Ponto de Vista: Alessa
"Que diabos foi isso?" A voz de Ricardo me seguiu porta afora, mas eu não parei.
A risada de Sofia, leve e desdenhosa, veio logo depois. "Ah, não se preocupe com ela, Ric. Está só fazendo drama. Agora, sobre aquela viagem para Trancoso que você me prometeu..."
Os passos dele não me seguiram. Claro que não. Ele já era dela novamente, assim como sempre foi.
O ar fresco da noite era bom no meu rosto. Pela primeira vez em quatro anos, o peso esmagador no meu peito se dissipou. Estava quieto. Pacífico.
Apertei minha bolsa, as bordas nítidas dos papéis assinados uma presença sólida e reconfortante. Liberdade.
Ele chegou em casa tarde, muito depois que a galeria fechou e Sofia foi levada para onde quer que quisesse ir. Eu estava no nosso quarto, fazendo uma pequena mala.
Ele me abraçou por trás, o queixo apoiado no meu ombro. Era um gesto familiar, um que costumava me fazer sentir segura.
Agora, parecia uma jaula.
“Desculpe o atraso,” ele murmurou no meu cabelo. “A Fia estava um caco. Ela se sentiu tão culpada por... você sabe.”
Eu não respondi.
Ele suspirou, seu aperto se intensificando. “Você ainda está brava por hoje à noite?”
Uma risada seca e sem humor escapou dos meus lábios. “Brava? Não, Ricardo. Não estou brava.”
Ele me virou para encará-lo, a testa franzida em confusão. Ele estava tão acostumado com minhas lágrimas, minhas súplicas silenciosas. Ele não sabia como lidar com esse vazio calmo. “Então o que há de errado?”
“Estou apenas cansada,” eu disse, olhando para além dele, para a vida que estava prestes a deixar para trás. “Cansada de ser o prêmio de consolação.”
“Isso não é justo, Alessa. Você sabe o acordo que tínhamos com a Sofia. Acabou agora. As nove despedidas terminaram. Agora é a nossa vez.”
Minha vez. Como se eu fosse um jogo que ele finalmente decidiu jogar.
“Não,” eu disse, minha voz impassível. “Acabou.”
Tirei o documento dobrado da minha bolsa e o estendi para ele.
Ele pegou, seus olhos percorrendo o texto legal. Observei seu rosto mudar. A confusão se transformou em incredulidade, depois em uma raiva sombria e crescente. O papel tremia em sua mão.
“O que é isso? É uma piada, certo?” ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
“Você assinou há uma hora, Ricardo. Estava tão ansioso para agradá-la que nem leu o que estava concordando.”
Ele encarou a linha da assinatura, seu próprio rabisco descuidado. “Ela me enganou.”
“Enganou,” eu concordei. “Mas você deixou. Você sempre deixa.”
Por anos, eu o ouvi defendê-la. *“Ela é frágil, Alessa.” “Ela passou por muita coisa.” “Ela não quis dizer isso.”* Ele tinha um suprimento infinito de desculpas para a crueldade dela, e nem uma única palavra de conforto para a minha dor.
Ele a escolheu. Todas as vezes. Ele a escolheu em vez do nosso aniversário, da minha família, da minha saúde, do meu trabalho. Ele a escolheu quando eu implorei para ele ficar, e ele a escolheu quando eu fiquei em silêncio.
A cama não estava feita. Eu nunca deixava a cama desfeita. Era um dos pequenos rituais domésticos que definiram nossa vida juntos. Outra mentira.
Naquela noite, ele dormiu no quarto de hóspedes.
Na manhã seguinte, continuei a fazer as malas. Minha vida cabia em duas malas. Todo o resto nesta casa parecia pertencer a ele, ou ao fantasma dela que assombrava cada cômodo.
