Ponto de Vista: Alana Queiroz
A clínica era estéril, toda de paredes brancas e o zumbido silencioso de equipamentos médicos. Cheirava a antisséptico, um cheiro limpo que eu esperava que pudesse lavar a sujeira da minha vida passada. Deitei na mesa, o papel amassando sob mim, e pela primeira vez desde o meu renascimento, senti um vislumbre de algo próximo da paz. Era uma paz sombria e vazia, mas era minha.
Esta era a escolha certa. Uma criança nascida de um amor que era uma mentira, uma criança que tinha sido tão brutalmente assassinada diante dos meus olhos... seria uma misericórdia impedir que essa vida sequer começasse. Eu a estava salvando de seu pai. Eu estava me salvando.
Assim que o médico administrou a anestesia, um barulho alto de algo quebrando ecoou do corredor, seguido por gritos. A porta da sala de cirurgia se abriu com um estrondo, e meu sangue gelou.
Ricardo.
Seu rosto era uma nuvem de tempestade de fúria. Ele não estava olhando para mim. Ele estava olhando para além de mim, para os médicos, seus olhos selvagens com um terror frenético que eu só tinha visto uma vez antes — quando ele pensou que Elisa estava em perigo.
"Onde ela está?", ele rugiu, agarrando o médico mais próximo pelo colarinho. "Elisa Ferraz! Ela foi trazida há uma hora, um aborto espontâneo! Onde ela está?"
Meu coração parou. Elisa? Aqui?
O médico, pálido e trêmulo, apontou um dedo trêmulo para a suíte VIP no final do corredor. "Ela está... ela está em cirurgia. Estamos tentando salvá-la."
O controle de Ricardo se quebrou. Ele socou o vidro reforçado da porta da sala de cirurgia, estilhaçando-o em uma teia de aranha de rachaduras. "Tentar não é o suficiente! Tragam os melhores médicos da porra deste hospital para aquela sala agora, ou eu vou queimar este lugar até o chão com todos vocês dentro!"
Ele empurrou o médico em direção à porta. "Vá! Agora!"
A equipe médica se apressou, me abandonando na mesa. Minha anestesia tinha acabado de começar a fazer efeito, meus membros pesados, minha visão embaçando nas bordas. Através da névoa, observei o cirurgião-chefe sair correndo, lançando um único olhar de desculpas para mim antes de desaparecer pelo corredor.
Eles me deixaram. Eles simplesmente me deixaram. Por ela.
Uma risada borbulhou na minha garganta, um som histérico e quebrado. Claro. Mesmo aqui, mesmo agora, Elisa vinha primeiro. O mundo se curvava às suas necessidades. Ricardo moveria céus e terra por ela, enquanto eu era apenas... um dano colateral.
O homem que eu conhecia, o homem por quem eu amei e sangrei, se foi. Ele foi substituído por este monstro, este estranho que me deixaria deitada aqui, aberta e abandonada, por uma mulher que ele conhecia há alguns meses.
Minha consciência começou a desaparecer, a escuridão na borda da minha visão se aproximando. Enquanto eu adormecia, minha mente repassava um rolo distorcido de memórias.
Lembrei-me de uma noite, anos atrás, depois que uma gangue rival nos emboscou. Eu tinha levado uma facada nas costelas que era para ele. Ele me segurou em seus braços, a voz rouca de medo. "Nunca mais faça isso, Alana. Não se atreva a me deixar."
Então a memória mudou, azedando em algo feio. Era da minha primeira vida, a memória dele de pé sobre mim, os olhos tão frios quanto um céu de inverno. "Você é substituível. Ela não é."
A memória dos meus homens leais, executados um por um porque falharam em me impedir de ir atrás de Elisa. Seus rostos, leais até o fim.
O bisturi, o choro do bebê, os rostos lascivos de seus homens.
Dor. Tanta dor.
Fui arrancada de volta à consciência por uma agonia tão aguda, tão ofuscante, que roubou o ar dos meus pulmões. Um grito rasgou minha garganta.
"Ela acordou! A anestesia passou!", uma enfermeira gritou de algum lugar próximo.
A dor era uma coisa viva, um fogo me consumindo de dentro para fora. Eu podia sentir os instrumentos frios e afiados dentro de mim. Eu me debati na mesa, minha visão nadando em uma névoa avermelhada.
"Segurem ela! Estamos quase terminando!"
