Astaroth permanecia diante dela, sólido como uma estátua de sombras, e ao mesmo tempo etéreo como um sonho. Seus olhos, vermelho-âmbar, pareciam examinar cada centímetro da alma de Selene. A vela que ainda ardia lançava luz sobre sua pele pálida, revelando traços quase humanos... quase. A beleza dele era de outro mundo: selvagem, cruel e sedutora.
Selene recuou, tropeçando na borda do tapete antigo da biblioteca.
- Isso... isso é real? - ela perguntou, a voz entrecortada pelo medo e pelo fascínio.
Astaroth não respondeu de imediato. Em vez disso, se aproximou lentamente, com um andar hipnotizante. A cada passo, o ar ao redor parecia ferver em tensão. Seu cheiro era uma mistura de madeira queimada, terra molhada e um perfume que Selene não conseguia identificar, mas que a fazia estremecer.
- O que é real para você, Selene? - ele perguntou, com um sorriso que desafiava a sanidade. - O toque da pele? O arrepio da alma? Ou o desejo que pulsa em seu ventre mesmo enquanto me teme?
- Eu não desejo você! - ela rebateu, embora suas pernas vacilassem. - Eu só... li as palavras do livro. Não sabia que era verdadeiro.
- Ah... - Astaroth tocou o queixo com os dedos longos, elegantemente afiados. - Então você brincou com o fogo esperando não se queimar?
Ele chegou tão perto que ela pôde sentir o calor de sua pele, mesmo sem que houvesse contato.
- Eu... quero que você vá embora. Volte para onde veio.
Astaroth inclinou a cabeça, como um predador brincando com sua presa.
- Eu não sou um espírito à deriva, Selene. Não sou um fantasma que você pode expulsar com sal e latim. Fui invocado. Você me chamou. E agora estou aqui... inteiro... faminto.
- Faminto por quê? - ela perguntou, sentindo o estômago revirar.
- Por você.
A resposta veio carregada de uma intensidade quase física. O ar ficou pesado, e Selene teve que se apoiar na estante para não cair. Seus batimentos cardíacos retumbavam em seus ouvidos.
- Eu sou uma humana. Frágil. Mortal. Você pode ter qualquer alma, por que a minha?
Astaroth se aproximou ainda mais. Seus lábios estavam a poucos centímetros dos dela. Seus olhos não deixavam os dela nem por um instante.
- Porque a sua luz brilha no escuro, mesmo sem você perceber. Você tem algo que muitos perderam há séculos... um desejo de sentir tudo - o prazer, a dor, o medo, o êxtase. Você é o tipo de mulher que caminha até a beira do abismo... e olha para baixo, sorrindo.
Selene engoliu em seco. O demônio estava certo. Havia uma parte dela, uma parte que sempre fora silenciada, que desejava algo além da rotina... além do mundano. E agora, ali, sob os olhos daquele ser impossível, essa parte se retorcia como uma cobra despertando do sono.
- O que acontece agora? - ela perguntou, num fio de voz. - Vai me devorar?
Astaroth riu suavemente, sua voz vibrando como um trovão abafado.
- Não, Selene. Eu não devoro. Eu possuo. E se me permitir... posso mostrar prazeres que fariam os deuses corarem.
Ela deveria correr. Gritar. Chorar. Mas não fez nada disso. Em vez disso, ficou ali, paralisada, não mais apenas pelo medo, mas por algo mais forte: a curiosidade... e o desejo.
- Você... não pode me obrigar.
- Eu jamais forçaria. A paixão verdadeira não nasce da submissão, mas da rendição. - Ele estendeu a mão. - Quer me conhecer, Selene? Quer saber até onde consegue ir antes de se perder?
Selene olhou para aquela mão. Os dedos elegantes, a palma estendida, como uma promessa e uma maldição ao mesmo tempo. A chama da vela tremulava, lançando sombras dançantes nos olhos dele.
Ela não respondeu. Não ainda. Mas seu coração já havia dado o primeiro passo.
O tempo parecia ter parado desde que Astaroth estendeu a mão. Selene a encarava, imóvel, como se sua alma estivesse sendo puxada em direções opostas - uma, tentando protegê-la, a outra, implorando para se perder nele.
- Está hesitante - disse Astaroth, sua voz aveludada cortando o silêncio. - Gosto disso. Significa que ainda resta algo em você que luta... mas por quanto tempo?
