— Mulheres do meu coração. — Tyler aparece na sala de banho tomado e arrumado. Ele me abraça por trás do sofá e beija a minha testa. Ele repete o mesmo gesto com Norah. Tyler dá à volta na sala e se senta no outro sofá.
— Desligou os aparelhos do seu quarto, mocinho? — questiono com a sobrancelha arqueada. Tyler sorri para mim e escuto uma risada de Norah.
— Sim, senhora mandona. — ele debocha e eu até rio.
— Não me diga que esse rapaz está dando trabalho?! — Norah pergunta olhando para Tyler que dá de ombros.
— Você nem imagina. —digo revirando os olhos e rindo em seguida.
— Que? Isso é um complô! Eu sou um santo! — Tyler diz fazendo drama com a mão sobre o peito e nós duas gargalhamos.
— Tá bom, senhor do drama! — digo ainda rindo — Vai se arrumar que em duas horas temos uma coletiva de imprensa. — concluo e ele faz bico.
— Eu havia até me esquecido disso. — Norah desfere um tapa leve na própria testa em reprovação. Ela chama um segurança que estava no canto da sala — Daqui a duas horas tem uma coletiva de imprensa do Tyler Cross. Eu quero homens no raio de um quilômetro do local da coletiva. Quero mapeamento do local e tudo seguro. E também quero homens aqui na mansão para fazer a segurança dele até o local do evento. — Norah diz com seu ar de autoritária e vai passando as coordenadas para o segurança e ele ouve tudo atentamente. As equipes de seguranças da Norah e do Tyler apesar de serem empresas diferentes, eles tinham uma parceria entre si e faziam sempre a minha segurança junto com a da Norah, do Tyler e do Jay.
— Sim, senhora. — o segurança responde e sai nos deixando sozinhos novamente.
— Precisa disso tudo, Norah? — Tyler pergunta com a expressão passiva. Estava tão na cara dele que ele odiava essa coisa de seguranças assim como eu.
— Precisa, Ty. — afirma Norah — Além de você ser um astro famoso, você anda e vive comigo. Os dois. — ela aponta para Tyler e depois para mim — E precisam de seguranças. Vocês são alvos fáceis. Já tentaram contra a vida de vocês e não quero que isso aconteça de novo.
— Eu realmente preciso de férias. — Tyler diz jogando a cabeça para trás. Norah ri.
— Eu tenho um chalé no Alasca e uma casa de praia em Malibu. É só escolher. — Norah sugere e Tyler sorri como uma criança.
— Sério? — seus olhos brilhavam com a possibilidade de um descanso. Eu sei que isso tudo era cansativo para ele assim como era para mim sendo sua empresária e assistente. Sei que ele amava cantar, dançar, fazer seus shows e atender seus fãs, mas chega uma hora que seu corpo e mente imploram por descanso e estava na hora de Tyler.
— Primeiro a gente vai cumprir o que está na agenda e depois a gente conversa sobre isso. — digo e ele joga a cabeça para trás.
— Só quero um pouco de descanso... — reclama ele.
— Eu sei, querido. — respiro fundo — Eu também. — respondo.
Ser empresária de artista famoso não é nada fácil, ainda mais quando se é tutora dele. Eu tinha que viajar com Tyler o tempo inteiro pelo país e pelo mundo. Sempre tinha alguma sessão de fotos, entrevista ou show. Os shows eram as piores coisas para se fazer. Passávamos a noite em claro e era completamente exaustivo. Apesar de toda aquela correria, Tyler amava o que fazia e o que era. Ele conseguiu o que mais queria. Quando criança, Tyler juntava todos os vizinhos da rua no quintal de sua casa e fazia um mini show de música e dança. Era uma repleta graça. Mas quem diria que aquele menino de apenas cinco anos com um sonho em mãos se tornaria um astro mundialmente famoso? Nem eu imaginava. Pior ainda era me imaginar como sua empresária.
Tyler deixa eu e Norah na sala com um sorriso no rosto por causa da proposta de Norah e vai se arrumar. É claro que eu daria o descanso que ele precisava. Mas ainda tínhamos pelo menos umas três semanas de agenda para cumprir. Eu não vou marcar mais nada. Vou cumprir o que já está marcado e eu mesma darei férias para mim e ao Tyler em seguida. Voltaremos assim que estivermos dispostos a voltar com toda a nossa vida corrida.
Norah conversa com um dos agentes pelo celular e sei que estão falando da segurança do evento. Eu confio a minha vida e a de Tyler nas mãos de Norah. Ela jamais faria algo que nos colocasse em risco.
Minutos se passam e Tyler aparece na sala arrumado com uma calça jeans clara, uma camiseta branca, um casaco fino quadriculado azul por cima da camisa, um tênis que também era quadriculado azul. Norah diz que era a hora dela se arrumar e eu também. Norah vai para o segundo andar direto para o seu quarto especial na mansão. Assim como na sua casa, Norah tinha no meu apartamento, na mansão de Tyler e no apartamento do irmão um quartinho que ficava trancado e que só ela tinha a chave. Esse quartinho não era para dormir nem nada do tipo, o quartinho tinha todos os tipos de equipamentos especiais. Nem eu e nem Tyler nos atrevemos a entrar ali. Nunca nem vi como era o quarto, só sei que Norah tinha muita arma guardada naquele quarto.
Fui para o meu quarto para trocar de roupa. Minhas roupas de eventos ficavam aqui e não em meu apartamento. Já que eu estava de banho tomado, eu realmente só precisava trocar de roupa. Faço um coque médio e frouxo e deixo uma mecha caída em minha bochecha. Coloco um vestido tubinho branco que marca muito bem o meu corpo. Arrumo minha bolsa com as minhas coisas e com as coisas de Tyler. Coloco um salto agulha preto, faço uma maquiagem básica e coloco um batom na cor vermelha. Eu amo batons vermelhos. Estou pronta. Desço as escadas para o térreo devagar e vejo Tyler sentado no sofá mexendo em seu celular e a Norah brincando com sua pistola.
— Norah! — chama Tyler — Me ensina a mexer em uma arma? — ele pede ficando de joelhos no sofá e virado para ela.
— Tyler, no seu tempinho de férias eu te ensino. — ela diz sorrindo sem olhar para ele e ainda de cabeça baixa brincando com a sua arma. Aquilo não me assustava, nunca me assustou.
