Já era noite. Selene Holloway estava sentada à beira da cama, os olhos fixos no nada enquanto o peso da culpa a sufocava. Seus cabelos negros ainda úmidos escorriam pelos ombros, contrastando com a pele nua e fria. As pernas estavam estendidas, os pés tocando o chão, mas sua mente vagava longe. Cada pensamento era uma punição, uma batalha silenciosa entre o que ela deveria ser e o que estava se tornando. Ela suspirou, os lábios pressionados numa linha fina de hesitação. Sabia que, brevemente, Cassian entraria pela porta, exausto do trabalho, buscando nela o conforto de sempre - conforto que, ironicamente, agora era uma ilusão. E com ele, toda a pressão, toda a falsa normalidade de um relacionamento que havia se quebrado em pedaços invisíveis, mas que ainda pendiam por um fio.
Ela fechou os olhos, tentando silenciar a mente que a maltratava. Lucian. Seu nome ecoava como um veneno doce. Era como se a presença dele, mesmo ausente, estivesse ali, impregnando o quarto com lembranças que ela queria, mas ao mesmo tempo temia. O toque dele em sua pele ainda estava fresco em sua memória, o calor inegável que havia corrido por suas veias, o desejo incontrolável que a fizera ceder mais uma vez. Mas agora, o arrependimento a consumia.
"Por que eu faço isso?" murmurou para si mesma, mas a resposta era clara. Lucian oferecia algo que Cassian nunca poderia - um perigo que a seduzia, uma paixão crua e brutal que a fazia sentir viva de uma maneira que o noivo, apesar de todo o amor, não conseguia mais provocar. O som de uma chave na fechadura trouxe Selene de volta à realidade. Seu coração acelerou. A porta se abriu e Cassian entrou, um sorriso cansado no rosto, alheio à tempestade que rugia dentro dela.
- Oi, amor - ele disse, caminhando até ela e inclinando-se para um beijo.
Selene sorriu de volta, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Ela beijou Cassian de volta, sentindo o gosto familiar, mas algo dentro dela gritava por liberdade. Por algo que ela sabia que não deveria querer, mas que desejava mesmo assim.
Cassian não percebeu o distanciamento, ou talvez preferisse ignorar. Ele a abraçou, como fazia todas as noites, trazendo consigo a segurança de um futuro planejado, estável. Mas Selene sabia que aquele abraço, por mais caloroso, não poderia apagar as marcas que Lucian havia deixado. O conflito entre amor e desejo, entre lealdade e traição, era uma batalha que ela sabia que não terminaria tão cedo. E em algum lugar, no fundo de sua mente, Selene já se perguntava quando seria a próxima vez que seus caminhos cruzariam novamente com os de Lucian, sabendo que, por mais que lutasse contra, a tentação sempre a faria ceder.
Cassian era, sem dúvida, um homem de tirar o fôlego. Sua beleza era marcada por traços esculpidos com perfeição. Os cabelos loiros caíam suavemente sobre sua testa, e a tatuagem que se estendia pelas costas musculosas dava-lhe um ar de mistério que contrastava com sua natureza gentil. Seus olhos, de um tom profundo e cativante, sempre expressavam uma compreensão silenciosa, quase como se enxergassem além das palavras, tentando capturar os pensamentos que Selene não dizia. Ele era carinhoso, atencioso, o tipo de homem que sempre se preocupava em garantir o bem-estar da noiva, fazendo o possível para compreender suas angústias, mesmo quando ela não as explicava por completo.
Por mais que seu físico fosse impressionante e sua presença cativante, era sua doçura que o destacava. Cassian era aquele que, mesmo após um longo dia de trabalho, sempre fazia questão de abraçar Selene com ternura, ouvir sobre seu dia, e tentar, de alguma forma, aliviar qualquer peso que ela carregasse. Ele acreditava na força do amor que compartilhavam e não tinha dúvidas de que estavam construindo um futuro sólido juntos. No entanto, Cassian não sabia da tempestade que assolava a mente de Selene. A confiança que tinha nela era inabalável. Para ele, o amor era suficiente para superar qualquer obstáculo, qualquer dúvida. Ele a amava profundamente e estava disposto a enfrentar qualquer coisa para manter a felicidade que acreditava ter encontrado ao seu lado. Mas havia algo que ele não podia ver - a sombra de Lucian que pairava sobre seu relacionamento.