Mãos me empurraram de volta para a mesa, segurando meus braços e pernas. A dor era insuportável. Era um castigo, uma penitência. Era o eco da minha primeira morte, um lembrete horrível do que ele era capaz.
Então, misericordiosamente, o mundo ficou preto novamente.
Quando acordei, estava em um quarto particular. O sol entrava pela janela, mas eu não sentia nada além de um frio vazio. Marcos estava sentado em uma cadeira ao lado da minha cama, o rosto sombrio.
"Ele nem veio ver como você estava", disse Marcos, a voz baixa e carregada de nojo. "Ele ficou sentado do lado de fora do quarto dela o tempo todo. Não saiu do lado dela."
"Ele te viu?", perguntei, minha voz um sussurro seco.
"Não. Fomos cuidadosos."
"Bom."
Marcos balançou a cabeça, o maxilar tenso. "Alana, por que você simplesmente não contou a ele? Dizer que estava grávida, que era você naquela mesa de cirurgia."
Fechei os olhos. "O que isso teria mudado, Marcos? Ele viu os homens dele me abandonarem por ela. Ele quebrou uma porta porque estava preocupado com ela. Ele teria visto isso apenas como mais um dos meus 'truques'. Outra tentativa de chamar sua atenção." Soltei uma risada amarga. "Ele teria me acusado de fingir um aborto para fazer Elisa parecer má."
"Ele nem sempre foi assim", disse Marcos em voz baixa. "Lembra quando você levou aquele tiro por ele? Ele ficou ao lado da sua cama por três dias seguidos. Recusou-se a comer ou dormir até você acordar."
"Aquele Ricardo está morto", eu disse, minha voz vazia. "Elisa o matou."
Olhei para Marcos, meu homem mais leal, a coisa mais próxima que eu tinha de um amigo. "Preciso que você faça algo por mim. Consiga um novo passaporte. Uma nova identidade. Consiga uma passagem só de ida para algum lugar bem longe, um lugar que ele nunca pensaria em procurar."
Ele assentiu, os olhos tristes, mas compreensivos. "Vou cuidar disso."
"E Marcos", acrescentei, encontrando seu olhar. "Queime tudo. Meus arquivos, minhas roupas, qualquer vestígio de que eu já existi na vida dele."
Eu ia me tornar um fantasma.
Alguns dias depois, Marcos entregou o passaporte e a passagem. Eu estava me recuperando em casa, um lugar que não parecia mais um lar, mas uma gaiola dourada cheia de memórias que se transformaram em veneno. Em todo esse tempo, Ricardo não ligou. Nenhuma vez. Nenhuma mensagem. Era como se eu já tivesse deixado de existir. Uma parte de mim, a parte fraca e tola que ainda se lembrava dos bons tempos, sentiu uma pontada aguda de dor. Mas eu a empurrei para baixo, enterrando-a sob camadas de resolução fria e dura.
Naquela noite, eu estava arrumando uma pequena mala quando uma tábua do assoalho rangeu no corredor. Eu congelei. Eu era um fantasma, mas meus instintos estavam mais afiados do que nunca. Eu não estava sozinha.
Peguei a arma que mantinha escondida debaixo do colchão, meus movimentos silenciosos e fluidos. Mas quando me levantei, algo afiado e acre foi pressionado sobre minha boca e nariz. Clorofórmio. Meus músculos amoleceram, o mundo inclinou e girou. Meu último pensamento antes que a escuridão me tomasse foi amargo e irônico.
Eu sobrevivi à própria morte, apenas para ser derrubada em minha própria casa.
Acordei com o cheiro de ferrugem, cerveja velha e algo podre que fez meu estômago revirar. Eu estava deitada em um chão de cimento frio e úmido. Minha cabeça latejava, e uma nova onda de dor irradiava do meu baixo-ventre. Me levantei, meu corpo gritando em protesto. O quarto estava mal iluminado, e eu podia ver embalagens de comida descartadas e o que parecia ser vômito seco no canto.
Meu estômago embrulhou, e eu vomitei, esvaziando o conteúdo escasso do meu estômago no chão imundo.
Então ouvi vozes do lado de fora da fina porta de metal. A voz de Ricardo.
"Ela já acordou?", ele perguntou, o tom impaciente.
"Ainda não, chefe", respondeu outra voz familiar. Um de seus tenentes. "Tem certeza disso? Ela acabou de... passar por uma cirurgia."
