Data marcada
Papai me avisa que a data do casamento está marcada e será
para daqui uma semana.
Os convites já foram enviados às pressas para os convidados que
sequer conheço. Minha única convidada é Lucy, que será minha madrinha.
Seu vestido é muito bonito, com um decote discreto, amarelo-claro e saltos
altos. Vejo o quanto ela fica animada ao prová-lo e feliz por fazer parte deste
momento na minha vida, mesmo sabendo que não estou contente.
— Vai dar tudo certo, você verá, quem sabe não acabe se
apaixonando por este homem misterioso.
— Espero que isso não aconteça.
— Espera, senhorita Vargas? — pergunta arrancando uma risada
minha.
— Sim, aliás, não vai acontecer... Você sabe como funciona; primeiro
a gente conhece a pessoa, depois damos nosso primeiro beijo, as coisas vão
acontecendo devagar, começamos a namorar, nos entregamos de corpo e
alma e só depois nos casamos. Eu não serei assim, conhecerei meu marido
no altar e nem sei o seu nome direito.
— Porque não quer, é só pesquisar que saberá — responde Lucy
revirando os olhos. — Pense que ele é um bom partido, é um homem
importante nos negócios, ao menos terá uma vida tranquila, sem precisar se
preocupar em não ter dinheiro.
— Mas eu não quero viver dependendo de um homem — digo
suspirando. — Quero estudar, fazer uma faculdade, conhecer o mundo,
pessoas.
— Se o seu marido for um homem bom, poderá fazer isso tudo, não
vivemos mais no século XVIII, estamos no século XXI. Será que ele seria
tão retrógado assim?
— Acho que não — respondo como um murmuro. — Pelo menos eu
espero que não.
— Você saberá daqui uma semana — responde Lucy segurando
minha mão. — Não se preocupe, tenho certeza de que você irá se
surpreender.
Torço para que ela esteja certa.
***
Sabe quando você tem a sensação de que o tempo passa mais
depressa?
Quando você precisa que seu dia tenha quarenta e oito horas e, na
verdade, dura menos de cinco?
Estou me sentindo assim nesta semana de pré-casamento. Parece que
a cada segundo, as horas passam mais rápidas e quando pisco já se encerrou
mais um dia.
Agora falta apenas quatro dias para o casamento acontecer e estou
cada vez mais nervosa com isso tudo. É como se a minha sentença de morte
estivesse pronta e eu esperasse este acontecimento.
E para falar a verdade, não duvido que seja isso mesmo.
A cada minuto, hora e dia que se passa, eu sigo para uma morte lenta
e dolorosa.
Estou perdida...
***
Como combinado, a festa será em casa, com um buffet extraordinário
e muita comida. O casamento ocorrerá em uma igreja reservada, não tão
longe de casa, levando em consideração que moramos na cidade grande,
próximos a prédios e casas gigantescas.
— Está distraída — diz mamãe me tirando dos meus pensamentos. —
Na verdade, desde o dia que soube sobre o casamento, você parece viver no
mundo da lua.
— Meu sonho que isso fosse verdade — digo cruzando os braços. —
Só estou tentando processar tudo que vem acontecendo.
— Imagino que sim... Você vai se casar em quatro dias, precisa de
descanso e bem-estar, além de que está com olheiras enormes.
— Não tenho dormido muito bem, tive pesadelos a semana inteira —
confidencio a ela que suspira triste.
— Sabe, filha, meu casamento com seu pai não foi fácil, mesmo nos
casando por amor, temos as nossas diferenças.
— Para ele te trair, acredito que tenha mesmo — digo e sou
repreendida pelo seu olhar duro.
Mamãe se aproxima e se senta ao meu lado no sofá, segurando
minhas mãos.
— Isso é um detalhe que deve ser esquecido.
— E se acontecer o mesmo comigo, mamãe? E se meu marido me
trair por aí?
— Será mais fácil, já que você não sente nada por ele.
Concordo mexendo no meu cabelo, com a intenção de que isso alivie
os pensamentos.
— Eu sempre sonhei em me casar, mas não tão cedo e nem assim,
sem querer.
— Eu sei, minha filha, e nunca irei me perdoar por isso...
— Mas é necessário, eu sei. — A corto, esboçando um sorriso. —
Como papai está com essa história toda?
— Se quer realmente saber, ele está bem. Sabe que está sendo difícil
para você, mas está aliviado que tudo passará.
— Uma coisa que eu não entendo é porque papai teme tanto o
Eduardo. Não consigo acreditar que ele seja capaz de fazer algum mal.
— Eu também não acreditava que seu pai seria capaz de matar uma
mosca, mas quando você não tem para onde correr, precisa fazer escolhas.
— Escolhas essas que machucam outras pessoas. — Suspiro. —
Entendi.
— Uma hora você entenderá tudo.
— Então você está me dizendo que tem algo mais além do que eu
sei?
— Possa ser que sim — responde tristonha. — Por que você não
chama a Lucy para um chá? Seria bom você se distrair um pouco, ainda mais
que agora ela será sua governanta.
— Aliás, obrigada por isso, ter Lucy comigo será muito mais fácil.
— Não agradeça — responde se levantando. — Não vou abandoná-
la, filha, tenha certeza disso.
Concordo apenas com um movimento de cabeça e fico em pé,
decidida a esquecer isso pelo menos por um momento.
***
Quatro dias, se tornaram três, que logo viraram dois e quando vejo,
estou no banheiro, encarando o espelho.
A casa está cheia, como já era de se esperar e pessoas vão para
todos os lados com arranjos de flores, cadeiras, mesas e muitas outras
coisas. Há garçons e garçonetes, um buffet repleto de comida e música
teatral. Acho tudo exagerado, mas não reclamo, minha maior preocupação
neste momento é o que vai acontecer depois do sim.
Me despindo, caminho até a banheira, que Lucy me auxiliou no
preparo do banho. Mergulho, molho meu cabelo e fico imersa na água por
um longo minuto, saindo após não aguentar segurar mais a respiração.
Ensaboo meu corpo e lavo meu cabelo, hidratando-o com cheiro de rosas.
Assim que finalizo, depilo minhas pernas, sabendo que terei que manter
minha depilação em dia.
Ao terminar, saio do banheiro e sigo para o quarto, sendo recebida
por Lucy, mamãe, Cayenne, um maquiador e um cabeleireiro. Respiro fundo,
ignorando o falatório a minha volta e visto a lingerie de renda branca na
frente deles, sem me importar se estão me vendo nua. Após fazer isso, me
enrolo em um roupão e sigo até uma cadeira em frente ao espelho, soltando
meu cabelo molhado.
— Hoje é um dia muito especial, senhorita Vargas — diz Cayenne.
— O Joseph vai cuidar do seu penteado e Josh da sua maquiagem, queremos
você impecável.
— Obrigada, não consegui dormir nos últimos dias de tanta
ansiedade — digo soando sarcástica.
— Imagino que sim, casamentos são tão lindos — diz animada.
Forço um sorriso e Joseph começa seu trabalho, escovando bem meu
cabelo.
O processo leva menos de uma hora, quando dou por mim, meu
cabelo já está completamente escovado e ele começa a fazer o penteado.
Peço que seja algo simples, como um topete alto na frente e o comprimento
preso em um coque frouxo. Na frente, deixamos algumas mechas soltas,
colocando em volta da minha cabeça uma tiara de prata, com pequenas
pedras semipreciosas que pertencera a minha vó.
Fico surpresa em ver como o simples objeto antigo realçou meu rosto
e um sorriso sincero se forma em meu rosto quando Josh se aproxima e
começa a me maquiar.
Escolhemos uma maquiagem simples, apenas esfumaçando meus
olhos em preto para realçar meu rosto e um batom tom de pele. Ele passa o
delineador e finaliza com o pó no meu rosto, assim que termina, Josh se
afasta e me encaro no espelho.
Não posso negar, realmente estou muito bonita e por um milésimo de
segundo, a ideia de me casar se torna boa.
— Filha. — Saio dos meus pensamentos ao ver mamãe e me viro
para ela, que está emocionada. — Você está linda, querida.
— Obrigada — digo emocionada. — Não me deixe chorar, se não
vai borrar toda a maquiagem e Josh será obrigado a refazer.
Mamãe sorri concordando, então me viro e vejo Cayenne com o
vestido em mãos. Sinto meu coração cada vez mais acelerado, como se ele
pudesse sair do meu peito e ela se aproxima.
— Você está pronta?
— Acho que sim — digo receosa.
— Certo, vamos lá.
Como no dia da prova, Cayenne me ajuda a colocá-lo e me sinto
cada segundo mais nervosa, sabendo que dessa vez não estou me vestindo
para uma prova, mas sim para subir ao altar. Assim que ouço o zíper ser
fechado, uma onda de sentimentos cresce dentro de mim, como se eu fosse
uma bomba-relógio que pudesse implodir aqui mesmo.
Respiro fundo tentando me manter firme e abaixo um pouco a cabeça
para o véu ser colocado. Quando termina, Cayenne, o joga para trás e vejo
meu reflexo no espelho.
Assim como na prova, estou deslumbrante, o que me deixa bastante
surpresa.
Como uma roupa poderia subjugar tanto o corpo de uma mulher?
Fico estarrecida e dou uma volta, vendo a cauda deslizar pelo
ambiente.
— Estou linda — digo realmente emocionada.
— Você está mesmo, Laureen — diz Lucy batendo palmas de
felicidade.
Sorrio e me viro para mamãe que chora baixinho.
— Querida, nunca imaginei que você ficaria tão linda em um vestido
de noiva.
— Concordamos com isso, eu também nunca imaginei — digo rindo.
Ela sorri se aproximando de mim e me abraça forte.
— Estarei torcendo pela sua felicidade, mas se precisar de alguma
coisa, não hesite em me procurar.
Concordo sabendo que posso confiar em suas palavras.
— Acho que está na hora — digo sentindo minhas mãos tremerem. —
Mãe, me leve ao altar.
— Pensei que iria sozinha, seu pai me disse...
— Sim, mas quero que você me leve — digo interrompendo-a.
— Claro, minha filha.
Sorrio com isso e suspiro, encarando minha imagem uma última vez
no espelho.
Não há mais nada para se fazer, o momento está chegando e irei me
casar.