Achava arma a maior adrenalina. A verdade é que se eu não fosse a empresária de Tyler, eu tentaria entrar para a polícia. FBI, CIA, INTERPOL, qualquer uma delas, mas eu tentaria. Eu vejo isso como uma adrenalina que eu gostaria de viver, mas minha realidade é outra, completamente diferente. Eu sabia manusear uma arma, não pela Norah, mas pelo meu pai. Ele ensinou a mim e a Lydia para que aprendêssemos a nos defender e nós sabíamos mexer em armas desde quando tínhamos pelo menos quatorze ou quinze. Eu havia ganhado uma arma dele em um dos meus aniversários e ela está guardada. Norah não sabe disso. Sei que papai não daria uma a Lydia. Ele disse que ela é mais pavio curto do que eu e que tentaria meter bala no primeiro aborrecimento dela, por isso ele não confiava nela com uma arma. Meu pai é Agente Especial, por isso ele tem conhecimento com armas.
— Quem será minha escolta hoje? — questiono olhando para Norah já sabendo da sua resposta.
— Mulher, eu serrei sua escolta! — ela responde levantando as sobrancelhas repetidamente me fazendo rir.
— E eu? — Tyler perguntou dando um pulo do sofá ficando rapidamente de pé.
— Eu faço a escolta de vocês dois. Eu consigo. — Norah responde toda cheia de si.
Saímos da mansão e partimos para o local do evento. Era um local amplo e estava cheio de jornalistas. Tyler é um astro teen e celebridade por onde passa. Eu e Tyler andamos calmamente até o grande balcão onde eu ficaria sentada com ele e seu produtor musical. Norah se mantém séria o tempo todo fazendo nossa escolta com uma pistola na mão.
As entrevistas foram basicamente perguntas sobre novos projetos de Tyler, próximas turnês e shows. Tyler também havia informado que estaria organizando um encontro de fãs. Foi dito os dias de gravações do seu clipe novo e o local para os fãs que gostavam de assistir. Como sempre, perguntaram sobre a vida amorosa do Tyler. Ele fazia rir e dizia que estava esperando a sua garota. Eu ria nesses momentos. Como sempre também, os jornalistas me perguntaram como ia o processo da guarda do Tyler e como a família estava agindo a isso. A única coisa que eu respondia é que as coisas estavam correndo na mesa do juiz, e nada a mais.
Quando saímos do evento, já era de noite. Eu estava exausta e o Tyler chega veio dormindo no carro. Entrei na mansão Cross e pedi para que Hernesto fosse buscar Tyler no colo. Norah ficou dizendo que era fofinho, apesar de Tyler ter dezesseis anos e era um rapaz de corpo enorme. Ele estava cansado e eu também. Norah havia entrado na mansão já arrancando todo o seu equipamento e deixando patrulhas em volta da casa. Hernesto entra com Tyler. Ele dorme de babar. Eu e Norah rimos da cena. Tyler abre os olhos devagar. Dou um beijo em sua testa e peço que Hernesto o leve para o quarto.
— Kay. — ele me chama com a voz sonolenta.
— Oi, Tyler. — digo e me aproximo dele.
— Dorme aqui hoje. — pede Tyler. Sorrio.
— Durmo. — digo e lhe dou outro beijo na testa.
Hernesto sobe com Tyler para o quarto.
— Posso dormir aqui também? — pergunta ela desfazendo o coque do seu cabelo.
— Você sabe onde é seu quarto e tem a chave de cada porta dessa casa. — digo e sorrio em seguida fazendo ela sorrir também.
— Tô indo dormir. — ela passa por mim subindo as escadas.
— Avisa para seu irmão que você vai dormir aqui. — digo e ela resmunga.
— Sou de maior e vacinada. — gargalho de seu atrevimento.
Sigo para a cozinha. Todas as funcionárias já estão em sua ala e provavelmente acomodadas para dormir. Seria muita sacanagem eu acordá-los por caprichos meus. Faço um sanduíche natural e como bebendo um refrigerante. Lavo o que eu sujei e deixo na secadora. Subo para meu quarto e logo arranco minhas roupas do corpo. Pego meu celular ligando para Jay.
— Fala, anjo. — ele diz ao atender o celular. Assim como Norah, eu o tenho como um irmão, mas eu ando mais com a Norah. Jay é uma pessoa muito centrada em seu trabalho. Como se vivesse para aquilo.
— Liguei para avisar que a sua irmã vai dormir aqui. — digo. Eu prefiro que ele saiba para que ele coloque toda a polícia atrás dela.
— Já estou sabendo que aquela desleixada não me liga para avisar nada. — gargalho. Jay sempre foi muito protetor com Norah. Ainda mais quando eles perderam os pais. Eles sempre tiveram um ao outro, sempre foram somente eles contra o mundo.
— Patrulha?
— Patrulha! — Jay afirma o fato de a patrulha o ter avisado que provavelmente ela dormiria aqui.
—Eu vou dormir, Jay. Boa noite. — despeço-me.
— Boa noite, gata. Durmam com os anjos todos vocês.
— Amém!
* * *
Acordei me sentindo um caco. Provavelmente eu ficaria o dia inteiro em casa e só sairia mesmo para coisas necessárias. Levantei-me com preguiça e segui para o banheiro. O relógio marcava nove horas da manhã. Arrastei-me até o banheiro e tomei uma ducha gelada. Coloquei uma roupa soltinha e confortável já que hoje eu ficaria em casa. Minha barriga começa a dar sinais de vida. Coloquei meu chinelo e sai do quarto. Vejo a movimentação dos funcionários mantendo a ordem na mansão. Vou direto para a cozinha e já começo a escutar murmurinhos.
— Abre a boca, Tyler! — escuto Norah gritar.
— Calma, cacet*! Pode jogar! — escuto ele respondendo e entro na cozinha. Tyler está com a boca aberta e Norah tentando acertar uvas em sua boca como se fosse uma cesta.
— Não estou vendo isso... — lamento me sentando na mesa. As empregadas na cozinha começam a rir.
— Tenta, Kay. — diz Norah e eu levanto minha mão mostrando a palma para ela.
— Tô com fome. — respondo — Janell, fez meu café fresquinho?
— Sim, senhora. — ela se aproxima de mim com a garrafa na mão.
— Dá pra vocês dois pararem com essa brincadeira? Tá sujando o chão todo! E o Tyler é péssimo de mira! — reclamo vendo que era a vez de Tyler jogar as uvas na boca de Norah.
— Desculpa, estressadinha. — Tyler debocha e volta a se sentar direito na cadeira. Norah repete a mesma atitude de Tyler.