"Ela procurou por isso", a voz de Ricardo era gelo. "Ela precisa aprender que seus chiliques têm consequências. Esta é uma lição de lealdade. Quando ela estiver com medo o suficiente, eu vou entrar e 'resgatá-la'. Ela ficará tão grata que vai esquecer seu pequeno ato de desaparecimento."
Meu sangue gelou. Isso foi obra dele. Ele orquestrou isso. Isso não era um castigo por ir atrás de Elisa. Isso era um castigo pelo meu silêncio. Pela minha retirada. Por ousar me afastar dele.
Ele ia me quebrar, e depois me consertar para que eu fosse sua boneca perfeita e obediente novamente.
Eu me arrastei para trás, pressionando-me contra a parede oposta, meu coração martelando contra minhas costelas. Eu tinha que ficar acordada. Eu tinha que estar pronta.
Quando a maçaneta da porta girou, forcei meus olhos a se abrirem, tentando parecer atordoada e fraca.
Ricardo entrou, e sua expressão mudou imediatamente de fria indiferença para uma de preocupação chocada. Foi uma atuação magistral.
"Alana! Meu Deus, o que aconteceu?" Ele correu para o meu lado, me envolvendo em seus braços. "Sinto muito, meu amor. Acabei de descobrir. Pegamos os desgraçados que fizeram isso. Eu te prometo, eles vão pagar pelo que fizeram."
Ele me abraçou forte, sua voz um murmúrio calmante contra meu cabelo. Era tudo uma mentira. Uma peça doentia e distorcida onde ele era tanto o vilão quanto o herói.
Olhei para ele, meus olhos vermelhos, interpretando meu papel. "Ricardo", sussurrei, minha voz trêmula.
"Estou aqui, meu amor. Eu te peguei", ele disse, a voz grossa de emoção falsa. "Vamos para casa. E então, vamos fazê-los pagar. Juntos."
Ele me levantou em seus braços, e enquanto me carregava para fora daquele quarto imundo, enterrei meu rosto em seu peito, meu corpo tremendo com uma raiva silenciosa e fervente. Ele pensou que estava me ensinando uma lição de lealdade.
Mas a única lição que eu estava aprendendo era como odiá-lo.
Ponto de Vista: Alana Queiroz
No carro, ele segurou minha mão, o polegar acariciando meus nós dos dedos em um gesto que antes era reconfortante, mas agora parecia o toque de uma cobra.
"Eu sinto muito, Alana", ele murmurou, a voz carregada de uma culpa habilmente fingida. "Eu deveria ter prestado mais atenção. Tenho andado tão distraído com... tudo. Juro por você, isso nunca mais vai acontecer."
Ele se inclinou e deu um beijo suave na minha testa.
"Você deve estar apavorada. Não se preocupe. Eu vou consertar tudo."
Fechei os olhos, incapaz de olhar para seu rosto bonito e mentiroso por mais tempo. Cada palavra era um movimento calculado em seu jogo doentio. Ele me queria quebrada, dependente e grata por sua salvação. Ele queria que eu acreditasse que ele era meu protetor, enquanto era ele quem me havia jogado aos lobos.
A viagem pareceu durar uma eternidade. Paramos em frente a uma fábrica abandonada e familiar nos arredores da cidade, um lugar que usávamos para... interrogatórios. Meu estômago se revirou.
Lá dentro, um homem estava amarrado a uma cadeira. Ele estava tão espancado que sua própria mãe não o reconheceria. Mal estava consciente, sua respiração superficial e irregular.
Ele não era um dos homens que me atacaram. Eu nunca o tinha visto antes na vida. Ele era apenas um adereço para o palco de Ricardo.
O único olho bom do homem se abriu e pousou em mim. Não havia reconhecimento nele, apenas uma confusão atordoada. Então seu olhar se voltou para Ricardo, e uma centelha de ódio puro se acendeu em suas profundezas.
"Seu filho da puta", o homem cuspiu, um fio de sangue escorrendo do canto de sua boca. "Você me armou."
Ricardo o ignorou, sua atenção totalmente em mim. Ele se agachou, forçando-me a olhar para o homem quebrado.
"Este é um deles, Alana. O lixo que te machucou."
Ele então se virou para o homem, sua voz caindo para um sussurro mortal.
"Você colocou as mãos na minha mulher. Você a fez sangrar. Agora, eu vou fazer você gritar."