Acidente de trânsito
Sinto meu coração cada vez mais acelerado quando desço a
escada em direção a saída da casa. Minhas mãos estão molhadas por conta
do suor e minha respiração está entrecortada.
— Mantenha a calma — sussurra Lucy ao meu lado.
Levo minha mão até a sua e a aperto.
— Obrigada por estar ao meu lado neste momento.
Vejo seu sorriso se alargar e percebo que o tempo não está tão
favorável, pois o céu está escuro, carregado de nuvens, até mesmo parecia
que alguém havia morrido e eu não duvido disso. Estou morta por dentro por
ter que me casar com um completo desconhecido.
— O carro já está vindo — diz mamãe me trazendo para a realidade.
— Certo, e papai?
— Já está na igreja, ele preferiu ir na frente para recepcionar os
convidados.
Concordo e fico em silêncio, esperando.
Não demora e vejo um carro adentrar o jardim ao lado da nossa casa
e mamãe junto com a Lucy me ajudam a descer os degraus, segurando a
cauda e o véu do vestido.
— Lucy e eu iremos em outro carro, encontrarei você na igreja.
— Por quê?
— Quero te dar um tempo sozinha — diz afastando o cabelo do seu
rosto.
Apenas assinto, agradecendo mentalmente, entro no veículo, pego
meu buquê e me despeço das duas ao ver a porta ser fechada.
Logo vejo mamãe e Lucy seguirem para outro carro e seguro minha
respiração contando até cinco. O ato me ajuda a manter a calma pelo menos
um pouco, até o carro começar a se movimentar saindo do jardim do meu
antigo lar.
Me viro de costas e olho pelo vidro traseiro a casa que passei a
minha vida inteira ficar cada vez mais longe. Penso que nunca mais irei
voltar para cá, a partir desta noite, serei uma mulher casada e com
sobrenome diferente.
Logo o veículo está andando pelo trânsito da cidade, coloco o buquê
no assento ao lado e torço minhas mãos de nervosismo.
Como será que meu noivo é?
De repente, penso que minha atitude de não querer vê-lo pelo menos
na internet é um tanto quanto infantil, mas a dele de não vir me conhecer
pessoalmente é pior ainda, o que me faz rir.
E se ele for um homem feio, com mau hálito?
A ideia de encontrar um ogro no altar me causa boas risadas e dor no
estômago.
Não é porque irei me casar sem vontade que meu futuro marido tem
que ser feio.
Continuo um bom tempo pensando em como será meu futuro marido,
relembrando o pesadelo que havia tido.
E se fosse uma espécie de alerta?
E se realmente meu noivo que desconheço, é uma pessoa
assustadora?
Fecho meus punhos com força, chegando a sentir minhas unhas
machucarem a palma das minhas mãos. Tento me acalmar e fecho os olhos,
desejando que isso tudo não passe de um pesadelo.
E então algo acontece...
Sinto um solavanco forte e sou jogada para a frente, batendo com
tudo meu peito no banco. Solto um gritinho de dor e o buquê rola pelo chão
do carro, com meu coração acelerado por conta do baque.
— O que foi que aconteceu? — pergunto me sentindo assustada.
— A senhorita está bem? — pergunta o motorista, se certificando que
não estou machucada.
Sei que ele não se importa, está apenas vendo se não me machuquei
para não perder seu emprego.
— Estou bem — respondo. — Parece que bateram no nosso carro.
Respiro fundo sentindo a dor no peito.
Ele estaciona o carro no meio-fio, abrindo a porta e saindo
rapidamente. Abro a janela do carro e o vejo indo para trás, analisando a
traseira.
— Como é que estamos aí?
— Ferrados — diz suspirando.
Abro a porta e com um pouco de dificuldade, saio, olhando o veículo
que bateu na gente, parar com a frente destruída.
— Não poderia ser melhor — balbucio revirando os olhos.
Vejo a porta do carro que nos acertou abrir e o motorista sair.
Seu olhar é bastante sério e percebo o nervosismo dele.
— Vocês estão bem? Por favor, me perdoem, acabei acelerando mais
do que deveria.
— Está desculpado, mas deveria se atentar um pouco mais — digo
com o meu motorista me observando. — Veja que ironia, você acelerou para
ir mais rápido e agora está aqui parado, perdendo tempo.
— Sinto muito de verdade, senhorita — diz sincero. — Você vai se
casar.
Não é uma pergunta já que estou usando vestido de noiva, com véu, o
que não tem outra explicação a não ser um casamento.
Quem sairia assim à toa?
— Sim, e você me atrasou para o meu casamento.
— Sinto muito.
— Na verdade, obrigada — respondo com um sorriso.
Vejo a porta traseira do carro se abrir e um homem sair.
Assim que o vejo, é como se cada detalhe a minha volta
simplesmente desaparecesse e estivéssemos somente nós dois aqui, parados,
um encarando o outro. Não posso negar, ele é um homem muito bonito. Seu
cabelo é escuro e seus olhos acastanhados demostram uma fúria que fico
curiosa em desvendar. Sua barba está bem alinhada, marcando seu lindo
rosto angelical. Posso afirmar que em toda minha vida, nunca vi um homem
tão bonito como ele.
A pele clara se destaca ainda mais com o smoking preto que ele usa.
Noto a gravata borboleta e ele ergue a sobrancelha, talvez sem entender o
porquê estou o encarando.
— O que está acontecendo aqui, Reginald? — questiona com a voz
grossa e sensual.
Fico arrepiada ao ouvi-lo e me repreendo mentalmente por isso.
— Só me certificando que a senhorita está bem — diz Reginald, o
motorista.
— E você está bem? — pergunta o homem me encarando.
— Sim, estava dizendo ao seu motorista que ele me atrasou para o
meu casamento, mas está tudo bem.
— Certo, nos perdoe por isso, o carro eu posso mandar consertar,
desde que você não se importe que seja feito isso outra hora, também estou
atrasado para o meu casamento.
Fico surpresa ao ouvir isso e com a coincidência em saber que este
homem também irá se casar.
— Tudo bem, meu motorista pode cuidar disso com o seu, o que
acha?
O homem assente e vejo meu motorista se aproximar do seu, trocando
algumas palavras que não ouço. Vejo Reginald dar um cartão para o outro e
encaro o homem que me observa atentamente.
— Bom casamento para você, senhorita...
— Laureen, me chamo Laureen.
— Certo, me chamo Gael. Mais uma vez, me perdoe.
— Tudo bem, um bom casamento para você também.
Um sorriso sincero se forma em meu rosto e o vejo fazer o mesmo.
Sinto pingos de chuva começarem a cair e entro no meu carro
acenando para o rapaz, o perdendo de vista.
Não demora e meu motorista volta para dentro do veículo me
encarando.
— A senhorita está bem mesmo?
— Sim, estou, agora vamos seguir logo para a igreja.
— Vai ser uma entrada e tanto com o carro amassado — responde
mais para ele do que para mim.
Rio com isso e movimento a cabeça em concordância.
O carro passa ao nosso lado e vejo o homem uma última vez,
marcando bem seu olhar sério e enigmático.
***
Conto de 10 a 0 e quando vejo, estamos em frente à igreja. Respiro
fundo e avisto mamãe e Lucy do lado de fora, ao perceberem o carro
amassado, seus olhares se contorcem e se aproximam rapidamente de nós.
— O que houve? — pergunta mamãe, assim que o carro para em
frente à entrada da igreja.
— Fomos acertados por um motorista um tanto imprudente — digo
suspirando.
Elas me ajudam a sair do carro e arrumam a cauda do vestido,
esticando-o e alinhando. O véu também é arrumado e mamãe me observa.
— Vocês estão bem?
— Sim, até que foi divertido, acredita que o rapaz que nos acertou
também estava indo se casar?
— Que loucura, mas vamos esquecer isso por um momento. Quando
você estiver preparada, entraremos.
Sinto o medo voltar a tomar conta de cada parte do meu corpo e
minhas mãos suam cada vez mais. Respiro fundo, mentalizando coisas boas,
como se isso fosse apenas uma fase e se depender de mim, acabará em
breve.
“Tolinha!”
Ouço meu pensamento e vejo o quanto é verdade.
Isso não irá acabar, pelo contrário, está apenas começando e será
ainda mais difícil a partir do momento que eu disser “sim”.
— Segure minha mão, mamãe, e não me deixe vacilar.
— É claro, querida — diz mamãe já me agarrando. — Vamos.
Movimento minha cabeça e quando Lucy já está dentro do local,
posicionada no seu devido lugar, subo os degraus da igreja, caminhando
devagar para o meu destino.
Entrar em uma igreja para se casar chega a ser cômico, já que estou
me direcionando para o verdadeiro inferno, mas me mantenho firme e sorrio
respirando fundo, aceitando o destino que me foi dado.
Finalmente eu irei me casar...
Casada com o CEO
Caminho devagar em direção ao altar, segurando a mão de
mamãe com força. Ouço a marcha nupcial e na minha mente ela se transforma
na marcha fúnebre, então, ergo meu olhar em direção ao meu futuro marido e
o encaro, o que me faz congelar travando no meio do caminho.
A igreja está cheia e todos os convidados me encaram, surpresos
com a minha atitude. Fico parada por um bom tempo, o olhando atentamente,
sem acreditar que o homem que vi no trânsito e bateu no meu carro, é meu
futuro marido.
Como ele se chama mesmo?
“Me chamo Gael.”
Ouço sua voz em minha mente e sinto um arrepio percorrer minha
espinha, então mamãe aperta minha mão, me trazendo para a realidade.
— Está tudo bem? — pergunta baixinho.
O som no local é alto.
— Foi ele que bateu no meu carro — sussurro.
Volto meu olhar para o altar e vejo papai, Lucy, Eduardo, o padre e
Gael. Todos me encaram sem entender e o olhar inexpressivo do meu pai me
fita, como se pudesse me matar aqui mesmo por esta vergonha.
— Falaremos disso depois, é melhor seguirmos, as pessoas estão
olhando.
Concordo com mamãe e voltamos a caminhar, agora com todos
demonstrando um certo alívio em seus olhares.
Será que eles esperavam eu desistir deste casamento?
Dou alguns passos, como se, ao invés de me aproximar, eu ficasse
ainda mais longe do altar. Então vejo o homem que chamou minha atenção
pouco tempo atrás, me encarar.
