Capítulo 2

Ponto de Vista da Zora:

O corredor do hospital era de um branco cegante. O cheiro de antisséptico ardia no meu nariz, guerreando com o gosto metálico de sangue que constantemente cobria minha língua. Eu me arrastava em direção à sala de preparação, escoltada por um guarda guerreiro como se eu fosse um risco de fuga, quando uma mão bateu contra meu peito.

Simon.

— Onde estão as anotações? — ele exigiu.

Pisquei, balançando.

— Que anotações?

— As anotações de pesquisa sobre as variantes do antídoto de Acônito — ele retrucou. — Laila precisa delas. Ela disse que deixou os cálculos finais com você para verificar porque estava fraca demais para segurar uma caneta.

Soltei uma risada seca e rouca. Doeu minhas costelas.

— Você quer dizer a pesquisa que eu fiz? A pesquisa que ela vem apresentando como dela há três anos?

Simon agarrou meus ombros e me sacudiu.

— Não se atreva a caluniá-la! Laila é a mestre de poções mais jovem da história da Alcateia Lua de Prata. Você é apenas a assistente dela. Agora me dê o caderno.

— Está na minha bolsa — sussurrei, apontando para a sacola de lona gasta que o guarda carregava.

Ele arrancou a bolsa da mão do guarda e revirou tudo até encontrar o caderno de couro. Continha meses do meu trabalho. Minha caligrafia. Minha genialidade.

Minha mãe caminhou atrás dele, seus saltos estalando no azulejo como tiros.

— Você conseguiu?

— Sim — disse Simon, segurando o livro como uma relíquia sagrada. — Ela tentou alegar que era dela de novo.

Minha mãe olhou para mim com puro nojo.

— Você é patética. Roubando a glória da sua irmã mesmo quando ela está no leito de morte. A alcateia vem em primeiro lugar, Zora. Laila é o futuro. Você não é nada além de uma mancha que temos que limpar.

Nesse momento, a porta da suíte VIP se abriu. Laila estava lá, sentada em uma cadeira de rodas, empurrada por uma enfermeira. Ela parecia pálida, bonita e frágil — a vítima perfeita.

Ela viu Simon segurando o caderno e ofereceu um sorriso fraco e trêmulo.

— Oh, Simon... obrigada. Eu estava tão preocupada que Zora fosse... perdê-lo.

Ela olhou para mim então. Seus olhos azuis não continham doença; continham triunfo. Ela deixou o olhar viajar pelo meu corpo, zombando da minha incapacidade de me transformar, zombando da fraqueza que ela havia causado ao me envenenar por meses.

Ela se recostou em Simon quando ele correu para o lado dela. Vi a mão dela roçar o braço dele, e vi a faísca de eletricidade estática. Não era o vínculo de companheiro — era magia roubada. Ela estava sifonando a energia da essência que havia arrancado de mim cinco anos atrás para imitar a conexão.

— Acabou — eu disse, minha voz oca. — Leve o livro. Leve a essência. Leve tudo.

Virei-me e caminhei em direção à sala de preparação, ignorando o guarda. Eu precisava cortar os últimos fios.

Dentro da pequena sala de espera, encontrei os poucos itens pessoais que me restavam. Um cachecol que eu havia tricotado para Simon para o inverno que se aproximava. Uma foto dos meus pais de antes de eu completar dezoito anos.

Caminhei até o incinerador de risco biológico no canto.

Joguei a foto dentro. Então, segurei o cachecol. Era macio, feito da melhor lã cinza. Eu tinha derramado meu amor em cada ponto, esperando que ele o usasse e finalmente sentisse meu cheiro nele.

Deixei cair nas chamas.

— Adeus — sussurrei.

De repente, uma onda de náusea me atingiu. Dobrei-me, vomitando. Uma lama espessa e preta espirrou no chão branco imaculado. Minha loba interior uivou — um som de pura agonia que ecoou no meu crânio. O acônito tinha alcançado meu coração.

A porta se abriu com estrondo. Simon e Laila estavam lá novamente. Laila chorava histericamente.

— Ela estragou tudo! — Laila gritou, apontando para mim. — Ela mudou os números! A dosagem está errada! Se eu tivesse usado isso, teria matado as cobaias!

Simon avançou até mim, pisando bem na poça do meu sangue tóxico sem nem perceber. Ele me agarrou pelos cabelos, forçando minha cabeça para cima.

— Sua cobra perversa — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. — Você tentou sabotar o trabalho dela? Você tentou fazê-la parecer incompetente para o Conselho?

— Eu não... — engasguei, sangue borbulhando pelos meus lábios. — Essas são... as fórmulas... corretas...

— Mentirosa! — Laila gritou da cadeira de rodas. — Você quer que eu falhe! Você quer que Simon me odeie!

Minha mãe entrou, deu uma olhada na cena — eu de joelhos, sangrando preto, Simon me segurando pelos cabelos — e fez seu julgamento instantaneamente.

— Peça desculpas — ordenou ela. — De joelhos, Zora. Peça desculpas à sua irmã, a futura Luna, por sua traição.

