Capítulo 2

Júlia ergueu os olhos do risoto quando Arthur voltou, seu rosto estranhamente sereno.

"Quem era?", ela perguntou, o tom casual, com uma pitada de acusação pela interrupção.

Arthur voltou para sua cadeira. "Apenas a diretora do meu antigo orfanato", ele respondeu, a voz calma. "Ligando para saber como estou."

Ela deu um "ah" evasivo e sua atenção foi novamente capturada pela tela do celular.

Naquela noite, Arthur ficou acordado em seu quarto separado, a luz da lua listrando o chão. Por cinco anos, este quarto fora seu santuário e sua prisão. Ele encarou o teto, não com angústia, mas com uma estranha e calma sensação de finalidade. A decisão estava tomada. O caminho estava claro.

Na manhã seguinte, no café da manhã, Júlia empurrou seu prato de torrada com abacate.

"O pão está velho", disse ela, torcendo o nariz.

Arthur não ergueu os olhos de seu próprio prato. "Comprei naquela padaria que você gosta na Rua das Palmeiras."

Ele manteve a cabeça baixa, dando uma mordida lenta na torrada. O que ele não disse foi que a comprara ontem, sabendo que estaria amanhecida hoje. Foi um pequeno e mesquinho ato de rebelião, o primeiro de muitos. Ele estava começando a se desembaraçar da teia de preferências dela.

Júlia não insistiu no assunto. Estava ocupada demais olhando para o celular, sua expressão uma mistura de ansiedade e antecipação. Arthur sabia o que ela estava esperando. Estava esperando uma mensagem de Caio, confirmando seus planos para o almoço. Ele vira o nome piscar na tela dela pouco antes de ela descer.

Um momento depois, o celular dela vibrou. Um sorriso brilhante floresceu em seu rosto, iluminando suas feições de uma forma que Arthur não via dirigida a ele há anos. A visão não o machucava mais. Era apenas um dado. Uma informação confirmando sua decisão.

Ele a observou por mais um momento, então pegou a pasta ao lado de sua cadeira e tirou um envelope pardo. Ele havia preparado isso meses atrás, depois do episódio da gripe. Depois de ouvi-la sussurrar o nome de Caio em seu sono.

Ele o colocou sobre a mesa.

"Júlia", disse ele, a voz calma e firme. "Precisamos nos divorciar."

"Uhum, tudo bem", ela murmurou, os polegares voando pela tela enquanto ela digitava. Ela não tinha ouvido uma palavra.

Arthur não se surpreendeu. Ele esperava por isso. Por cinco anos, ele fora um ruído de fundo.

Ele abriu a pasta e a virou para ela, deslizando-a pela madeira polida. Ele bateu o dedo na última página.

"Preciso que você assine aqui."

Ela ergueu o olhar, irritada com a segunda interrupção. Sem ler uma única palavra, ela pegou a caneta que ele ofereceu e rabiscou sua assinatura elegante na linha. Ela já estava pensando no que vestiria para almoçar com Caio.

Arthur pegou o documento com cuidado, suas mãos firmes. Ele o guardou em segurança de volta em sua pasta.

"Vou me mudar na sexta-feira", disse ele.

"Claro, tanto faz", ela respondeu, pegando a bolsa. Ela se levantou, pronta para sair.

Quando ela chegou à porta, algo fez Arthur falar uma última vez. "Júlia."

Ela parou, virando-se com um suspiro impaciente.

"Você ouviu o que eu disse?", ele perguntou.

Ela olhou para ele, a testa franzida em genuína confusão. "Sobre o quê? Se mudar? Você vai fazer outra daquelas suas pequenas viagens de pintura? Tudo bem, só certifique-se de que a casa esteja abastecida antes de ir."

Uma risada amarga e sem humor escapou dos lábios de Arthur. Ela não tinha ouvido. Não tinha escutado. Nem sequer registrou a palavra "divórcio". Claro que não. Por que ela o faria? Ele era apenas parte da mobília.

Ele balançou a cabeça, um pequeno e triste sorriso brincando em seus lábios. "Deixa pra lá. Tenha um bom dia."