Lucian e Cassian carregavam entre si um abismo de sete anos que ia muito além da idade. Lucian, aos trinta e dois, já havia traçado um caminho sinuoso de manipulações e desejos egoístas, enquanto Cassian, com seus vinte e cinco anos, ainda navegava nas águas da juventude, buscando se encontrar. Eram irmãos, sim, e sempre mantinham uma convivência aparentemente próxima, com conversas e momentos partilhados, mas a sombra de Lucian pairava sobre Cassian de maneira quase sufocante. A influência de Lucian era como uma maré traiçoeira - discreta, mas irresistível. Ele tinha uma habilidade nata de moldar a realidade ao seu bel-prazer, guiando o irmão com palavras bem escolhidas, empurrando-o para caminhos que Cassian, em sua ingenuidade, não conseguia reconhecer como perigosos.
Lucian era como um pomar repleto de frutos visivelmente tentadores, mas todos eles envenenados, corroídos por dentro. E embora Cassian, com sua bondade natural, tentasse se manter puro, acabava se rendendo à sedução velada do irmão, caindo nas armadilhas que Lucian dispunha com maestria. Lucian era o espelho distorcido onde Cassian, sem perceber, refletia-se pouco a pouco. E cada decisão que tomava sob a influência do irmão o afastava de quem realmente era, e o aproximava de um mundo corrompido, feito de desejos egoístas e vícios encobertos por uma máscara de afeto familiar.
- Quer jantar fora? - Cassian perguntou, sua voz suave, carregada de preocupação.
A morena, com o olhar distante, negou de imediato. Parecia perdida em pensamentos sombrios que a perseguiam há dias.
- Eu posso esquentar alguma coisa da geladeira - respondeu, tentando soar prática, mas sua voz falhou, revelando o quanto ela se sentia desconectada.
Cassian franziu a testa, a preocupação cada vez mais evidente. Sentou-se ao lado dela na beirada da cama, seus olhos analisando-a com cuidado, como se quisesse desatar todos os nós invisíveis que pareciam prendê-la a algum lugar distante. Ele buscava, com o olhar, encontrar respostas no rosto dela, aquele que tantas vezes conheceu como uma morada de paz, mas que agora se escondia em inquietações.
- Essas suas idas à psicóloga estão te deixando... diferente - ele comentou, escolhendo cuidadosamente as palavras. - Já se passaram seis meses, Selene. Compartilhe comigo o que tanto te atormenta, meu amor.
Ela se levantou bruscamente, afastando-se dele como se o toque, ou mesmo a proximidade, a sufocasse. A sombra de algo mais pesado que Cassian não conseguia decifrar pairava sobre ela.
- Você me ama, Cas? - a pergunta saiu quase como um sussurro, carregada de uma urgência que o assustou.
- Mas que pergunta mais sem sentido, Selene. É claro que eu te amo. Estamos noivos, lembra? Por que você está me perguntando isso agora?
Ela o olhou com intensidade, os olhos brilhando com uma emoção que Cassian não sabia nomear. Selene parecia à beira de desmoronar, e, ao mesmo tempo, tentava manter o controle de si mesma, como alguém que se equilibra à beira de um precipício.
- Vamos embora de Flerks, por favor - implorou, sua voz carregada de desespero.
Cassian piscou, surpreso com o pedido.
- Mas... você ama Flerks. O que está acontecendo? Por que essa súbita urgência?
Selene se aproximou de novo, seus dedos trêmulos segurando o rosto dele com delicadeza, enquanto seus olhos imploravam por compreensão.
- Eu estou sufocando aqui, querido - confessou, a voz embargada. - Não consigo mais ser eu mesma.
Cassian ficou em silêncio por um momento, sentindo o peso daquelas palavras. Algo estava profundamente errado, e ele sabia que não poderia ignorar mais.
- Se você sente isso, Selene, vamos embora. Para onde quiser. Você só precisa me dizer... o que está acontecendo? Eu só quero te ajudar.
Cas observou a tensão no rosto dela aumentar, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Selene começou a caminhar de um lado para o outro pelo quarto, os dedos entrelaçados de forma nervosa. Ela parecia uma tempestade prestes a se formar, suas palavras saindo de forma atropelada, confusas e carregadas de uma intensidade que ele não estava acostumado a ver.
- Não... não é tão simples, Cas! - ela exclamou, sua voz tremendo. - Não é só sobre Flerks, não é só sobre essa cidade... - Parou de repente, encarando a janela, o peito subindo e descendo rápido como se buscasse fôlego. - Eu sinto que estou... presa, sufocada. Como se tivesse algo aqui dentro, algo que eu não consigo... - Sua mão foi ao peito, apertando o tecido da camisa como se quisesse arrancar o que estivesse a atormentando.
Cassian tentou se aproximar, a suavidade em seus movimentos contrastando com a intensidade das emoções dela, mas Selene recuou novamente, voltando a andar de um lado para o outro, mais rápido agora, os cabelos negros balançando com cada passo.
