Capítulo 2

Acordei com o som de risadinhas. O som agudo e feminino irritou meus nervos em frangalhos. Meus olhos se abriram para um quarto cheio de gente. Jade Matos estava aos pés da minha cama, ladeada por um grupo de outras enfermeiras e residentes jovens e bonitas. Pareciam um bando de abutres.

"Olha só, ela acordou", disse Jade, sua voz pingando falsa doçura.

"O que você quer?", grasnei, minha garganta seca.

Uma das enfermeiras, uma loira que eu não conhecia, deu um passo à frente. "O Dr. Ortiz está ocupado. Ele nos pediu para ver como você está. E para te dizer para parar de ser tão grudenta. Ele é um homem muito importante. Não pode passar todo o tempo ao seu lado."

As palavras foram um tapa na cara. Grudenta?

Outra enfermeira interveio: "Sinceramente, Alícia. Você não tem vergonha na cara? Você está o atrasando. Todo mundo sabe que ele só está com você por obrigação."

Minha cabeça girou. Mesmo que fosse verdade, ouvir isso dito de forma tão direta, tão cruel, foi devastador. Senti um tremor familiar começar em minhas mãos.

"Você é um obstáculo para a felicidade dele", disse Jade, sua voz suave e razoável, o que tornava tudo ainda pior. "Ele merece estar com alguém que seja seu igual. Alguém que entenda o mundo dele."

Ela se referia a si mesma. Claro que sim.

"Meu pai...", comecei, minha voz tremendo. "Meu pai salvou o pai dele."

A amiga de Jade riu. "Seu pai, o criminoso? Por favor. A família Ortiz estava apenas sendo caridosa. Eles tiveram pena de você. Você deveria ser grata, não exigente."

"Não fale do meu pai desse jeito!" As palavras saíram mais altas do que eu esperava. Meu pai era um bom homem. Ele foi incriminado, forçado a aceitar um acordo para proteger Augusto Ortiz, um homem em quem ele confiava.

"Oh, estamos ficando bravinhas?" a amiga de Jade provocou. Ela pegou o copo de água quente da minha mesa de cabeceira. "Talvez você precise se acalmar."

Antes que eu pudesse reagir, ela fez um movimento para jogá-lo em mim. O instinto tomou conta. Eu recuei, minha mão voando para proteger meu rosto. No meu movimento de pânico, eu bati no copo. A água quente voou para o lado, espirrando diretamente na mão estendida de Jade.

Jade soltou um grito agudo. "Minha mão! Ela me queimou!"

Aconteceu tão rápido. Em um momento elas estavam me atormentando, no seguinte Jade era a vítima.

A porta se abriu com um estrondo. Cássio entrou correndo, seus olhos selvagens de pânico.

"Jade! O que aconteceu?" Ele me ignorou completamente, correndo para o lado dela.

"Alícia... ela... ela jogou água quente em mim", Jade soluçou, embalando a mão, que mal estava rosada. "Eu só estava tentando falar com ela."

A cabeça de Cássio se virou para mim. Seus olhos, que eu antes pensava conter as estrelas, eram agora dois cacos de gelo. O olhar que ele me deu foi de puro ódio.

"Você fez isso?", ele rosnou.

Eu estava atordoada demais para falar. A injustiça de tudo aquilo me roubou o fôlego. Ele nem perguntou. Ele simplesmente acreditou nela.

"Cássio, eu..."

"Não", ele me interrompeu, sua voz perigosamente baixa. Ele pegou gentilmente a mão de Jade, examinando-a com o maior cuidado. "Está tudo bem, Jade. Estou aqui. Vou cuidar de você."

Ele a levou para fora do quarto, sussurrando palavras reconfortantes para ela, deixando-me sozinha com as enfermeiras silenciosas e sorridentes.

Alguns minutos depois, ele voltou. Seu rosto era uma máscara de fúria.

"Peça desculpas a ela", ele ordenou.

Eu o encarei, a incredulidade lutando com uma nova onda de dor. "Eu não fiz de propósito. A amiga dela ia jogar em mim."

"Não minta, Alícia. Jade nunca faria algo assim. Você tem ciúmes dela há meses."

Suas palavras me atingiram como um golpe físico. Ele achava que eu era a ciumenta, a mesquinha. Ele estava tão cego pelo amor por ela que não conseguia ver a verdade bem na sua frente.

"Então você acha que estou mentindo?" Minha voz era um sussurro quebrado.

Ele não respondeu. Apenas me encarou, sua mandíbula cerrada. E em seu silêncio, eu tive minha resposta. Ele acreditava nela. Ele sempre acreditaria nela.

Uma risada sem humor escapou dos meus lábios. Era um som seco e rachado. "Tudo bem."

"O quê?"

"Eu vou pedir desculpas", eu disse, minha voz plana e morta. Se este era o jogo, eu estava cansada de lutar.

Empurrei-me para a cadeira de rodas, a dor na minha perna um lembrete maçante e constante de sua crueldade. Rolei pelo corredor até seu escritório. Ele me seguiu, uma sombra silenciosa e ameaçadora atrás de mim.

A porta estava aberta. Jade estava sentada no sofá de couro macio lá dentro, enxugando os olhos com um lenço de papel. Ela olhou para cima quando entrei, um brilho de triunfo em seus olhos antes de ser substituído por um olhar de inocência frágil.

Era o escritório particular de Cássio. Um espaço para o qual ele nunca me convidara. Ele sempre dizia que era apenas para trabalho. No entanto, aqui estava Jade, parecendo perfeitamente em casa. Outra pequena e cruel torção da faca.

"Jade", comecei, minha voz vazia. "Sinto muito que você tenha se queimado."

Não consegui dizer mais nada. Não consegui admitir algo que não fiz.

Jade olhou para Cássio, seu lábio inferior tremendo. "Cássio... ela nem disse que foi culpa dela."

Cássio deu um passo à frente. "Alícia, isso não é um pedido de desculpas de verdade."

"O que mais você quer?", perguntei, olhando para ele. "Você me quer de joelhos?"

Sua expressão endureceu. "Apenas peça desculpas direito."

Jade fungou. "Está tudo bem, Cássio. Eu estou bem. Não fique bravo com a Alícia. Talvez ela só esteja chateada por causa da perna dela." Ela era a imagem da magnanimidade. Isso me deixou enjoada.

"Você pode ir agora, Alícia", disse Cássio, seu tom desdenhoso. Ele já havia voltado sua atenção para Jade, sua mão repousando confortavelmente no ombro dela.

Virei a cadeira de rodas para sair, meu coração um bloco de gelo. Ao passar pela porta, minha roda prendeu na beirada do tapete. A cadeira virou. Gritei ao cair, aterrissando com força na minha perna ferida.

A dor explodiu atrás dos meus olhos, branca, quente e absoluta. Eu me encolhi no chão, ofegante.

Através de uma névoa de agonia, ouvi a voz suave de Jade. "Ah, Cássio, você deveria me levar para jantar hoje à noite para compensar isso. Aquele novo restaurante francês no centro?"

"Claro", a voz de Cássio era um murmúrio baixo, cheio de afeto. "Qualquer coisa por você."

Ele nem olhou na minha direção. Não ofereceu uma mão. Não perguntou se eu estava bem. Ele apenas passou por cima de mim, seu braço ao redor de Jade, e saiu do escritório.

Fiquei deitada no chão frio, o som de seus passos ecoando no corredor vazio. Lágrimas silenciosas escorriam pelo meu rosto, não pela dor na minha perna, mas pela devastação total da minha alma.

Mais tarde, uma enfermeira que eu não reconheci me ajudou a voltar para o meu quarto. Ela foi gentil, seus olhos cheios de pena.

"O Dr. Ortiz e a Dra. Matos saíram", disse ela suavemente, como se compartilhasse um segredo. "Ouvi dizer que ele reservou a mesa mais cara do D.O.M. Ele nunca te levou lá, não é?"

Eu apenas balancei a cabeça, incapaz de falar. D.O.M. Eu tinha pedido a Cássio para me levar lá no meu aniversário do ano passado. Ele disse que era muito ostentoso, muito barulhento.

Não era que ele não gostasse do restaurante. Ele simplesmente não queria me levar.