Ricardo tirou uma faca de caça reluzente de sua jaqueta. O homem na cadeira começou a se debater, os olhos arregalados de terror.
"Espere! Conte a verdade para ela, Mendes! Diga a ela que você me pagou para-"
As palavras do homem foram cortadas por um gorgolejo sufocado quando Ricardo enfiou a faca em sua garganta. Ele a torceu, seus movimentos eficientes e brutais.
Sangue espirrou pelo chão. Ricardo tirou a faca e se virou para mim, um sorriso doentiamente gentil em seu rosto. Havia respingos de sangue em sua bochecha, um contraste gritante com seus traços perfeitos.
"Ele não pode mais te machucar", disse ele suavemente, como se tivesse acabado de me apresentar um presente. Ele limpou a faca ensanguentada em suas calças e depois a estendeu para mim, com o cabo virado.
"Termine", ele disse, sua voz um comando calmo. "Faça-o pagar pelo que ele fez a você. A nós."
Minha mão tremeu quando peguei a faca. Minha mente estava gritando. Isso era loucura. Isso era uma performance, um espetáculo doentio e sangrento projetado para me ligar a ele novamente através da violência compartilhada.
Ele colocou a mão sobre a minha, seu aperto firme e inflexível. Juntos, ele guiou minha mão, forçando a lâmina a entrar fundo no peito do homem moribundo. Uma vez. Duas vezes. O baque nauseante da faca atingindo o osso ecoou na sala cavernosa.
O corpo do homem ficou mole.
Ricardo me puxou para seus braços, segurando-me com força contra seu peito enquanto o sol começava a se pôr, lançando longas sombras sangrentas pelo chão da fábrica.
"Viu, meu amor?", ele sussurrou em meu cabelo, seus lábios roçando minha têmpora. "Somos melhores quando estamos juntos. Nunca mais tente me deixar. Não me faça fazer coisas que eu não quero fazer."
Ele se afastou um pouco, suas mãos segurando meu rosto. Seus polegares enxugaram gentilmente as lágrimas que eu nem percebi que estava chorando.
"Você é minha, Alana. Você é diferente de todo mundo. Contanto que você seja uma boa menina e fique ao meu lado, eu sempre vou te proteger. Eu sempre estarei aqui para você."
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. Boa menina. Proteger você. Era a linguagem que se usa com um animal de estimação, não com uma parceira. Os oito anos que passamos construindo um império juntos não significavam nada. Aos olhos dele, eu era apenas uma posse a ser gerenciada e controlada.
Ele sorriu, um sorriso terno e amoroso que era a coisa mais aterrorizante que eu já tinha visto. Ele deixou uma mão descer do meu rosto para repousar possessivamente sobre meu abdômen ainda dolorido.
"Como está nosso bebê?", ele perguntou, a voz suave. "Espero que eles não tenham ficado muito assustados."
A pergunta foi tão chocante, tão completamente desconectada da realidade sangrenta da última hora, que eu recuei fisicamente. Tropecei para trás, para fora de seus braços, meus olhos arregalados com uma nova onda de horror.
Ele sabia sobre o bebê.
Mas ele não sabia que o bebê tinha ido embora. Ele pensava que essa... essa exibição grotesca de violência... era para nós três.
"O... o bebê está bem", gaguejei, minha voz mal um sussurro. "Ainda é muito cedo para sentir qualquer coisa."
"Estou cansada, Ricardo", eu disse, envolvendo os braços em volta de mim mesma. "Quero ir para casa."
Ele assentiu, sua máscara de namorado amoroso deslizando perfeitamente de volta ao lugar.
"Claro, meu amor. Vamos te levar para casa para descansar."
Na volta, o celular dele não parava de vibrar. Ele continuava olhando para ele, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. Quando estávamos a algumas quadras do nosso prédio, ele parou o carro.
"Surgiu uma coisa", ele disse, sem me encarar diretamente. "Uma bagunça que preciso resolver. Pode subir. Volto mais tarde."
Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei a cabeça para que seus lábios pousassem na minha bochecha. Ele franziu a testa levemente, mas não insistiu. Quando ele saiu do carro, vislumbrei a tela do seu celular enquanto ela se acendia.
Uma mensagem de Elisa.
*Estou com medo, Ricardo. Sinto sua falta. Você pode vir aqui?*
Ele me deixou na beira da estrada, coberta com o sangue de um estranho, e foi correndo para ela.