— Vamos falar do que interessa. — Norah diz — Acha mesmo que esse relacionamento entre Lydia e Adam vai durar? — questiona ele comendo seu pão.
— Eu acho que não. — respondo — Lydia só faz isso para me atormentar. Ela não o ama. Não vai demorar muito para que ela dê logo um pé na bunda dele e ele pedir para voltar.
— E você vai voltar? — questiona Tyler.
— Claro que não! — respondo firme.
— Acho bom! — retruca Norah — Se você dissesse que voltava, eu juro que dava um tiro de doze na sua boca!
— Você me dá medo. — Tyler brinca com Norah.
— É para ter mesmo. — ela responde rindo.
— Voltando ao foco, eu espero tudo da Lydia. — diz Tyler.
— Não, Tyler. Eu ainda acho que ela vai dar um pé nele. — respondo.
— Concordo com Kayla. — Norah diz bebendo seu copo de suco. — Lydia só faz isso de provocação e no momento que a Kayla mostrar verdadeiramente que não se importa com isso, ela o larga. Qual o problema da sua irmã?
— Inveja. — Tyler responde por mim dando de ombros.
— Eu duvido muito que vá para frente esse relacionamento. — digo.
— Senhora. — ouço a voz de Hernesto. Viro-me para trás e ele tem uma bandeja em mão e sobre ela um envelope.
— Acho que nunca vou me acostumar com essas mordomias. — sorrio, mas Hernesto se mantém sério. Ele sempre foi um funcionário sério demais — Obrigada. — respondo pegando o envelope em minhas mãos. Ele assente e sai.
Tyler e Norah continuam sua conversa e voltam a brincar de arremessar frutas. Abro o envelope e pego meu copo de café e começo a bebê-lo aos poucos. Começo a olhar o conteúdo do envelope e apenas sinto o copo escorregar da minha mão e logo o barulho de vidro se quebrando toma conta da cozinha.
— O que foi isso, Kayla? — Norah questiona e eu não consigo olhá-la.
— Acho que estamos enganados sobre Lydia e Adam.
— Por que? O que quer dizer com isso? — questiona Ty.
O envelope em minhas mãos era... o convite do jantar de noivado da Lydia e do Adam.
Pego o envelope e releio umas três vezes para ter certeza sobre o que tinha lido ou se estava com algum problema de visão. O problema só podia ser esse, mas não era. O que eu estava lendo era de fato real, por mais que eu me recuse a pensar nisso. O meu pior pesadelo estava acontecendo e eu não consigo ser capaz de mover um músculo nem mesmo para falar o que estava acontecendo agora que Tyler e Norah me olham surpresos esperando uma explicação pela caneca que acabou de cair no chão e ficar em mil pedaços. Aquilo não podia estar acontecendo, mas estava. Lydia e Adam conseguiram me atingir da pior forma possível. Norah estava falando alguma coisa e logo sua voz se misturou com a de Tyler, mas eu não conseguia prestar muita atenção no que eles estavam me falando, pois eu ainda estava tentando ingerir tudo o que estava escrito naquele maldito convite. Eu não estava preparada ainda para falar nada. Minha vontade era de correr até o meu quarto, me trancar e chorar até o mundo não ter mais cor. Uma dor terrível se instalou ao meu peito e com certeza seria difícil de se curar novamente. O mal de amor é uma coisa terrível. Quando não se é correspondido à dor é menor, mas passar pelo o que eu passei... Eu praticamente fui tratada como lixo e ainda sofria por tudo aquilo que aconteceu.
— Kayla! — escuto a voz de Norah chamar minha atenção mais uma vez.
Olho para frente, mas não consigo enxergar praticamente nada. Um borrão de cores misturadas se instalou em minha visão por conta da quantidade de lágrimas acumuladas em meus olhos. Sinto o envelope ser puxado da minha mão.
— “Prezada senhorita Kayla White, você foi convidada para um jantar em comemoração ao noivado de Adam Campbell e Lydia White na mansão White...” — escuto Tyler ler e já nem dou mais atenção a ela — Mas que merd* é essa?
Tento respirar, mas um nó terrível se instala em minha garganta dificultando a passagem de ar. Norah e Tyler começam a fazer um falatório infernal enquanto lágrimas insistem em descer pelo meu rosto de forma descontrolada. Meu choro é silencioso. Eu apenas olho para o nada com lágrimas rolando em meu rosto sem eu dizer uma única palavra. Chorar não aliviava a dor e muito menos fazia passar, mas era o que eu poderia fazer por enquanto. Minha irmã iria se casar com meu ex-namorado e o amor da minha vida. Isso dói de uma forma tão agressiva. Tem coisas que doem mais que um soco. Norah e Tyler continuam a falar e eu não presto atenção em uma única palavra.
— Kayla! — a voz de Norah chama-me novamente.
— Eu não vou. — a frase sai antes que eu pudesse controlar a minha boca.
Eu não quero e nem vou comparecer a esse jantar ridículo. Noventa por cento de mim tem quase certeza que Lydia só armou o jantar de noivado apenas para esfregar esse relacionamento ridículo na minha cara. Um tapa sem mão. Lydia é dessas que vai jogar na cara o máximo que puder e ela vai jogar em cima de mim esse noivado. Eu não daria esse gosto para Lydia de me ver com a cara acabada e engolindo o fato de que ela iria se casar com o Adam. Lydia havia ido longe demais. Nunca pensei que fosse capaz disso.
— Como é que é? — Norah arregala os olhos em minha direção. Passo as mãos violentamente nos olhos para secar as lágrimas que ainda sim insistiam em cair. Fungo um pouco sentindo meu nariz começando a entupir.
— Eu não vou a esse jantar ridículo. — digo com um pouco mais de convicção, mas com a voz embargada pelo meu choro.
— Oi? O que você está dizendo? — Norah pergunta novamente elevando seu tom de voz.
— Isso mesmo que você escutou. — respondo olhando para o nada ainda sem querer olhar para a Norah.
— Escuta aqui, garota. — Norah parece estar com raiva e olho de canto vendo-a colocar seus braços na mesa e estreitar seu corpo em minha direção — Olha para mim, Kayla. — ela pede aparentemente com calma, porém eu não respondo nada e muito menos olho para ela — OLHA PARA MIM, GAROTA! — dessa vez ela grita que chego a pular da cadeira. Sem muita opção, eu escolho olhar de vez para ela — Vou te dizer uma coisa, Kayla, você vai a esse jantar. — ela diz e eu bato o pé com força no chão sentindo um leve choque subindo pela minha perna, mas não me importo mais.