Selene respirou fundo, reunindo forças que ela não sabia que ainda possuía.
- Isso não é um jogo, Astaroth. Eu não sou uma peça para você manipular. Não vim buscar isso.
- Ah, minha doce Selene... - ele respondeu, com um sorriso que dançava entre o afeto e a malícia - ninguém vem buscar o que encontra no abismo. Mas uma vez que você o encara... ele devolve o olhar. E o que vê, jamais será esquecido.
Ela fechou os olhos por um instante. O cheiro dele a envolvia, quente e inebriante, como incenso proibido. A sensação era perigosa... viciante. Quando abriu os olhos, ele ainda estava ali - real, tangível, esperando.
- Eu não confio em você - ela murmurou.
- Nem deveria - ele respondeu, aproximando-se a um passo. - Sou a personificação da tentação. Um anjo caído que aprendeu a amar o desejo tanto quanto odeia o céu. Mas posso fazer você sentir... coisas que ninguém mais pode.
- Por que eu? - Selene perguntou novamente, sua voz quase quebrando. - Dentre tantas almas... por que escolher justo a minha?
Astaroth a observou por alguns segundos. Pela primeira vez, sua expressão perdeu um pouco da arrogância sedutora e se tornou mais... introspectiva.
- Porque você tem o dom raro de ver a beleza na escuridão. Porque há dor em seus olhos... e fome em seu coração. Você deseja algo que a maioria nega até para si mesma. Liberdade. Intimidade verdadeira. Entrega sem máscaras.
- Isso não é justo. - Selene desviou o olhar. - Você fala como se me conhecesse mais do que eu mesma.
- Talvez eu conheça. - Ele ergueu a mão, não para tocá-la, mas para deixá-la perto o suficiente de seu rosto, fazendo com que sentisse o calor irradiando. - Você passou a vida tentando se encaixar, apagando sua intensidade para não assustar os outros. Mas aqui... comigo... você pode ser inteira.
Selene mordeu o lábio, o corpo tremendo não só de medo, mas de excitação e dúvida. Aquilo era loucura. Era perigoso. E mesmo assim, uma parte dela gritava para que dissesse "sim".
- E se eu me render? - sussurrou. - O que acontece comigo?
Astaroth inclinou-se, os lábios quase roçando os dela. Sua respiração era quente, e cada sílaba saiu como uma carícia:
- Você vive. Finalmente... vive. Sem correntes, sem mentiras, sem limites. Eu não prometo salvação, Selene. Prometo intensidade. Verdade. Prazer. Mas também dor. O tipo de dor que desperta... e não destrói.
Por um segundo, tudo ficou em silêncio. Nenhum som lá fora. Nenhum pensamento claro em sua mente. Só aquele momento entre o sim e o não. Entre a luz e a escuridão.
Selene ergueu os olhos, encostando os dedos nos de Astaroth, sem ainda segurá-los.
- E se eu mudar de ideia? - perguntou.
- Então você aprenderá que o desejo, quando tocado, não se desfaz... ele se transforma. Mas nunca desaparece.
Ela fechou os dedos, envolvendo os dele.
- Então me mostre... quem você é de verdade.
Astaroth sorriu, e naquele sorriso havia algo mais profundo. Não apenas luxúria. Havia respeito. Admiração. E, talvez, algo mais perigoso ainda... afeto.
- Com prazer, Selene.
Ao toque das mãos, uma onda de energia percorreu o corpo dela. As velas tremeram, e o ar da sala se aqueceu num segundo. Imagens passaram por sua mente - visões de lugares desconhecidos, mundos em chamas, memórias que não eram suas. Era como ser atravessada por mil existências ao mesmo tempo.
Ela caiu de joelhos, ofegante, sentindo o chão girar.
Astaroth ajoelhou-se à sua frente, colocando a mão em sua nuca, sustentando-a com cuidado.
- Calma... isso é só o começo. Está sentindo o peso da verdade. Não é leve, eu sei.
- O que você fez comigo? - ela sussurrou.
- Abri seus olhos. Agora você verá o mundo como ele realmente é.
Selene ergueu o rosto lentamente, e ao olhar para ele, já não era mais a mesma. Algo dentro dela havia sido despertado. Algo que não poderia mais ser esquecido.