Capítulo 2

Ponto de Vista: Helena

Encontrei Juliano no dia seguinte. Ele era exatamente como eu me lembrava da universidade — calmo, inteligente, com um ar de poder silencioso que não devia nada a armas ou território. Ele dirigia uma firma de arquitetura global, um império legítimo longe das mãos sujas da Máfia. Ele me disse que poderia ter uma nova identidade, uma nova vida, pronta para mim em quinze dias.

Tudo o que eu tinha que fazer era sobreviver até lá.

Essa promessa era um escudo frágil enquanto eu voltava para a mansão Moretti para pegar as poucas coisas que ainda eram minhas. Dante estava me esperando no hall de entrada, seu corpo grande uma barricada na porta. Ele parecia exausto, seu paletó geralmente impecável, amassado.

"Onde você estava?", ele exigiu, sua voz um rosnado baixo.

"Com um antigo professor", eu disse, minha voz nivelada. Eu não lhe devia uma explicação. "Meu celular morreu."

Ele se aproximou, me encurralando contra a parede. Ele segurou meu rosto, seu polegar acariciando minha bochecha. O gesto que uma vez me fez derreter agora parecia uma marca de ferro. "Eu não posso te perder de novo, Helena. Não posso." Seu desespero era uma performance, e eu era a plateia relutante.

"Seu aniversário é amanhã", ele murmurou, seus olhos procurando nos meus por uma reação que eu não possuía mais. "Eu tenho uma surpresa para você. No seu antigo quarto."

O quarto que eu uma vez chamei de meu era agora um showroom. Araras de roupas de grife, caixas de veludo contendo joias brilhantes. Mas misturadas havia peças que eu nunca usaria — um vestido de estampa de oncinha berrante, um perfume que era doce demais. Eram para ela. Para Sienna.

Eu me virei do display. "Livre-se disso. Nada disso é para mim."

A mandíbula de Dante se contraiu. Antes que ele pudesse responder, Luca invadiu o quarto, uma carranca no rosto.

"Ela não gosta de nada", ele desdenhou, sua lealdade à sua nova mãe uma lâmina afiada e dolorosa se torcendo em minhas entranhas. "Sienna adoraria."

Eu congelei. A memória das pequenas mãos do meu filho agarradas ao meu pescoço, suas risadas enchendo um quarto, se dissolveu, substituída por este estranho frio e hostil. O espaço vazio no meu peito doía.

Dante o ignorou, tirando uma pequena caixa do bolso. Ele a abriu para revelar um anel de safira, uma pedra maciça da cor de um céu de meia-noite. "'A Única'", ele disse, sua voz carregada de significado. "Uma joia lendária para minha mulher lendária."

Enquanto ele falava, o murmúrio baixo de uma reportagem na TV no canto do quarto prendeu minha atenção. Um repórter estava falando sobre um Don rival que acabara de encomendar uma joia magnífica para sua esposa, uma pedra chamada "O Coração da Cidade". Era, disse o repórter, a gêmea de outra famosa safira, "A Única".

Meu olhar voltou para o anel na mão de Dante. Ele o deslizou no meu dedo. Era um milímetro grande demais, solto e frio contra minha pele.

"Você perdeu peso", ele disse, sua desculpa vindo rápido demais.

Eu o olhei diretamente nos olhos, a caverna no meu peito ecoando com a mentira. "Eu sou a sua única, Dante?"

O toque estridente de seu telefone quebrou o silêncio tenso. Sua expressão mudou, a máscara do Don deslizando de volta ao lugar. Ele tinha que ir. Uma "reunião urgente", sem dúvida. Ele evitou minha pergunta, seu olhar se desviando do meu.

"Vá", eu disse, minha voz desprovida de toda emoção. "Não a deixe esperando."

Ele beijou minha testa, um gesto oco e sem sentido. "Espere por mim."

Quando ele se virou para sair, a tela de seu telefone piscou, iluminando o identificador de chamadas.

Sienna.

No momento em que ele se foi, deslizei o anel grande demais do meu dedo e o joguei na lixeira de metal ao lado da penteadeira. O barulho foi pequeno, mas final.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Helena

Na manhã seguinte, observei uma governanta pescar o anel de safira da lixeira externa onde eu o havia jogado, sua expressão um nó de descrença e confusão.

"Está sujo", eu disse a ela, minha voz plana. "Algumas manchas nunca saem."

Aquela noite era meu aniversário. O grande salão de festas da mansão Moretti era um testamento ao poder de Dante, cheio da elite do submundo da cidade. O ar estava pesado com fumaça de charuto e o cheiro de perfume caro. Era tudo um gesto grandioso e vazio.

Ouvi convidados murmurando sobre os cinco anos de "devoção" de Dante, como ele manteve uma vela acesa por seu amor perdido. A ironia era um gosto amargo no fundo da minha garganta.

Então, as portas se abriram. Dante fez sua grande entrada. Mas ele não estava sozinho. Em seu braço estava Sienna, parecendo radiante em um vestido do tom exato dos meus olhos. Segurando sua outra mão estava Luca. E andando ao lado deles, radiantes de orgulho, estavam meus próprios pais. Uma Famiglia perfeita.

Um associado ao meu lado ofegou. "Meu Deus, a semelhança..."

Sienna deslizou em minha direção, seu sorriso gotejando uma simpatia tão falsa que era quase transparente. "Feliz aniversário, Helena."

Luca me encarou por trás das pernas dela. "Diga obrigada", ele exigiu, sua pequena voz atada com um veneno que não era dele. "Ela é minha mãe. Você é a má."

Antes que eu pudesse reagir, minha própria mãe interveio. "Não seja mesquinha, Helena", ela repreendeu, sua voz um silvo baixo. "Somos todos uma Família agora. Tente se dar bem."

O peso de sua zombaria coletiva me pressionou. Sienna desempenhou seu papel perfeitamente, seus olhos se enchendo de lágrimas enquanto ela afirmava que Luca havia insistido que ela viesse, que ela não queria se intrometer. Ela me entregou um presente lindamente embrulhado. Eu o aceitei com um sorriso que parecia vidro rachando.

A multidão começou a clamar pela surpresa de Dante.

Ele se moveu para o centro da sala, seus olhos encontrando os meus. Então, ele se ajoelhou. Ele produziu outra caixa de anel.

"Eu o mandei reforjar durante a noite", ele anunciou para a sala silenciosa. "Para corrigir o erro."

Ele abriu a caixa. Dentro havia um novo anel de safira, idêntico ao primeiro. Ele o deslizou no meu dedo. Desta vez, era um ajuste perfeito.

"A mais perfeita", ele disse, sua voz um murmúrio baixo destinado a todos ouvirem. "Sua 'única'."

Eu não senti nada. O anel era apenas um peso frio e pesado no meu dedo.

Um bolo foi trazido, em chamas com velas. A multidão aplaudiu para que eu fizesse um desejo. Fechei os olhos, os rostos dos meus pais, do meu filho e do homem que um dia amei piscando por trás das minhas pálpebras.

Respirei fundo e soprei.

Quando a última chama morreu, falei no microfone que Dante estendeu para mim. "Meu desejo é... que só exista uma de mim neste mundo."

O ar na sala ficou parado. Sienna entendeu a ameaça imediatamente. Um soluço engasgado escapou de seus lábios, e ela se virou e fugiu do salão.

Minha mãe agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele. "Como você pôde ser tão cruel?"

O rosto do meu pai se tornou uma máscara de fúria fria. Ele se virou para Dante, que ainda estava ajoelhado aos meus pés. "Dante, vá atrás dela! Traga-a de volta!"

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