- Não sei como te explicar - ela murmurou, as palavras saindo apressadas. - Não sei como colocar isso em palavras sem que tudo pareça... errado, sem que você pense que eu sou a errada aqui. Mas eu juro, Cas, juro que não sei mais quem eu sou. Eu não consigo respirar nesse lugar, com tudo isso.
Ele a observava, impotente, tentando encontrar uma brecha em suas palavras, algo que pudesse entender e ajudá-la a se abrir de vez, mas Selene contornava o assunto como se estivesse fugindo de si mesma, de seus próprios pensamentos.
- Por favor, me diga o que está acontecendo - ele insistiu, tentando manter a calma, mas com o coração apertado.
Selene parou de andar, os olhos cravados no chão, e então, com um suspiro pesado, balançou a cabeça.
- Eu não posso, Cas... eu não consigo.
O loiro suspirou profundamente, como se tentasse encontrar uma solução no próprio ar.
- São meus pais? Eles estão te pressionando para desistir do casamento? - perguntou, a voz tingida de preocupação.
Selene levou as mãos à cabeça, os olhos vermelhos denunciando o choro contido por tanto tempo, agora prestes a transbordar.
- Não. Não são seus pais, Cas... - murmurou, a voz embargada, quase sufocada pelas próprias emoções.
- Então quem é, Selene? - ele insistiu, a frustração misturada com desespero. - Me diga, por favor, para que eu possa ajudar você.
Selene começou a andar de um lado para o outro novamente, o desespero tomando conta de cada movimento. As mãos trêmulas apertavam as têmporas, como se tentar controlar a dor e a confusão em sua mente fosse possível com aquele simples gesto. Os soluços, até então contidos, finalmente escaparam, rasgando o silêncio pesado do quarto.
- Eu... eu não sei, Cas... eu não sei mais! - ela choramingou, as palavras atropelando-se, sem lógica ou direção. - Não são seus pais, não é o casamento... é tudo! Eu estou sufocando, Cas! Eu... não consigo respirar! Eu não sei mais quem eu sou! - o pranto ficou mais forte, seus ombros sacudindo com a intensidade das lágrimas que agora caíam livremente.
Cassian levantou-se devagar, o olhar confuso, mas cheio de ternura. Aproximou-se com cuidado, temendo que qualquer palavra ou gesto errado pudesse quebrá-la ainda mais. Suas mãos grandes e firmes pousaram nos ombros dela, tentando trazer algum tipo de ancoragem à mulher que ele amava tanto.
- Shhh, calma, Sel... - ele sussurrou, puxando-a com cuidado para seus braços, envolvendo-a em um abraço. - Eu estou aqui. Você não está sozinha.
Mas Selene Holloway já estava sozinha, não por uma ausência externa, mas porque havia se desertado de si mesma. Abandonada no labirinto de sua própria mente, ela se via incapaz de alcançar a saída. Não eram os outros que a deixavam; era ela que, lentamente, afundava em um poço de angústia, onde o prazer e a dor se entrelaçavam como velhos conhecidos. O abismo que tanto temera agora se estendia à sua frente, e cada passo mais perto da borda era como uma rendição silenciosa ao hedonismo sombrio que a tentava com promessas de alívio imediato, mas de consequências devastadoras. Cassian, por mais que quisesse, não poderia salvá-la. Ele, com todo o seu carinho e compaixão, não compreendia a profundidade do caos interno de Selene. O prazer era, para ela, uma fuga, e o sofrimento, uma constante companhia. Cassian, em sua inocência, acabaria por se afastar, incapaz de suportar a verdade que ela escondia. Não por falta de amor, mas por uma cruel ironia: quanto mais ele tentasse segurá-la, mais ela se perderia dentro de si. No fim, não era ele que a abandonaria. Ela já havia se perdido muito antes, cedendo ao veneno sutil da vida bela, onde cada prazer momentâneo a levava mais fundo à dor inevitável.
Cassian Thorn sempre despertava cedo, antes mesmo que o sol invadisse as janelas do quarto. Seu corpo era esculpido com dedicação, cada músculo firme e bem definido, resultado de uma rotina disciplinada de corrida matinal pelas ruas do condomínio. Aquela hora do dia era sua favorita - o ar fresco, o silêncio quebrado apenas pelo som rítmico de seus passos no asfalto. Ao retornar, ele se ocupava da cozinha, preparando o café da manhã com zelo. Panquecas fofas e suco natural eram a escolha preferida de Selene, e Cassian fazia questão de deixar tudo pronto, um pequeno gesto de carinho que parecia trazer equilíbrio ao caos que se instalara na vida deles.
Selene Holloway, a futura senhora Thorn, deveria sentir-se grata, mas Cassian sabia que algo não estava certo. Ela, que antes adorava cozinhar e tinha prazer em criar receitas, agora deixava a comida passar do ponto. Parecia distante, como se seu espírito estivesse perdido em algum lugar que ele não conseguia alcançar. Preocupado, ele decidiu contratar ajuda para aliviar sua noiva das responsabilidades domésticas: uma arrumadeira e uma cozinheira. Ele esperava que isso a ajudasse a encontrar o caminho de volta para si mesma, ou ao menos que diminuísse o peso que parecia pressioná-la diariamente.
Mas a verdade era mais amarga do que Cassian podia imaginar. Não eram os afazeres domésticos que a sufocavam. Havia algo mais profundo, algo que se enraizava dentro dela, uma inquietação que crescia a cada dia. Selene não estava apenas perdendo o ponto do alimento; estava perdendo o ponto da própria vida.
Naquela manhã, ao acordar, Selene sentiu o cheiro familiar das panquecas e do café fresco. Era um gesto doce, como sempre. Mas ao invés de conforto, aquilo a fez sentir-se ainda mais distante, como se Cassian estivesse tentando remendar uma rachadura que ele não sabia onde começava. Ela desceu as escadas, os pés descalços tocando o chão frio da cozinha. Viu o marido, perfeito em sua rotina, esculpido em disciplina e amor, e sentiu um nó no estômago.
- Bom dia - ele disse, com aquele sorriso caloroso que ela tanto amava - ela tentou sorrir de volta, mas não conseguiu. O olhar de Cassian captou a hesitação nos olhos de Selene, e ele se aproximou, preocupado. - Selene, o que está acontecendo? - ele perguntou, a voz suave, mas com uma ponta de angústia.
Ela abaixou a cabeça, incapaz de enfrentar a profundidade da pergunta. Havia tanto que queria dizer, mas as palavras morriam antes de alcançarem seus lábios.
- Eu... não sei, Cass - respondeu, quase em um sussurro, enquanto suas mãos se encontravam em um gesto nervoso. Ela começou a andar pela cozinha, como se o movimento pudesse acalmar os pensamentos que a devoravam por dentro. - Eu só... sinto que estou presa. Aqui, em mim, em tudo. Não consigo mais ser a pessoa que era.
Cassian a observava atentamente, tentando entender o que estava acontecendo por trás dos olhos marejados dela.
- Você não precisa carregar isso sozinha. Eu estou aqui. Sempre estarei - ele se aproximou mais, tentando tocá-la, mas ela se afastou ligeiramente.
- Eu sei que está. E isso só piora - a voz dela falhou, e ela pressionou as mãos contra o peito, como se tentasse conter o tumulto de emoções dentro de si. - Eu te amo, Cassian, mas não consigo escapar de mim mesma.
O loiro levantou-se lentamente, como se tentasse conter uma tensão interna, engolindo em seco. Seus dedos passaram pelo rosto num gesto mecânico, enquanto ele respirava fundo, uma tentativa clara de se acalmar.
- Tudo bem, não vou insistir mais - ele disse, a voz baixa, lutando para não deixar o desconforto transparecer. - O Lucian nos convidou para um jantar hoje à noite, na casa dele. Se arrume, vai gostar.
Ele se inclinou, deixando um beijo suave nos cabelos dela, um gesto de ternura que apenas amplificava a sensação de sufocamento em Selene. Assim que ele saiu, ela sentiu as pernas fraquejarem, e precisou se apoiar no balcão para não desmoronar ali mesmo. Seu corpo tremia levemente, como se algo sombrio estivesse à espreita, esperando o momento exato para emergir.
Lucian. O nome ressoava em sua mente como uma sombra que ela tentava ignorar, mas que sempre retornava, mais forte, mais perigosa. A ideia do jantar na casa dele fez seu estômago revirar. Cada passo para aquela noite parecia um prenúncio, uma queda inevitável para o abismo que ela sabia que estava cada vez mais perto. O chão que ela pisava já começava a rachar, e era apenas questão de tempo até que todo o seu mundo desmoronasse completamente. Ela fechou os olhos, tentando controlar a respiração, mas o pavor crescia dentro dela, como uma tempestade prestes a explodir.
Um certo dia, não mais tão vago na memória corrompida de Selene Holloway, sua mãe, Tris, lhe dissera: "Quando tocamos o céu, sentimos nele toda a necessidade e a prudência e nos sujeitamos, lentamente, ao que pode ser considerado bom. Porém, quando é ao contrário, quando tocamos, sem querer, as sombras, parte de nós vai embora. O medo passa a nos sufocar e, sem querer, nos destrói." Tris Holloway estava, digamos, certa, mas quando nossos dedos percorrem um corpo amaldiçoado, quando nosso coração bate para o mal, nada mais importa. Na verdade, a densidade da sombra é o toque, e tudo que o envolve.