No fundo do meu armário, guardado em uma caixa de joias, eu o encontrei. Um brinco de diamante, cafona e solitário. Da Sofia. Ela sempre deixava pedaços de si mesma para trás, marcando seu território.
Peguei o colar combinando que Ricardo me deu no nosso segundo aniversário. Parecia pesado na época, uma corrente de obrigação. Agora parecia apenas barato. Contaminado.
A casa inteira parecia contaminada. Cada móvel, cada quadro na parede, era um monumento à minha tolice.
Olhei para os projetos da minha nova galeria, espalhados pela mesa de jantar. Isso era meu. Eu construí com minhas próprias mãos, meu próprio olho para o talento. Era a única parte da minha vida que Ricardo não conseguiu tocar.
Enviei uma mensagem para meu advogado, dissolvendo a empresa de consultoria que me conectava ao Grupo Moretti, o império imobiliário da família de Ricardo. Mais um laço cortado.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem da minha amiga, Angie. Ela era jornalista, do tipo que sempre sabia das coisas. *Você deveria vir ao evento de ex-alunos hoje à noite. Pode ser... esclarecedor.*
Eu planejava faltar. A ideia de encarar aquela multidão de víboras sorridentes me dava arrepios. Mas a mensagem de Angie continha um aviso.
Sofia estava lá, claro. Ela reinava, um círculo de admiradores pendurado em cada palavra sua. Parecia uma predadora que acabou de encurralar a presa.
"E então, vocês acreditam, o Ricardo simplesmente a deixou no acostamento da estrada," Sofia dizia, sua voz em tom de máximo drama. "Ele disse que não suportava me ouvir tão assustada. Veio direto para mim. Ele sempre foi meu herói."
Uma mulher que reconheci, Bianca Costa, suspirou sonhadora. "Ele é tão devotado a você, Fia. Sempre foi."
Sofia encontrou meu olhar e me deu um pequeno sorriso de pena. "Oh, Alessa, querida. Aí está você."
Ela deslizou até mim, seu perfume enjoativo e sufocante. "O Ricardo estava tão preocupado com você. Ele me disse que se sente péssimo sobre como... você tem andado emotiva ultimamente."
Ponto de Vista: Alessa
As palavras de Sofia pairavam no ar, densas com falsa simpatia. Ela interpretava o papel da amiga preocupada tão bem, sua expressão uma máscara perfeita de compaixão.
As mulheres ao redor dela nos observavam, seus olhos como abutres circulando. Eu podia sentir o julgamento delas, afiado e implacável.
"Sempre foi Ricardo e Sofia," Bianca Costa disse em voz alta para outra mulher, mas suas palavras eram para mim. "Desde que eram crianças. Todo mundo sabia. Eles são almas gêmeas."
Sofia colocou uma mão delicada no meu braço. "Não ligue para elas, querida. O Ricardo se importa com você. Do jeito dele." Ela se inclinou mais perto, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Mas você tem que entender. Alguns laços... eles simplesmente não podem ser quebrados."
Então ela se afastou, um pequeno sorriso cruel brincando em seus lábios. "Afinal, fui eu quem te escolheu para ele."
O ar em meus pulmões virou gelo. Meu coração, que eu pensei que não poderia se quebrar mais, pareceu se estilhaçar em um milhão de pedacinhos. A sala girou, o falatório da multidão se transformando em um zumbido surdo em meus ouvidos.
"O que você disse?" Minha voz era pouco mais que um sussurro.
O sorriso de Sofia se alargou. Ela sabia que tinha desferido um golpe fatal. "Ah, vamos, Alessa. Você não podia ter pensado que ele te escolheu por conta própria, podia? Ele estava um caco depois que eu fui embora. Precisava de alguém estável. Alguém... simples. Sem problemas. Eu sabia que você seria perfeita. Você o faria companhia, manteria a linhagem da família Moretti segura, e não atrapalharia quando eu precisasse dele."
