Isabel Botelho POV:
Voltei para casa, o corpo pesado, mas a mente em chamas. Comecei a arrumar minhas coisas. Cada peça de roupa que dobrava, cada livro que colocava na mala, era um adeus.
Rodrigo apareceu na porta do quarto, um sorriso no rosto. Ele segurava um enorme buquê de flores.
"Meu amor, voltei! Resolvi tudo. Senti tanto a sua falta."
Ele se aproximou, estendendo as flores. Seus olhos tentavam parecer sinceros, mas havia algo forçado.
"Essas flores são para você. Eu sei que não fui o melhor hoje, mas eu te amo, Isabel. Você é a única."
Meu olhar pousou nas flores. As pétalas estavam um pouco murchas. Um leve cheiro de perfume diferente pairava no ar. Não era o meu.
Eu ri. Um riso seco, sem humor.
"Por que você está rindo, Isabel? Você está bem?"
A preocupação dele parecia genuína, mas era um reflexo do seu próprio egocentrismo. Ele não ria de mim, mas da ridícula situação.
"Estou ótima."
Peguei o buquê, sentindo a textura das pétalas. Então, meus olhos pousaram em seu colarinho. Uma mancha de batom. Vermelho vibrante. Não era o meu.
"Rodrigo, o que é isso no seu colarinho?"
Minha voz era calma, quase doce. Ele congelou. Seus olhos se arregalaram. O sorriso vacilou.
Ele levou a mão ao pescoço, o rosto empalidecendo. Meu coração batia forte. Ele estava assustado.
"Ah, isso? Não é nada. Acho que... esbarrei em alguém na multidão."
Ele tentou limpar, mas a mancha apenas borrou. Sua voz estava um tom mais alta que o normal.
"Deixe-me. Eu lavo para você."
Peguei a camisa de sua mão. Ele me olhou, surpreso.
"Não precisa, meu amor. Eu peço para a empregada."
"Não. Eu faço. Minhas mãos são mais delicadas para manchas difíceis."
Eu sorri, um sorriso que não alcançava meus olhos. Ele hesitou, depois relaxou.
"Você é a melhor, Isabel. Eu te amo tanto!"
Ele me beijou a testa, aliviado, e foi para o banho. Ele não fazia ideia do que estava por vir.
Eu segurei a camisa, sentindo o batom pegajoso sob meus dedos. A raiva subiu, quente e corrosiva. Sem pensar, rasguei o tecido onde a mancha estava. Um rasgo limpo, preciso.
Ele saiu do banho, ainda com a aura de outro perfume, mais forte agora. Eu o entreguei a camisa rasgada.
"Ah, não! Meu terno favorito! O que aconteceu?"
Ele olhou para o rasgo, depois para mim, sem conseguir esconder o aborrecimento.
"Eu estava tentando tirar a mancha. Acho que a máquina estava muito forte. Desculpe."
Minha voz era suave, quase inocente.
"Não se preocupe, meu amor. Eu compro outro. Aliás, é bom ter coisas novas, não é? As velhas às vezes nos trazem azar."
Eu olhei para ele, um significado oculto em minhas palavras. Mas ele apenas coçou a cabeça, aliviado.
"É verdade! Melhor um novo. Esqueça esse velho."
Ele me abraçou, o cheiro de Tatiana ainda impregnado nele. Senti náuseas.
As lágrimas vieram, quentes e silenciosas. Eu o amava tanto. Quando o conheci, eu era uma jovem designer talentosa, mas cautelosa. Ele era charmoso, persistente. Lembro-me de resistir aos seus avanços, querendo manter minha independência.
Mas ele não desistia. E então, em um momento de desespero, quando minha galeria quase faliu, ele apareceu como um herói. Ele investiu na minha empresa, salvando-a. Ele disse que me amava, que queria construir um futuro comigo. Eu acreditei. Eu me entreguei.
"Eu serei seu para sempre, Isabel. E você será minha. Eu prometo."
Lembrei-me das palavras dele, daquele dia, há cinco anos. As palavras ecoavam na minha mente, torturando-me com a ironia.
Eu havia avisado. Há muito tempo. Em uma briga boba sobre fidelidade.
"Se um dia você me trair, Rodrigo, eu me caso com o primeiro homem que aparecer. E você nunca mais me verá."
Ele tinha rido, achando que era uma ameaça vazia.
Eu o tinha perdido. Ou talvez nunca o tivesse tido de verdade. A dor era insuportável.
Ele me viu chorar. Seus olhos se arregalaram.
