Desço do ônibus e sigo em direção a área nobre da cidade, onde os hotéis luxuosos expõem o que há de melhor em Recife, já desço do ônibus cansada das horas de viagem e das horas de sono que me faltaram para o descanso ser completo, após andar alguns minutos, chego ao prédio onde minha entrada é liberada após minha identificação, entro no elevador e aperto o botão que me levará à cobertura.
Abro as cortinas e dou de cara com a imensidão azul, suspiro tentando imaginar por que uma pessoa sã largaria uma cobertura como essa para ir pra qualquer lugar do mundo, com esse sol e essa linda praia a disposição, assim como no do dia anterior, mas diferente do apartamento de ontem essa cobertura é ainda mais xique, os tons escuros de azul e cinza denuncia que esse lugar pertence a um homem, suspiro vendo que o lugar realmente esteve abandonado por um longo tempo, a sala ampla é dividida por alguns estofados enormes cobertos por um lençol branco, assim como todos os móveis e uma tv que cobre metade de uma parede , do outro lado uma varanda com mesa para café da manhã, ou tarde, da pra ver o outro lado da praia, ando pelo amplo espaço e encontro a cozinha, ou área gourmet como essa gente gosta de falar, sei que vou precisar me virar nos quarenta para conseguir terminar tudo em um dia, na enorme bancada estão algumas sacolas de compra de supermercado, tem tudo que vou precisar para a limpeza, até mesmo alguns alimentos.
Meu celular vibra com uma mensagem.
"Bom dia"
" Sei que vai demorar pra terminar então comprei alguns alimentos para você preparar seu almoço.
Boa sorte".
" Ah comprei seu cuscuz"
Demorar? Talvez eu não consiga terminar hoje, mas a Manuela é muito boa pra pagar então sempre que ela me chama venho sem demora, ela sempre me indica a suas amigas que moram por perto e suas amigas me indicam para outras e assim nunca fico sem trabalho; após conhecer a área de serviço e a cozinha começo a procurar pelos quartos subo por uma escada com degraus feito com madeira rústica, que fazem um contraste com os móveis modernos, mas combinando perfeitamente com a decoração masculina, me deparo com dois corredores um na esquerda e outro na direita, que ao contrário do que imaginava é pequeno e há apenas quatro portas do lado esquerdo e duas do lado direito e no final do esquerdo um espelho que pega a parede inteira, assim como na sala o chão é coberto por um tapete azul a diferença é que o da sala é de um azul clarinho quase branco e esse do corredor é um tom muito escuro.
Munida com rodo, vassoura e um potente aspirador abro a primeira porta e tenho certeza de que uma equipe de limpeza passou por aqui não muito tempo, analisando bem pensei que o lugar estaria mais sujo, mesmo os lençóis que cobrem os móveis não estão tão empoeirados como eu pensei que estaria.
Coloco meus fones de ouvido e começo pelo quarto suíte maior, vou retirando poeira de tudo, retiro os lençóis que cobrem os móveis, tudo cheira a novo após a limpeza e assim vou eliminando quarto por quarto, cômodo por cômodo, um tempo depois escuto minha barriga roncar, então eu vou para a cozinha preparar alguma coisa para comer, e assim que termino subo com meu prato até um dos cômodos que eu me apaixonei, uma pequena "biblioteca/escritório" aqui eu encontro alguns livros de romance, administração, revistas sobre hotéis luxuosos, auto ajuda e mais alguns de administração.
Escolho uma revista e me encanto com as imagens, os lugares são como um sonho, então eu como sonhando em me hospedar em um daqueles lugares.
Vestida uma saída de praia bem sexy me debruço despreocupadamente na mureta de uma varanda, então sinto uma mão firme em minha cintura e outra possessiva entra em minhas volumosas madeixas as elevando para deixar livre minha pele do cangote, então sinto beijos serem distribuídos por toda minha pele sensível enquanto a mão em minha cintura aperta e vai descendo lentamente...
- Acorda Rayssa que fogo na bacurinha da mulesta é esse muié.
Ralho comigo por me perder mais uma vez em pensamentos que não me levarão a lugar nenhum, termino meu almoço, tomo água e recomeço a limpeza.
Termino tudo um pouco antes do previsto e aproveito para tomar um banho demorado em um dos quartos, já que Manuela me liberou um deles para usar então fiquei em um menor, que não corre o risco de ser do tal irmão, ele não chega hoje mas prefiro não arriscar usando o maior, tiro a roupa que usarei para ir a faculdade e coloco sobre a cama, e se você está pensando: Ah ela é do tipo de empregadinha que aproveita a ausência dos patrões para fazer o que tem vontade na casa, está muito enganado, exatamente por não ser uma folgada que a senhora Manuela Razanne confia em mim, estou usando esse quarto por não haver um quarto de empregada, assim como na casa dela.
Retiro da bolsa o material da faculdade e começo um trabalho que ficou de ser entregue semana que vem, estudo um pouco a matéria de hoje e quando olho no relógio já está na hora de ir para a parada.