Eu não peguei um táxi. Eu andei. Andei por três horas, o ar frio da noite não fazendo nada para clarear minha cabeça. As luzes da cidade se borraram ao meu redor. Cada passo era um testemunho da minha tolice. Cada respiração era um lembrete do homem a quem eu dei tudo, e do homem que ele se tornou.
Quando finalmente cheguei à porta da frente do nosso prédio, minhas pernas doíam e minha alma estava entorpecida. Procurei minhas chaves, minhas mãos ainda tremendo.
Assim que encontrei a chave certa, uma dor aguda explodiu na parte de trás da minha cabeça.
O mundo ficou preto pela terceira vez em poucos dias.
Desta vez, acordei com o som de uma faca sendo afiada. Raspa. Raspa. Raspa. O som rítmico e irritante fez meus dentes rangerem.
Eu estava em um galpão diferente. Mais escuro, mais sujo. E eu não estava sozinha.
Do outro lado da sala, amarrada a outra cadeira, estava Elisa. Seu rosto estava pálido, seus olhos grandes arregalados de terror.
Um homem que eu reconheci vagamente estava entre nós, testando a lâmina contra o polegar. Jeferson Gonçalves. O chefe do cartel rival Gonçalves. Um homem cujos carregamentos vínhamos interceptando sistematicamente nos últimos seis meses.
"Ora, ora", disse Gonçalves, seus olhos alternando entre mim e Elisa. "Olha o que meus rapazes trouxeram. Duas pelo preço de uma." Ele sorriu, um sorriso cruel e feio. "O Mendes tem sido um verdadeiro pé no saco. Sequestrou um dos meus melhores homens na semana passada. Acho que é hora de retribuir o favor."
Seus olhos se demoraram em Elisa, depois se voltaram para mim. Seu olhar desceu para nossas barrigas. Um sorriso lento e predatório se espalhou por seu rosto.
"E o que é isso? Duas vadias grávidas? O Mendes andou ocupado." Ele riu, um som baixo e gutural. "Ele vai ter dificuldade em escolher qual salvar."
Ele caminhou até Elisa, a faca brilhando na luz fraca. Ele cortou suas amarras. Ela recuou, choramingando.
"Por favor", ela sussurrou, lágrimas escorrendo por seu rosto perfeito. "Por favor, não me machuque. Eu faço qualquer coisa."
Gonçalves riu. "Ah, tenho certeza que faz." Ele estendeu a mão e rasgou a frente do vestido dela. Ela gritou, encolhendo-se para longe dele.
Enquanto sua atenção estava nela, eu trabalhei silenciosamente, freneticamente, serrando as cordas que prendiam meus pulsos contra um pedaço de metal afiado que se projetava da minha cadeira. As fibras estavam começando a ceder. Só mais um pouco de tempo.
Então Elisa falou, sua voz aguda e trêmula, mas com uma corrente subterrânea de algo que eu não tinha ouvido antes. Astúcia.
"Espere!", ela gritou. "Você pegou a pessoa errada!"
Gonçalves parou, virando-se para olhá-la.
"Ela!", Elisa apontou um dedo trêmulo para mim. "É ela que você quer! Eu não sou ninguém! Sou apenas uma estudante! Ela é Alana Queiroz, a chefe de operações do Ricardo! O braço direito dele! É ela quem planeja tudo! Todos aqueles carregamentos que você perdeu? Foi ela!"
Meu sangue gelou. As cordas em meus pulsos se soltaram, mas eu estava congelada no lugar, encarando a garota que Ricardo acreditava ser pura demais para sequer pisar em uma formiga.
"E... e o seu homem", Elisa soluçou, suas palavras se atropelando. "Aquele que o Ricardo pegou na semana passada? Foi ela quem deu a ordem! Eu os ouvi falando sobre isso! Ela disse que ele era um risco e precisava ser eliminado permanentemente!"
Eu a encarei, minha mente girando. A estudante de artes inocente e frágil era uma víbora. Uma mentirosa. E ela tinha acabado de assinar minha sentença de morte para salvar a própria pele.
O rosto de Gonçalves escureceu, seus olhos se voltando para mim com uma fúria renovada e assassina.
"É mesmo?", ele rosnou, avançando sobre mim.
Naquele momento, eu finalmente entendi. Elisa não era uma distração. Ela era uma arma. E ela tinha sido apontada para mim desde o início.