Naquela noite, deitada sozinha na minha cama de hospital, tomei uma decisão. Isso tinha que acabar. Eu não podia mais viver assim. Eu não seria sua vítima. Eu não seria sua dívida.

Eu ia ser livre.

Capítulo 3

A primeira coisa que fiz depois de receber alta foi visitar Augusto Ortiz. O pai de Cássio era um homem formidável, mesmo aposentado. Ele morava na antiga mansão da família Ortiz, um lugar de elegância silenciosa e do velho mundo que sempre pareceu mais um museu do que um lar.

Ele me recebeu em seu escritório, uma sala cheia de livros com capa de couro e o cheiro de charutos caros. Ele pareceu surpreso em me ver.

"Alícia, minha querida. Pensei que você ainda estivesse se recuperando."

"Estou muito melhor, Sr. Ortiz", eu disse, minha voz firme. "Vim aqui para lhe pedir algo."

Respirei fundo. "Eu quero cancelar o noivado."

Augusto me encarou, seus olhos aguçados se arregalando em choque. "Cancelar? Por quê? Cássio fez alguma coisa?"

Não consegui me forçar a contar a ele toda a verdade feia. Ele era um homem de honra. Saber que seu filho estava me torturando sistematicamente para pagar uma dívida o destruiria. E, além disso, era a minha batalha para lutar.

"Não", menti. "Sou eu. Cássio é um bom homem, mas não somos certos um para o outro. Percebi que não o amo como uma esposa deveria."

Olhei-o nos olhos, tentando transmitir sinceridade. "Meu pai será libertado da prisão em alguns meses. Pretendo levá-lo e começar uma nova vida, só nós dois. É melhor assim."

Augusto olhou para mim, sua expressão uma mistura de confusão e tristeza. Ele havia orquestrado este casamento por um sentimento de culpa e responsabilidade. Ele realmente acreditava que era a melhor coisa para mim.

Após um longo silêncio, ele suspirou, um som profundo e cansado. "Se é isso que você realmente quer, Alícia, não vou ficar no seu caminho."

O alívio me invadiu, tão potente que quase me deixou fraca.

"Obrigada, Sr. Ortiz."

"Vou pedir ao meu advogado para preparar os papéis", disse ele, sua voz pesada. "E vou transferir uma quantia em dinheiro para você. Um dote, por assim dizer. Para ajudar você e seu pai a recomeçar."

"Isso não é necessário-", comecei, mas ele levantou a mão.

"É sim. É o mínimo que posso fazer."

Nesse momento, a porta do escritório se abriu e Cássio entrou. Ele parou abruptamente quando me viu.

"Alícia? O que você está fazendo aqui?"

Antes que seu pai pudesse falar, eu respondi, minha voz brilhante e casual. "Apenas visitando seu pai, Cássio. Estava me sentindo melhor e queria sair de casa."

Cássio olhou de mim para seu pai, um brilho de suspeita em seus olhos, mas ele deixou passar. "Vim te buscar. Pai, vamos ficar para o jantar."

O jantar foi um caso excruciantemente tenso. Cássio, desempenhando o papel de noivo dedicado, sentou-se ao meu lado, cortando minha comida, colocando-a no meu prato. Cada movimento cuidadoso e praticado era um lembrete de seu engano. Costumava fazer meu coração palpitar. Agora, apenas me deixava enjoada.

"Agora que Alícia está se recuperando, podemos finalmente marcar uma nova data para o casamento", anunciou Cássio a seu pai, seu braço repousando nas costas da minha cadeira.

Augusto abriu a boca para falar, provavelmente para revelar minha decisão, mas naquele exato momento, o telefone de Cássio vibrou.

Ele olhou para a tela. A mudança em sua expressão foi instantânea. Sua máscara cuidadosamente construída de calma preocupação se dissolveu em pânico genuíno.

Era uma mensagem de Jade. Vi o nome dela piscar na tela. Era acompanhada por uma foto de um pulso sangrando.

"Eu tenho que ir", disse Cássio, pulando de pé.

"Cássio, o que há de errado?", perguntou Augusto, alarmado.