Ela deu de ombros, virou-se e saiu pela porta, sua mente já a quilômetros de distância.

Arthur não se moveu por um longo tempo. Ele olhou ao redor da silenciosa e opulenta sala de jantar, uma gaiola dourada da qual ele finalmente estava prestes a escapar.

Naquela tarde, Arthur dirigiu até o orfanato. Era um prédio modesto, mas alegre, nos arredores da cidade, um mundo distante da mansão de Júlia. Ele encontrou Dona Glória em seu escritório, cercada por pilhas de livros e desenhos de crianças.

"Eu vou", disse Arthur, sem rodeios. "Vou me matricular. Vou para Paris."

O rosto de Dona Glória se abriu em um sorriso largo e aliviado. Ela se levantou e o abraçou com força. "Oh, Arthur. Estou tão feliz por você. Já estava na hora."

Ela se afastou, sua expressão tornando-se séria. "Sabe, eu fiquei com tanta raiva quando você abriu mão daquela bolsa há cinco anos. Um desperdício do seu talento divino."

Ela suspirou. "Mas você ainda é jovem. Você tem a vida inteira pela frente. E a Júlia? Um casamento à distância será difícil."

Arthur olhou pela janela para as crianças brincando no pátio, seus gritos e risadas enchendo o ar. Ele balançou a cabeça lentamente.

"Estamos divorciados, Dona Glória."

Os olhos dela se arregalaram de surpresa, depois se suavizaram com um suspiro que parecia carregar o peso dos últimos cinco anos. "Eu tinha a sensação de que isso poderia acontecer. Honestamente, filho, acho que é o melhor."

Ela deu um tapinha em seu braço, seu toque gentil e reconfortante. "Aquela garota... ela nunca esteve no seu mundo."

Arthur sorriu, um sorriso genuíno e caloroso desta vez. Ele a abraçou de volta, sentindo uma profunda sensação de alívio tomar conta dele.

"Eu sei", disse ele. "E isso é bom. É muito bom."

Capítulo 3

Quando Arthur voltou para a mansão, foi direto para o seu quarto. Era hora de fazer as malas.

Ele abriu o grande closet e ficou olhando. De um lado, a seção de Júlia transbordava de vestidos de grife, sapatos e bolsas, uma profusão de cores e texturas. Do seu lado, havia um punhado de camisas simples, algumas calças e dois ternos. Era o armário de um hóspede, não de um marido.

Ele passou a mão pelo tecido de um suéter de caxemira. Dona Glória lhe dera no último Natal. Ele percebeu, com um sobressalto, que quase todas as peças de roupa decentes que possuía haviam sido um presente de Dona Glória, ou de seus amigos do orfanato, Fábio e Joana.

Em cinco anos, Júlia nunca lhe comprara nem mesmo um par de meias.

Um sorriso triste tocou seus lábios. Ele não tinha muito o que empacotar.

No dia seguinte, um caminhão de mudanças parou na frente da mansão. Arthur orientou os carregadores enquanto eles cuidadosamente colocavam as caixas. Mas não eram suas roupas. Eram os presentes. Todos os presentes extravagantes e atenciosos que ele comprara para Júlia ao longo dos anos. Os livros de arte de edição limitada, os discos de vinil raros, as joias personalizadas.

Ele se lembrava da excitação frenética e esperançosa de comprar cada um deles, imaginando o sorriso dela. Um sorriso que nunca veio. Ele os encontrara todos relegados a um depósito no porão, intocados, alguns ainda em suas embalagens originais, cobertos por uma fina camada de poeira e negligência.

Ele havia vendido cada um deles. O dinheiro agora era um número satisfatoriamente grande em sua conta bancária. Seu pacote de rescisão.

Quando o caminhão se afastou, levando os últimos fantasmas de seu amor unilateral, ele sentiu um peso sair de seus ombros. Ele se virou para entrar quando uma buzina soou atrás dele.

Um carro esportivo vermelho-cereja parou bruscamente na calçada. A porta do motorista se abriu e uma mulher com cabelo rosa-choque e um sorriso de escárnio saiu. Karina Justo, a irmã mais nova de Júlia.

