Capítulo 2

A minha bolsa de águas rompeu às oito da noite, em ponto.

O som foi baixo, um pop húmido, seguido por um jorro quente pelas minhas pernas.

O pânico subiu-me pela garganta, frio e rápido. Peguei no telemóvel com as mãos a tremer e liguei ao meu marido, Leo.

O barulho do outro lado da linha era ensurdecedor, gritos e cânticos de futebol. Era a final da taça, Benfica contra Porto.

"Clara? O que foi? Não consigo ouvir nada!"

A voz dele soava distante, irritada.

"Leo, a bolsa rebentou. Tens de vir para casa. Agora."

Ouvi uma risada do lado dele. Era a sua irmã, Sofia.

"Ela está outra vez com essas coisas? Clara, da última vez também pensaste que era a sério e era só alarme falso. Relaxa."

A voz dela era melosa e condescendente.

Tentei manter a calma, a primeira contração apertou a minha barriga como um punho de ferro.

"Não é alarme falso, Sofia. Estou a perder líquido. Leo, por favor."

"Amor, o jogo está quase a acabar", disse o Leo, a impaciência clara na sua voz. "Faltam quinze minutos. Aguenta aí. Se for mesmo a sério, chama uma ambulância. Eu encontro-te no hospital."

Ele disse aquilo como se estivesse a pedir para eu ir buscar pão.

"Não desligues, Leo, eu preciso de ti..."

Mas a chamada terminou.

Fiquei a olhar para o ecrã do telemóvel, para o nome dele. Sozinha, no meio de uma poça de água no chão da nossa sala.

A dor veio outra vez, mais forte.

Arrastei-me até ao sofá e liguei para o 112. A minha voz era um fio, quebrada pela dor e pelo medo.

Eles disseram que uma ambulância estava a caminho.

Mas com o trânsito do jogo, não sabiam quanto tempo ia demorar.

Capítulo 3

A viagem na ambulância foi um borrão de sirenes e solavancos.

As ruas de Lisboa estavam paradas, um mar de carros e cachecóis vermelhos e azuis.

Cada solavanco era uma nova onda de dor. O paramédico segurava a minha mão, dizia-me para respirar.

Eu só conseguia pensar no Leo, a celebrar um golo enquanto o nosso filho lutava para nascer.

Cheguei ao Hospital de Santa Maria sozinha.

Levaram-me de imediato para uma sala de observação. As enfermeiras moviam-se à minha volta com uma urgência que me assustou.

Uma médica, com um ar sério, examinou-me.

"Há quanto tempo é que a bolsa rompeu?"

"Uma hora, talvez mais", gaguejei.

Ela franziu a testa. "O bebé está em sofrimento. O ritmo cardíaco está a baixar. Temos de fazer uma cesariana de emergência."

Não tive tempo para processar. Assenti, o medo a paralisar-me.

Levaram-me para o bloco operatório. A luz fria por cima de mim foi a última coisa que vi antes de a anestesia me apagar.

Quando acordei, estava num quarto silencioso. A dor na minha barriga era profunda, uma linha de fogo.

O Leo estava ao lado da cama. Cheirava a cerveja e a vitória.

Ele sorriu, um sorriso largo e estúpido.

"Ganhámos! 3-1! Foi um jogo do caraças! Então, como está o nosso campeão?"

Olhei para ele, a mente ainda turva.

A porta abriu-se e a médica entrou. O seu rosto não tinha expressão.

Ela olhou para o Leo, depois para mim.

"Lamento muito. Fizemos tudo o que podíamos."

As palavras dela pairaram no ar, pesadas e impossíveis.

"Devido ao prolapso do cordão umbilical e à demora em chegar ao hospital, o bebé sofreu uma falta de oxigénio prolongada. Não sobreviveu."

O sorriso do Leo desapareceu.

O mundo ficou em silêncio.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED