Capítulo 2

Melanie encarou Lucia em choque por um bom tempo.

Ela não conseguia descobrir o que havia de errado com a amiga.

O carro estava silencioso.

De repente, um celular começou a tocar com um toque bem específico.

O som continuou por bastante tempo.

Então, Melanie não conseguiu mais suportar o barulho.

"Lucia, seu celular está tocando!" Melanie a avisou.

Ela queria ver como a jovem explicaria isso a Kelvin.

Lucia fechou os olhos. Ela teve que se esforçar muito para controlar seu tom de voz antes de atender ao telefone. "Kelvin."

"Você se divertiu hoje?" Ela ouviu a voz carinhosa de seu noivo do outro lado da linha.

Lucia riu sarcasticamente.

Dentro de poucos dias, Kelvin participaria de uma competição importante e o jovem que mais se destacasse nela seria selecionado. Por isso, ela havia vindo ao Monte Pantoran pedir para que ele fosse bem sucedido.

Antigamente, tudo o que dizia respeito a Kelvin era sua maior prioridade.

Embora fosse muito competente e capaz de suceder em qualquer área sozinha, ela desistiu de tudo por aquele homem!

"Lucia?" Ele pareceu preocupado quando ela não o respondeu.

"Estou bem." O tom de Lucia era indiferente. "Fui orar para que Deus abençoe você e seus negócios."

"Você não pediu um bebê também?" Ele brincou.

Ela implorou por um bebê.

Mas agora, ao se lembrar de suas orações, ela se sentiu enojada.

Antes de dar o seu último suspiro, ela descobriu que Kelvin havia misturado pílulas anticoncepcionais em suas refeições nos últimos dez anos sem que ela soubesse.

O mais ridículo disso era que ela havia sofrido com o desprezo e as constantes humilhações da família Calshaw por não ter um filho.

"O que houve? Está cansada?" Kelvin perguntou, preocupado, ao perceber que ela estava um pouco diferente.

"Saí para orar com Melanie de manhã bem cedo, então, estou, sim, um pouco cansada. Mas já estou voltando para casa."

"É culpa minha. Se não tivesse surgido um compromisso hoje, eu não teria a deixado ir sozinha." Ele se culpou.

Lucia não pôde deixar de sentir nojo de ter desperdiçado sua vida com ele.

Ela costumava pensar que ele era muito ocupado.

Mas, na verdade, sua maior ocupação era fazer se*o com outras mulheres.

"Dirija com cuidado", Kelvin a lembrou.

Então, Lucia desligou o telefone.

Melanie olhou para a expressão fria no rosto da amiga e engoliu o que estava prestes a dizer.

Parecia que Lucia havia se transformado em outra pessoa.

Era como se ela fosse uma completa estranha hoje.

Melanie pensou que talvez Lucia só precisasse de um bom descanso e amanhã ela estaria de volta ao normal.

Depois de chegarem ao centro da cidade, Lucia primeiro levou Melanie de volta para a mansão da família Cais.

"Melanie", Lucia a chamou de repente.

A garota parou no meio do caminho e olhou para trás.

Ao encontrar o olhar de Lucia, ela percebeu que a amiga lhe encarava de um jeito estranho.

Na verdade, Lucia queria confirmar uma coisa....

Ela estava viva.

E Melanie também.

Os pelos da nuca de Melanie se arrepiaram sob o olhar esquisito de Lucia. "Você está bem? Eu já ouvi algumas histórias estranhas sobre o Monte Pantoran. Não me diga que você está possuída pelos espíritos malignos de lá?"

Melanie ainda era a moça boba e ingênua que costumava ser.

Nenhuma daquelas tragédias fatais haviam acontecido com ela ainda.

Lucia sorriu.

Era a primeira vez que ela sorria com sinceridade desde que renasceu.

Em seguida, ela comentou: "Que bom que você ainda está viva."

"Não é de se estranhar!" Melanie respondeu. "Meu pai disse que uma garota mal-educada como eu viverá por mil anos. Portanto, um pequeno acidente de carro não poderia me matar!"

Antigamente, Lucia costumava pensar que uma garota ingênua e despreocupada como Melanie levaria uma vida feliz e jamais cometeria suicídio. No entanto, sua amiga havia pulado do 28º andar. Lucia sofreu muito quando recebeu a notícia.

Ela jamais seria capaz de esquecer a dor e o trauma que esse acontecimento lhe causou.

Neste momento, ela ficou muito grata por estar diante de Melanie outra vez.

Ela havia voltado no tempo, onde tudo parecia certo.