Depois que Cassian, seu noivo, saiu para o trabalho, Selene se dissolveu das roupas e encheu a banheira. Afundou-se nela, deixando que a água morna envolvesse seu corpo tenso, vagando pelos seus pensamentos fragmentados. Os olhos estavam avermelhados, uma mistura de noites mal dormidas e a dor inconfessável que carregava dentro de si. O corpo protestava, cada músculo parecia gritar, mas era sua mente que a torturava incessantemente. Havia um borrão em tudo, como se o que antes era tão sólido agora escorresse pelos seus dedos, escapando-lhe. Ela fechou os olhos, e o rosto de Lucian surgia nas sombras. O coração dela batia mais rápido. Cassian, o homem que ela jurava amar, estava cada vez mais distante na névoa da sua culpa, enquanto o toque proibido de Lucian, marcado por uma intensidade sombria, a puxava mais para o fundo. Cada memória da última vez em que esteve com ele queimava em sua mente. Ela sabia que, se continuasse nesse caminho, sua alma se perderia completamente.
Um grito silencioso ecoou em seu peito, mas nenhum som saiu. Selene afundou-se mais na água, deixando-a cobrir seus ouvidos, abafando o som do mundo exterior, como se assim pudesse silenciar a tempestade que rugia dentro dela. Mas as memórias vinham implacáveis, arrastando-a para a escuridão que sua mente tanto temia. O toque de Lucian, sempre frio, mas ao mesmo tempo arrebatador, voltava em flashes, como uma faca que perfurava a sua sanidade. O cheiro dele, a textura de sua pele, o sussurro rouco de suas palavras sedutoras - tudo estava gravado em sua carne, e por mais que tentasse, ela não conseguia apagar.
Havia algo em Lucian que despertava o pior nela. Ele personificava a própria decadência, o prazer nascido do sofrimento. Quando estava com ele, cada toque a fazia sentir-se viva e morta ao mesmo tempo. Era como se estivesse presa em uma corda bamba entre o êxtase e a destruição. No fundo, ela sabia que ele a estava moldando, destruindo sua essência, mas, ao mesmo tempo, isso a fazia se sentir mais intensamente do que jamais sentira com Cassian. O amor de Cassian era doce, constante, mas o que Lucian lhe oferecia era visceral, irracional, uma chama que queimava tudo que tocava.
"Você está se perdendo" ecoava a voz de Tris em sua mente. Sua mãe sempre avisara sobre os perigos das sombras, mas Selene não havia escutado. Agora, era tarde demais. Lucian havia feito com que ela experimentasse algo que nunca soubera existir, um mundo de sombras onde prazer e culpa andavam de mãos dadas, onde a moralidade não passava de um conceito frágil, facilmente quebrado.
Ela tocou os próprios lábios, lembrando-se de como eles haviam tremido sob o beijo de Lucian. Cada vez que estava com ele, ela sentia como se algo dentro dela estivesse sendo arrancado. Não era apenas um prazer físico; era uma forma de destruição que ela secretamente ansiava. Cada encontro a levava mais fundo para um abismo sem fim, onde cada passo era mais escuro que o anterior. A culpa, porém, era constante, como um peso invisível que a esmagava a cada momento em que pensava em Cassian. Ele era o símbolo de tudo que deveria ser bom em sua vida - estabilidade, carinho, segurança. Mas em comparação com Lucian, a segurança de Cassian era sufocante, sua bondade irritante, e sua ignorância, cruel. Ela amava Cassian, ou ao menos acreditava nisso, mas ao mesmo tempo odiava o que esse amor a fazia sentir. Odiava que ele não fosse suficiente para impedir sua queda.
- Eu não sou a mesma pessoa - ela sussurrou para si mesma, seus lábios mal se movendo sob a água. - Não posso voltar atrás.
Lucian a havia corrompido, não de forma evidente, mas aos poucos, como uma doença que se instala silenciosamente e toma conta. Agora, cada toque de Cassian era um lembrete da traição, uma cicatriz invisível que ela carregava. E, por mais que tentasse, sabia que não poderia manter essa farsa por muito mais tempo. Seu segredo estava começando a apodrecer dentro dela, e a qualquer momento poderia transbordar, arruinando tudo. Ela abriu os olhos e encarou o teto, tentando respirar fundo, mas o ar parecia pesado, carregado de culpa e desejo. A cada respiração, a sensação de estar afundando mais no abismo ficava mais forte. E Lucian... ele estava sempre lá, à espreita, pronto para puxá-la ainda mais fundo, com aquele sorriso diabólico que fazia seu corpo tremer. Selene sabia que estava à beira de perder tudo, mas não conseguia parar.