— Você não me escutou, Norah? — aperto meus olhos em sua direção ficando com raiva, mas ela parece não estar intimidada com minha reação como sempre — Eu não vou a p*rra deste jantar. — completo firme.
— Presta atenção, garota. — ela começa firme — Você não se manda. — escuto Tyler gargalhar — Se eu estou dizendo que você vai a este jantar, é por que você vai a p*rra desse jantar e ponto final!
Não acredito que ela estava dizendo aquilo, que estava mesmo me obrigando a ir ao jantar de noivado de Lydia e Adam? Ela estava me empurrando em direção a minha própria cova? Que tipo de amiga ela é? Eu nunca vou permitir que Lydia me veja dessa maneira. Quero mais que ela morra de mãos dadas com Adam, mas eu não vou a p*rra desse jantar. Juro que não mereço tamanha humilhação, não mereço. Eu não iria me entregar de bandeja para Lydia e Adam como se eu fosse um pedaço de carne mal passado.
— Norah, me escuta aqui. — levanto ficando na mesma altura que ela. Não éramos tão altas — Eu não vou me humilhar desse jeito para eles dois. Eu não vou. — sinto as lágrimas se formarem novamente em meus olhos, mas vou lutar até o último segundo para que elas não caiam.
— Mais um motivo para você ir. — Norah cruza seus braços sobre o peito e me olha determinada. Aquele olhar não é bom. Nunca é bom. Eu conheço minha melhor amiga e sei que ela estava maquinando algo nessa coisa que ela chama de cabeça. Não era boa coisa. Não mesmo.
— O que você está pensando? — questiono apertando os olhos desconfiada. Não vinha coisa boa dali. Eu a conheço — Quer saber? Não quero escutar! Lá lá lá lá lá... — começo a cantarolar feito uma criança colocando meus dedos indicadores nos ouvidos os tampando para não escutar, Norah e Tyler começam a gargalhar da minha atitude completamente sem noção e infantil.
— Escuta, sua best*. — Norah diz tirando minhas mãos dos ouvidos — Se você não for, Lydia vai achar que você está destruída.
— Mas eu estou. — afirmo.
— Só que ela não precisa saber. — ela volta a cruzar o braço sobre os peitos e me olhar daquele jeito.
Daquele jeito.
— Norah, eu realmente não quero saber o que você está pensando. — digo cruzando meus braços também. Eu dizia mais por medo do que ela estava armando do que qualquer outra coisa.
— Como eu te disse, você não se manda e vai me escutar. — Tyler gargalha das coisas que Norah diz e observa toda a cena — Sua irmã não precisa saber que você está um caco parecendo que um caminhão passou por cima, ou tão fodid* que chega a estar uma garota de programa em casa de swing, ou pior que mendigo em dia de chuva e...
— Tá bom. Já chega de me descrever. — reviro os olhos e ela sorri.
— Enfim, a questão é, ela não precisa saber que sua vida amorosa está indo de mal a pior. Querida, vá a esse jantar e mostre a ela que você está melhor do que nunca e mostre ao Adam o que ele perdeu. — Ela diz cada palavra como se a sua vida dependesse disso.
— Norah tem razão. — Tyler concorda com a mesma.
— Eu sei. — ela sorri vitoriosa.
— Não apoia não, Tyler! — digo quase gritando e ele ri.
— Mas é verdade, Kay. — afirma ele.
— Nossa. Que maravilha. Eu vou chegar lá no jantar de noivado linda, bela e maravilhosa com o meu melhor vestido e melhor salto para eles verem que eu continuo solteira? — digo irônica — Isso não faz sentido gente, revejam esse plano. — coloco as mãos na cintura.
— Bom... — Norah coloca a mão no queixo como se estivesse pensando em algo — Tem uma pessoa que poderia ser... Sei lá... Seu acompanhante. — ela levanta as sobrancelhas repetidamente com malícia — Ele é tipo um acompanhante de luxo.
— Norah, você anda fumando maconh*, querida? — pergunto dando um tapa em sua cabeça.
— Ai, p*rra! — ela reclama de dor.
— Kay, pode ser uma boa. — apoia Tyler.
— Tyler, você sabe que a Norah é maluc*! Por que ainda dá ouvidos a ela?
— Porque ela está certa, ué! — ele dá de ombros — Você deveria aceitar sim.
— Vocês são loucos! Estão mesmo propondo que eu leve um acompanhante de luxo no jantar de noivado da minha irmã com toda a minha família lá? — questiono olhando um e depois o outro.
— Estamos. — dizem os dois juntos.
— Isso não vai dar certo gente. — digo —E vou dizer o que quando chegar lá? Oi gente, esse aqui é o meu acompanhante de luxo que contratei para passar a perna na minha irmã e fingir que eu não me importo dela casar com o amor da minha vida.
— Vou fingir que não ouvi a parte “amor da minha vida” — Norah revira os olhos — Querida, ninguém precisa saber que ele é um acompanhante de luxo. Você pode dizer simplesmente que ele é um amigo íntimo seu. Amigo com benefícios, ficante, sei lá... inventa qualquer coisa.
— Amigo íntimo? Sério isso? — questiono arqueando a sobrancelha.
— Querida, não disse íntimo nesse sentido, sua pervertida! — ela ri — Estava falando no sentido de ser muito amigo.
— Você sabe que o meu pai descobre quando estou mentindo, não é?
— Você passou a perna no seu pai por seis meses dizendo que estava bem e acha mesmo que ele não vai cair de você levar um acompanhante de luxo para o jantar da sua irmã? Menos, Kayla. — ela diz entortando a boca.
— Não foi bem assim. Sei que papai sabe que eu estou mal.
— Não duvido que ele saiba mesmo. Ele sabe esconder as preocupações dele também. — Norah dá de ombros.
— Então, Kayla. — diz Tyler — Você aceita essa ideia?
— Ainda não estou fumando maconh*, Tyler. Eu me recuso. — digo.
— Se recusa a fazer uma mentirinha dessas, mas só aviso que se você não comparecer a merd* daquele jantar, serão motivos a mais para sua irmã e a sua tia falar de você por aí, pois assim elas terão a confirmação do quanto você está fodid* e se elas vierem até mim, eu juro que assino em baixo.
— Você é uma péssima amiga. — digo e ela sorri.
— Eu sou realista. Se você não for, elas saberão que você está mal Kayla. Tem horas que te falta raciocínio.