"Isabel? Meu amor, por que você está chorando? O que houve?"
Ele me abraçou, suas mãos em minhas costas. Eu não o afastei. Não ainda.
"Está tudo errado, Rodrigo. Tudo."
Minha voz estava embargada. Ele não entendeu. Não poderia entender.
"Está tudo bem, meu amor. Eu estou aqui. Está tudo bem."
Ele alisava meus cabelos. Eu sabia que ele me enganava. Sabia que ele me traía. E sabia que a promessa que eu fizera, em um momento de raiva juvenil, se tornaria a minha salvação.
Isabel Botelho POV:
Minha dor se transformou em uma quietude fria. Afastei Rodrigo gentilmente. Ele tentou me beijar, mas virei o rosto. Ele ficou sem graça, mas não insistiu.
"Eu... eu tenho um presente para você, meu amor. Uma surpresa. Mas só pode ser aberta no dia primeiro."
Ele me olhou, os olhos curiosos.
"O quê? Que tipo de presente é esse que não posso abrir agora?"
Eu subi as escadas, a caixa de veludo vermelho na mão. Dentro, estavam os convites que a organizadora do casamento me entregara. Eu havia feito algumas modificações. Risquei o nome de Rodrigo e escrevi o de Leandro. No lugar do meu, deixei meu nome. Isabel Botelho.
Desci, segurando a caixa. Rodrigo me esperava na sala.
"É uma caixa, meu amor? O que tem dentro?"
Ele tentou pegar a caixa, mas eu a desviei.
"Não. É uma surpresa. Só vai poder abrir no dia primeiro."
Ele franziu a testa.
"Dia primeiro? Mas... essa é a data do meu 'casamento' com a Tatiana."
Seu rosto ficou pálido. Ele percebeu a ironia.
"Exatamente, Rodrigo. É a data do nosso antigo casamento. E agora, é um presente especial para você."
Eu controlei meu sorriso. Minha voz era suave, mas cheia de intenção. Rodrigo me olhou, confuso, mas logo um sorriso de alívio se espalhou por sua face.
"Você é incrível, Isabel! Você é a mulher mais compreensível do mundo!"
Ele me abraçou, um abraço que eu não retribuí. Senti o cheiro dele, o cheiro dela.
Ele foi para o banho. O som da água caindo era a única coisa que quebrava o silêncio. Peguei meu celular. Uma notificação no Instagram. O perfil de um amigo em comum.
Um vídeo. Rodrigo, ajoelhado, com Tatiana nos braços. O mesmo vídeo que eu tinha visto pessoalmente, mas com uma legenda diferente. "O amor verdadeiro sempre encontra um caminho! Parabéns aos noivos!"
Meu sangue ferveu. Rolei os comentários. Muitos amigos de Rodrigo o parabenizavam, elogiando sua "nobreza". Uma amiga de Tatiana escreveu: "Ela finalmente conseguiu o que sempre foi dela de direito."
Então, vi a mensagem. De um amigo de Rodrigo para ele: "Apagou? Ela viu?"
A resposta de Rodrigo: "Sim, bloqueei ela. Ela não pode saber."
Bloqueada. Eu me lembrei dos nossos amigos em comum, aqueles que prometeram me proteger. Eles estavam com ele. Rindo. Zombando.
De repente, o vídeo desapareceu. Rodrigo tinha visto. Ele estava agindo rápido.
Ele saiu do banho, o cabelo molhado, o rosto pálido.
"Você viu alguma coisa, Isabel?"
Sua voz estava rouca, os olhos arregalados.
"Vi o quê, Rodrigo? Estou ocupada organizando minhas coisas."
Eu menti, minha voz calma, quase entediada. Ele relaxou visivelmente.
"Ah, nada. Só umas bobagens de internet."
Ele pegou o celular e discou. Eu ouvi a voz irritada dele.
"Você é idiota? Eu te disse para apagar! Ela quase viu!"
Houve uma pausa.
"Não importa! Ela não pode saber de nada! De nada, entendeu?"
Ele estava furioso. Eu apenas observei, meu coração um bloco de gelo.
"Certo. E não adianta tentar me consolar com a Tatiana. Ela não se importa com a Tatiana. Ela só se importa com a minha reação."
A voz do amigo dele veio do telefone, alta o suficiente para eu ouvir.
"Relaxa, cara. Ela não vai descobrir. E não se esqueça, depois de resolver as coisas com a Tatiana, temos que comemorar a nossa noite. E a Tatiana já está aqui."
Rodrigo desligou o telefone abruptamente. O rosto dele estava vermelho.