POV de Caterina "Cat":
Na manhã seguinte, encontrei Giuliana em um pequeno café na Liberdade, um lugar tão antigo e discreto que nenhum dos homens de Alessandro pensaria em me procurar ali.
Jules era minha melhor amiga desde que éramos crianças, muito antes de ela se tornar uma advogada brilhante e eu, a esposa de um Don.
Ela olhou para o meu rosto e deslizou uma xícara de café pela mesa. "É sério, então? Você vai mesmo fazer isso?"
Eu assenti, a palavra "sim" presa na minha garganta.
"Cat", ela suspirou, uma mistura de choque e alívio em seus olhos. "Você abriu mão de tudo por ele. Sua arte, seus amigos... você construiu sua vida inteira em torno de ser a esposa perfeita do Don."
Um sussurro cru e cansado escapou de mim. "Cansei de tentar."
Inclinei-me para frente, minha voz baixando. "Ela voltou, Jules."
O rosto de Giuliana ficou pálido. "Isabella?"
Eu assenti. Tudo fazia sentido agora. A obsessão de Alessandro por privacidade, a maneira como ele guardava seu celular e seu passado — era uma fortaleza construída para proteger a memória dela.
Ele era uma contradição viva — um homem que exigia sigilo absoluto em nosso casamento, mas deixava um monumento público para um amor do passado.
Lembrei-me da noite em que ele me levou ao seu restaurante "favorito" em nosso primeiro aniversário. Ele estava quieto, nostálgico. Pensei que ele estava se abrindo para mim.
Agora eu sabia a verdade.
Ele estava apenas revivendo uma memória com ela, e eu era apenas a substituta, a atriz reserva desempenhando o papel dela.
Fui moldada para caber no espaço vazio que ela deixou para trás.
"Vou preparar os papéis da separação até o final do dia", disse Giuliana, sua voz firme, me puxando de volta para o presente.
"Mas você sabe como ele vai ver isso. Para um homem como Alessandro, isso não é um divórcio. É um ato de guerra. Um desafio à sua autoridade."
"Eu sei", eu disse, minha voz baixa. Ele não veria uma esposa de coração partido; ele veria uma posse tentando escapar.
Lembrei-me das palavras de Giuliana para mim depois do meu casamento, sussurradas na fila do guarda-volumes enquanto Alessandro era o centro das atenções.
"Ele te olha como uma pintura recém-adquirida, Cat", ela disse. "Bonita, valiosa, algo para pendurar na parede dele. Não como a mulher sem a qual ele não pode viver."
Eu não quis ouvir na época. Passei cinco anos tentando provar que ela estava errada.
"Você pode dizer a alguém cem vezes que o fogão está quente", murmurei, olhando para o meu café. "Mas a pessoa só entende de verdade quando toca nele."
Lá fora, o céu se abriu, uma chuva repentina escurecendo as ruas.
Um momento depois, a porta do café se abriu e um homem entrou, sacudindo um grande guarda-chuva preto. Era Marco, o noivo de Giuliana, um dos Soldados mais leais do meu marido.
Ele nos viu e seu rosto sério se abriu em um sorriso caloroso. Ele se aproximou da nossa mesa, inclinou-se e beijou Jules suavemente.
A intimidade entre eles era tão fácil, tão natural. Era uma parceria.
Meu casamento era uma transação.
"Pronta para ir, mia cara?", Marco perguntou a ela. Ele olhou para mim. "Sra. De Luca. Posso te dar uma carona? Está caindo o mundo lá fora."
Eu balancei a cabeça, conseguindo um pequeno sorriso. "Obrigada, Marco, mas vou esperar a tempestade passar."
Eu os observei sair, o braço de Marco protetoramente em volta de Giuliana enquanto ele segurava o guarda-chuva sobre a cabeça dela.
Eles eram uma equipe.