— Norah, será que você poderia calar a sua boca por tipo assim... Uns quatro anos? — peço e ela enfeza a cara.
— Só digo as verdades, amiga. — afirma ela — Se eu fosse você, eu iria. E ainda iria para lacrar, sabe? Ia logo com um vestido abalando tudo e com um salto bem alto para tentar e conseguir sambar na cara de Lydia.
— NORAH! Você é demais! — Tyler gargalha com o jeito louco dela.
— Não, fofos. Melhorem. — respondo revirando os olhos que agora ardem por causa das lágrimas que saíram minutos atrás.
— Kayla, é sério. Você tem que ir, você vai! — Norah diz firme e mandona, como sempre — Você tem que se mostrar superior a Lydia. Não entrega a sua vida de bandeja para ela. É isso que você está fazendo.
— Você já está se demonstrando fraca, e você não pode se mostrar assim. Lydia vai se dar como vencida em uma guerra em que primeira batalha que foi ela quem venceu, e você sabe disso. O resto das batalhas você não pode deixar para a Lydia, ela não merece e nunca mereceu. Não aja como se a guerra estivesse vencida por ela, por causa de uma batalha. Faça por onde ganhar esta guerra. E quando digo guerra, não me refiro ao Adam, quero mais que ele morra, mas digo da sua autoestima que ela está conseguindo destruir aos poucos. — Tyler diz de um modo que me surpreende. Ele falou em um tom tão argumentativo que me deixou impressionada. Ele nunca falou nada com tanta seriedade, nem em suas entrevistas ele fala assim.
— Arrasou nas palavras, Tyler! — Norah começa a bater palmas.
— Eu sei! — ele se gaba.
— Isso é uma quadrilha?! — grito.
— Não, amor. Apenas um chá de verdade. — responde Norah.
— Vou para o meu quarto. — digo e passo direto para a porta da cozinha.
— Pensa no que a gente falou e aceita o acompanhante de luxo. — diz Norah.
— Nem pensar! — grito já das escadas.
Subo os degraus de dois em dois. Eu não era a melhor companhia no momento, portanto eu prefiro me isolar. Fecho a porta do quarto e me jogo na cama. Meus olhos estavam pesados pelo curto tempo em que eu chorei lá embaixo. Não queria que eles me vissem chorar pela milésima vez, mas foi quase impossível. Eu precisava de uma palavra amiga de verdade, mas ela não podia ser passada nem pela Norah e nem pelo Tyler. Querendo ou não, na cabeça deles só tem a vingança pela Lydia. Querer me vingar dela eu até quero, mas fingir que eu estou bem não seria a melhor vingança. Ela notaria que não estou nada bem com isso então com certeza um acompanhante de luxo não seria a melhor opção. Pego o meu celular ligando para a única pessoa que eu queria ver nesse momento.
— Pai. — digo ao perceber que ele tinha atendido o celular — Sua benção.
— Oi, minha filha. — ele responde do outro lado da linha com a voz um pouco cansada — Que Deus lhe abençoe, te guarde e te proteja.
— Está tudo bem? Você parece cansado. — questiono.
— Só trabalhando um pouco demais. — responde ele e sinto seu sorriso do outro lado.
— Pai... Eu sei que estou em falta com você e a mamãe e...
— Não ligue para isso agora. — ele me corta — Sei que nesse momento você deve estar precisando de mim.
— Muito pai. — já sinto lágrimas em meus olhos — O senhor já sabe?
— Obviamente. O inút*l veio aqui em casa antes para pedir a mão dela.
— E o que o senhor respondeu?
— O que mais, minha filha? Você querendo ou não, Lydia ainda é a minha filha assim como você e eu tenho que apoiá-las nas decisões de suas vidas. Independente do que ela fez, não posso torcer pela infelicidade dela, não seria justo.
— E foi justo ela roubar o homem que eu amo? — a essa altura minha voz já estava embargada de tanto deixar as lágrimas rolar.
— Não. Mas também não posso torcer para que ela se ferre nos relacionamentos. Por favor, Kayla, não me faça ficar do lado de uma de vocês, eu amo as duas, são as meninas que eu criei e não quero tomar um lado dessa história. Além do mais, se não fosse com sua irmã, eu tenho certeza que seria com outra mulher. Adam nunca foi flor que se cheira, minha menina.
— Doeria muito menos se ele tivesse me trocado por uma pessoa qualquer. Por que tinha que ser a minha irmã?
— Meu amor, eu sei que você está magoada, eu entendo e te compreendo.
— Pai, eu acho que não vou ao jantar do noivado.
— Eu queria que você estivesse, afinal, é um evento familiar. Mas imagino como você deve estar. Não vou te obrigar a ir no jantar de noivado e muito menos no casamento. Vá apenas se você quiser se achar melhor da sua parte ir. Não ficarei chateado se você não decidir ir. É uma opção sua.
— Eu te amo tanto, pai. — limpo as lágrimas de sua bochecha.
— Eu também te amo tanto, minha filha. — responde ele — Sua mãe outro dia já estava reclamando que você nunca mais foi lá em casa. Nunca se esqueça de que sua mãe está passando pela mesma dificuldade que eu em relação às duas. Ela não odeia a Lydia e muito menos você. Ela está chateada com tudo, é claro, e ela não queria ver as duas sem se falar. Então, releve para a sua mãe. Ela ainda é a sua mãe. — papai me dá um leve sermão. Sei que ele não está errado. Ele nunca está errado. Eu estava faltando feio com eles dois. Eu precisava lembrar que ainda tinha uma família. Só sei que mamãe deve estar às mil maravilhas com o noivado de Adam e Lydia. Mamãe sempre quis ver suas filhas se casando e logo uma delas estaria.
— Desculpa. — peço.
— Tudo bem. Vou ter que desligar, minha menina. Papai está trabalhando e daqui a pouco vou ter que sair em uma missão.
— Certo, papai. Se cuida.
— Sempre.
— Antes de desligar, mamãe está em casa? — questiono?
— Creio que sim, minha menina. — responde ele.
— E Lydia?
— Ela foi no shopping e só volta de noite.
— Certo. Tchau, papai.
— Tchau, minha menina.
