Capítulo 2

Minha mente vagueia até memórias do meu último relacionamento amoroso, e isso me faz beber a vodka em um gole. Prefiro a ardência do álcool do que as memórias de uma traição traumática.

Parece que todos os meus relacionamentos terminam de forma traumática, é como uma sina. Diego, Peter, Ian, Otto... Todos eles partiram meu coração.

A cada copo de álcool que eu ingiro, mais eu penso em como a vida pode ser uma droga às vezes, na verdade, quase sempre. Parece uma piada sem graça de um ser superior que apenas me criou para ver a desgraça e se divertir às minhas custas.

Me viro em direção ao bar e sinto alguém sentar ao meu lado.

— Well, well, olha quem temos aqui. – A voz rouca soa debochada.

Sinto um calafrio na espinha ao ouvir o sotaque norte-americano tão conhecido por mim. Olho para o meu lado direito e vejo Otto usando um terno preto. Suas tatuagens no pescoço estavam parcialmente cobertas pelo tecido do terno, sua pele morena fazia contraste com seus olhos castanhos claros e seu cabelo loiro escuro.

Seu bigode tinha as pontas viradas para cima, Otto passa sua mão na ponta de seu bigode e sorri sarcasticamente. Eu o odiava intensamente, mas não podia demonstrar devido ao evento.

— Estou surpresa de vê-lo aqui no Rio de Janeiro tão cedo... – Sorrio com falsa simpatia. – Achava que você estava cuidando da empresa de seu pai e não tinha largado a carreira de fotógrafo?

Seu sorriso fica confiante. Ele sempre amou falar de seus feitos e conquistas, sabia como evitar brigas com ele. Era fácil, apenas usar seu ego ao meu favor.

— Na verdade, vim visitar a família da minha noiva. Temos uma boa notícia para dar. – Sua voz soa provocativa.

Por um segundo, fico em choque, e ele percebe isso. Seu sorriso vitorioso cresce. Noivo? Terminamos há dois meses e ele já estava noivo?

Nossa relação sempre foi conturbada. Ele dizia coisas que eu queria ouvir no início, sempre foi um homem manipulador que sabia usar sua lábia para conseguir o que queria. Ele era encantador, um homem gentil e engraçado. Sabia como fazer uma mulher feliz na cama e fora dela. Mas com o tempo, ele se tornou seco, grosseiro, cruel, rude e não me dava mais tanta atenção como antes.

Morávamos juntos, e um dia eu cheguei cedo do trabalho e o vi na cama com outra mulher, minha melhor amiga para ser específica. Ester e eu éramos amigas desde os 4 anos de idade, crescemos juntas como irmãs, e jamais pensei que algo assim pudesse acontecer. Nesse dia, minha vida mudou completamente. Ele terminou comigo em pleno dia do nosso aniversário de namoro. Desde esse dia, tenho evitado a família; sempre dizem que meus relacionamentos não vão dar certo, e eles sempre têm razão. É como se eles soubessem que nada vai dar certo em minha vida amorosa.

A vergonha me fez evitar telefonemas e visitas, mas me arrependo disso. Se não fosse por minha ausência, eu saberia que a vovó precisava de mim.

Bebo um gole do meu drink, sentindo minha garganta se fechar com as lembranças.

Vamos, Anna, não vá chorar agora!

— Pela sua reação, acho que você não sabia que a Ester e eu ficamos noivos há dois meses, você anda desinformada, my angel. – Seu deboche vem acompanhado de uma risada sarcástica.

"My angel". Ao ouvir seu antigo apelido carinhoso soando de forma tão sarcástica, sinto um embrulho no estômago.

— Não chamaria especificamente de desinformação, apenas não tenho tempo para assuntos tão triviais. – Sorrio, escondendo meu ódio.

Escuto seu resmungo e sua testa se enruga. Otto bebe um gole de seu uísque e sorri sarcasticamente.

— É uma pena não saber da última novidade. – Ele se aproxima e sorri. – Irei ter o prazer de informá-la de que Ester e eu vamos ter um bebê.

Sinto meu corpo se arrepiar e meus olhos se arregalam. Otto sorri como se saboreasse minha surpresa, movimenta seu copo, fazendo os cubos de gelo se chocarem, e ri.

— Ela está grávida de 18 semanas. – Ele volta a falar. – É extraordinário saber que vou ter meu filho, uma criança em meus braços, como sempre desejei.