— Laureen — sussurra me observando. — Então é você, a noiva do
trânsito.
— Que ridículo! — disparo. — Me desculpe, quis dizer que a
situação é ridícula. Nos conhecermos assim, em um acidente, sem sabermos
que iriamos nos casar.
Um sorriso angelical se forma em seu rosto e me sinto sem graça,
então o padre pigarreia e nos viramos para ele, com Gael se aproximando e
segurando minha mão. Um arrepio percorre cada parte do meu corpo, como
se o seu toque disparasse cargas de eletricidade, me trazendo à vida
novamente, o que é estranho.
Por que estou sentindo estas coisas?
— Boa tarde a todos — começa o padre nos encarando. — Antes de
tudo, vamos ler um versículo da bíblia.
Fico quieta, achando isso tudo muito ridículo e desnecessário. Nunca
fui uma pessoa muito cristã, mas sempre sonhei em me casar na igreja.
Porém, um casamento tradicional, verdadeiro e por amor.
— Sua mão está suando — sussurra Gael, enquanto o padre lê o
versículo que não presto atenção.
— A sua é quente — disparo me repreendendo por isso.
Outro sorriso se forma em seu rosto e noto a sua beleza, ficando sem
graça.
— Nesta tarde, duas pessoas decidiram se unir em prol do amor —
diz o padre me fazendo rir.
Ele me encara e fico sem graça.
— Desculpe — murmuro.
— Continuando... — O padre retorna e vejo Gael segurar a risada
também. — O amor mais uma vez falou mais alto e estes dois jovens
decidiram se unir em uma só carne.
Vejo Gael segurar ainda mais a risada e faço o mesmo.
— Padre, poderíamos pular esta parte? — peço, notando os
convidados rirem conosco.
— Vocês que mandam — diz nervoso. — Gael Brown, você aceita se
casar com Laureen Vargas de livre e espontânea vontade, prometendo honrá-
la, protegê-la e amá-la pelo resto dos seus dias?
— Sim — responde Gael se controlando para não rir.
— Laureen Vargas, você aceita se casar com Gael Brown de livre e
espontânea vontade, prometendo honrá-lo, protegê-lo e amá-lo pelo resto de
sua vida, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença?
Encaro Gael e desvio meu olhar para papai que demonstra medo e
receio, então me viro para mamãe, que chora baixinho, talvez de
arrependimento, talvez de alergia. Nunca saberei...
Volto meu olhar para Gael Brown que sorri de lado.
— Aceito — digo sentindo que estou entrando em um lugar obscuro
que jamais poderei sair.
— Então, com a permissão que me foi dada, eu os declaro casados.
— diz o padre aliviado. — Pode beijar a noiva.
Vejo Gael levantar meu véu devagar e meu coração se acelera cada
vez mais, então o visualizo mais uma vez e ele se aproxima, colando seus
lábios nos meus.
O beijo começa devagar, talvez esperando minha permissão, então
abro a boca e Gael mergulha sua língua, nos misturando por completo. Sinto
o gosto do seu beijo; uma mistura de pasta dental e morango, e correspondo
o ato, sabendo que não terei escolha.
Não é ruim, muito pelo contrário, sinto uma sensação tão diferente
que o puxo para próximo de mim e ficamos nos beijando por longos minutos,
ouvindo as pessoas à nossa volta nos aplaudir.
Volto a realidade e o afasto devagar, com ele finalizando com um
selinho. Assim que nos separamos, assinamos os papéis e ele me observa.
— Esposa — murmura sorrindo de lado.
— Esposo — respondo sem graça.
Gael estende a mão para mim e a seguro, sentindo meus batimentos
cada vez mais acelerados, então ele me guia em direção ao tapete e vamos
andando até a saída da igreja, comigo sem entender.
Os convidados se colocam em pé e nos aplaudem, com alguns
jogando arroz em cima de nós. Vejo o carro amassado parado do lado de
fora, Gael se desvencilha de mim, indo até o veículo e abre a porta. Desço
os degraus devagar, ele me ajuda a entrar no carro, fechando a porta e dando
a volta.
Não demora e ele está ao meu lado.
Olho para o lado de fora e observo os convidados gritando e
aplaudindo. Procuro entre as pessoas um rosto conhecido até que encontro
mamãe que acena para mim e jogo o buquê, com o veículo começando a se
movimentar rapidamente, sem eu ter a chance de saber quem o pegou.
— Para onde estamos indo? — questiono sem entender.
— Para sua antiga casa, iremos antes dos convidados para que você
possa colocar uma roupa mais leve. Acredito que este vestido esteja a
incomodando.
— Um pouco — digo encarando seus olhos.
Ele me observa e me sinto sem graça, como se estivesse exposta.
— O destino é engraçado — diz olhando pela janela. — Nos
encontrarmos pela primeira vez em um acidente de trânsito.
— Às vezes o destino gosta de brincar conosco — respondo. —
Posso fazer uma pergunta?
— Tecnicamente você já fez, mas claro que pode.
— Por que você não foi me conhecer antes? — questiono ignorando
sua piada sem graça.
— Acho que deve saber que sou um homem de negócios — diz
voltando a me encarar. — Fiquei tão surpreso quanto você quando soube do
casamento, no dia, estava viajando e só voltei ontem.
— Você só voltou para se casar com uma desconhecida?
— Sim — responde seco.
— E você vê isso como algo normal?
— Na verdade, não, e se eu disser a você que queria me casar,
estarei mentindo, mas a vida inteira meu pai tomou as decisões por mim, eu
já esperava que isso aconteceria em algum momento.
Fico em silêncio ao ouvir isso, me sentindo ao menos um pouco
aliviada em saber que ele também não queria se casar.
— Mas, e você.
— Eu o quê?
— Queria se casar comigo?
— Claro que não, como poderia querer me casar com uma pessoa
que nem conheço?
— Bem, se não lembra, você fez isso minutos atrás — responde
dando de ombros.
— Por falta de escolha — digo. — Me desculpe, não quero ofender.
— Não está — responde. — Estou curioso com uma coisa.
— Qual?
— Você não pareceu me conhecer quando nos encontramos no
acidente... Você não foi atrás para saber quem eu era?
— Não, preferi esperar, assim não ficaria tão nervosa, sem contar
que fiquei com medo de você ser um homem horrendo.
Gael dá risada e me vejo rindo com ele.
— E eu superei suas expectativas?
Fixo meus olhos em cada detalhe do seu rosto angelical.
— Bem, já que somos casados agora, não posso reclamar em relação
a isso, você é muito bonito — digo envergonhada.
— Você também é muito linda.
— Obrigada. Agora me diz, você realmente é um CEO das empresas
do seu pai?
— Sou sim, ele me deu o cargo tem um ano, desde então, minha vida
se tornou um verdadeiro inferno.
— Por quê?
— Muitas viagens.
— Então nos veremos pouco — afirmo.
— Na verdade, não, aceitei o casamento se ele concordasse diminuir
as minhas viagens. Você foi a minha salvação.
— Fico feliz em saber que servi para alguma coisa — respondo
rindo.
Ele fica em silêncio.
Encaro o lado de fora, percebendo que o trânsito está tranquilo, no
entanto, a chuva cai forte.
— Posso fazer outra pergunta?
— Fique à vontade, esposa — diz me olhando.
— Você também não pareceu me reconhecer, não sabia como eu era?
— Não, assim como você, preferi não vê-la até o dia do casamento
— responde.
Concordo e sorrio.
— Mamãe estava do lado de fora da igreja quando eu cheguei, ela
não te viu?
— Entrei pelos fundos para evitar que alguém me visse.
Ouço isso e seguimos o restante do caminho em silêncio, com Gael
sem encostar em mim, o que me deixa tranquila.
— Sou uma péssima noiva, eu sequer vi quem pegou o buquê —
digo.
— Você vai acabar descobrindo isso, não se preocupe, ainda temos
uma longa noite pela frente.
Me arrepio sabendo que teremos que manter um papel de casal feliz
por mais algumas horas.
— Você é um bom ator, foi convincente na hora do beijo — digo
puxando assunto.
— Na verdade, eu não estava atuando naquele momento, o beijo foi
real, assim como da sua parte.
— Como você tem certeza de que o beijei por querer? — pergunto
cruzando os braços e o observando.
Seu olhar demonstra certa euforia.
— Um beijo daqueles não dá para fingir, mas se você quiser, posso
ser um ótimo ator pelo restante da noite.
— Seria bom, quero dizer, pelo menos em relação a estarmos felizes
com esta união, se é que me entende.
— Entendo.
É a única coisa que ele diz e quando vejo, já estamos próximos de
casa.
Assim que o carro para, Gael sai e dá a volta para abrir a porta para
mim, me ajudando a descer do veículo. Seguro sua mão, sentindo o calor
dela e saio, olhando para a casa que morei a minha vida inteira.
— Cheguei aqui mais rápido do que imaginei.
— Você pensou que se casando comigo, não voltaria mais aqui,
mesmo a festa sendo na casa dos seus pais?
— Basicamente isso — digo rindo.
Subimos os degraus com Gael ainda segurando minha mão e entro no
local, olhando em volta da casa que passei minha vida inteira.
— Bonita — diz observando em volta.
Noto que a casa continua bastante agitada, por conta da preparação
da festa.
— É melhor eu ir me trocar logo — digo apontando para a escada.
— Claro, estarei aqui embaixo bebendo um uísque.
Concordo e sigo com dificuldade para o andar de cima, indo para o
meu quarto. Assim que entro, observo que na cama há um vestido mais
simples, porém muito bonito. Tiro o vestido de noiva com certa dificuldade
e assim que finalmente consigo, fico apenas de lingerie e me sento, refletindo
sobre o que está acontecendo.
Agora não tem como voltar atrás, estou casada com um homem que
por enquanto apenas sei o nome e que é um CEO na empresa do seu pai.
Gael é uma incógnita e me vejo em um dilema, eu quero conhecê-lo.
***
Uma batida na porta me tira dos meus pensamentos e rapidamente me
enrolo no vestido de noiva, vendo a porta ser aberta e meu marido entrar no
meu quarto.
— Me desculpe por entrar assim, é que as pessoas já estão chegando
e sua mãe ordenou que eu viesse atrás de você.
— Por que ela mesma não fez isso?