Finalizo a chamada. Levanto-me da cama e vou em direção ao meu espelho de corpo inteiro. Encaro meu rosto levemente inchado e molhado pelas lágrimas. Eu realmente precisava da minha mãe. Ela não merecia o meu afastamento. Como disse meu pai, ela ainda é a minha mãe independente de tudo o que aconteceu. Molho o meu rosto na pia do banheiro para tentar essa cara de choro e prendo meu cabelo em um rabo de cavalo alto. Saio do banheiro indo em direção ao meu guarda-roupa. Pego uma calça jeans clara e visto com uma blusa regata branca acompanhada de um par de sapatilhas vermelhas que ganhei do Tyler. Pego minha bolsa em cima da cama. Saio do quarto e desço as escadas correndo.
— Para onde você vai? — escuto Norah gritar da sala.
— Na casa da minha mãe! — grito de volta indo para a porta.
— Chama os bombeiros... Hoje aquela casa pega fogo. — Norah diz e eu rio.
Vou para a garagem e entro no meu carro jogando a bolsa no banco de trás. Dou partida no carro e logo estou indo para o casarão White. Vejo uns dois carros de seguranças me seguindo. Eu realmente precisava me acostumar com aquilo. Ligo o rádio e a música Love Me Like You Do de Ellie Goulding está tocando. Curto a música e cantarolo alguns trechos da música. Passam cerca de cinco músicas e eu chego no casarão White. Toco o interfone avisando ao porteiro que era eu quem estava no portão e ele abre o mesmo para mim. Deixo o carro na frente da casa e saio. Pego minha bolsa e subo lentamente os seis degraus da varanda. Passo as mãos na lateral da minha cintura. Respiro fundo umas duas vezes tomando coragem para apertar a campainha e enfim toco. Espero cerca de uns trinta segundos para a porta ser aberta revelando uma senhora baixinha e gordinha de cabelos brancos, pele clara e com poucos sinais de rugas.
— Minha menina! — sinto Isobel envolver seus braços em meu corpo para um abraço apertado e aconchegante como sempre foram seus abraços.
— Isobel! — digo ao retribuir seu abraço
Isobel Botelho era a governanta da casa dos meus pais. Com seus cinquenta e sete anos, Isobel era uma mulher bem conservada. Ela é casada há quarenta anos com o motorista da minha mãe, o senhor Aaron Botelho e juntos eles têm dois filhos, o Harrison e a Morgana. Crescemos os quatro juntos nessa casa e meus pais fizeram questão de pagar os estudos de Harrison e Morgana. Hoje Harrison trabalhava com meu pai como Agente Especial e Morgana era jornalista. Já tinha uns dois anos que eu não via a Morgana. Ela sempre foi uma garota completamente extrovertida e meio doidinha, já o Harrison era um cara muito centrado e na dele. Um tinha o que faltava no outro, mas eram pessoas muito bacanas. Morgana era muita chegada a Lydia e a mim, mas com Lydia depois do que ela fez, soube por alto pelo meu pai que ela havia se afastado bastante de Lydia, já que a amizade delas haviam continuado mesmo depois que ela foi para outro país assim como foi comigo.
— Minha menina, como você está linda! — Isobel me solta colocando sua mão em meu rosto me avaliando — E há quanto tempo você não dá às caras por aqui, garota! — ela briga levemente e eu sorrio por dentro, mesmo sabendo que era totalmente verdade.
— Quem é Isobel? — escuto a voz de mamãe se aproximando — FILHA! — ela grita e corre feito uma criança para me abraçar, sendo que quem deveria estar fazendo isso era eu e não ela. Me senti mal, porém eu estava aqui, já era um grande passo na minha vida. Mamãe me cobria de beijos por todo o meu rosto como se não me visse há anos. Não era bem anos, mas desde que eu terminei com Adam, eu só havia visto minha mãe umas três vezes no máximo. Eu realmente me sentia mal por não ver a minha mãe por tanto tempo, mesmo ela estando defendendo o Adam, ela só queria o meu bem.
— Oi para senhora também, mãe. — digo fechando os olhos sentindo os beijos da mamãe ainda pelo meu rosto.
— Quanto tempo, minha filha! Entra! — antes que eu pudesse responder, mamãe me puxa para o interior do casarão. Continua tudo do mesmo jeito que eu me lembrava. Mamãe me puxa até o sofá e me senta “forçadamente” — Como você está? Está bem? Está se alimentando direito? Está saindo de casa, né? Não está depressiva pelos cantos daquela mansão chorando feito uma manteiga derretida, né? Diz pra mim que você tá bem! — mamãe me bombardeia de perguntas sem ao menos respirar entre uma e outra.
— Mãe, calma. Eu tô bem. Vê se respira. — digo calmamente e respirando fundo para que ela me acompanhe na respiração e ela faz — Eu tô muito bem. Melhor impossível. — minto — Eu estou me alimentando direito sim. Calma, mãe.
— Jura? Achava que quando te encontrasse eu iria me bater com uma baleia de duzentos quilos que engordou comendo chocolate e chorando. — escuto a voz irritante da minha tia atrás de mim.
— Para a sua infelicidade Maya, eu ainda continuo linda, gostosa e maravilhosa como sempre. Não foi porque quando o Alexander te abandonou feito uma put* e você comeu feito uma condenada e engordou é que eu vou fazer o mesmo. Você tem que aprender que as pessoas não são como você. — respondo fria e grossa sem nem olhar para ela.
— Menina! Respeita a sua tia! — resmunga a mamãe batendo em minha coxa.
— Deixa, Becca, estou acostumada com a falta de educação dessa sua filha. — diz titia entrando em meu campo de visão e se sentando no sofá em frente ao que eu estava sentada.
— Não é falta de educação, Maya. É a realidade. Não sou como você e nunca serei. O término do meu relacionamento me fez melhor impossível e eu me orgulho da mulher que eu sou hoje. — digo firme e com o famoso “nariz empinado”.
Menti na cara dura para minha mãe e minha tia. Se Norah estivesse aqui, ela com certeza teria batido palmas para mim e já teria soltado fogos aqui dizendo que eu tinha tomado atitude para tal situação. Bom, eu realmente queria ser essa nova mulher e tal. Mas estava mesmo difícil. E eu também não estava colaborando muito. Quase não saia de casa e nem conhecia pessoas novas, então assim ficava muito difícil. Era como se eu estivesse esperando meu novo amor bater na minha porta. quando Maya abre a boca para retrucar, mamãe a corta:
— Podem parar vocês duas!
— Ela que começou. — digo para me defender.
— Cala a boca, Kayla. Pode parar com isso já! — mamãe diz brava —Você não é mais nenhuma criança para ficar com essa atitude com a sua tia!
Eu jamais rebateria a minha mãe. Tenho uma coisa chamada hierarquia. Apesar disso não funcionar muito bem entre eu e a tia Maya.