Dezoito semanas? Isso são 4 meses! Sinto minhas mãos tremerem e meu copo cai no chão, se partindo com o impacto. Pessoas do bar me olham curiosas, e as lágrimas caem pelo meu rosto.

Sempre quis ter um filho, e ele sempre dizia que era algo que ele nunca ia querer... Agora está tudo claro, ele não queria ter um filho, pelo menos não comigo.

Ele apenas me usou, eu fui apenas um brinquedo para ele. Compartilhei toda minha vida, meus segredos mais íntimos, confiei nele.

Sua risada ecoa pelo bar como se ele tivesse ouvido a melhor piada do mundo. Em um único gole, Otto bebe seu uísque e bate com seu copo na bancada do bar.

— Um uísque para a jovem moça por minha conta, acho que ela vai precisar! – Otto fala com humor antes de se levantar.

Ele sorri vitorioso para mim e joga um beijo.

— Você sempre foi tão dramática e sensível, my dear. Eu nunca quis ter um relacionamento sério com você... – Seus olhos ficam escuros e um sorriso cruel surge em seu rosto. – A única coisa que me fez te aturar por dois anos foi sua caretice de querer ter um namorado. Nunca te ocorreu que um cara como eu apenas queria seu corpo?

Meu corpo treme com sua aproximação. Otto

 seca minhas lágrimas com sua mão e faz uma falsa expressão de tristeza antes de rir.

— Oh, my angel, você é tão inocente… – Ele acaricia meu rosto. – Logo você, que se diz tão esperta.

Bato em sua mão, afastando-a de meu rosto. O enjoo toma conta de mim; estava me sentindo podre, inútil, burra. Apenas desejava chorar em minha cama.

— Não toque em mim, verme nojento. – Rosno entre dentes.

Um sorriso maligno surge em seu rosto, Otto ajeita seu bigode e gargalha, atraindo a atenção das pessoas ao nosso redor.

— Você realmente é muito previsível. – Ele fala com deboche. – É até sem graça provocar você.

— Não pense que você saiu ganhando nessa. – Minha voz sai fria, e um sorriso perverso surge em meu rosto. – Você sabe que sei exatamente o poder que tenho em mãos, não é mesmo?

Seus olhos ficam agitados, e ele suspira inquieto.

— Como ousa? – Ele fala entre dentes.

Otto podia ser cuidadoso, mas tinha acesso a algumas informações suas, sabia de muitas coisas de seu passado, inclusive coisas que acabariam com sua imagem perfeita, com seu relacionamento "perfeito".

Ele segura meu braço, e seus olhos ficam completamente negros.

— Não se esqueça de quem eu sou, Anna. – Sua voz soa sombria. – Não se esqueça do que posso fazer com todos que ama.

Meus olhos tremem, e sinto meu estômago doer.

— Você não ousaria… – Sussurro, sentindo meu coração acelerar.

— Pague para ver. – Otto fala com uma sobrancelha arqueada.

Puxo meu braço com força, me livrando das mãos de Otto. Ele era um verme, um monstro.

Ester surge no meio da multidão, e sinto minha cabeça girar. A ruiva me encara de cima a baixo, seu cabelo cacheado estava solto, e seus olhos castanhos brilhavam ao ver meu estado.

— Vamos, amor, você não vai ficar perdendo tempo com essa daí, né? – Ester força a voz para parecer fofa, e isso me faz sentir nojo.

Otto dá um selinho nos lábios vermelhos de Ester, e ela sorri.

Antes de se misturar à multidão, ele dá sua última cartada.

— Foi um prazer encontrá-la, my angel, devemos fazer isso mais vezes. – Otto pisca e sorri.

Sem controlar meu corpo, corro em direção ao banheiro, empurro a porta do sanitário e me abaixo. Sinto a ânsia, e toda a bebida sai do meu corpo quando meu estômago se contrai.

Limpo meus lábios com um papel e começo a chorar, sentada no chão.

Soco o chão até minhas mãos doerem, e minhas unhas cortarem a palma de minhas mãos. O ódio pela vida corre em meu corpo, a sensação de vazio e desesperança são tão grandes que me fazem querer desistir de tudo.

Grito de desespero, sentindo meu corpo cair deitado no chão frio do banheiro, e os soluços tomarem conta do meu ser.

A imagem de minha avó me ajudando a treinar para concursos de beleza e desfiles de moda vem em minha mente, a pequena Anna aos 6 anos sonhando em ser modelo e tendo o apoio de sua avó. Milhares de "nãos" recebidos, concursos e desfiles fracassados, lágrimas sendo limpas pela vovó.