— Acho que está ocupada com os convidados — responde e me
encara. — Desculpe, você ainda nem se vestiu. — Aponta para o vestido na
cama e fico sem graça. — Vou sair para que se arrume.
— Tudo bem, pode ficar, apenas fique de costas, se mamãe o ver no
corredor e eu trancada aqui dentro, é capaz de achar que tem alguma coisa
errada.
Ele me encara e assente virando de costas.
Rapidamente jogo o vestido de noiva na cama e pego o outro, me
vestindo mais rápido do que consigo.
Suspiro, aliviada e me olho no espelho.
O vestido branco bordado com pérolas marca minhas curvas e realça
meus seios. Meu penteado continua intacto, com a tiara da vovó realçando
minha beleza.
— Estrou pronta — digo me virando para Gael.
Ele me encara um minuto inteiro em silêncio e vejo seu pomo de
adão se mexer.
— Você é realmente muito linda — murmura. — Meu pai escolheu
uma bela esposa para mim.
— Obrigada — digo sentindo meu rosto ruborizar.
— Não tem o que agradecer. Vamos descer?
Concordo e ele estende a mão para mim.
A pego e seguimos em direção a saída do quarto, andando devagar
até a escada. Paro olhando a movimentação das pessoas e todos nos encaram
aplaudindo. Me preparo com Gael para o meu melhor teatro.
A noite acaba de começar...
Festa de casamento
— Fique calma, é apenas uma multidão de pessoas
desconhecidas, não há o que temer — diz Gael parado ao meu lado.
— Então você também não conhece os convidados? — questiono
curiosa.
— Conheço... Meu pai, os seus e agora você, que é minha esposa.
Rimos disso e dou de ombros começando a descer os degraus
devagar.
Os saltos nos meus pés me incomodam, mas não mais do que todas
aquelas pessoas nos olhando como se fôssemos a atração da noite e
realmente sinto que somos isso.
Fico aliviada ao chegar no último degrau, surpresa por não ter caído.
Vejo mamãe se aproximar e me abraçar apertado dando um beijo na minha
testa.
— Obrigada, querida — sussurra para que ninguém ouça.
— Vamos apenas sorrir hoje, mamãe — peço tomando os vários
olhares.
Ela concorda e meu pai se aproxima, cumprimenta Gael e vem em
minha direção. Ele me abraça e decido retribuir, me lembrando que é melhor
que as pessoas pensem que estou feliz.
— Espero que você possa me perdoar um dia e que desta união surja
o amor — diz baixinho apenas para que eu ouça.
— Um dia o perdoarei sim, papai, mas não espere que eu me
apaixone pelo marido que você escolheu para mim.
— Aquele beijo foi bem apaixonado, não? — insiste me observando.
Reviro os olhos sem que as pessoas vejam e decido ignorar, sabendo
que ele está apenas me provocando.
— Acho que está na hora de aproveitarmos a festa, senhor Vargas,
assim como minha esposa e eu — diz Gael me puxando em sua direção e
passando o braço na minha cintura.
Solto um gritinho baixo de surpresa e meu pai concorda com um
movimento de cabeça.
— Está certo, rapaz, vamos aproveitar a comida, bebida e a música.
Meu pai se afasta e me viro para o meu marido, que sustenta um
sorriso debochado em seus lábios.
— Obrigada, às vezes meu pai sabe ser difícil.
— Sou seu marido, estou aqui para defendê-la, certo?
Fico sem graça ao ouvir isso.
Decidimos seguir para o salão de festas, onde uma música
orquestrada toca baixinho. Assim que entramos no local, mais palmas soam
pelo cômodo e forço um sorriso, com Gael ainda com a sua mão na minha
cintura.
— Se nós não conhecemos estas pessoas, será que elas sabem para
quem estão batendo palmas? — pergunta estreitando as sobrancelhas.
Cubro a boca com a mão, a fim de que não vejam eu rir.
— Tenho que confessar que você é um ótimo piadista, senhor Brown.
— É porque você ainda não conhece meus dotes, senhora Brown —
responde sorrindo.
Fico em silêncio.
Somos guiados para a mesa principal, onde estão meus pais, o pai de
Gael e dois lugares reservados para nós. Faço questão de puxar uma cadeira
para Lucy, que está se divertindo na festa e me abraça apertado quando me
vê.
— Quis te dar um tempo, levando em consideração o motivo deste
casamento — diz ainda abraçada a mim.
— Obrigada, eu te amo — digo e me desvencilho dela seguindo para
a mesa.
Gael puxa a cadeira para que eu me sente, agradeço surpresa com sua
educação, e me ajeito no lugar, observando mamãe me encarar com um
sorriso de lado.
A hora seguinte é como se fosse uma faca na minha garganta,
dilacerando minha pele devagar a cada palavra dita. Percebo que o pai de
Gael, Eduardo, está animado com a nossa união, o que ainda me deixa
bastante receosa.
Qual será o motivo dele desejar tanto este casamento?
Porém, mais animado que ele, está meu pai, que bebe, come e
conversa sobre negócios.
Me sinto um pouco incomodada com tudo e Gael me observa,
estendendo a mão para mim.
— Você deseja dançar comigo?
— Tenho dois pés esquerdos — comento sendo sincera, pois sou
péssima em dançar.
— Vamos tentar, aposto que vai ser um prato cheio para os
jornalistas.
— Têm jornalistas aqui? — pergunto surpresa. — É claro que têm.
Gael ri e fixo meus olhos em seu lindo sorriso, o que me deixa com
uma sensação estranha na boca do estômago.
— Vai aceitar?
— Se eu não aceitar, se dará por vencido?
— Não — responde convicto da sua palavra.
— Então vamos logo passar vergonha.
Nos levantamos e ele me guia para o meio do salão.
Gael para na minha frente e faz uma reverência dramática,
arrancando um sorriso meu, então os convidados nos assistem e ele volta
para perto de mim.
— Espero que não se importe, mas tomei a liberdade de escolher a
música.
— Isso não me incomoda, só quero saber quando foi que escolheu, já
que não saiu do meu lado momento algum.
— Quando meu pai estava preparando tudo com os seus... Foi um dos
meus pedidos, enquanto viajava. É uma música que eu gosto e acho que
combina com casamentos.
— Ok — digo acreditando no que ele diz.
Então os primeiros acordes de A Thousand Years, da Christina Perri,
começam a serem tocados no violino. Fico surpresa com a escolha de Gael,
ele me estende a mão e a seguro com firmeza.
— Não me deixe tropeçar — peço de maneira divertida, mas sincera.
— Não vou deixar.
Coloco minha mão livre sobre seu ombro e ele leva a sua até a minha
cintura, então me guia devagar na dança. Fixo meu olhar no seu, que está
sério e começamos a dançar. Gael mostra ser um ótimo dançarino e o
acompanho o máximo que consigo, pisando no seu pé algumas vezes sem
querer. Ele não demonstra nada, pelo contrário, se mostra ser um verdadeiro
cavalheiro, sabendo que não estou errando de propósito.
Ainda dançando, me sinto completamente ridícula por não ter
pensado nisso antes, já que em todos os casamentos têm dança, certo?
Por que no meu seria diferente?
Por que não treinei para dar o meu melhor antes?
Chega a ser piada pensar em dar o meu melhor, levando em
consideração que nem estar casada eu queria, mas não posso negar que
desde o momento que vi Gael, ele tem me surpreendido. Ele me surpreendeu
por ser bonito, educado, gentil e entender a situação em que estamos,
casados sem nenhum dos dois querer, me mostrando que mesmo eu não
querendo isso, ele pode me tratar bem.
A música termina e ele para na minha frente, encarando fixamente
meus olhos e boca, enquanto sinto minha respiração acelerar.
— Até que você não foi tão ruim — sussurra com o suor brotando em
sua testa.
— Vou levar isso como um elogio — respondo rindo.
Ele concorda.
Uma salva de palmas ecoa por todo o local, agora com os
convidados tomando conta da pista de dança e seguimos em direção à mesa.
— Por estar infeliz casada comigo, até que você sorri bastante. —
Alfineta.
— Você também.
— Está certa — comenta piscando.
Voltamos aos nossos lugares e vejo o brilho nos olhos de Lucy,
emocionada com a nossa dança.
— Você estava linda na pista de dança, amiga — diz eufórica.
— É porque você não sabe quantas vezes pisei nos pés de Gael —
confidencio arrancando uma risada sua.
— Isso faz parte. — Pisca bebendo um gole de champanhe.
A acompanho e voltamos a conversar.
Noto que meu marido me fita de canto de olho, enquanto conversa
com meu pai e o seu, e isso, por mais estranho que seja, me causa uma calma
que não sinto há muito tempo.
***
Para minha sorte, a hora passa rapidamente e os convidados
começam a ir embora após cortarmos o bolo, no entanto, sei que após a festa
finalizar, outra parte deste pesadelo irá se iniciar.
A famosa noite de núpcias...
Só de pensar nisso, minhas mãos ficam frias e o suor desce pelas
minhas costas, me causando um arrepio inexplicável.
E se Gael me forçar a me deitar com ele?
“Ele não faria isso, eu acho, mostrou por enquanto, ser um
cavalheiro.”
Encaro Gael ao longe ainda com meu pai e o seu, talvez conversando
sobre negócios.
— Filha.
Ouço a voz de mamãe e a encaro.
— Sim?
— Quase todos os convidados já estão indo embora e suas coisas já
foram colocadas no carro do seu marido — diz torcendo as mãos.
Devo ter puxado esta mania dela.
— Entendi. — É o que consigo dizer.
— Você sabe o que vem agora, não é? — pergunta se sentando ao
meu lado e sussurra. — Você é uma mulher casada...
— Mãe, eu sei o que é sexo, não estamos no século XVI.
— Eu sei, mas nunca a vi namorar, sequer ficar com algum rapaz...
— Ser virgem não quer dizer que eu não sei o que é transar. Já tive
um namorado na época da escola, mas nada que fosse sério e não passasse
de beijos.
Ela balança a cabeça em concordância.
— Então você sabe sobre a noite de núpcias.
— Sim, e não irei fazer isso, conversarei com Gael e pedirei um
tempo. Vocês me obrigarem a casar é uma coisa, mas me forçar a me deitar
com um homem é inadmissível.