A pergunta que me assombrou por cinco anos ecoou no espaço vazio que eles deixaram para trás. Por que era tão difícil para Alessandro me amar?
E pela primeira vez, uma resposta simples e devastadora me atingiu com a força de um golpe físico.
Nunca foi sobre mim.
Ele simplesmente não me amava. E nunca amaria.
POV de Caterina "Cat":
A chuva diminuiu para uma garoa. Saí do café, apertando meu casaco contra o frio úmido.
E então eu o vi.
O Audi preto blindado de Alessandro estava estacionado no meio-fio. Ele estava saindo, contornando o capô para abrir a porta do passageiro. Uma mulher com longos cabelos escuros emergiu — Isabella Rossi.
Ele me viu então. Seus olhos, frios e cinzentos como o céu tempestuoso, não demonstravam surpresa, nem culpa. Apenas irritação.
Procurei meu celular, tentando abrir um aplicativo de transporte, meus dedos desajeitados com o choque. Dei um passo para trás e meu calcanhar prendeu em um paralelepípedo irregular. Meu tornozelo torceu, e uma dor aguda e lancinante subiu pela minha perna. Gritei, tropeçando contra a parede, lutando para me manter em pé.
Alessandro me observou lutar por um instante, sua expressão impassível. Então ele me deu as costas, pegou o braço de Isabella e a acompanhou até o mesmo café de onde eu acabara de sair.
Meu próprio marido. Deixando-me machucada na calçada por ela.
Alguns minutos depois, ele voltou, segurando dois copos de café. Ele caminhou até mim, sua sombra caindo sobre minha forma encolhida.
"Entre no carro", ele disse. Não era um pedido. Era uma ordem.
"Vou chamar meu próprio carro", eu disse com rispidez, as palavras com gosto de ácido.
Ele me ignorou. Com um suspiro de pura irritação, ele se abaixou, me pegou nos braços com uma eficiência fria e me depositou no banco do passageiro da frente.
Ele não estava ajudando sua própria esposa; estava lidando com um problema.
Ele entrou no banco do motorista e enfiou um copo na minha mão. Era café preto. A preferência dele. O tipo que eu nunca bebia. Silenciosamente, empurrei-o de volta para o porta-copos.
Do banco de trás, a voz suave de Isabella murmurou: "Acho que estou ficando enjoada, Alessandro."
Seu tom suavizou instantaneamente. A aspereza desapareceu, substituída por uma preocupação genuína que fez meu estômago se contrair. "Você sempre ficava", disse ele, um pequeno sorriso particular em sua voz. "Lembra daquela viagem para a praia? Você ficou verde o caminho todo."
Eu me senti como uma intrusa no carro do meu próprio marido. Eles falavam ao meu redor, sua história compartilhada era um muro que eu nunca poderia escalar.
Ele passou pelo Jardim Botânico, os gramados bem cuidados brilhando com a chuva. Ele me levou lá em nosso primeiro "encontro", um passeio formal e engessado um mês antes do nosso casamento. Ele me disse que era um de seus lugares favoritos na cidade.
Percebi agora que nunca foi o lugar dele. Era o lugar deles.
Eu era apenas uma turista nas ruínas do passado deles.
A dor no meu tornozelo e a pura exaustão emocional me venceram. Devo ter cochilado, porque acordei com o carro sendo estacionado em nossa garagem. Isabella tinha sumido. Ele deve tê-la deixado em casa.
Alessandro olhou para o meu tornozelo inchado, seu lábio se curvando em um desprezo. "Você está fingindo isso para chamar atenção, Caterina?"
Uma risada crua e cortante rasgou minha garganta. "Acredite ou não, Alessandro, nem tudo é sobre você. Eu sou uma mulher de substância, não uma donzela em perigo esperando para ser salva."
Uma luz perigosa brilhou em seus olhos. Ele se inclinou sobre o console, sua voz baixando para um rosnado grave.
"Isso é um desafio?"