(Carolina Girão POV)
O frio sempre foi o meu inimigo. Desde os cinco anos de idade, quando meus pais morreram. Eu ainda me lembro do dia em que a velha edição do jornal, com suas letras grandes e pretas, anunciava a tragédia. "Mãe mata pai e comete suicídio: Jovem órfã encontrada escondida no armário." Eles nunca souberam o quão profundamente aquelas palavras se gravariam na minha alma, nem o calafrio que elas me causariam sempre que o inverno chegasse.
Eu estava encolhida no armário, tremendo, não de frio, mas de medo, quando Miguel me encontrou. Seus braços fortes me tiraram daquele buraco escuro. Ele prometeu que nunca mais me deixaria sentir frio, que sempre me protegeria. E por um tempo, ele cumpriu.
Miguel me levou para sua casa, me criou como sua própria filha. Ele me mimava, me dava tudo o que eu queria. Mas a sombra daquele dia nunca me deixou. Eu tinha um medo terrível de ficar sozinha, de ser abandonada. Se Miguel estivesse fora, eu ficava em pânico. Só o som de sua voz ou o calor de seu toque podiam acalmar meu coração aterrorizado.
Ele me levava para o terraço nos dias claros, apontando para as estrelas. "Olha, Carolina," ele dizia, seus olhos brilhando como as próprias estrelas. "Aquela ali é sua estrela. Ela vai te proteger quando eu não puder." E ele me deu um anel com uma estrela lapidada, o anel que agora reluzia no dedo de Adriana.
Eu me joguei na cama, as lágrimas encharcando o travesseiro. Eu queria ver minha estrela, a que Miguel me deu. Mas o céu estava nublado, as estrelas escondidas, assim como as minhas esperanças.
O toque do meu celular me sobressaltou. Era o Dr. Fausto Oliveira.
"Carolina, o grupo de pesquisa precisa que você venha para um check-up completo. É a última etapa antes de iniciarmos o processo."
"Check-up?" Eu ri, um som amargo. "Eu não preciso de check-up, doutor. Eu estou morrendo, não se lembra?"
"É para aumentar suas chances de sobrevivência, Carolina. Precisamos ter certeza de que seu corpo está tão forte quanto possível para o processo." Ele disse, sua voz calma e profissional.
Eu suspirei. "Tudo bem. Eu irei."
Passei o dia inteiro na clínica, sendo examinada, testada, como uma amostra de laboratório. No final, o Dr. Oliveira me entregou uma pilha de documentos.
"Aqui estão as opções para o recipiente experimental. Dê uma olhada e me diga sua preferência."
Eu peguei os papéis, as palavras como "crio-preservação", "cápsula de estase", "congelamento profundo" e "caixão de gelo" saltando aos meus olhos. O termo "caixão de gelo" me causou um arrepio.
Eu voltei para casa à noite. As luzes da sala estavam acesas, e meu coração disparou. Miguel estava em casa. Apesar de tudo, uma parte de mim ainda ansiava por sua presença, por seu olhar. Eu o amava, mesmo que ele me odiasse.
Entrei na sala e o vi. Mas não estava sozinho. Adriana estava ali, em um de meus vestidos de seda, sentada no sofá, com os cabelos ainda úmidos do que eu imaginei ser um banho. Ela sorriu para mim, um sorriso que não alcançava seus olhos.
"Olha quem chegou, Miguel! A Carolina, bem a tempo para o jantar!" Ela se levantou, vindo em minha direção com um abraço forçado. "Eu estava com tanta saudade! O Miguel estava me contando sobre o nosso noivado. Ele está tão animado!"
Meu coração se apertou. Eu sabia. Eu já tinha visto a notícia.
"Você quer comer alguma coisa? Miguel está na cozinha, terminando de preparar um prato especial," Adriana continuou, com uma voz doce, mas seus olhos me desafiavam. Ela agia como a dona da casa, e eu era apenas uma convidada indesejada.
Eu balancei a cabeça. "Não, obrigada. Não estou com fome."
Enquanto eu falava, Miguel saiu da cozinha, com uma travessa fumegante nas mãos. Ele me olhou, e seus olhos estavam tão frios quanto o gelo.
"Carolina, eu e Adriana estamos noivos," ele disse, as palavras me atingindo como pedras. "Ela é a nova senhora desta casa. Espero que você a respeite como tal."
Eu baixei a cabeça, meus lábios em uma linha fina. "Eu entendo, Miguel. Felicidades."
Ele me olhou, surpreso pela minha calma. "É só isso?"
Adriana se aproximou de Miguel, enlaçando seu braço. "Não seja tão duro com ela, querido. Talvez ela esteja chocada demais para reagir." Ela sorriu para mim, um sorriso vitorioso. "Venha, Carolina. Junte-se a nós para o jantar."
Ela me puxou pelo braço, mas meus dedos escorregaram, e a pilha de documentos que eu segurava caiu no chão, espalhando-se. Todos os "caixões de gelo" e "cápsulas de estase" estavam ali, à vista de todos.