Mamãe se cala e concorda, sabendo que tenho razão, pois só me
deitarei com um homem no dia que estiver preparada.
— Você está certa, me desculpe, não quis parecer rude.
— Tudo bem, o pior já aconteceu mesmo — digo e me levanto ao ver
Gael se aproximar.
— As coisas estão prontas, vim perguntar se você já quer ir embora
ou quer esperar todos os convidados irem embora.
— Melhor irmos — digo dando de ombros, afinal que diferença faria
esperar aqueles desconhecidos irem embora?
— Tudo bem, vou avisar ao motorista que já vamos. Fiquei sabendo
sobre Lucy, a governanta, ela vai para nossa casa daqui uns dias, para
aproveitarmos a lua de mel.
— Não vamos viajar? — questiono erguendo a sobrancelha.
— Se quiser, sim.
— Eu quero — digo dando de ombros.
Gael me encara e assente, se afastando, então me viro para mamãe.
— Enquanto estiver viajando com meu marido, peça para Lucy ir
para minha nova casa, assim quando voltar já a encontro.
— Claro, querida — diz me abraçando.
A aperto contra meu corpo e sinto vontade de chorar ao me lembrar o
que havia acontecido mais cedo.
Estou condenada!
Seguro as lágrimas e ela dá um beijo no meu rosto, com papai e Lucy
se aproximando.
— Filha.
Meu pai me abraça e retribuo sem vontade, sabendo que ele é o
maior culpado disso tudo, então me afasto e me viro para minha amiga.
— Avisei mamãe para você ir direto para minha nova casa, irei
viajar com Gael.
— Fique tranquila, estarei lá.
A aperto contra mim e ouço um pigarro, então me viro e vejo
Eduardo.
— Você tomou uma boa decisão, minha jovem, fico feliz com esta
união.
— Obrigada — respondo de má vontade. — Se me derem licença,
tenho que ir.
Sigo em direção ao hall e vejo meus pais me seguindo com Lucy,
então saio para o lado de fora da casa e vejo Gael próximo ao carro me
esperando. Respiro fundo e conto mentalmente até três, descendo cada
degrau tão devagar que uma tartaruga chegaria primeiro que eu.
Meu marido estende a mão para mim e a seguro, entrando no veículo.
Ele fecha a porta e encaro meus pais e minha melhor amiga, então o carro se
afasta rapidamente e logo eles se tornam apenas borrões.
Seco uma lágrima que desce involuntariamente e Gael me encara, em
silêncio, então olho para a frente e decido pensar no meu futuro.
O que vai ser de agora em diante?
Noite de núpcias? Sem chance!
Continua chovendo do lado de fora, o carro segue devagar pelo
trânsito e quando vejo, estamos entrando em uma área verde de uma enorme
casa. O lado de fora dela é bonito; revestido em pedra rústica e lembra um
castelo.
Seguro minha respiração ao pensar que o momento que mamãe havia
me falado, está quase chegando.
Claro que sempre soube o que é sexo, pelo menos isso me foi
contado, mas pensar que possivelmente teria que fazer com um homem que
não amo, e ainda sem vontade, me deixa com as pernas bambas.
O carro para em frente à casa, vejo um homem surgir com um guarda-
chuva e abrir a porta para mim. Noto que ele é jovem, deve ter no máximo
vinte e seis anos, usa o cabelo penteado para trás e sua barba é rala, dando
um charme a sua pele clara. Assim que abre a porta, vejo o sorriso estampar
em seus lábios enquanto me encara.
— Seja bem-vinda, senhora Brown — diz fazendo uma reverência
exagerada.
— Obrigada — digo estendendo a mão para ele que a pega e me
ajuda a descer do carro, me cobrindo com o guarda-chuva.
Rapidamente subimos os degraus da pequena escada, logo vejo Gael
sair do carro, dar a volta e correr em nossa direção, com seu corpo sendo
molhado pela tempestade.
— Senhor Gael — murmura o homem ao meu lado.
— Preston, obrigado por estar aqui, pensei que estaria de folga.
— E estava, mas sabia que o senhor precisaria de ajuda com as
coisas da senhora Brown.
— Me chame apenas de Laureen, por favor — peço em meio à
confusão de bagagens.
Vejo o motorista tirá-las do porta-malas e correr em meio a chuva,
deixando-as perto de nós.
Preston se vira em direção a porta frontal de madeira maciça e não
demora dois homens surgem, carregando minhas coisas. Assim que as malas
passam pela porta, tenho a real ideia do que está acontecendo.
Não que antes não soubesse, mas vendo minhas coisas entrando no
meu novo lar, é como se meu corpo saísse de um estado de choque e me
trouxesse para a dolorosa realidade.
— Vamos entrar, está frio aqui fora — diz Gael segurando meu braço
e me guiando para dentro.
Concordo sem muitas opções e assim que entramos, fico perplexa
com a beleza do local.
A casa me lembra a minha, com uma escadaria de mármore, um hall
de entrada, quadros por todos os lugares e piso de madeira. No entanto, o
que me chama a atenção é um quadro de Gael, na parede frontal da entrada.
Ele está com o peito desnudo, olhando para a frente, como se
estivesse me observando. Analiso cada traço da pintura, observando o
realismo nos pelos ralos do seu peitoral forte, o que me deixa com a mente
fervendo.
Seria ele tão belo na realidade quanto na pintura?
— Enquanto suas coisas são levadas para o quarto, vou mostrar um
pouco da casa.
Concordo e sou levada para o lado leste da mansão.
Passamos por um corredor onde contém mais pinturas, algumas
famosas e outras desconhecidas, mas com uma beleza e tanto.
— Os quadros são lindos — digo analisando um especificamente
onde mostra uma mulher de costas, observando a natureza.
— Obrigado, eu mesmo que pintei.
Noto seu rosto um pouco corado, o que me deixa surpresa, e abro a
boca no formato de um “O”, fazendo Gael rir logo em seguida.
— Por que demonstra tanta surpresa com isso?
— Sendo um homem importante, não pensei que teria tempo para tais
coisas — respondo dando de ombros.
— Sempre fui apaixonado pela arte, foi nas telas brancas que
encontrei a paz que precisava depois que minha mãe morreu.
— Sinto muito que isso tenha acontecido.
— Não se preocupe, já superei sua morte, era apenas uma criança
quando isso aconteceu.
Faço um movimento de cabeça, concordando com o que diz.
Seria muita intromissão perguntar como havia sido a morte dela?
— Isso é bom, quero dizer, ter superado é bom.
Gael concorda e continuamos andando, com ele parando em frente a
uma porta de madeira simples.
— Aqui é um lugar que acho que vai gostar — diz abrindo a porta e
me dando passagem.
Entro no local e fico surpresa ao ver uma enorme biblioteca, o que
faz meus olhos brilharem. Há inúmeras prateleiras de livros organizados em
ordem alfabética e me sinto completamente encantada com isso.
— É lindo, alguém contou que sou apaixonada por livros?
— Seu pai me disse hoje quando conversamos.
— Então você preparou tudo muito rápido — brinco.
— Na verdade, eu também sou apaixonado por literatura, e passo
boa parte do meu dia a dia aqui, isso é claro, quando não estou trabalhando.
Achei interessante mostrar a você um ambiente que pudesse se familiarizar,
já que isso tudo é novo para nós dois.
— Obrigada por isso, eu realmente gostei bastante.
— Não agradeça, sinta-se à vontade para vir aqui quando quiser —
diz com um sorriso de lado.
Sinto uma felicidade ao ouvir isso e retribuo o sorriso, seguindo para
outra parte da casa.
Conheço seu escritório, cozinha e alguns dos seus empregados, além
da sala de estar, seu mini cinema particular e só depois me guia para o andar
de cima.
— Estava pensando em dar a escolha a você para tomar a decisão —
diz passando pelas infinitas portas.
— Que escolha?
— De dormir comigo ou em um quarto separado — sugere.
— Espera, você não vai querer ter uma noite de núpcias comigo? —
pergunto me sentindo aliviada.
— Se eu dissesse que não quero, estaria mentindo, mas sei que você
não quer — responde. — É bom que descanse hoje, amanhã viajaremos ao
anoitecer.
— E para onde vamos? — pergunto curiosa.
— Você vai ver... Então, o que decide?
Dormir sozinha ou com Gael?
Se eu fosse dormir com ele, com certeza iria querer ter algo a mais, e
realmente não me sinto nada preparada.
“Noite de núpcias? Sem chance! Eu vou dormir sozinha mesmo.”
— Se não se importa, esta noite irei optar por dormir sozinha.
— Claro, venha, vou mostrar onde vai ficar — diz voltando a andar,
agora a minha frente.
Será que ele ficou chateado com minha decisão.
Com certeza, afinal de contas, para os homens é muito mais fácil
transar sem ter sentimento algum. Claro que nem toda mulher
necessariamente faz sexo só quando está apaixonada, existem diversas que
usam e abusam dos homens, e são verdadeiras deusas.
Queria eu ser assim.
Saio dos meus pensamentos e sou guiada até o final do corredor,
onde há uma porta dupla de madeira branca. Gael a abre e com um gesto, me
dá a liberdade para entrar no local.
Entro e vejo um quarto simples com cheiro de desinfetante, como se
tivesse sido limpo recentemente. Encaro cada parte e vejo uma cama de
casal com travesseiros, uma cômoda simples e um espelho.
— Não tem muita coisa, mas acho que dá para usar esta noite — diz
em tom brincalhão. — Suas coisas estão no closet. — Aponta para uma
pequena porta que não havia reparado. — Eu sabia que você não iria dormir
comigo, então mandei que trouxessem suas coisas direto para cá.
— Muito obrigada — respondo sem graça.
Por que este homem me deixa assim?
— Até mais — diz me dando as costas.
O vejo se afastar e entrar em uma porta próxima da minha, então
fecho a minha porta e me jogo na cama, sentindo uma avalanche de emoções
me consumir. De repente, lágrimas escorrem pelo meu rosto e soluço
baixinho, pensando em toda a loucura que minha vida está.
Como meus pais permitiram chegar a este ponto?
Com certeza neste exato momento papai está bebendo seu uísque
enquanto comemora sua vitória e sua vida.
Penso em Eduardo e neste contrato de casamento...
Simplesmente não faz sentido algum para mim ele querer unir seu
filho a mim.