"Ora, ora", Karina arrastou as palavras, olhando do caminhão que partia para Arthur. "Vendendo as joias da família, é? Ficando desesperado agora que sua patrocinadora está prestes a te chutar para a rua?"

Arthur a ignorou e começou a andar em direção à casa. Ele não tinha energia para o veneno de Karina hoje.

"Ei! Estou falando com você!", ela gritou, sua voz estridente. Ela correu atrás dele, agarrando seu braço.

Arthur parou. Ele olhou para a mão dela em sua manga, depois encontrou seu olhar furioso com uma expressão de puro e absoluto tédio. Por cinco anos, ele suportara suas provocações, seus insultos, suas constantes tentativas de miná-lo. Ele sempre respondera com paciência silenciosa, com um sorriso educado, porque isso fazia parte do contrato. Ser um bom marido, um bom genro.

Mas o contrato havia acabado.

"Me solta, Karina", disse ele, a voz fria e sem expressão.

Karina ficou surpresa. Ela estava acostumada com a mansidão dele. A mudança repentina em seu comportamento a irritou ainda mais. "Quem você pensa que é? Você é só um sanguessuga que minha irmã pegou!"

Arthur puxou o braço, um brilho de irritação em seus olhos. Ele estava tão perto da liberdade. Ele não precisava disso.

A expressão de Karina de repente mudou para um sorriso presunçoso e malicioso. "Ah, entendi. Você está chateado. Deve ter ouvido, não é? Caio está de volta. O único e verdadeiro amor da minha irmã. Seu tempo acabou, pobretão. Você está prestes a ser substituído."

Como se fosse uma deixa, a porta do passageiro do carro esportivo se abriu. Um homem saiu, vestido com um terno de linho impecável que parecia imune a rugas. Ele era bonito, com o charme fácil e confiante de alguém que nunca conheceu um dia de dificuldade.

Era a primeira vez que Arthur via Caio Oliveira pessoalmente. Ele era exatamente como nas fotos. Arthur notou com um senso de ironia distante que cinco anos de um casamento fracassado não haviam deixado uma única marca nele. Ele podia ver o apelo.

"Karina, quem é este?", Caio perguntou, seus olhos passando por Arthur com um desdém casual.

Karina se agarrou ao braço de Caio, sua voz tornando-se melosa. "Caio, querido, não se preocupe com ele. Ele é só... o empregado." Ela então se virou para Arthur, a voz afiada novamente. "O que você está fazendo aí parado? As malas do Caio estão no porta-malas. Vá pegá-las."

Arthur nem sequer olhou para ela. Ele se virou e entrou na casa, deixando-a furiosa na entrada da garagem.

"Argh! Aquele perdedor!", ela bateu o pé. O motorista finalmente saiu e cuidou da bagagem.

Alguns minutos depois, o carro de Júlia entrou na garagem. Ela saiu correndo, seus olhos examinando a cena ansiosamente. Quando seu olhar pousou em Caio, uma onda visível de alívio a invadiu. Ela ignorou completamente Arthur, que estava parado no hall de entrada.

"Arthur", disse ela, sua voz um comando, não um pedido. "Caio vai ficar conosco por um tempo. Prepare o quarto de hóspedes."

Arthur permaneceu em silêncio.

Caio, sempre o ator, fez um show de relutância. "Júlia, não quero incomodar. Pode ser... estranho." Ele olhou significativamente para Arthur.

"Não seja bobo, Caio", disse Júlia imediatamente, correndo para o lado dele. "Não é problema nenhum. Arthur não vai se importar. Certo, Arthur?"

Finalmente, os três estavam olhando para ele, esperando que ele fosse o marido complacente e invisível que sempre fora.

Arthur quebrou o silêncio, um sorriso lento e fácil se espalhando por seu rosto. Era um sorriso que eles nunca tinham visto antes - frio, distante e totalmente desprovido de calor.

"Claro que não me importo", disse ele, a voz suave como seda. "Bem-vindo, Caio. Sinta-se em casa."

Porque em breve, ele pensou, será toda sua.

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