Olhei para minha mãe. Olhei para o homem que deveria ser minha alma gêmea.

— Não — eu disse.

Simon rosnou, um som profundo e animalesco.

— Não nos desafie, Zora.

— Não vou pedir desculpas pela verdade — eu disse, uma estranha calma me invadindo. — E não vou pedir desculpas por morrer.

Simon me empurrou para trás. Bati na parede com um baque surdo.

— Preparem-na — ele comandou as enfermeiras que pairavam nervosamente no corredor. — Cortem a essência fora. Cansei de lidar com ela.

Capítulo 3

Ponto de Vista da Zora:

Eles não queriam apenas minha vida; queriam meu nome.

Enquanto eu estava sendo preparada, despida de minhas roupas e colocada em uma bata hospitalar fina e humilhante, meu celular vibrava incessantemente na mesa lateral. Era o Fórum da Alcateia.

Peguei-o com dedos trêmulos.

Notícia Urgente: A Verdade Por Trás das Poções.

Havia uma postagem da conta de Laila. Alegava que eu a estava chantageando, forçando-a a incluir minhas teorias "falhas" em seu trabalho, e que por isso a Academia havia sinalizado seu artigo recente por plágio. Ela teceu uma história de uma irmã invejosa e sem lobo que queria arrastar o gênio da alcateia para a lama.

Os comentários eram uma avalanche de ódio.

"Ômega inútil."

"Ela deveria ser banida."

"Por que ela ainda está na alcateia?"

A porta se abriu, e Simon não entrou — ele invadiu. Ele não falou. Agarrou meu braço, seu aperto deixando hematomas, e me arrastou para fora do quarto.

— Simon, pare! Eu não consigo andar rápido! — gritei, tropeçando. Meus pés descalços batiam contra o linóleo frio.

— Você vai consertar isso — ele rosnou, sem diminuir a velocidade. Ele me arrastou como uma renegada, como lixo, direto para a área de espera principal onde minha família e alguns anciãos da alcateia estavam reunidos.

Ele me jogou no chão. Caí com força sobre meus joelhos, o impacto sacudindo minha coluna.

Olhei para cima e vi Laila segurando um celular. A luz vermelha estava acesa. Ela estava fazendo uma live.

— Diga a eles — comandou Simon, sua voz trovejando para que todos na sala — e todos assistindo online — pudessem ouvir. — Diga à alcateia que você mentiu. Diga a eles que você sabotou Laila por inveja.

Olhei para ele, procurando o garoto que me salvou de uma tempestade cinco anos atrás. O garoto que enrolou sua jaqueta em mim e prometeu que eu estava segura. Aquele garoto estava morto.

Laila começou a tossir, um som delicado e digno de pena.

— Não consigo respirar — ela chiou, agarrando o peito. — O cheiro dela... é tão amargo. Está me sufocando.

Era uma mentira. Eu não tinha mais cheiro. O veneno o havia arrancado. Mas Simon reagiu instantaneamente.

— Faça isso agora, Zora! Ou juro pela Deusa da Lua, vou jogar você na masmorra. Você pode apodrecer no escuro antes que eu deixe você chegar perto de uma mesa de cirurgia.

A masmorra significava morrer sozinha, em uma agonia lenta e excruciante. A cirurgia era uma guilhotina — rápida, final. A anestesia seria minha liberdade.

Olhei para a lente da câmera. Olhei para os milhares de espectadores.

— Eu... — Minha voz falhou. — Eu tenho inveja da minha irmã.

— Mais alto — disse meu pai do canto, braços cruzados.

— Eu tenho inveja — eu disse, minha voz morta. — Eu menti. Laila é o gênio. Eu sou... eu não sou nada.

— E? — Laila incentivou, um brilho cruel em seus olhos.

— E eu sinto muito.

Laila baixou o celular, encerrando a transmissão. Ela parou de chiar instantaneamente. Olhou para mim com um sorriso beatífico, a imagem da graça.

— Eu te perdoo, Zora. Mesmo que você me odeie, eu ainda te amo. É por isso que estou deixando você me salvar.

— Viram? — disse meu pai, acenando para os anciãos. — Laila tem o coração de uma verdadeira Luna. Zora finalmente aprendeu seu lugar.

— Ótimo — disse Simon. Ele olhou para mim com puro desprezo. — Tirem-na da minha vista. A cirurgia começa em dez minutos.

Ele virou as costas para mim para abraçar Laila.

Fiquei no chão por um momento, fraca demais para me mover. O Link Mental zumbia com os pensamentos coletivos da alcateia.

Você ouviu ela admitir?

Nojenta.

Ela merece morrer.

Fechei os olhos, bloqueando-os.

Laila se inclinou, fingindo me ajudar a levantar. Seus lábios roçaram minha orelha.

— Sabe — ela sussurrou, sua voz como seda enrolada em uma lâmina de barbear. — Até a Deusa da Lua te abandonou. Simon é meu. Ele sempre foi meu. E agora, sua vida é minha também.

Afastei-me dela, usando a parede para ficar de pé. Não disse uma palavra. Não restavam palavras. Apenas me virei e caminhei em direção ao centro cirúrgico.

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