Por que ele desejou tanto este casamento?
Penso em Gael e no primeiro instante em que nos vimos.
Quem diria que pouco tempo depois estaríamos casados?
Reflito em como ele foi gentil comigo a todo instante e pensando no
nosso beijo, acabo adormecendo.
***
Gael Brown
Sangue, suor e justiça foi o que me moveu durante todos esses anos.
Quando papai me disse que iria me casar com a filha do seu inimigo,
vi um filme passar em minha cabeça.
Como poderia me casar com uma desconhecida?
Então criei um plano bem articulado e descobri algumas coisas sobre
Laureen Vargas, agora conhecida como senhora Brown. Coisas, como por
exemplo, o amor pelos livros, por sua amiga Lucy, e claro, pelos seus pais.
Se ela não os amasse, não teria se casado com um completo estranho para
salvar um império falido e a pele deles.
Descobri, ainda jovem, que mamãe havia sido assassinada pelo
nosso inimigo; Jorge Vargas, o meu sogro...
E foi aí que tudo começou na mente diabólica de papai.
Eu iria me casar com Laureen, tratá-la como uma rainha e quando
menos esperasse, atacaria, destruindo-a por completo e assim derrotando
nosso inimigo.
Mas ao ver a mulher seguir em direção ao altar, meu coração
acelerou mais do que o normal e me vi em um campo minado.
Valeria a pena magoar uma pessoa que não tem nada a ver com as
atitudes do seu progenitor?
— Você não pode desistir, Gael Brown, sua mãe foi assassinada a
sangue frio por aquele canalha — murmuro para mim mesmo.
Ando de um lado para o outro no quarto e suspiro, pensando em
como Laureen está no outro.
Será que ela estaria dormindo?
Estaria despida?
O pensamento de tê-la para mim é insano, mas jamais me deitaria
com uma mulher sem ser de livre e espontânea vontade, pois isso iria contra
todas as minhas regras.
Bebo um gole do uísque que está em minhas mãos e torço o nariz ao
sentir o forte gosto. Que situação meu pai havia me colocado, submeter uma
jovem a casar sem vontade e depois destruí-la, dilacerá-la e quebrá-la por
completo.
— Mas o pai dela não pensou quando matou minha mãe — digo para
mim mesmo. — Ele merece toda a punição possível, machucá-lo
indiretamente é o melhor a se fazer.
Termino minha bebida e coloco o copo de lado, saindo do quarto
apenas de cueca e seguindo devagar em direção ao quarto de Laureen. Abro
a porta devagar para não fazer barulho e a vejo dormindo, ainda com a
mesma roupa.
Vejo a tranquilidade em seu rosto e engulo em seco, sentindo a bile
subir pela minha garganta.
Ela é apenas uma garota, inocente e frágil.
Como ser capaz de machucá-la?
Suspiro e fico a olhando por um bom tempo, então esbarro na porta e
ela acorda, dando um pulo da cama e soltando um grito.
— Gael, você me assustou! — diz nervosa.
— Me perdoe, não foi minha intenção, apenas queria saber se está
confortável — digo a encarando.
Bela, isso não posso negar, Laureen, é realmente uma mulher linda.
— Estou bem.
Percebo que ela encara meu corpo, parando seus olhos inocentes na
minha cueca. Assim que percebe que noto seu ato, desvia o olhar e fica
cabisbaixa.
— Certo, se está bem, vou me deitar, se precisar de alguma coisa,
estou próximo a você.
Ela assente e eu a encaro uma última vez, sentindo uma sensação
estranha na boca do meu estômago. Uma sensação que nunca senti com outra
pessoa.
Eu quero beijá-la!
— Obrigada — sussurra tímida.
— Posso pedir uma coisa antes de ir?
— Claro.
— Quero te beijar, será que posso? — pergunto apoiando uma perna
na outra.
Laureen me encara e vejo seu rosto ficar vermelho, então ela assente
devagar.
— Tudo bem — diz se dando por vencida.
Me aproximo dela e paro na sua frente, com minha barriga ficando
diante do seu rosto, então ela se levanta, levo minha mão até sua face,
acariciando-a devagar e passando meus dedos em seus lábios rosados.
— Não é porque eu não te amo e não queria estar casado que não
posso fazer isso, não é mesmo?
— O que quer dizer com isso?
— Que vou aproveitar o máximo que puder desta união — respondo
e me aproximo dela, encostando meus lábios nos seus.
Sem qualquer pudor, invisto minha língua dentro da sua boca e logo
estamos entrelaçados em um beijo ardente. Passo uma de minhas mãos para
trás da sua nuca e a outra repouso nas suas costas. Laureen desliza seus
dedos pela minha barriga e para no cós da cueca. Fico surpreso em como ela
se entrega facilmente a este momento, vendo que estive errado em pensar que
ela é completamente inocente.
Aproveito o beijo e mordisco seu lábio inferior, com ela soltando um
gemido baixo. Instantaneamente meu pau começa a ficar duro dentro da
cueca e encosta em sua pele, causando um arrepio pelos seus braços. Sorrio
com isso e descolo nossas bocas, encarando-a dentro dos olhos.
— Você beija bem, Laureen — digo de maneira maliciosa.
— Você também, Gael.
— Uma pena que tenha rejeitado a noite de núpcias, eu poderia
mostrar o que posso fazer com minha boca, além de beijos — sussurro em
seu ouvido, causando um arrepio em sua pele.
Laureen me encara e vejo seu rosto vermelho de vergonha, então me
afasto dela e a encarando uma última vez, saio do quarto, pensando que será
fácil tê-la como minha presa.
A viagem
Acordo na manhã seguinte me lembrando do que havia
acontecido na madrugada e direciono minhas mãos até meus lábios,
pensando no beijo que Gael havia me dado. Sinto uma sensação diferente
hoje, como se eu esperasse que ao acordar, estaria vivendo em uma casa
mal-assombrada, com um demônio ao meu lado.
Sorrio ao perceber que a tristeza não me consome, pelo menos, não
por enquanto, então vou até o banheiro e vejo sobre a pia uma escova de
dentes nova e meu kit de maquiagem.
Lavo meu rosto, me repreendendo por não ter tirado a maquiagem na
noite anterior e escovo os dentes, cuidando da minha higiene diária. Após
terminar, sigo para o quarto e coloco uma roupa confortável; calça jeans,
tênis e uma blusa de mangas compridas, mesmo não achando que seja uma
roupa apropriada para uma mulher recém-casada, mas não me importo com
isso.
Uma batida na porta me traz para a realidade, pigarreio me
aproximando dela e a destranco. Depois que Gael foi se deitar, a tranquei,
com medo de que pudesse acabar desejando a famosa noite de núpcias.
Não, não me sinto apaixonada, mas como não me sentir atraída por
aquele homem?
Só em pensar na sua beleza angelical, no seu sorriso bonito e no seu
corpo, que tive o prazer de ver ontem somente usando uma cueca, sinto uma
sensação estranha em todo meu corpo.
“Olha como estou pensando, até mesmo parece que o desejo...”
Abro a porta, encarando meu marido que está sorrindo, com o cabelo
bem arrumado e usando uma roupa no mesmo estilo que o meu.
— Bom dia, senhora Brown, veja, parece que estamos bem
sintonizados em relação as nossas vestes.
Concordo e sorrio sem graça.
— Bom dia.
— Vim convidá-la para tomar café comigo — diz ainda parado
próximo ao batente da porta.
— Claro, vamos.
Saio do quarto e Gael segura meu pulso, me fazendo voltar em sua
direção de maneira abrupta.
— Você não vai dar um bom dia decente para seu marido? —
pergunta passando a língua no lábio inferior.
— O que seria um bom dia decente para você? — questiono me
soltando dele e cruzando os braços sobre o peito.
— Se eu realmente falar, você vai se assustar, mas um beijo já vale.
— Pensei que não havia se casado comigo por vontade própria.
— Não significa que não podemos tirar proveito da situação —
responde piscando.
Fico em silêncio, concordo e me aproximo dele, pronta para dar um
selinho. Assim que encosto meus lábios nos seus, Gael me puxa contra seu
corpo e mergulha sua língua na minha boca, me fazendo perder o ar.
O beijo, o nosso terceiro beijo...
Cada vez que nos beijamos, ele me deixa sem fôlego.
Ele se mantém conectado a mim até que o empurro e sinto seu dente
morder meu lábio, me fazendo soltar um gritinho de dor.
— Ai! — murmuro sentindo o gosto metálico do sangue.
Ele limpa sua boca e leva o polegar até o lábio.
— Te machuquei? — questiona se aproximando.
— Sim, mas não foi nada de mais — digo veemente.
— Deixe-me ver, se não tivesse me empurrado, isso não teria
acontecido. — Gael se aproxima, segura meu queixo, leva o dedo até meu
lábio e analisa o pequeno corte. — Não foi nada grave.
— Foi o que eu disse.
— Espere. — Ele se aproxima, deposita um selinho, sugando meu
lábio inferior devagar, levando o sangue até sua boca. — Isso vai ajudar.
Fico surpresa com sua atitude nada convencional e não digo nada,
sentindo a ardência no meu lábio.
— É melhor irmos tomar café logo — sugiro querendo esquecer isso.
Gael assente e coça a cabeça, me observando bem, então segue em
frente e eu o sigo, andando devagar.
Desço a escada e sou conduzida a sala de jantar, onde há ovos
mexidos, pães, café, leite, suco e frutas.
Gael se coloca na cabeceira da mesa e me sento ao seu lado, vendo-o
se servir. Fico parada, apenas analisando-o comer e ele me olha.
— Você não vai comer? Não sabia do que gosta, então pedi apenas o
básico.
— Está ótimo, obrigada — digo enchendo minha xícara e levando até
o lábio.
O café quente faz minha boca arder e me contorço na cadeira sem que
Gael veja, depois me sirvo de pão e algumas frutas. Como em silêncio,
chateada com a insegurança que sinto neste momento, então termino de
comer rapidamente e vejo meu marido me olhar.
— Estava pensando em irmos viajar agora cedo, o que acha? Suas
malas estão feitas, é só colocar no avião e decolarmos.
— E para onde vamos? Você ainda não me disse.
— É surpresa, mas você vai gostar — responde sério. — Como sua
boca está?
— Doendo um pouco, mas nada grave.
