Capítulo 2

Ponto de Vista de Jana:

Na manhã seguinte, a equipe do hospital não me trouxe café da manhã. Eles me trouxeram uma prancheta de desenho.

Eu estava fraca. Minha pele tinha a cor de papel velho, e olheiras escuras manchavam a pele sob meus olhos. Mas Axel havia retornado.

— Kailane está acordada — disse ele. Ele ficou perto da porta, recusando-se a se aproximar, como se minha inutilidade fosse contagiosa. — Mas ela está fraca demais para segurar um lápis. O prazo para a Muralha de Defesa Norte é amanhã. Ela precisa terminar as plantas.

Ele colocou um pesado rolo de papel sobre a mesa.

— Você quer que eu desenhe? — perguntei, minha voz mal passando de um sussurro.

— Eu quero que você seja as mãos dela — Axel corrigiu. — Ela vai te dizer o que fazer pela Conexão Mental. Você vai desenhar exatamente o que ela disser.

Olhei para o papel em branco. Arquitetura era a única coisa que me restava. Era a única coisa que Kailane não conseguia fingir. Ela não sabia a diferença entre uma parede de sustentação e uma coluna decorativa.

*Comece com o portão principal*, a voz de Kailane deslizou para dentro da minha cabeça. Era a Conexão Mental, a ligação telepática compartilhada por todos os membros da alcateia. Sua voz mental soava enjoativamente doce. *E não faça parecer com o seu lixo, Jana. Faça parecer com o meu.*

Peguei o lápis de carvão. Minha mão tremia, mas assim que a ponta tocou o papel, o instinto assumiu. Comecei a esboçar.

Desenhei os arcos reforçados que resistiriam a um ataque de Renegados. Desenhei os túneis ocultos para evacuações de emergência. Despejei minha alma nas linhas de grafite.

Horas se passaram. Axel me observava. Por um momento, apenas um momento fugaz, vi uma faísca de admiração em seus olhos enquanto ele via a estrutura complexa emergir no papel.

— É brilhante — ele murmurou, aproximando-se. — A visão de Kailane é... extraordinária.

Meu coração se partiu.

— Este é o meu projeto, Axel — eu disse suavemente. Não consegui me conter. — Olhe o estilo do sombreamento. Olhe a posição das runas. Eu desenho isso desde os doze anos.

O rosto de Axel escureceu. — Não tente levar o crédito pela genialidade da sua irmã. Você é apenas a ferramenta que ela está usando.

Minha mãe, Joyce, entrou apressada no quarto, carregando uma tigela de sopa. Ela passou direto por mim e a colocou na mesinha lateral, provavelmente para Axel.

— Está terminado? — ela perguntou. — Os Anciãos estão esperando. Eles querem ver a contribuição da futura Luna para a segurança da alcateia.

— Quase — disse Axel. Ele pegou o desenho. — Está perfeito. A alcateia estará segura por gerações.

Ele olhou para o desenho com tanto amor, tanto orgulho. Mas aquele amor era direcionado a um fantasma, a uma mentira.

*Bom trabalho, irmãzinha*, a voz de Kailane ecoou em minha cabeça. *Agora, destrua as evidências.*

Eu congelei.

*Faça isso*, ela ordenou mentalmente. *Vá para o seu sótão. Queime seus cadernos de desenho. Queime aqueles pequenos prêmios que você ganhou online com um nome falso. Se Axel descobrir que você realmente sabe desenhar, ele pode ficar desconfiado. Não podemos ter isso antes da cirurgia, podemos?*

Olhei para Axel. Ele estava enrolando as plantas, conversando com minha mãe sobre a cerimônia de casamento.

Levantei-me. Minhas pernas pareciam gelatina. Saí do quarto, e nenhum deles me impediu.

Subi as escadas para o sótão da Casa da Alcateia, onde me deixavam dormir. Era um espaço empoeirado e apertado. Pilhas de cadernos de desenho cobriam as paredes — o trabalho da minha vida. Meus sonhos de construir um lar onde eu fosse amada.