Aquele era o momento ideal. Nenhuma tragédia havia acontecido e ela ainda teria a chance de se vingar!

Depois de se acalmar, ela mudou de assunto. "Não conte a ninguém sobre o que aconteceu hoje."

"Qual parte?"

"O acordo com Alonso."

Melanie revirou os olhos. "Eu não vou falar nada sobre isso, até porque você estará de volta ao normal amanhã."

Amanhã, ela estaria ainda mais determinada.

"Bom, vou embora agora."

"Dirija com cuidado!" Melanie disse, preocupada.

Lucia assentiu antes de dirigir de volta para casa.

Há dez anos, ela morava na mansão da família Balstone.

Apesar de familiar, foi estranho voltar para lá.

Lucia não conseguia controlar seus sentimentos.

Quando ela entrou na sala e viu seus pais, seus olhos, de repente, encheram-se de lágrimas.

Em sua vida pregressa, se não fosse por ela, seus pais não teriam morrido em um acidente de carro planejado. Ela teve a sorte de sobreviver porque os dois a protegeram com suas vidas.

Ela não queria relembrar aquelas experiências sangrentas e dolorosas, muito menos vivenciá-las outra vez!

"Lucia, você não disse que iria ao Monte Pantoran orar por Kelvin? Por que voltou tão cedo?" A mãe de Lucia, Reagan Fancott, perguntou, preocupada.

Reprimindo suas emoções, Lucia caminhou até eles com um sorriso.

De agora em diante, as coisas seriam diferentes.

No futuro, era ela que iria torturar Kelvin e destruir o legado da família Calshaw.

Ninguém seria capaz de fazer mal a família Balstone novamente!

"Por que seus olhos estão vermelhos?" Reagan questionou, apreensiva, ao ver Lucia se aproximar.

"Meus olhos estão um pouco secos e eu acabei os coçando."

"A família Calshaw acabou de nos ligar. Eles querem discutir os detalhes do seu casamento", comentou Reagan.

Lucia respirou fundo. "Mãe, eu quero romper o noivado com Kelvin."

"O quê?" Reagan olhou para a filha, surpresa.

Sentado ao lado de sua esposa, Kylian Balstone, pai de Lucia, desviou seu olhar do jornal. "Você brigou com Kelvin?"

"Kelvin não é uma boa pessoa. Ele quer se casar comigo apenas para colocar as mãos no nosso patrimônio e usar nossa família como trampolim para elevar o nível da família Calshaw a um patamar de nobreza." Sentindo que seus pais não acreditavam nela, Lucia prosseguiu: "Não tenho nenhuma evidência para provar o que disse, mas me dê algum tempo e farei vocês acreditarem em mim!"

Kylian e Reagan ficaram em silêncio ao notarem a determinação repentina de sua filha.

Desde pequena, Lucia nunca fez nada que preocupasse seus pais.

Quando era criança, seu avô arranjou seu casamento com o herdeiro da família Calshaw. Lucia não só aceitou isso, como sempre cumpriu seu dever e jamais interagiu com nenhum amigo do sexo oposto, além de Kelvin em quem ela confiava plenamente.

Ademais, seu relacionamento com ele sempre foi estável. Por que, de repente, ela diria algo assim?

Lucia entendia as dúvidas que se passavam na cabeça de seus pais. "Pai, eu nunca fiz nada para dificultar as coisas para você. Sei muito bem o quanto esse casamento pode ser vantajoso para a nossa família, mas, mesmo assim, irei manter minha decisão."

"Claro, eu acredito você! Você é minha filha." Ao ouvir as palavras de Lucia, Kylian tentou não fazer nenhuma objeção. "É só que, se rompermos o noivado agora, isso terá um impacto negativo muito forte em nossa família, podendo afetar nossa influência e posição social em Parkland!"

Ele não pôde deixar de ficar um pouco nervoso.

"Não", declarou Lucia com convicção. "A família Calshaw arcará com todas as consequências se eu romper o noivado!"

Kylian ficou um pouco chocado quando ouviu isso.

De repente, ele ficou impressionado com a forte presença de espírito de sua filha.

Ele podia sentir que Lucia estava um pouco diferente do seu habitual.

"A família Calshaw irá passar vergonha no casamento mês que vem!"

Lucia estava determinada.

Capítulo 3

Lucia conseguiu convencer seus pais com sucesso.

Mas, mesmo assim, eles ainda estavam um pouco céticos.

Vendo a determinação dela, eles optaram por ceder e a apoiarem incondicionalmente em sua estratégia para romper o noivado com Kelvin sem grandes problemas.