Selene Holloway estava impecável, vestida com um deslumbrante vestido vermelho de cetim que delineava cada curva de seu corpo de forma provocante. O tecido brilhava sob a luz suave do abajur, como se refletisse a inquietação que corria por suas veias. A maquiagem, perfeitamente aplicada, destacava sua pele bronzeada e seus olhos escuros, que agora pareciam guardar segredos profundos demais para serem ditos. O batom vermelho, tão vibrante quanto o vestido, contrastava com o ar de pureza que ela costumava exalar, mas por dentro, sentia-se tão suja quanto os atos que cometera.
Era noite, e a casa estava silenciosa, exceto pelo suave som dos passos de Cassian, que acabara de chegar do trabalho. Ela podia ouvi-lo se aproximar. Mesmo sem vê-lo, o peso da culpa já começava a sufocá-la. O espelho à sua frente refletia uma mulher linda, mas descomposta internamente. Por trás da perfeição, havia um coração corroído por desejos proibidos e a consciência de que sua alma estava em ruínas.
Cassian entrou no quarto, e por um momento, o ar entre eles pareceu congelar. Seus olhos imediatamente caíram sobre ela. Ele sorriu, encantado pela visão da mulher que amava, sem suspeitar do turbilhão de pecado que ela carregava no peito. Lentamente, aproximou-se, seus passos suaves, como se temesse quebrar o encanto da cena. Cassian, sempre gentil, envolveu os braços ao redor dela por trás, puxando-a para mais perto de seu corpo firme. Selene, ainda olhando para o reflexo no espelho, sentiu o calor de suas mãos descansarem em sua cintura.
- Você está deslumbrante - ele sussurrou em seu ouvido antes de deixar um beijo suave no topo de sua cabeça. A voz dele era carregada de carinho, e a sinceridade por trás das palavras fazia com que o nó de culpa no estômago de Selene se apertasse ainda mais. - Como sempre, a mulher mais linda que já vi.
Ela fechou os olhos ao sentir os lábios dele deslizando suavemente pelo pescoço, mas ao invés de prazer, tudo o que sentia era o peso esmagador da impureza. As mãos de Cassian, tão gentis, pareciam queimar sua pele, como se pudessem perceber a mancha invisível que ela carregava. A cada elogio, a cada gesto de amor, Selene mergulhava mais fundo em seu tormento, sabendo que ele não tinha ideia do monstro que ela havia se tornado. Ela engoliu em seco, forçando um sorriso no espelho, mas o reflexo de seus próprios olhos a denunciava. Não havia mais como escapar da verdade, mesmo envolta naquele vestido luxuoso, naquela maquiagem perfeita. Por fora, era uma deusa; por dentro, uma mulher quebrada, devorada por suas próprias escolhas. Cassian, tão inocente e cego, não sabia que estava beijando uma mulher que, por mais que amasse, havia se perdido para outro homem. E esse homem não passava de seu próprio irmão, Lucian.
- Você está bem? - ele perguntou, a voz carregada de preocupação, ainda sem soltar o abraço. Selene assentiu levemente, sem se atrever a olhar diretamente para ele.
- Sim - ela mentiu, a voz falhando, quase inaudível.
Cassian Thorn era a imagem da perfeição. Sua pele clara contrastava com a jaqueta preta de couro, que parecia abraçar seus ombros largos de forma impecável. O olhar dele, profundo e intenso, escondia um mistério que Selene não conseguia decifrar, mesmo após tantos anos juntos. Seus cabelos loiros, sempre alinhados, conferiam-lhe uma aparência quase única, algo que o distanciava do comum. Os olhos azuis, penetrantes como lâminas, observavam o mundo com uma mistura de frieza e charme, uma combinação que sempre a deixava dividida entre adoração e medo. Ele era lindo, inegavelmente, mas havia algo nele que parecia intocável, algo que ela nunca conseguiria alcançar.
Selene caminhava ao lado de Cassian, de mãos dadas, mas seu coração estava disparado, suas pernas quase trêmulas. Eles estavam chegando à mansão de Lucian, o irmão mais velho de Cassian, e uma sensação de ansiedade tomava conta dela, como se cada passo que dava a aproximasse de um abismo sem fundo. O frio da noite era amenizado pelo toque quente das mãos de Cassian, mas, mesmo assim, ela não conseguia se livrar daquela sensação sufocante de que algo estava prestes a acontecer.
Ela se sentia fora de lugar, desconfortável dentro de seu próprio corpo. O vestido vermelho que vestia parecia estar apertado demais, sufocante, como se o tecido se enroscasse em sua pele, não a deixando respirar. O ar estava pesado ao seu redor, cada respiração mais difícil que a anterior, e seu estômago se retorcia, gerando uma sensação de náusea que ela tentava controlar a qualquer custo. O portão da mansão de Lucian estava à vista, e, ao vê-lo, Selene apertou a mão de Cassian com força, em busca de um conforto que, no fundo, sabia que ele não poderia oferecer. O nervosismo irradiava de seu corpo, quase palpável, mas Cassian parecia não perceber. Ele andava ao lado dela com uma confiança inabalável, seu rosto impassível, como se fosse o dono do mundo que pisava.