Ele concorda e termina seu café.
— Se não quiser me beijar, tudo bem, é só me dizer, mas entenda uma
coisa; somos casados agora e você é minha mulher mesmo não querendo.
Assim como sou seu marido sem opção. Veja isso como um favor que estou
fazendo a você, pois se não fosse este casamento, você e seus pais estariam
ferrados.
Ouço suas duras palavras e engulo em seco, vendo que infelizmente
ele está certo. A escolha não foi minha, mas ir até o fim sim.
— Me desculpe, ainda é tudo muito novo para mim — murmuro.
— Assim como para mim, mas não temos escolhas... Você quer
anular o casamento e ver seus pais pagarem de uma maneira nada
convencional?
— Que maneira?
— Não vem ao caso, mas me diga, quer anular o casamento?
— Não — respondo séria. — Fiz isso pelos meus pais, mas te peço
um pouco de paciência em relação a nós.
— Laureen, não existe um nós, apenas um contrato — responde com
dureza.
— Pensei que tivesse dito que somos casados e poderíamos
aproveitar isso — comento.
— Sim, mas você deixa nítido que não quer.
— E isso te incomoda? Quero dizer, você me forçaria...
— Não é do meu feitio transar com uma mulher sem que ela tenha
vontade, senhora Brown — murmura. — Quero apenas que entenda que
somos casados agora e marido e mulher fazem coisas, como se beijar, por
exemplo.
Concordo sem alternativa, pois ele está certo.
Somos casados agora e eu havia gostado do nosso beijo de
madrugada.
Por que simplesmente não deixar as coisas acontecerem devagar?
— Você está nervoso?
— Talvez um pouco.
— Por quê?
— Tenho certeza de que isso não te interessa.
Fico magoada ao ouvir suas palavras, pensando em como uma pessoa
pode mudar de humor tão rapidamente.
Será que isso tudo se devia ao fato de eu tê-lo afastado de mim?
Ou de querer encerrar nosso beijo?
— Se me der licença, irei para meu quarto, quando estivermos
prontos para a viagem, sabe onde me encontrar — digo me retirando da
mesa.
Sigo em direção a saída, com Gael se aproximando e segurando no
meu punho com força.
— Me desculpe por isso, não estou acostumado a ser rejeitado, ainda
mais por uma mulher tão linda quanto você.
— Não o rejeitei, apenas finalizei o beijo, você parecia que iria me
devorar — sussurro com medo de que alguém possa nos ouvir.
Onde estão todas as pessoas desta casa?
Como eu queria Lucy aqui neste momento.
— E eu quero te devorar, Laureen, mais do que imagina, você é uma
tentação do diabo — responde sensualmente. — Pode ir para seu quarto, nos
vemos daqui a pouco, fique atenta que mandarei alguém buscar suas malas.
Fico quieta, surpreendida em como o humor de Gael Brown muda e
assinto. Me solto dele e sigo o mais rápido possível para o meu quarto.
***
Reflito sobre o que havia acontecido mais cedo.
Gael ficou chateado por eu ter interrompido nosso beijo, sinto a
confusão tomar conta de mim neste momento.
Não havia sido ele que dissera ter casado comigo sem vontade?
Organizo uma mala para a viagem e a deixo próxima a porta, sabendo
que logo alguém a buscará. Não demora, ouço uma batida na porta e sigo
rapidamente até ela, abrindo e dando de cara com Preston.
— Olá, senhora Brown, vim pegar suas coisas — diz ao entrar assim
que dou passagem e pega minha mala junto a porta. — Obrigado, assim que
colocarmos tudo no carro e o senhor Brown estiver pronto, alguém vem
chamá-la.
Concordo, em silêncio e fecho a porta ao vê-lo se afastar.
Me jogo na cama e suspiro, a procura do meu celular, que está sobre
a mesinha de cabeceira e eu nem havia notado. O pego e envio uma
mensagem para Lucy, dizendo que a amo e o que havia acontecido desde que
a vi pela última vez.
Lucy: Não fique paranoica, às vezes, ele ficou nessa mudança de
humor por ter se sentido rejeitado mesmo.
Eu: Nós não dormimos juntos e não consumamos o ato sexual.
Será que isso o incomoda, mesmo me dando a chance de escolher?
Lucy: Com certeza o incomoda, é tudo muito novo para os dois,
vai por mim, ele deve ter ficado chateado por conta do beijo mesmo.
Deixo o celular de lado ao concordar com minha amiga e reflito
sobre isso.
Se Gael havia ficado chateado porque interrompi um beijo, do que
ele seria capaz se eu não fosse para a cama com ele?
***
Ouço uma batida de leve na porta e me levanto, vendo Gael entrar no
meu quarto.
— Já está tudo pronto, vamos?
— Claro — respondo um pouco séria.
Passo por Gael, mas ele é mais rápido e para na minha frente.
— Está acontecendo alguma coisa que eu deva saber? — questiona
estreitando as sobrancelhas.
— Não que eu saiba — respondo firme, olhando-o dentro dos olhos.
— Me desculpe por mais cedo, se fui grosso em algum momento com
você — diz mexendo no cabelo.
— Tudo bem, como disse, nosso casamento é apenas um contrato,
não deveríamos estar tendo esta conversa.
Gael me encara e assente, me dando passagem.
Saio do quarto, ele me segue e se aproxima segurando minha mão.
Um arrepio involuntário percorre minha espinha e me sinto sem graça, como
se estivesse nua na sua frente.
Por que este homem me causa essas sensações?
Desço a escada em silêncio, pensando em o quanto Lucy faz falta
neste momento e se ela estivesse aqui, certamente saberia me acalmar, acabo
respirando fundo e conto mentalmente até dez.
Saio com Gael da casa e vejo o carro parado a nossa frente. Sigo até
ele e abro a porta antes que meu marido o faça, entrando no carro sem ao
menos encará-lo. Ele me fita do lado de fora por um longo minuto, depois dá
a volta, entra no veículo e pigarreia.
— Estamos prontos, Joshua — diz ao motorista, que concorda e
acelera sem dizer uma única palavra.
O movimento me deixa nervosa, até mesmo mais do que quando vim
para cá no dia anterior. Saber que estamos indo para uma suposta lua de mel
me causa avalanches de sensações estranhas como curiosidade, medo e
ansiedade.
O que esperar desta viagem, afinal de contas?
Com o passar do tempo, o trânsito a nossa volta se torna apenas um
borrão e prendo o cinto, com medo da alta velocidade do motorista.
— Será que você poderia pedir para seu motorista ir mais devagar?
— peço encarando Gael.
Ele me observa atentamente por um longo minuto e assente,
colocando a mão sobre o ombro do homem que está atrás do volante.
— Você ouviu a minha esposa, vá mais devagar, por favor — pede
ainda com os olhos fixos em mim.
O motorista desacelera e respiro mais aliviada, agradecendo-o com
um meneio de cabeça.
— Me diga, Laureen, pois estou curioso.
— O quê?
— Como é para você estar longe dos seus pais neste momento, já que
passou a vida inteira perto deles?
— Estranho — digo sem entender a pergunta. — Principalmente pelo
fato de que estou com um completo estranho.
Ele ri e concorda, voltando-se para mim.
— Não se preocupe que aos poucos você vai me conhecer — diz
firme. — Você quer me conhecer?
— Talvez, assim será mais fácil passar por isso tudo — respondo
sentindo medo.
Por que sinto isso?
— Certo, espero que goste da viagem, estamos indo para uma ilha
paradisíaca só nossa.
— Só nossa?
— Sim, teremos tudo que precisarmos lá, sem ninguém nos
perturbando ou a mídia em cima de mim. Às vezes é difícil ser CEO de uma
empresa, as pessoas caem em cima como se você fosse um prato cheio para
os corvos.
— E você está feliz com isso? Levando em consideração que havia
me dito que estava cansado de viagens.
— Bem, esta viagem é diferente, agora estou com a minha esposa.
Engulo em seco e concordo, voltando minha atenção para o lado de
fora, vendo que estamos próximos a um galpão.
O carro para, saio junto com Gael, que segue pelo hangar e avisto o
avião particular dele pronto para decolar. Nossas malas são levadas
diretamente até ele e vejo meu marido conversando com o piloto, algo que
não consigo ouvir.
Torço minhas mãos de nervosismo.
Como posso me controlar, sabendo que irei viajar para uma ilha com
um completo estranho?
— Já está tudo pronto, o piloto me avisou que é só embarcarmos —
diz me tirando dos meus pensamentos.
— Tudo bem — digo com a voz trêmula.
— Está nervosa?
— Um pouco.
— Não fique, não há o que temer, é apenas uma viagem de casados.
— É justamente isso que me preocupa.
Ele me encara e concorda, sabendo do que estou falando.
— Já conversei com você a respeito disso, não é do meu feitio foder
com uma mulher que não queira. Posso ser um canalha, mas estuprador, não.
— Então você admite que é um canalha?
Ele dá de ombros e segue em direção ao avião.
Dou passos lentos até a máquina de ferro e subo a escada, olhando o
ambiente revestido de couro a minha volta. Meu marido aponta uma das
poltronas para mim e me sento, com ele parando na minha frente e passando
o cinto pelo meu corpo.
— Isso vai ajudá-la a se proteger — murmura.
Concordo me sentindo ainda mais receosa e solto um gritinho ao
sentir o cinto passar no meu braço, fazendo minha pele arder.
— Me desculpe, apertei demais?
— Está bom — respondo acariciando minha pele.
A vermelhidão surge no ponto em que Gael passou o cinto e ele
acaricia, causando uma onda de nervosismo por todo meu corpo.
— Ok — murmura. — Estamos prontos — diz se dirigindo ao piloto.
A porta do avião é fechada, vejo uma aeromoça se aproximar com
uma garrafa de champanhe.
— Aceita uma taça? — pergunta sorrindo.
— Obrigada — digo dispensando-a.
— Ela aceita — responde Gael autoritário.
O olho sem entender e vejo o desconforto estampado no rosto da
aeromoça.
— Acho que não aceito — respondo firme.
— Você vai aceitar — murmura. — Vamos fazer um brinde, esposa, o
que acha?
Ouço o tom da sua voz mudar e fico ainda mais nervosa, começando
a acreditar que Gael é um homem de dupla personalidade.