Em seguida, Lucia voltou para o quarto e se deitou em sua enorme cama, a qual não via há muito tempo.

Ela nunca imaginou que sentiria tanta falta desta cama, muito menos que trocá-la por outra fosse lhe trazer um futuro tão trágico.

De repente, ela se lembrou de algo e tirou o cartão de crédito preto do bolso.

Alonso...

Quem di*bos era esse homem?

Será que ela estava tomando a decisão correta ao escolher cooperar com ele?

Em sua vida pregressa, ela ajudou Kelvin a se libertar das amarras das famílias ricas e poderosas e embarcar em um caminho digno de um nobre. Seu único obstáculo era Alonso, um homem o qual não podia ser evitado por mais que ela tentasse.

Na noite anterior à sua cerimônia de casamento, ele a ligou do nada. Será que havia sido apenas um trote ou... Era difícil saber.

Ela precisava da ajuda de alguém se quisesse destruir a família Calshaw de uma vez por todas.

Depois de refletir um pouco a respeito, ela pegou o celular e ligou para o shopping mais luxuoso e importante de Parkland.

"Olá, Srta. Balstone", a pessoa do outro lado da linha a cumprimentou com muito respeito.

"Posso usar um cartão apenas com o número dele em mãos?"

"Desculpe perguntar, Srta. Balstone, mas este é o cartão de varejo do nosso shopping?" Perguntou o funcionário.

"Não sei."

"Srta. Balstone, por favor, diga-me o número do cartão. Vou verificar para você."

Lucia o leu em voz alta.

Após fazer a verificação, Lucia foi recebida com ainda mais respeito. "Srta. Balstone, este é o nosso cartão super VIP. Ele pode ser usado em nosso shopping sem qualquer limite. Se quiser comprar algo, podemos fazer um vídeo e enviar suas compras pessoalmente até a sua casa."

Lucia olhou para o cartão em sua mão. "Qualquer valor é autorizado?"

Ela já tinha ouvido falar que muitos jovens ricaços possuíam este cartão super VIP apenas para se exibirem, mas ela não fazia ideia de que não havia um limite de valor a ser gasto. Em um shopping luxuoso como este, havia coisas que podiam custar uma fortuna capaz de levar alguém à falência.

Sem pensar muito a respeito, Lucia respondeu: "Não preciso do serviço de compra por vídeo. Você pode comprar os itens de acordo com a minha lista e enviá-los para a minha casa, que fica na área das mansões na baía Nayline."

Dito isto, ela levou algum tempo para completar sua lista de compras antes de mandá-la ao atendente.

Então, Lucia desligou o telefone e foi dormir.

Ela sentia que precisava de um bom descanso para poder regular suas emoções direito.

Afinal, ela precisava de um tempo para se adaptar ao milagre de ter renascido.

...

No Monte Pantoran...

Na terra sagrada dos budistas, havia um clube super privado e incrivelmente luxuoso do outro lado do monte, mas o dinheiro não era a principal regra para se tornar um membro ali.

Alonso era um cliente assíduo no lugar.

Ele se acomodou em uma sala privada na beira do penhasco. À sua frente, havia uma enorme janela panorâmica com uma bela vista do monte e de sua vegetação.

Ele fumava casualmente.

Atrás dele, alguns amigos jogavam sinuca enquanto um grupo de mulheres esperava para atendê-los. Ali acontecia todo tipo de coisa obscena.

"Alonso, seu telefone está tocando", Nixon Gaffney o avisou, sentado ao seu lado.

Ao virar a cabeça, Alonso deu uma olhada no seu celular.

"Você dispensou outra mulher?" Nixon não pôde deixar de notar a longa lista de compras feitas em sua tela.

Parecia que a garota da vez havia lhe arrancado um bom dinheiro.

Pegando o celular, Alonso deslizou um dedo pela tela casualmente.

As notificações de compra não paravam de aparecer.

"Você é muito generoso com as mulheres." Quando ouviu o toque de uma nova notificação chegando, Nixon sentiu pena dele por todo o dinheiro gasto. "O pior é que você nem tocou nela..."

"Trate minha futura esposa com mais respeito", Alonso ordenou de repente.

Nixon ficou boquiaberto. "O que foi que você disse?"

"Que vou me casar." Alonso apagou a ponta do cigarro com um sorriso perverso no rosto. Ele parecia deslumbrante mesmo fazendo algo tão simples.

Nixon ficou perplexo com o charme irresistível dele. No momento seguinte, ele voltou a si e gritou: "O que acabou de dizer?"