Fico cabisbaixa com a minha mãe. Sei que ela está certa. Naquele momento eu estava agindo feito uma criança mimada e não me orgulhei disso. Por um momento eu deixei com que Maya me tirasse do juízo. Se quero voar no pescoço dela? Quero. Mas em respeito à minha mãe, vou ficar quieta no meu canto.
— Kayla! — escuto minha mãe dizer meu nome me despertando do meu transe por um momento.
— Oi. Desculpe-me. — digo sacudindo a cabeça para acordar de vez dos meus pensamentos.
— Aposto que ela estava pensando em Adam. — diz Maya olhando para o nada. Ela não vai me fazer ir para a cadeia por assassinato. Não vai.
— Fica quieta você também, Maya! — mamãe reclama e ela dá de ombros — Kayla, você escutou o que eu perguntei?
— Desculpa, mãe. Eu estava voando legal. O que a senhora disse?
— Perguntei por que você raramente atendia minhas ligações. Sabia que eu estava preocupada de verdade com você e com o Tyler? Estava quase colocando a polícia atrás de vocês dois. — ela ri de canto.
— Tyler? Aquele moleque sem graça nenhuma? Menino idiot*. — Maya agora conseguiu me tirar do juízo.
— Escuta aqui, Maya! — levanto com tudo derrubando tudo o que vejo pela frente até chegar em Maya. Com isso acho que derrubei e quebrei um jarro e dois copos de vidro. Aponto meu dedo com minha unha enorme na cara dela e ela parece se intimidar um pouco — Nunca mais toque no nome de Tyler desse modo. E da próxima vez que você falar no nome dele, Maya, eu juro, mas eu te juro que arranco cada fio do seu cabelo com as minhas próprias mãos.
— Lembre-se que você não é a mãe dele! — ela cospe as palavras em mim. Sei que não sou a mãe dele, nunca me esquecerei disso. Ninguém nunca vai ocupar o lugar daquela mulher magnífica, mas eu sempre protegeria o nome dele.
— Eu sei que não sou a mãe dele, não precisa ficar me lembrando de algo que eu sei. Mas ele sempre será o meu filho de coração. Diferente de você eu tenho pessoas que me amam de verdade, Maya. E não volte a falar dele novamente. Não na minha presença! — eu falo mais alto do que eu percebia e vejo o quão estão arregalados os olhos de Maya. Sinto minha mãe puxar os meus braços me tirando de cima da minha tia antes que eu encha ela de porrada.
— Maya! Sai daqui! Sobe agora para seu quarto! — mamãe diz firme.
— Isso não acabou, Kayla White. — titia se levanta e parte para o quarto.
— Não mesmo, Maya Parsons. — respondo em um tom para que ela ouça.
Titia é apenas alguns anos mais velha do que eu. Com trinta e dois anos, Maya Parsons é uma pessoa desprezível e digna de pena. Nunca conseguiu segurar um relacionamento por mais de um ano e acho que por isso fica jogando mal olhado para o relacionamento dos outros. Acho que as únicas amigas de Maya são a minha mãe e a Lydia. Nunca a vi com nenhuma outra pessoa. Todos os seus namorados, por incrível que pareça, terminaram com ela. E ela é uma pessoa que não se dá muito bem com relacionamentos. É daqueles tipos de mulher que se tranca em casa, come feito um leão e chora assistindo filmes românticos, melosos e gays. Eu tinha tudo para ser como ela. Mas nossa diferença é que eu tenho amigos. Simples assim.
— Será que você e sua tia podem me dar um minuto de sossego quando estão juntas? — mamãe arfa.
— Ela que começou mãe. — cruzo os braços com indignação feito uma criança.
— E você sempre tem uma resposta para rebater! — vejo Isobel entrar com mais uma empregada com uma vassoura e uma pá para recolher os caquinhos de vidros.
— Eu te ajudo, Isobel. — faço menção de levantar, mas mamãe me interrompe colocando a sua mão em minha frente.
— Não. — diz mamãe — Há muito tempo que você não vem nessa casa e há muito tempo que a gente não se fala. Agora que você está aqui, a gente vai conversar feito mãe e filha. Você vai me dizer o que está sentindo e eu vou te aconselhar do jeito que posso. Você vai me falar de Tyler e eu vou dizer que sinto a falta dele e que quero vê-lo de qualquer jeito. Estamos entendidas, Kayla Parsons White? — mamãe diz firme. Apesar de mamãe ser uma mulher meio besta, ela tinha seus momentos de indignação e esse era um deles.
— Estamos, mãe. — respondo cabisbaixa.
— Converse com sua mãe, menina. — diz Isobel — Deixe que eu e Jazmin limpemos isso aqui.
— Desculpem. — digo e a empregada que não aparentava ter mais que vinte e um anos me dá um sorriso e se agacha com Isobel para limpar o chão.
— Kayla, é sério que você está bem? — pergunta mamãe mais calma.
— Claro, mãe. Estou bem, mamãe. — minto.
— Jura, filha? — insiste ela.
— Juro, mãe. — tento ser o mais convincente possível e parece dar certo. Mamãe se aproxima de mim e me dá um beijo na testa.
— Por que toda a demora de atender minhas ligações?
— Ando trabalhando demais com Tyler, mãe. É muito show, muita entrevista, muita turnê e eu não posso deixá-lo sozinho o tempo inteiro. Apenas em casos de necessidade para eu não ir. Ele ainda é menor de idade e se eu deixar com que ele viaje sozinho sempre, a família dele pode usar isso contra mim. — explico.
— Entendo, filha. — diz mamãe — Mas não faz mais isso, okay? — assinto — Fiquei mesmo preocupada com você pensando que estava depressiva com o acontecido.
— Que isso, mãe! — sorrio de um jeito falso para que ela acredite que era tudo verdade, mesmo que não fosse. Ela precisava acreditar. Às vezes acho que sou uma mentirosa tão boa que acredito na minha própria mentira.
Meu celular começa a vibrar. Mamãe me olha chateada já sabendo que obviamente seria sobre algum trabalho. Fiquei tanto tempo sem vê-la que com certeza ela queria que esse momento nunca acabasse. Preciso voltar aqui mais vezes. Pego meu celular para ler a mensagem.
Hoje. Preciso de você aqui hoje, Kayla. Deu um problema em papeladas em um dos shows de Tyler e precisamos de você aqui no estúdio. Liam.