Peguei uma lata de lixo de metal. Joguei os cadernos dentro. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui acender o fósforo.

A chama pegou na borda de uma página. Era um desenho de Axel que eu fiz há três anos, dormindo debaixo de uma árvore. O fogo enrolou o papel, transformando seu rosto em cinzas.

Eu tossi. Começou como um arranhão na garganta, depois explodiu em um espasmo violento. Dobrei-me, agarrando meu peito. Quando afastei a mão da boca, minha palma estava coberta de um sangue grosso e preto.

Era o sinal de um lobo morrendo. Meu corpo estava desligando.

De repente, a porta do sótão se abriu com um estrondo. Axel estava lá, com meus pais atrás dele. Ele segurava a planta que eu acabara de desenhar.

— O que você fez? — ele rugiu.

Limpei o sangue na minha calça jeans, escondendo-o. — O quê?

— Os cálculos na parede oeste! — Ele jogou o papel aos meus pés. — Estão errados. Se construíssemos isso, a muralha desabaria sobre nossos próprios guerreiros!

— Isso é impossível — eu ofeguei. — Eu verifiquei duas vezes.

— Kailane disse que você mudou os números dela — meu pai cuspiu. — Ela disse que sentiu você alterando o projeto através da Conexão. Você tentou sabotá-la!

— Não! — eu chorei. — Ela não sabe a matemática! Ela deve ter lido as runas errado quando verificou!

— Silêncio! — Axel usou a Voz de Alfa novamente.

Caí de joelhos. O impacto enviou uma onda de dor através dos meus rins falhando.

— Você é invejosa — disse Axel, sua voz pingando veneno. — Você é mesquinha e cruel. Você colocaria toda a alcateia em perigo só para atingir sua irmã.

Ele olhou para a lata de lixo em chamas, para as cinzas do meu trabalho.

— Queimando a evidência da sua incompetência? — ele zombou.

Ele não viu a arte. Ele não viu o amor. Ele só viu o que queria ver.

— Tirem-na da minha frente — Axel ordenou aos guardas que apareceram atrás dele. — Levem-na para a sala de preparação. A cirurgia é em duas horas.

Dois guardas agarraram meus braços. Eles me arrastaram escada abaixo. Eu não lutei. Minha loba estava em silêncio. Ela já havia desistido.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Jana:

Eles não me levaram para um quarto de hospital normal. Levaram-me para o Salão de Reuniões da Alcateia.

Era uma sala vasta com tetos altos e estandartes da Alcateia da Lua de Prata pendurados nas paredes. Mas agora, estava montada como um estúdio. Câmeras em tripés. Luzes brilhantes me cegavam.

Kailane estava sentada em uma cadeira de rodas no centro da sala. Ela usava uma camisola de hospital azul-clara que a fazia parecer frágil e angelical. Seu rosto estava perfeitamente maquiado para parecer pálido, mas bonito.

— Coloquem-na ali — disse Kailane, apontando para o chão ao lado de sua cadeira de rodas.

Os guardas me jogaram no chão. Bati com força na madeira polida. Meu quadril se chocou contra o piso, e mordi a língua para não gritar.

— O que é isso? — perguntei, olhando ao redor.

— Uma confissão — disse Kailane. Ela sorriu, mas seus olhos estavam frios como gelo. — A alcateia precisa saber a verdade sobre a sabotagem. Entraremos ao vivo em um minuto.

Axel estava atrás da cadeira de Kailane, sua mão repousando protetoramente em seu ombro. Ele parecia uma estátua do julgamento.

— Você vai admitir seus crimes — disse Axel. — Você vai dizer à alcateia que tentou arruinar a Muralha de Defesa porque estava com inveja da futura Luna.

— Eu não vou mentir — eu disse, minha voz tremendo.

Axel se inclinou. Seus lábios roçaram minha orelha, mas não havia intimidade nisso. — Se não o fizer, eu a declararei uma Renegada agora mesmo. Vou bani-la. Você morrerá sozinha na floresta, caçada por vampiros e vira-latas. É assim que você quer terminar? Ou quer salvar sua irmã e pelo menos morrer com um nome?