Estou muito cansada mas não posso simplesmente largar tudo e ir descansar, esse é meu sonho e o sonho dos meus velhinhos, me ver formada, meu pai está até guardando algum dinheiro para me presentear com um carro quando eu terminar a faculdade, quero só ver que carro ele vai me dar, sei que não vai ser um carro do ano e sei também que não Será um carro de segunda mão semi novo, mas ficarei grata com o que vier. A rotina de hoje é a mesma de ontem, chego na faculdade suada de tanto andar, a única diferença é que dessa vez eu não estou usando o desodorante estragado.
Escuto a Brenda falar pelos cotovelos no intervalo, e quando a aula finalmente termina o professor de biologia celular e molecular passa uma pesquisa para fazer em casa e trazer na próxima aula, para quem tem uma vida corrida como a minha é muito difícil fazer todos esses trabalhos mas eu vou conseguir, não está sendo fácil mas ninguém disse que era fácil, rapadura pode ser doce, mas não é mole não.
Exausta desço do ônibus e ando a pé até o conjunto de prédios luxuosos, já avisei para o painho desde ontem que hoje eu não voltaria para casa e ele pediu que eu ligasse assim que chegasse da faculdade, o caminho é iluminando mas qualquer carro que passa meu corpo treme, uma buzina soa às minhas costas me fazendo correr como uma desesperada pois já é quase meia noite. Chego esbaforida no prédio onde vou passar a noite, passo pela portaria e uso minha chave de acesso para pegar o elevador, passo direto para o quarto, mal percebo que as luzes estão ligadas, abro a porta do quarto, coloco a bolsa sobre a cama e vou direto para o banheiro, retiro minha roupa, aperto alguns botões para escolher a temperatura e relaxo sob a água quente da ducha, o banheiro sofisticado é um pouco menor que o o do outro quarto, mas igualmente equipado com o que há de mais moderno para o total conforto do hóspede.
Coloco um roupão e saio do quarto, na cozinha começo a preparar uma salada, ando comendo muita besteira.
Alguns minutos depois me sinto incomodada como se alguém tivesse me observando, mas devo estar estranhando o lugar, ignoro os sinais enviados por meus sentidos e me delicio com a salada leve com queijo e um suco de tamarindo, satisfeita lavo a louça que sujei, e saio da cozinha, mas a sensação de estar sendo observada permanece.
- Ahh.
Antes que eu solte um grito agudo uma mão enorme cobre minha boca.
- Respira... Não grita, sou o dono dessa cobertura que você invadiu.
Vou me controlando e aos poucos, tendo algumas percepções, primeiro um braço musculoso me arrodeia, segundo os braços musculosos são quentes que devem ser macios, terceiro sua pele é como a minha bebida favorita, o café, terceiro... Ele ainda está me segurando então ainda consigo sentir seu peitoral quente e tem alguma coisa espetando meu traseiro.
- Vou te soltar...
Concordo com um movimento de cabeça, submissa, rendida e ele me solta, me viro para olhar o homem que me segurou nos braços com tanta intimidade e dou de cara com um rosto masculino e muito... bonito, mas não consigo ver seus olhos, a luz de fora só ilumina parte do seu rosto e essa parte não são os olhos e sim a boca de lábios grossos e sexys, totalmente sério.
Sinto um gelado no estômago e minha pulsação acelera, mas permaneço o encarando, sei que me encara de volta enquanto recuo um pouco assustada com sua aura dominadora, mas não sei onde seus olhos estão, então olho para meu corpo para ver o que ele ver e a vergonha me atinge.
Estou com parte do roupão aberto revelando minha minúscula camisolinha de renda quase transparente e iluminada pela luz da lua que brilha do lado de fora e ultrapassa os vidros da cobertura.
Solto um suspiro de insatisfação alto e subo correndo para o quarto, tranco a porta puxo as cobertas e me escondo sob o edredom macio, meu coração bate tão forte que consigo senti-lo na garganta.
Ouço passos pesados na escada e silêncio no corredor, sei que ele se aproxima da porta do quarto onde estou então prendo minha respiração, parece que estão mexendo na porta mas sei que é só impressão pois o tum tum tum do meu coração está tão alto que não conseguiria ouvir mais nada, mesmo assim minha mente criativa vê todo esse senário, onde um homem forte e musculoso arrombada a porta do meu quarto e me toma como se não houvesse amanhã e além do medo sinto necessidade de me repreender por tal desejo. Algum tempo depois me sentindo mais segura descubro parte da minha cabeça para ver se tem alguém no quarto, e fico tranquila ao ver que a porta continua trancada, e um pensamento me ocorre... Eu estava sendo observada há quanto tempo? E se ele estava esse tempo todo me observando por que não me atacou antes quando eu estava tão distraída?