Me levanto do chão, dando fim à autopiedade. Eu sempre fui forte, dei tudo para chegar onde estou, batalhei muito para conquistar minha carreira, e não seria um ex idiota que iria quebrar meu espírito. Me olho com determinação no espelho, limpo meu rosto e agradeço mentalmente a Priscila por insistir que eu comprasse maquiagem à prova d’água.

Arrumo meu cabelo e respiro fundo, ajeitando meu vestido, confiro meu hálito e faço uma careta ao sentir o cheiro de álcool.

Capítulo 3

Saio do banheiro sentindo a determinação que estava adormecida em mim, talvez devido à quantidade absurda de álcool que consumi durante a noite.

Um garçom passa por mim, pego uma taça de champanhe e caminho em direção à varanda do salão.

Suspiro antes de tomar um gole da bebida, olho para a paisagem da praia e escuto o som das ondas.

Minha mente vagueia em pensamentos melancólicos e depressivos. A lua refletindo no mar me traz um pouco de paz em meio ao caos que toma conta da minha mente.

Sinto alguém se aproximar, olho para o lado e vejo um homem alto usando um terno azul escuro. Seus olhos pretos estão fixos no mar, e em sua mão há um copo de uísque.

— É uma bela vista, não acha? – Sua voz rouca preenche o espaço.

— Sempre gostei de praias, especialmente em noites de lua cheia. – Sorrio timidamente. – Acho que quem construiu este restaurante escolheu o local perfeito.

O homem me observa por alguns segundos, seu cabelo preto é agitado pela brisa, e ele passa a mão pelos fios lisos, o que o faz parecer ainda mais bonito.

Ele se aproxima do muro e colhe uma rosa vermelha de uma pequena roseira. Seus olhos encontram os meus, e o brilho da lua os torna sedutores.

— É um prazer conhecer uma jovem tão bela quanto você. – O misterioso homem me entrega a rosa e segura minha mão, beijando-a sem quebrar o contato visual.

Minhas bochechas coram, e um arrepio percorre minha pele quando sua mão toca meu pulso.

— Pode me dizer o nome dessa linda mulher? – Sua voz rouca parece me hipnotizar, e sinto como se meus pés não tocassem o chão.

Tomo o último gole do champanhe, e minha boca fica seca devido ao nervosismo.

— Eu... eu... – Gaguejo e suspiro. – Eu me chamo Anna.

Seu rosto é difícil de ler, sempre com expressões neutras e um olhar sedutor. Seu maxilar bem definido o torna atraente, com a barba curta, lábios volumosos e rosados que lhe dão um toque especial.

Embora a brisa esteja fria, sinto o calor percorrendo meu corpo.

Acho que observei seus lábios por muito tempo, pois agora ele sorri de forma maliciosa. Desvio o olhar para a festa e vejo Priscila dançando enquanto beija o homem misterioso. Sorrio de lado.

— Pelo visto, sua amiga está se divertindo bastante. – Ele comenta com humor. – Quer dar uma caminhada pela praia e esquecer um pouco essa festa?

O olho, e ele estende a mão com um sorriso convidativo. Aceito, segurando sua mão timidamente.

Ele abre o pequeno portão da varanda, e descemos a escada correndo. Meus saltos afundam na areia, e sem soltar sua mão, tiro meus sapatos e os deixo na escada. Corremos em direção ao mar, e ele me puxa para a água.

— Você é maluco! – Grito entre risadas. – Vamos ficar molhados!

Sua risada faz o ambiente parecer mais leve. Sem nenhum aviso, ele me pega no colo e entra no mar, molhando seu terno caro.

Minhas risadas histéricas são abafadas pelo som das ondas.

— Um pouco de água não vai nos matar. – Ele fala entre risadas. – Deveria relaxar um pouco.

Estamos claramente embriagados, agindo como duas crianças brincando na praia. Nossas gargalhadas são abafadas pelo som do mar.

Caímos no chão, e seu corpo fica sobre o meu. Sua boca está a centímetros da minha, e seus olhos me encaram com desejo.

Em um impulso de mistos de emoção, o puxo pela gola e faço nossos lábios se tocarem. Sua boca se abre, e sua língua pede passagem. Abro minha boca permitindo que ela entre. Nossas línguas se encontram, e solto um gemido ao sentir o gosto de canela. Sua língua explora minha boca com desejo, minha perna se apoia em sua cintura, e sua mão vai para minha nádega, apertando-a. Minhas mãos passam suavemente as unhas por sua nuca, e ele solta um suspiro.

Sua mão passa pela minha perna e a abre, movendo-se lentamente pela parte externa da minha coxa e apertando-a.

Céus, estou quase transando na praia com um desconhecido! O empurro, e seus olhos me encaram confusos.

— Me desculpa, eu geralmente não tenho relações casuais... – Quebro o contato visual, e minhas bochechas queimam. – Céus, eu não costumo sair por aí aos beijos com desconhecidos. Acho que devo ter bebido demais.

Ele suspira e se levanta. Nossos olhares se encontram novamente, e ele oferece a mão para que eu me levante, timidamente aceito.

— Eu entendo você, também não sou um homem de relações casuais. – Seu sorriso me tranquiliza.

Sou puxada pela cintura, aproximando nossos corpos, e seus olhos brilham com um sorriso malicioso, causando arrepios em mim.

— No entanto, não posso negar que foi bom sentir seus lábios nos meus e seu corpo em minhas mãos. – Seus lábios sussurram em meu ouvido antes de me soltar.

Corada, vejo-o andar em direção ao restaurante. Fico sem reação por alguns segundos.

Ao vê-lo subir a escada da varanda, tenho a completa certeza de que estou totalmente bêbada.

Passo as mãos em meu rosto e olho para o oceano. Que tipo de pessoa eu sou? Basta apenas uma mistura de emoções para que eu faça algo que é totalmente contra o que eu sou?

Subo a escada após colocar meu salto, o procuro pelo ambiente, mas não o encontro. Sinto uma leve curiosidade em mim, mas ela é logo apagada com a chegada da mensagem de Igor avisando que havia chegado para me buscar.

Ando em direção à saída do salão, recebendo alguns olhares curiosos por estar encharcada e com areia em meu corpo, apenas sorrio escondendo minha vergonha.

— Minha nossa, te procurei a noite inteira. – Priscila fala se aproximando, e isso me assusta. – Pelo jeito você resolveu dar um mergulho noturno.

Sua risada brincalhona faz minha bochecha corar.

— Não é isso… Tive uma noite difícil. – suspiro. – Otto apareceu aqui para jogar em minha cara toda sua vida perfeita.

Seus olhos se arregalam e uma expressão de raiva surge em seu rosto.

— Não acredito que aquele verme nojento apareceu aqui. – sua voz soa como um rosnado furioso.

— Ele ficou noivo daquela… – fecho os olhos e suspiro. – Eles vão ter um bebê.

Priscila me olha com tristeza, sua mão passa em meu ombro de um jeito protetor.

— Oh amiga… nem imagino como deve estar sua cabeça. – Ela fala com tristeza enquanto acaricia meu ombro.

— Sabe a pior parte? – ri amarga. – Ela engravidou enquanto namorávamos ainda. Ela está grávida de 4 meses.

Priscila passa a mão em seu rosto e bufa irritada tentando reprimir sua raiva, era evidente seu ódio.

— Como eu odeio esse cara! – ela fala andando de um lado para o outro. – Ele é um miserável!

As pessoas olhavam a cena curiosas, sinto minhas bochechas esquentarem e a vergonha tomar conta de mim.

— Ei, calma. – seguro seus ombros. – Vamos sair daqui, que tal?

— Não dá… você sabe que estou responsável pela recepção dos convidados e apresentação dos artistas do show da noite. – Seu olhar se torna cansado e ela suspira antes de me dar um abraço.

— Você vai se sujar! – falo nervosa. – Estou molhada e coberta de areia!

Priscila desfaz o abraço e sorri gentil, o brilho voltou ao seu rosto.

— Sempre preocupação com as pessoas. – ela aperta minha bochecha. – Você é uma fofura.

Um homem alto e elegante se aproxima de nós e fala algo baixo o suficiente para que apenas Priscila escute; Priscila concorda com a cabeça, e ele se afasta.

— Mon amour, peço desculpas. – seu sorriso cresce em seu rosto. – Mas chegou a hora de apresentar as atrações da noite.

— Tudo bem, já estava de saída. – olho a tela de bloqueio do meu celular. – Acho que a essa hora o motorista da agência já deve ter chegado.

Me despeço de Priscila e antes de sair do salão, dou uma última olhada ao redor em busca do homem misterioso, mas não o encontro.

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