Cassian virou-se para ela com um sorriso tranquilizador, completamente alheio ao caos que se passava dentro dela.
- Está tudo bem, amor? - Ele perguntou, a voz macia, tentando dissipar as nuvens de preocupação no rosto de Selene.
Ela apenas acenou com a cabeça, incapaz de formar palavras. O pavor se acumulava dentro dela, uma maré crescente que ameaçava engoli-la por completo assim que atravessassem os portões de Lucian.
Lucian Thorn abriu a porta com uma tranquilidade que beirava o perturbador. Ele se apoiou no batente, um sorriso enigmático desenhado em seus lábios, mas seus olhos - frios, calculistas, como gelo prestes a queimar - eram a verdadeira arma. Vestido impecavelmente em um terno negro, cada linha de seu corpo parecia esculpida pela escuridão. O tecido da roupa se ajustava perfeitamente aos seus músculos, como se a própria noite o envolvesse. O cabelo escuro e perfeitamente penteado brilhava sob a luz suave da entrada, dando-lhe um ar de uma autoridade inquestionável. Havia uma presença em Lucian que, mesmo sem esforço, dominava a sala antes mesmo de qualquer palavra ser dita.
Seus olhos primeiro pousaram em Cassian, seu irmão mais novo, mas foi apenas um olhar breve. O suficiente para esboçar um sorriso que parecia mais um jogo do que qualquer expressão verdadeira de afeto. O abraço entre eles foi breve e seco, a mão de Lucian repousando nas costas de Cassian por apenas um segundo, mais uma formalidade do que um gesto de carinho. Mas quando os olhos de Lucian deslizaram para Selene, a sala pareceu mudar de temperatura. Ele a observou com uma intensidade sufocante, o olhar varrendo-a dos pés à cabeça como se a estivesse avaliando, decifrando cada fração de seus pensamentos. Selene sentiu um calafrio percorrer sua espinha, seus nervos à flor da pele. A forma como ele a olhava era como se ele soubesse, como se já tivesse conhecimento de todos os seus segredos. Seus olhos não deixavam espaço para fuga, como se ele a tivesse prendido com o olhar, uma presa sob o domínio do predador.
Lucian inclinou-se, devagar, com uma lentidão estudada, e beijou o rosto de Selene de forma quase cerimonial. O contato era breve, mas carregado de algo mais profundo, como se ele estivesse cravando sua presença nela, deixando uma marca invisível que queimava.
- O que aconteceu com a minha linda cunhada? - Ele murmurou suavemente, quase num sussurro.
Sua voz era baixa, cheia de charme e perigo. Ele sorria, mas seus olhos continuavam frios, controladores. Selene mal conseguia responder, seu corpo enrijecido sob a presença dele, enquanto Cassian permanecia alheio, distraído pelo hábito de sempre confiar em Lucian. Ele não sabia o quanto a presença do irmão devorava lentamente a sanidade de Selene, ou talvez simplesmente não quisesse perceber.
Lucian recuou um passo, a postura ereta, tão confiante que o chão sob ele parecia se curvar em submissão. Ele era o diabo em forma masculina - uma mistura venenosa de poder e persuasão, controle absoluto e um charme maligno. O sorriso que mantinha nos lábios era maldito, uma armadilha para todos que ousassem se aproximar demais.
A mansão de Lucian ficava escondida entre as árvores altas de uma floresta, como se estivesse intencionalmente isolada do resto do mundo, estando a pouco mais de vinte minutos do centro de Flerks. A fachada de pedra robusta dava ao lugar um ar de antiguidade, como uma fortaleza perdida no tempo. As luzes douradas que emanavam das grandes janelas refletiam calor, mas havia uma frieza inerente na atmosfera, algo que nem mesmo as chamas tremeluzentes do fogo externo poderiam dissipar. O crepitar do fogo no círculo de cadeiras dispostas ao redor evocava um convite, uma promessa de conforto que escondia intenções mais profundas.
Lucian, sempre o anfitrião calculista, caminhava ao lado de Selene e Cassian, sua postura ereta e passos suaves sobre as pedras cuidadosamente posicionadas ao redor da propriedade. - Aqui - ele disse, gesticulando com um movimento leve de mão, - é onde costumo passar minhas noites. A tranquilidade aqui é insubstituível, Cassian. Por que não vem morar comigo? A casa é grande, o suficiente para nós três.