As horas vão passando e eu vou ficando mais tranquila, até que o cansaço vence e eu caio nos braços de Morfeu, sonho com gominhos de chocolate a noite inteira e acordo frustrada e suada, mas já acordo alerta, pego minha escova de dente na minha mochila, e vou direto para o banheiro, higiene feita, com muito cuidado abro a porta do quarto e espio o lado de fora como se tivesse fazendo coisa errada ou como se tivesse fugindo do apartamento de um ficante no dia seguinte para não passar vergonha, pé ante pé, mesmo sabendo que nenhuma das afirmativas anteriores é a correta e eu vou ter que fazer café para o dono da cobertura, sendo ele o mesmo que me envolveu nós braços a noite anterior e...
-Esquece aquilo Rayssa. Ralho comigo quebrando os ovos na frigideira após fritar o bacon, ovos fritos prontos, coloco uma camada de tapioca levemente umedecida em uma frigideira limpa e com o fogo aceso preparo um beiju, um prato típico do nordeste, mas que ganhou o Brasil, e vejam só o beiju ou mais conhecido como tapioca em outros estados foi descoberto aqui em Pernambuco, era uma iguaria preparada pelos índios.
Passo o café no coador de pano mesmo tendo uma garrafa elétrica que facilitaria minha vida, mas prefiro meu café passado no coador, o sabor parece diferente, e observando bem, a cor do café me remete a...
- Rayssa te proibido de pensar em braços quentes e pele de café, mesmo que seja sua bebida favorita, te proíbo...
- Pensei que só eu não tivesse dormindo... Que bom que não foi só eu que fiquei acordado sem fazer o que mais gosto de fazer... Bom dia.
Deixo um pouco do café derramar em minha mão e acabo soltando um gemido de dor, imediatamente sinto braços fortes e quentes envolverem os meus, sua mão grande envolve a minha e como em câmera lenta retira o cuador das minhas mãos e as coloca debaixo da água fria da torneira.
- Pensei que havia sonhado com você essa noite e que era só uma fantasia... Mas graças a Deus quem eu encontro novamente na minha cozinha... Um anjo de cabelos pretos e pele de leite preparando meu café da manhã, esse é realmente um presente divino.
Ele me auxilia a colocar a tampa na garrafa e eu me viro com a respiração acelerada e o coração retumbando no peito, se só sua voz me excita tanto não quero ver seu rosto e olhar em seus olhos, mas uma força maior me faz virar de frente para ele, então minha respiração que já estava entrecortada cessa de vez, é uma mistura muito forte de sentimentos, algo que nunca senti em toda minha vida, deve ser tesão, é isso, é só uma atração boba por um estranho... Mas que estranho seu rosto levemente quadrado, barba de um dia por fazer, olhos...
Ô meu Deus... Ô meu Deus, ô meu Deus!
-Que cor é essa? Falo tentando tomar fôlego.
- São castanho amarelados gata.
Abro a boca, e ele avança, mas sou mais rápida, fujo para o outro lado da cozinha.
- Você faz isso com todas as diaristas?
Pergunto pensando nessa possibilidade e isso explicaria muita coisa.
- Isso o que...
- Isso... Abro as mãos abrangendo o espaço para mostrar a situação.
- Não, apenas com as que aparecem seminuas em minha cobertura e me fazem perder o sono.
Minhas bochechas ganham vida, e ainda sinto meu corpo pulsar, mas eu tenho que trazer a razão novamente porque eu preciso focar em alguma coisa que não seja me jogar sobre esse homem, e que loucura de homem, respiro pela boca para me acalmar, finco minhas unhas nas coxas e ele acompanha tudo com seu olhar enigmático e encostado no armário da cozinha do lado oposto de onde estou.
Mas antes que eu percebesse a luxúria e o perigo que emanam de sua pele quente e suas íris provocativas uma palavra muito importante pula em minha mente me fazendo voltar a ser a mulher centrada de antes e essa palavra mágica é Estudar, não posso e nem vou me envolver com alguém antes de terminar minha faculdade que é a coisa mais importante da minha vida, depois dos meus pais é claro.
-Se-senhor...
Ele levanta uma sobrancelha negra em ironia me deixando nervosa, tão nervosa que esqueci seu nome.
- Apollo. Ele me ajuda a sair do desconforto com um sorriso, tive outro ataque cardíaco, ele percebe pois seu sorriso cresce ainda mais fazendo minha taquicardia subir a níveis estratosféricos, minhas pernas bambeiam trêmulas, tenho vontade de sentar na bancada e as abrir feito a mulher fácil que estou parecendo. Ele avança e eu não saio do lugar, não tenho forças e não consigo desfazer seu feitiço. Ele me imprensa contra a bancada e eu gemo como uma gata no cio ao sentir seu corpo quente, seus músculos definidos contra a minha mão, seus lábios param a centímetros dos meus, e como se pedisse autorização ele me olha nos olhos e já sabe que já me tem em seu domínio.
Es... Est... Estu... O que esqueci até o meu nome, quando minha mão alcançou um ponto abaixo do seu umbigo e isso foi a única coisa que realmente me acordou, afastei minha mão em chamas.