— Tudo bem, marido. — Dou ênfase na palavra e a mulher me
entrega uma taça, enchendo-a, logo depois ela faz o mesmo com a de Gael e
ele estica o braço, batendo a sua na minha. — Qual é o motivo deste brinde
inusitado?
— É um brinde ao que quero fazer com você — murmura levando a
taça até a boca.
Fico sem palavras e bebo o líquido borbulhante, dando de ombros.
— E o que você quer fazer comigo?
— Em breve você vai saber, Laureen, não se preocupe.
Apenas assinto e quando vejo, já alçamos voo, então deixo minha
taça de lado e fico analisando o lado de fora do avião, pensando que me
casar com Gael foi o menor dos meus problemas.
O pesadelo maior está prestes a acontecer.
Viagem de barco
Algumas pessoas sentem medo ao entrarem em um avião e vê-
lo começar a voar. No meu caso, é o contrário...
Cerca de seis horas depois de estarmos voando, sinto meu coração
gelado ao começarmos aterrissar em um pequeno aeroporto que desconheço.
Saio do avião com Gael logo atrás de mim e sinto a brisa fresca
bater no meu rosto, me causando arrepios pelos braços.
— Vamos pegar meu barco para chegarmos na ilha.
Concordo e olho em volta, analisando o mar ao longe.
— Esta ilha é sua?
— Sim, por quê?
— Por nada, apenas curiosidade — digo dando de ombros.
Ele concorda e o vejo se afastar, indo falar com um homem baixinho,
barrigudo e careca.
Fico parada no mesmo lugar por cerca de vinte minutos, quando Gael
volta em minha direção com um sorriso no rosto.
— Nossas malas vão ser levadas para o barco e assim que estiver
pronto, iremos continuar a viagem. Você quer fazer alguma coisa enquanto
tudo é preparado?
— Que tipo de coisa?
— Eu não sei, conhecer um pouco do local — diz dando de ombros.
Penso a respeito disso e vejo rendição na sua voz, como se estivesse
tentando apaziguar o que havia acontecido dentro do avião horas atrás.
— Acho que vai ser bom.
Ele concorda e segura minha mão.
— Vamos lá então.
***
Gael me leva em uma boutique que tem próximo onde pousamos e
confesso que fico sem graça ao ver roupas e joias uma mais linda que a
outra. Não que eu não tivesse minhas próprias joias ou roupas de grife, mas
é estranho ver um homem desconhecido me dar estes itens tão pessoais.
— Leve essa, é magnifica — diz apontando para um colar de
diamantes.
— Você não acha um exagero, ainda mais o preço?
— Isso não é problema para mim, leve-o, quero que use comigo.
Concordo.
A mulher me entrega o colar para que eu prove, com a ajuda de Gael,
o coloco no pescoço e me encaro no espelho, com ele logo atrás de mim.
— É realmente magnífico — sussurro encarando-o brilhar no meu
pescoço.
Gael concorda com um movimento de cabeça e deposita sua mão em
meu ombro.
— Ficou ainda mais lindo em você.
— Obrigada.
Um sorriso de lado se forma em seu rosto, retira o colar do meu
pescoço, entregando novamente para a mulher para que ela o coloque na
embalagem. Com a insistência de Gael, escolho mais alguns acessórios,
como brincos de pérolas e anéis de diamantes. Assim que finalizamos a
compra, ele me guia para o lado de fora, com sua mão em minhas costas e
vislumbro dois seguranças armados atrás de nós.
— Isso realmente é necessário? — pergunto apontando para os
homens.
— Sendo quem sou, é sim, e estamos com joias — murmura
entregando as compras para os seguranças.
Fico em silêncio e quando vejo, estamos seguindo em direção a um
barco que está parado, pronto para velejar.
— Já andou de barco antes?
— Não, mas acredito que não seja pior que avião.
— Não se preocupe, acho que você vai gostar — diz rindo.
Concordo e com sua ajuda, entro no local, observando o mar aberto
ao longe.
Ouço o barulho dos pássaros, o que me acalma, então vejo os dois
seguranças entrarem logo atrás de nós e Gael seguir em direção ao
comandante. Fico parada, receosa de que possa acontecer alguma coisa e me
assusto ao ver Preston surgir atrás de mim.
— Senhora Brown, é muito bom vê-la novamente — diz com um
sorriso no rosto.
— Preston — digo engolindo em seco. — Você vai ficar conosco na
ilha?
— Não, apenas irei acompanhá-los e depois disso os outros e eu
iremos retornar para a casa do senhor Brown.
— E como você veio parar aqui tão rápido?
— Viemos de avião, senhora, em um outro, para não os atrapalhar.
Concordo, em silêncio, achando isso uma loucura e tanto.
— Certo — murmuro.
— A senhora quer conhecer um pouco do barco enquanto o senhor
Gael resolve alguns assuntos com o comandante?
— Pode ser — concordo sem muitas opções.
— Certo, venha comigo então.
Sigo Preston e ele me mostra um pouco do barco, me levando até a
piscina que há nele e depois me mostrando a cabine do comandante, onde
Gael e um homem conversam sobre coisas que não entendo. Após isso, ele
me mostra o barco por dentro, o que me deixa bastante surpresa.
O local é grande, revestido de madeira na cor carvalho e tem um ar
bastante ostensivo. Vejo uma pequena saleta para fazermos nossas refeições
e depois um quarto, com apenas uma cama e um local para colocarmos
nossas coisas, onde já estão as nossas malas, o que me deixa surpresa.
Ele me mostra também o pequeno banheiro e assim que conheço todo
o ambiente, Gael desce e vem até nós dois.
— Já estamos prontos para navegar — diz com um sorriso no rosto.
— Com licença — Preston diz se afastando e sumindo da minha
visão, com certeza seguindo para um ambiente do barco que ele não viu
necessidade em me mostrar.
— Você está ansiosa para esta viagem?
— Estou curiosa — confesso abaixando a cabeça.
Gael leva a mão até meu queixo e o ergue, fixando seu olhar em mim.
— Eu também estou curioso com o que ela irá nos reservar. Se quiser
dormir um pouco, vai ser bom, afinal, iremos levar mais algumas horas para
chegar até a ilha.
— É longe, não é? — pergunto de maneira irônica. — Seis horas de
viagem de avião, agora mais algumas de barco.
— É longe sim, isso tudo para não sermos perturbados por ninguém,
inclusive, não teremos empregados e nem seguranças.
Concordo, sabendo que questionar sua decisão será inútil.
Não há o que fazer, Gael é quem manda aqui.
— Tudo bem, vou descansar um pouco.
Ele assente e viro de costas, sendo puxada em sua direção com
ferocidade. Solto um gritinho baixo, assustada e vejo meu corpo colado ao
seu, com meu marido segurando meus braços com força.
— Durma com os anjos, minha Laureen — murmura depositando um
beijo na minha testa.
Ele me solta e respiro fundo, sentindo a vulnerabilidade tomar conta
de mim, então Gael sai do quarto e fecho a porta, trancando-a e me jogando
sobre a cama.
***
Dizem que nem mesmo quando casamos será possível conhecer as
pessoas e suas intenções. Claro que, em um processo normal, do conhecer
até se casar é mais fácil, afinal, criamos laços com a pessoa e assim aos
poucos um vai moldando o outro.
Mas quando você se casa com um completo estranho, o que pode
fazer?
Nada, exatamente nada.
Gael no primeiro instante em que nos vimos mostrou ser doce, gentil
e brincalhão, no entanto, depois do “beijo renegado”, vi que ele tinha muito
mais para mostrar. Um lado escondido nas sombras que aos poucos, se
revelava e depois se escondia novamente.
Deitada na cama, sentindo o barco navegar em alto mar, sinto uma
sensação estranha de que Gael Brown é um homem enigmático e bastante
difícil de desvendar.
Quem realmente ele é?
Será que havia machucado minha boca de propósito ou foi apenas um
acaso?
Suspiro procurando meu celular e ao achá-lo vejo que não há um
traço de sinal, o que me faz esbravejar e xingar Gael por me trazer para um
lugar tão longe.
Me levanto e começo a andar de um lado para o outro.
Que situação!
Como poderei ficar tranquila na situação em que me encontro, diante
de um casamento por contrato e um marido difícil de decifrar?
Decido espairecer um pouco a mente, abro a porta e saio do quarto
pequeno. Não havia conseguido pregar o olho por um minuto sequer,
pensando em tudo que vem acontecendo na minha vida.
Subo a escada e me vejo do lado de fora, com a brisa do vento
batendo no meu rosto e o sol já se pondo. Avisto Gael e o comandante
conversando na cabine, para não os atrapalhar e até mesmo ficar sozinha,
sigo em direção a proa do barco, andando devagar e analisando o mar.
A água está agitada, como se a qualquer momento pudesse nos
devorar. Ela bate com firmeza na lateral do barco e sinto um pouco de medo,
desacostumada a andar neste meio de transporte.
Me sento no chão e olho para a frente, avistando apenas o mar e o
céu aberto, contemplando a beleza da natureza. Fico olhando por um bom
tempo o local e me assusto ao ver uma sombra parada ao meu lado. Ergo
meu rosto e vejo Gael sorrindo, com as mãos nos bolsos da calça.
— A vi de longe sentada aqui e resolvi ver como está — diz
presunçoso.
— Estou bem, não consegui dormir, então resolvi vir para cá um
pouco.
Ele concorda e se senta ao meu lado.
— Você quer beber alguma coisa ou comer?
— Estou sem fome, obrigada.
Gael volta a concordar com um movimento de cabeça e ficamos em
silêncio, olhando o local à nossa frente.
— É lindo, não acha? O mar e o céu parecem que estão tão próximos,
mas ao mesmo tempo longe.
Analiso a forma que ele diz e concordo, vendo o quanto ele tem
razão. De onde estamos, é como se o céu se encontrasse com o mar,
transformando-se em um, mas erguendo um pouco o corpo, percebe-se o
quanto a visão é enganosa e vemos que ambos estão longe um do outro.
Vejo que isso combina com Gael e eu, estamos lado a lado, próximos
um do outro, no entanto, com sentimentos divergentes e as vontades de
ambos são contraditórias, é como se estivéssemos distantes.
Confesso que isso me causa uma sensação estranha que não consigo
explicar como é.