Miguel se abaixou para pegar um dos papéis. Seus olhos escanearam a página, e sua expressão ficou ainda mais escura. Ele levantou o olhar para mim.
"O que é isso, Carolina?" Sua voz era perigosamente baixa.
Meu coração martelava no peito. Eu precisava pensar rápido.
"É... é o meu trabalho de design, Miguel," eu disse, tentando parecer o mais calma possível. "Sobre... uhm... um novo tipo de recipiente para o armazenamento de joias. Eu chamo de 'caixão de gelo'."
Ele continuou me encarando, o papel na mão. Sua testa franzida mostrava que ele não estava convencido.
"Você está louca, Carolina?" Ele jogou o papel de volta no chão, a voz cheia de desprezo.
(Carolina Girão POV)
A palavra "louca" ecoou na sala e em minha mente, transportando-me de volta no tempo. Aos cinco anos, no funeral dos meus pais, eu me escondi novamente no armário. Miguel me encontrou, me abraçou e me perguntou por que eu estava ali.
"O caixão... é escuro? É frio?" Eu perguntei a ele, tremendo de medo. Eu tinha tido um pesadelo: minha mãe me chamava da escuridão, me puxando para dentro de um caixão igual ao dela.
"Sim, Carolina. É muito escuro e frio," ele respondeu, me apertando ainda mais em seus braços. "Mas eu não vou deixar você ir para lá. Você fica comigo."
Naquele momento, nos braços de Miguel, o caixão perdeu seu terror. Ele era o meu protetor, minha luz. Hoje, as coisas eram diferentes.
"Caixão de gelo?" Miguel me questionou, a voz áspera, arrancando-me do flashback. "O que diabos você está insinuando com isso, Carolina? Você está doente?"
"Não, Miguel. Não estou insinuando nada," eu disse, minha voz baixa. "É só um projeto de design, para as aulas. Se não gostou, posso mudar."
Adriana, que observava a cena com um sorriso disfarçado, interveio. "Miguel, não se irrite. Talvez Carolina esteja um pouco... deprimida. Mas não se preocupe, querido. Eu posso ajudá-la a encontrar um projeto mais... animador. Algo que não envolva 'caixões de gelo'!"
Eu senti um nó na garganta, mas me forcei a ignorar. Abaixei-me e comecei a recolher os papéis espalhados. Sentindo o olhar de Miguel em mim, eu os juntei e, com um suspiro, joguei-os na lata de lixo da cozinha, bem na frente dele. Eu esperava que isso o acalmasse, que ele visse que eu estava disposta a ceder.
O rosto de Miguel suavizou um pouco, mas ele não disse nada.
Mais tarde, no meio da noite, quando a casa estava em silêncio, eu me levantei e fui até a cozinha. Com as mãos trêmulas, peguei os papéis de volta da lata de lixo. Eu não podia desistir. Esta era minha única esperança.
Quando me virei para voltar para o meu quarto, vi Adriana saindo do quarto de Miguel. Ela usava uma camisola de seda que não era dela, e seu cabelo estava desgrenhado. Marcas de beijos no pescoço e ombros, claras como a luz da lua que entrava pela janela, contavam uma história silenciosa. Meu coração afundou. Não havia necessidade de palavras, as imagens eram gritantes.
Eu desviei o olhar, tentando fingir que não tinha visto nada, tentando me convencer de que era normal. Miguel a amava, é claro que ele dormiria com ela. Era o que as pessoas que se amam faziam. Meu amor era proibido, impensável. Eu era sua protegida, sua responsesa.
"Não sabia que você era tão curiosa, Carolina," Adriana disse, sua voz arrastada pelo sarcasmo. "Ou você ainda está tendo fantasias com Miguel?"
Meu corpo enrijeceu. Eu não a olhei.
"Eu... eu não estou curiosa. Só vim beber água," eu menti, a garganta seca.
Adriana riu. "Ah, claro. Água. Você sabe, Carolina, Miguel não é seu pai. E você não é mais uma criança. É uma mulher. E o que você sente por ele... é nojento. Inadequado."
Ela se aproximou, sua voz se tornando um sussurro malicioso. "Você está doente, Carolina. Literalmente. E não é apenas o seu corpo que está morrendo. É a sua mente. Sua mãe também era assim, não era? Louca."
A palavra "louca" e a menção à minha mãe foram como um choque elétrico. Eu me virei, o rosto queimando de raiva.
"Cale a boca, Adriana!" Eu gritei, algo dentro de mim explodindo.
Num impulso, minhas mãos se lançaram para o pescoço dela. Eu a empurrei contra a parede, a raiva me cegando. Eu não queria machucá-la, mas a dor dentro de mim era insuportável.
"Solte-a, Carolina!" A voz fria de Miguel ecoou na escuridão.
Ele estava ali, na porta do quarto, os olhos fixos em mim, cheios de uma raiva gelada.