eu me preparava para sair pela porta pela última vez, ele voltou. Parecia cansado, mas estranhamente em paz.

"Eu te levo", ele ofereceu, vendo o único buquê de rosas brancas em minha mão.

No cemitério, ajoelhei-me junto ao mármore frio de sua lápide. Contei tudo a ela, minha voz uma confissão sussurrada. Sobre o divórcio. Sobre o novo escritório em Florianópolis. Sobre minha nova vida.

Quando estávamos saindo, o céu desabou. A chuva caía em lençóis grossos e pesados. No carro, o silêncio foi quebrado pelo toque frenético do telefone de Dante.

Isabella.

"Eu sofri um acidente", ela soluçou pelo viva-voz. "Meu carro... rodou na pista. Acho que quebrei o pulso."

O rosto de Dante ficou pálido. Ele pisou no freio com força, o carro derrapando até parar na beira da estrada deserta. Ele se virou para mim, seus olhos um vazio frio e duro, completamente desprovidos de qualquer emoção por mim.

"Saia", ele ordenou, a voz seca. "Eu tenho que ir até ela."

Eu não discuti. Não disse uma palavra. Simplesmente abri a porta do carro e saí para a chuva torrencial.

Observei as luzes traseiras do carro dele se dissolverem na escuridão molhada pela chuva, me deixando completamente sozinha, encharcada, na beira de uma rodovia sem ninguém por quilômetros.

Meu celular estava sem bateria. Nenhum táxi viria até aqui. Comecei a andar, a chuva fria se infiltrando em meus ossos.

Ouvi o guincho de pneus antes de ver os faróis. Um caminhão, perdendo o controle no asfalto escorregadio, aquaplanando diretamente em minha direção.

Não houve tempo para gritar.

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