"É uma emergência no hospital", mentiu Cássio, seus olhos já na porta. Ele já estava discando seu telefone. "Jade? Você está bem? Não se mova, estou a caminho!"

Ele saiu correndo sem olhar para trás, deixando um silêncio atordoado em seu rastro. Fiquei sentada ali, olhando para o pedaço de bife perfeitamente cortado no meu prato, um nó frio se formando no meu estômago. Ele me deixou, sua noiva "em recuperação", por ela. De novo.

Saí da mansão Ortiz pouco depois, a promessa de liberdade uma pequena luz bruxuleante na vasta escuridão do meu coração.

No dia seguinte, visitei meu pai. A prisão era um lugar sombrio e opressivo. Vê-lo na sala de visitas, pálido e magro em seu uniforme cinza, partiu meu coração mais uma vez.

"Alícia", disse ele, seu rosto se iluminando quando me viu. "Você parece cansada. Cássio está te tratando bem?"

Forcei um sorriso. "Ele é maravilhoso, pai. Apenas ocupado com o trabalho."

Ele assentiu, aliviado. "Bom, bom. É tudo o que eu quero. Que você seja feliz." Ele suspirou. "Sinto muito por perder o casamento. De novo."

A mentira parecia ácido na minha língua. "Nós vamos esperar por você, pai. Eu disse a Cássio que não vamos nos casar até você sair." Estendi a mão sobre a mesa e peguei a dele. "Quando você sair, vamos deixar esta cidade. Vamos para algum lugar quente, perto do mar. Só você e eu."

Uma lágrima escorreu por sua bochecha. "Isso parece bom, minha filha."

Voltei para a casa estéril e vazia que dividia com Cássio. Arrumei uma pequena mala, levando apenas meus pertences pessoais. Deixei para trás todas as roupas, as joias, a vida que ele havia comprado para mim.

Ele não voltou para casa naquela noite.

Ele voltou na manhã seguinte, parecendo cansado, mas contente.

"Há uma gala de caridade hoje à noite", disse ele, afrouxando a gravata. "Você precisa vir comigo."

Não era um pedido. Era uma ordem. Eu era seu pônei de exibição, o símbolo da "honra" de sua família.

Eu me arrumei entorpecida. Enquanto caminhávamos para o carro, instintivamente me movi para o lado do passageiro.

"Aí não", disse ele, sua voz ríspida. "Jade vai conosco. Ela precisa de espaço para as pernas por causa da... da condição dela."

Eu o encarei, minha mente em branco. Minha própria perna ainda estava engessada. Ele havia esquecido. Ou não se importava.

"Tudo bem", eu disse, minha voz plana. Subi no banco de trás.

Jade chegou um momento depois, deslizando para o banco da frente com um sorriso triunfante. "Obrigada por esperar, Cássio. Alícia, que bom que você veio."

A viagem de carro foi uma tortura. Eles conversaram e riram, suas vozes um murmúrio baixo e íntimo. Eu me senti como uma estranha, uma intrusa em seu pequeno mundo perfeito.

A gala era um evento brilhante, cheio da elite da cidade. Cássio me apresentou como sua noiva, sua mão um peso pesado no meu braço. Mas sua atenção, seu orgulho, era todo para Jade. "Esta é a Dra. Jade Matos", ele dizia, sua voz brilhando. "Minha residente mais promissora."

Eu não conseguia respirar. Pedi licença, precisando de ar. Encontrei uma varanda deserta com vista para as luzes da cidade. Fiquei ali por um longo tempo, apenas respirando.

Quando finalmente voltei para dentro, eu os vi. Eles estavam em um canto escuro e isolado do salão de baile. Cássio tinha Jade pressionada contra a parede, sua boca devorando a dela. Suas mãos estavam emaranhadas no cabelo dela, seu corpo colado ao dela.

Era cru, desesperado e cheio de uma paixão que ele nunca, jamais, me mostrara.

Meu mundo, que eu pensei já ter sido estilhaçado, quebrou-se em pedaços ainda menores. Eu os segui, um fantasma na minha própria vida, enquanto eles saíam por uma porta lateral e entravam em uma suíte particular no andar de cima.

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