Quando o celular após ler a mensagem de Liam, o produtor de Tyler. Obviamente ele iria querer me ver lá o mais rápido possível. Agora eu precisava sair da casa da minha mãe e confesso que não estava muito alegre com isso. Por um lado, eu ficaria o mais longe possível da tia Maya. Quanto mais longe dela, melhor.
— Quem era, filha? — questiona mamãe.
— Produtor do Tyler. — respondo e ela fica cabisbaixa.
— Pelo visto você já vai ter que ir.
Levanto-me do sofá e dou um beijo estalado na testa de Rebecca.
— Eu volto quando puder, mãe. Te juro. — digo para acalmá-la.
— Assim espero. — ela sorri fraco — E se ajeita com sua irmã. — pede ela.
Fecho a cara automaticamente.
— Não, mãe. — respondo. Ela faz cara de lamentação.
Despeço-me dela para ir me encontrar com Liam. No meio do caminho recebo uma mensagem de Norah pedindo que eu fosse comprar umas coisas para a mansão já que eu estava na rua. Sigo para o mercado. No meio do caminho, um maluco joga o carro de leve em cima do meu, mas não chegou a bater. O cara estava com uma cara estranha. Buzino feito uma louca. Ele me olha com os olhos preguiçosamente abertos.
— Tá maluco, cara?! — pergunto com raiva por quase ele bater no meu bebê.
Ele sorri ironicamente.
— Tá achando ruim? Quer tentar dirigir com alguém te fazendo um oral?! — ele grita de volta. Não acredito que ele disse aquilo — Não para não, Zoe. Óh! Isso! — ele geme de leve.
— Imbecil! — mostro meu dedo do meio.
— Isso é um elogio, gata! — responde ele.
Assim que o sinal fica verde, parto com meu carro para não ter que ver mais aquela cena nojenta. Realmente fiquei com raiva. Se ele batesse no meu carro, ele ia pagar. Ah se ia! Se bem que com o carro que ele estava, eu aposto que ele tem dinheiro para comprar uns dez iguais ao meu.
Estaciono meu carro na garagem do mercado mais próximo do estúdio do Tyler. Mando uma mensagem para Liam dizendo que iria me atrasar um pouco, pois estava no mercado. Entro no mercado puxando um carrinho e indo atrás dos produtos com dois seguranças que mais parecem dois armários atrás de mim. Eles não falam absolutamente nada e isso me irrita. Eu até tento puxar assunto com eles, mas eles ficam todos calados e não respondem uma única pergunta que eu faça. As pessoas olham estranhamente para os meus seguranças. Papel higiênico, arroz, macarrão, detergente e diversas outras coisas. Começo a encher o carrinho. Ando com o carrinho até me bater com outro carrinho.
— Descul... Ah, não! Tô nem aí para você! — digo ao ver que o carrinho em que eu bati foi o de Lydia. Tantos mercados na merd* da cidade e ela tem que estar justo no que eu estava agora?
— Não superou ainda, maninha? — ela pergunta em seu tom debochado e minha vontade é de voar por esses carrinhos e acertar a cara dela com alguma das garrafas de vinho ao meu lado.
— Não, Lydia. Eu superei, te juro isso. — digo apertando minha mão firme no carrinho para não socar a cara dela — Eu só não sou obrigada a ter que aturar a sua cara de put* fingida de santa. — ela sorri.
— E os seguranças? Não largam do seu pé, heim! — não respondo — Já pegou algum deles? Eu pegaria esse aqui — ela aponta para um que eu acho que seu nome é Marcus —, ele é um gato, concorda, Kayla? — não respondo, apenas observo sua cara de imb*cil — Talvez queira que o Adam seja um de seus seguranças também, quem sabe? — sua cara de deboche me dá vontade de cuspir.
— Eu não vou gastar minhas mãos te agredindo, Lydia. Você não merece.
Ela ri.
— Sem ressentimentos, mana. — ela levanta os braços em sinal de redenção — Devo te confessar que o Adam é uma maravilha. — ela gargalha ironicamente.
— Você é uma vagabund*. — digo séria
— Talvez. — ela dá de ombros — Mas a vagabund* aqui — ela aponta para si mesma — é quem vai casar com o gostoso do Adam. Você vai no jantar de noivado, né mana?
— Vou! Claro que vou! Estarei lá com meu namorado!
As palavras fugiram da minha boca antes que pudessem controlá-las. Nesse momento eu estava me odiando por um lado, mas estava feliz por ver a cara de surpresa da Lydia em saber que eu estaria em seu jantar de noivado. E eu estaria mesmo? Ai meu Deus! O que eu fiz?!
— Namorado? — ela arqueia a sobrancelha — Jura, Kayla? Não tem mentira melhor para arrumar não?!
— Mentira? Quem está mentindo aqui Lydia? Eu não minto e você sabe disso. Você é tão ridícula por achar que todas as pessoas são estúpidas como vocês, mas não são. Eu estarei no jantar de noivado prestigiando a minha irmãzinha querida e o seu noivo, futuro marido com o meu namorado novo. — as palavras não tem freio, elas estão saindo sem que eu possa impedi-las. A cara de Lydia estava uma maravilha, não posso negar. Como eu sustentaria uma mentira dessas?
— Te vejo lá então, mana. — ela passa por mim com seu carrinho — Vê se não atrasa. — seu deboche continua.
— Não vou. — respondo cerrando os olhos para ela.
Lydia passa por mim e segue sua vida no mercado. Que droga eu fiz? Santo Deus! Nem acredito que eu disse a Lydia que estaria lá. Mas eu não quero estar. Quero?
* * *
Depois de fazer as compras, jogo tudo na mala do carro e parto para o estúdio de Tyler. O problema das papeladas era que estava dando erro em um contrato de show fora dos Estados Unidos. Foi rápido resolver aquilo, nada demais. Quando acabo no estúdio de Tyler, parto para casa para dizer o que decidi sobre Lydia. Entro em casa já fazendo barulho e correndo eufórica.
— NORAH! TYLER! — grito andando pela casa e encontro os dois deitados esparramados na sala assistindo filme e comendo pipoca. Essa mulher não trabalha não?
— Tá gritando por quê? — Norah questionou arqueando a sobrancelha.
— Eu aceito. — digo do nada.
— Aceita o que, louca? — ela pergunta se sentando com preguiça.
— Aceito ir com o acompanhante de luxo.
— Put* merda! — Tyler diz surpreso.
— Essa é a minha garota! — Norah diz orgulhosa.
E agora? Como eu ia fazer isso?