Suas palavras foram uma agressão física. Minha compostura se quebrou. Recuei cambaleando, para longe dela, da verdade venenosa de sua confissão.
Fugi para a varanda, engolindo o ar fresco da noite, minhas mãos agarrando o parapeito de pedra fria.
Tudo fazia sentido agora. Os quatro anos inteiros do meu casamento, uma mentira cuidadosamente construída. Eu não era apenas um tapa-buraco; eu era um peão escolhido a dedo em seu jogo doentio e manipulador. Eu era a esposa quieta e estável que olharia para o outro lado, que não faria ondas, que aceitaria com gratidão quaisquer migalhas de atenção que ele me jogasse.
E eu tinha desempenhado meu papel perfeitamente.
Um garçom tocou meu ombro. "Senhora? Eles estão começando um jogo lá dentro. A Sra. Santoro solicitou sua presença."
Voltei para a sala como um fantasma. Sofia estava no centro de um círculo, uma taça de champanhe na mão.
"O jogo é simples," ela anunciou. "Nós compartilhamos uma história sobre a coisa mais extravagante que alguém já fez por nós por amor."
Bianca riu. "Você primeiro, Fia! Aposto que você tem a melhor."
Os olhos de Sofia encontraram os meus do outro lado da sala. "Bem," ela começou, sua voz suave como seda, "teve a vez em que ele fretou um jato particular para Paris para mim, só para jantar, porque eu mencionei que estava com vontade de uma sobremesa específica."
Um calafrio percorreu minha espinha. Lembrei-me daquele fim de semana. Ricardo me disse que tinha uma reunião de negócios urgente e de última hora em Chicago.
"E então," Sofia continuou, sua voz ganhando impulso, "teve a vez em que ele comprou uma empresa inteira de fogos de artifício para escrever meu nome no céu no meu aniversário."
Meu sangue gelou. Ele me disse que era um evento corporativo ao qual ele era obrigado a comparecer. Ele ficou fora por três dias.
Ele faltou ao casamento da minha irmã por uma viagem de negócios. Ele perdeu o aniversário da morte do meu pai para fechar um negócio. Mentiras. Tudo. Tudo por ela.
A sala estava girando. Meu estômago se revirou. Eu tinha que sair.
"Quem era, Fia?" alguém gritou. "Quem é esse homem misterioso?"
Sofia apenas sorriu, um olhar secreto e conhecedor em seu rosto. "Ele estará aqui em breve."
Como se fosse um sinal, as portas do salão de festas se abriram.
Ricardo entrou.
Seus olhos percorreram a multidão, um lampejo de ansiedade em seu rosto. E então ele a viu. A tensão derreteu de seus ombros, substituída por um olhar de alívio puro e absoluto. Seu olhar se fixou em Sofia, e era como se ninguém mais na sala existisse.
Ele nem me viu. Eu estava a três metros de distância, e era completa e totalmente invisível para ele.
Ele foi direto para ela.
"Desculpe o atraso," ele disse, sua voz baixa, destinada apenas a ela. "A reunião se estendeu."
Eu sabia onde ele estivera. Angie me mandou uma foto. Ele estava em um racha de alto risco com Vinícius Salerno, um dos associados imprudentes de Sofia. Ele estava quebrando a *Omertà*, o código sagrado de silêncio, arriscando exposição e uma *vendetta* de famílias rivais, tudo para provar sua lealdade a ela.
Ele finalmente se virou, seus olhos passando por mim com um lampejo de reconhecimento. "Ah. Alessa. Você está aqui."
"Estou de saída," eu disse, minha voz oca.
"Ok. Vou pegar o carro." Ele mal pareceu registrar minhas palavras, sua atenção já se voltando para Sofia.
"Não," eu disse, minha voz firme. "Eu pego o meu."
Afastei-me, deixando-os juntos. Eles pareciam perfeitos. O belo e tóxico príncipe e sua princesa venenosa. Um casal feito no inferno.