Era uma barganha cruel. Morrer como Renegada significava que minha alma estaria perdida para sempre, desconectada das terras da alcateia. Morrer como membro da alcateia significava que eu poderia encontrar paz com a Deusa da Lua.

— Um minuto! — um técnico gritou.

— Ajoelhe-se — Axel comandou. A Voz de Alfa me atingiu novamente.

Eu me arrastei para ficar de joelhos. Senti-me pequena. Senti-me suja.

— Ação!

O rosto de Kailane se transformou instantaneamente. Ela olhou para a câmera com lágrimas brotando em seus olhos.

— Meus queridos membros da alcateia — disse ela, sua voz tremendo perfeitamente. — Venho a vocês com o coração pesado. Hoje, encontramos uma falha nos projetos da nova muralha. Uma falha que poderia ter nos matado.

Ela olhou para mim. A câmera focou no meu rosto. Eu sabia que parecia um monstro — cabelo bagunçado, roupas sujas, olhos sombrios.

— Minha irmã, Jana — Kailane continuou — tem algo a dizer.

Axel me cutucou com a bota. Uma ameaça silenciosa.

Olhei para a lente preta da câmera. Vi meu reflexo. Vi uma garota que havia perdido tudo.

— Eu... — Minha voz falhou. — Eu admito.

— Mais alto — rosnou Axel.

— Eu admito! — gritei, as lágrimas finalmente rolando. — Eu mudei os números. Eu queria arruinar o projeto. Eu estava com inveja. Eu sou... eu sou uma farsa.

Eu podia ver os comentários rolando na tela ao lado.

*Traidora!*

*Ela deveria ser executada!*

*Por que o Alfa ainda a mantém por perto?*

*Desperdício de espaço.*

Cada palavra era uma faca.

— Obrigada por sua honestidade, irmã — disse Kailane. Ela estendeu a mão e deu um tapinha na minha cabeça, como se acaricia um cachorro. — Eu te perdoo. A alcateia te perdoa. E agora, você fará a coisa certa e me ajudará a me curar, não é?

— Sim — sussurrei.

De repente, Kailane ofegou. Sua mão voou para o peito, suas costas se arqueando na cadeira de rodas.

— Axel! — ela gritou, sangue jorrando de sua boca no chão polido. — Está queimando! Meu núcleo... está se quebrando!

Os monitores conectados à sua unidade portátil começaram a soar alarmes. Sua pele assumiu um tom cinza aterrorizante instantaneamente.

— Cortem a transmissão! — Axel rugiu, pegando-a enquanto ela caía para frente.

— Ela está tendo uma parada! — um médico gritou, correndo para dentro. — Seus níveis de Essência estão em zero. Se não operarmos agora, ela morre em dez minutos!

Kailane olhou para mim, seus olhos arregalados com terror genuíno pela primeira vez. — Pegue — ela gorgolejou, apontando um dedo trêmulo para mim. — Pegue o rim dela agora!

Axel se virou para os guardas. Seus olhos eram puro pânico.

— Levem a Jana para a sala de cirurgia — ele berrou. — Esqueçam a preparação. Esqueçam os exames. Apenas abram-na e peguem aquele órgão!

Fechei meus olhos. No fundo de mim, senti uma mudança. Não foi física. Foi espiritual.

Minha loba interior, a loba branca que foi suprimida por tanto tempo, soltou um uivo longo e lúgubre. Era um som de desespero absoluto.

E então, silêncio.

Ela se foi. Minha loba havia se retirado para a escuridão mais profunda da minha alma. Ela havia rompido sua conexão com o mundo para se poupar da dor.

Eu era verdadeiramente uma Sem-lobo agora.

— Levem-na! — Axel gritou novamente.

Os guardas me levantaram. Eu era uma boneca de pano. Não olhei para Axel. Não olhei para meus pais. Apenas encarei o chão, contando os passos para a minha execução.

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