Alonso pegou o paletó que havia tirado. "Não se esqueça de comprar meu presente de casamento."

Então, ele se afastou do amigo.

Assim que alcançou a porta, uma mulher delicada parou à sua frente.

"Alonso, querido..."

Ele deu uma olhada rápida nela.

Em seguida, ele exigiu: "Saia da minha frente!"

A mulher se assustou.

Não era Alonso Callen que jamais rejeitaria uma mulher?

Ela olhou para ele incrédula. Sob seu olhar frio, ela não teve outra escolha senão se afastar depressa.

Parecia que...

Se ela não saísse de seu caminho, ele a mataria.

Sem a menor dúvida, não dava para acreditar nos boatos.

Esta era a primeira vez que ela vinha nesse lugar com esses bacanas. Ela pensou que seria a oportunidade perfeita para se aproximar de Alonso Callen, mas, como esperado, um homem bonito e rico não era tão fácil assim de se conquistar.

...

Lucia dormia tranquilamente.

Então, ela acordou com o som do celular tocando.

Ela se levantou da cama a contragosto e pegou o aparelho.

Embora não tivesse salvado o seu número, ela sabia que se tratava de Alonso. Reprimindo sua raiva, ela atendeu: "Alô?"

"Se não me falha a memória, eu só iria arcar com as suas contas hospitalares, Srta. Balstone." O tom de Alonso não era exatamente amigável, mas ele tinha uma voz doce.

Neste instante, Lucia se lembrou do dinheiro que acabara de gastar em seu cartão de crédito. Ela havia feito isso de propósito, pois queria que ele tomasse a iniciativa de contatá-la.

Ela riu. "E eu me lembro de ter mencionado que este seria o meu dote."

"Então, a Srta. Balstone não hesitou em me roubar 30 milhões de dólares."

Ela ficou boquiaberta. "Foi tudo isso?"

Lucia tinha apenas gastado casualmente.

Em seguida, ela comentou: "Prometo que não vai se arrepender de ter gastado todo esse dinheiro."

"O que você quer dizer?"

"Ajude-me a destruir a família Calshaw e eu o ajudarei a tirar do seu caminho todos os obstáculos que o impedem de se tornar um verdadeiro nobre", ela propôs seriamente.

O homem do outro lado da linha ficou em silêncio por alguns instantes.

A expressão no rosto de Alonso mudou ligeiramente.

Como ela poderia saber qual era o seu plano e onde ele queria chegar?

Lucia podia adivinhar no que ele estava pensando, então, ela disse sem rodeios: "Eu te conheço melhor do que imagina."

"Neste caso, estou em desvantagem", Alonso retrucou friamente.

"Não, você deveria estar feliz por eu ter escolhido ajudá-lo ao invés de..." Ela hesitou antes de completar: "Ajudar Kelvin."

Em sua vida pregressa, Alonso sempre se opôs a Kelvin.

Embora seu antigo marido nunca tivesse conseguido derrubar o rival, ele também era um forte oponente de Alonso.

Os dois homens sempre disputaram um contra o outro.

No fim das contas, ela nem sabia quem tinha saído vitorioso depois da sua morte.

Talvez tivesse sido Kelvin. Afinal, ele era o mais canalha entre os dois.

Ele era tão desprezível que se aproveitou da riqueza da família Balstone para se casar com alguém de família nobre após a morte dela.

Lucia teve que controlar suas emoções para reprimir toda a tortura que havia sofrido, pelo menos por ora.

"Srta. Balstone, quer dizer que não está mais apaixonada pelo Sr. Calshaw? Está de brincadeira comigo? Nossa, que honra a minha você, de repente, querer me ajudar." Ele não acreditou em nenhuma palavra do que ela disse.

"Se você comparecer ao meu casamento, mostrarei que estou sendo sincera." Lucia sabia que era inútil dizer qualquer outra coisa a mais.

Como adultos, eles sabiam que certas coisas só podiam ser provadas através de ações.

"Está bem", Alonso concordou de imediato.

Talvez ele tivesse decidido lhe dar um voto de confiança porque ela sabia demais.

Ou talvez fosse simplesmente benéfico e inofensivo cooperar com ela.

Lucia ficou um pouco surpresa com a maneira direta com a qual ele respondeu.

No entanto, ela não era uma mulher de expressar muito o que sentia. Não importava se estava feliz ou triste, ela conseguia controlar bem as emoções. Mesmo enquanto era torturada até a morte por Kelvin, ela manteve a compostura.

Por fim, ela disse: "Então, temos um acordo!"

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