Selene Holloway engoliu em seco enquanto seu noivo abriu um sorriso, como se pensasse na proposta.
Ele guiou os dois através de um caminho que descia suavemente, chegando à entrada principal. Portas de madeira maciça se erguiam à frente deles, abrindo-se com um toque sutil de Lucian, revelando o interior da mansão. A sala de estar era ampla, com móveis de couro preto e detalhes em madeira escura, exalando poder e riqueza sem jamais cruzar a linha da ostentação. Obras de arte abstrata pendiam das paredes, mas eram os pequenos detalhes - as sombras nos cantos, a luz suave e indireta - que faziam Selene se sentir como se estivesse sendo observada, sempre à beira de ser devorada por algo invisível.
- O andar de cima - Lucian continuou, sem se deter por muito tempo em qualquer cômodo, - tem quartos para todos, caso decidam passar a noite - ele virou a cabeça em direção a Selene, seus olhos sempre analisando, como se tentasse desvendar os segredos que ela guardava. - Ou talvez para outras ocasiões.
O ar na casa parecia mais denso à medida que avançavam. A cozinha, com balcões de mármore e aço escovado, era um contraste frio com o calor externo. Selene notou como Lucian se movia pelo espaço com naturalidade, um rei no seu castelo de gelo.
- E aqui - ele disse, parando diante de uma parede de vidro que dava para uma varanda, - é onde gosto de apreciar o entardecer. - Do lado de fora, as luzes da fogueira ainda crepitavam, refletindo sombras nos troncos das árvores.
Cada canto da mansão parecia cuidadosamente planejado, não apenas para impressionar, mas para sufocar. Para garantir que aqueles que cruzavam seus umbrais nunca mais se sentissem completamente livres. Selene sentia um nó crescente em seu estômago, a ansiedade pulsando sob sua pele. As paredes da casa, embora amplas e sofisticadas, pareciam se fechar ao redor dela, cada nova sala trazendo uma sensação crescente de aprisionamento. Lucian, com seu sorriso fácil e olhar penetrante, era o mestre desse labirinto.
Cassian, por outro lado, não percebia o desconforto da noiva. Ele admirava a mansão com olhos curiosos, mas sem profundidade. Lucian, claro, notou.
- O que acha, irmão? - perguntou, dando-lhe um sorriso polido.
Cassian sorriu de volta.
- Impressionante, como sempre, Lucian.
- Ah, eu me esforço - Lucian respondeu, com um olhar que escondia mais do que revelava. - Mas, por favor, façam desta casa sua também. Há tanto para descobrir aqui.
A sala de estar era um reflexo de tudo o que Lucian representava: controle, poder e uma frieza impenetrável. As janelas de vidro iam do chão ao teto, deixando a vista das montanhas desoladas se misturar com a escuridão dos móveis de couro preto, que exalavam uma elegância austera. O chão de madeira escura ecoava seus passos, cada som quase sufocado pelo ambiente vasto, como se a própria sala absorvesse toda a vida e calor que tentasse penetrar ali. A luz, difusa e suave, tornava a atmosfera mais pesada, como se pairasse uma tensão invisível no ar.
Lucian entrou primeiro, seus movimentos fluidos, quase felinos, enquanto caminhava até a poltrona de couro mais próxima. Sentou-se com a calma de quem está no controle absoluto, os dedos longos e tatuados repousando sobre os braços da cadeira, cada gesto calculado. Ele inclinou o corpo para trás, a postura relaxada, mas o olhar era afiado, observando cada detalhe da presença de Selene e Cassian.
— Façam como se estivessem em casa — ele disse, a voz carregada de um cinismo que Selene não pôde deixar de sentir na pele. Seus olhos se fixaram nela por um momento, com a mesma intensidade que usava para estudar qualquer pessoa que entrasse em seu território.
Ele fez um gesto preguiçoso com a mão, indicando o sofá oposto, um convite que soava mais como uma ordem velada. Cassian, sempre o mais leve e despreocupado dos dois, aceitou com um sorriso, puxando Selene pela mão para sentar-se ao seu lado. No entanto, a tensão no corpo dela era palpável, como se o próprio ar ao redor de Lucian fosse denso demais para respirar livremente.
— Espero que gostem do lugar. Eu cuido pessoalmente de cada detalhe — ele continuou, o tom casual, mas com aquela ponta de veneno disfarçada.
Lucian tinha o dom de fazer tudo parecer uma armadilha elegante, um jogo que apenas ele sabia as regras.
Selene desviou o olhar para a vista das montanhas através das janelas, sentindo-se pequena naquele espaço vasto e dominador. O ambiente era imponente, mas nada se comparava ao peso da presença de Lucian, que, com seu sorriso perverso, parecia absorver qualquer segurança que ela pudesse ter tentado reunir.