Geovana
Abri os olhos e em seguida uma sensação estranha me abateu, mas não soube descrevê-la. A luz entra forte pela janela e eu pisco, estranhando a forte luz que adentra meu quarto, já que normalmente desperto quando a luz ainda está fraca e suave. Uma urgência me toma ao lembrar o que isso pode significar.
Pulo da cama e vou até a mesinha pegar meu celular para verificar as horas, mas percebo que ele descarregou durante a noite.
— Merda!
Xingo ao constatar que estou atrasada e nem sei o quanto. Cheguei meio chapada em casa e fui deitar, me esquecendo de colocar o celular para despertar. Hoje não é um bom dia para chegar atrasada, já que eu teria que informar ao meu chefe que vou tirar nove dias de férias, dez na verdade, pois tem a viagem para São Paulo um dia antes da saída do cruzeiro. Trabalhando há cinco anos na empresa sem nunca tirar férias, é mais que o meu direito tirar esses dez dias. Mas o atraso o deixará irritado, o que poderá dificultar as coisas para mim.
Ligo a TV e coloco no canal de notícias que tem a hora na tela o dia inteiro e então eu levo um susto. Nove horas da manhã. Eu levanto as seis, saio de casa seis e meia e chego no escritório sete e meia para abri-lo as oito com tudo bem organizado. A mesa do chefe e seus associados, a minha própria mesa e a agenda. Sempre cheguei nestes últimos cinco anos exatamente meia hora antes de meu expediente começar. E agora estou uma hora atrasada, sem contar o tempo de percurso até lá, nem se eu chamasse o carro de aplicativo teria como compensar meu atraso.
— Merda dupla.
Coloco meu telefone para carregar enquanto vou me arrumar, e faço isso em tempo record. Em dez minutos, saio de casa com meu telefone a dez por cento e empurrando meio dúzia de biscoitos goela abaixo. Vou andando rapidamente até o posto de saúde da minha rua, vou tentar pegar um atestado médico.
Ligo para o escritório e o Dr. Carlos, muito bravo, atende ao telefone que eu deveria atender.
— Ah, Dr Carlos, precisava mesmo falar com o senhor.
Falo torcendo o nariz e o dedo. Só falta ter tido muita sorte em um dia e o resto de meus dias de puro azar.
— Geovana? Por que não chegou ainda?
— Liguei por isso, Dr. Carlos, estou muito doente hoje, acordei com dor de cabeça e febre e estou na fila do posto. — Até fingi uma tosse meio desengonçada, só não sei se é o suficiente para enganar ao advogado.
— Não vem trabalhar, hoje? — Cachorro, nem pergunta se eu estou bem ou se preciso de alguma coisa, já pergunta se vou faltar.
— Eu vou, é claro, assim que for medicada seguirei para o trabalho, mas a fila está tão grande...
Olhei a fila de espera e vi que aquela fila já esteve muito maior em outros dias.
— Chegue após o horário de almoço e com um comprovante de comparecimento, junto com uma receita médica.
— Tudo bem, Dr. Carlos, pode deixar.
Ele desligou em seguida sem nem mesmo falar um mísero “tchau” ou um “Tenha um bom dia” ou somente um “melhoras”. Falta de educação vemos aqui. Suspiro com o pensamento e dou o primeiro passo na fila de atendimento.
Depois de fazer a minha ficha, ainda fiquei esperando para ser atendida. Ao chegar no médico falei de dor no corpo e dor de cabeça, fiz um pequeno teatro, não sei se convenceu, pois ao pedir a declaração ele só ajeitou os óculos me encarando e preencheu o papel, junto com o pedido para que eu tomasse um determinado medicamento na enfermaria. Não tinha receita, apenas um pedido de retorno caso os sintomas continuassem.
Caminhei vagarosamente, fingindo dor, para a enfermaria, a procura de uma abertura qualquer e finalmente eu vejo uma. Entro e vejo que estou em um lugar cheio de vassouras e pilhas de roupas de cama emboladas, devem estar sujas; caixas amassadas, rodos, esfregões... ando rapidamente até ver uma luz ao final do corredor e sinto um grande alívio ao chegar no final dele, encontrando a saída.
Pena que ela dava para a lavanderia.
— Leva isso lá pra cima — só ouvi as palavras da mulher ao depositar uma pilha de lençóis em meus braços. Imediatamente pensei: mas e a luz que vi? Ao girar o pescoço, vi uma grade janela por onde entrava uma abundante quantidade de luz do Sol. Explicado.
— Mas eu...
— Não te ensinaram o serviço, ainda? São uns incompetentes mesmo, avisaram que teria funcionário novo, mas não falaram nada sobre ensinar o serviço — me interrompeu a mulher em seu monólogo e tudo o que eu queria era sair dali.
Olhei para mim mesma, e só então me dei conta que vestia um conjunto azul, o mesmo tom da roupa dos funcionários do posto. “Droga!” Por isso a pequena senhora me confundiu.
— Venha, eu vou te mostrar o serviço — falou ela já agarrando meu braço e me arrastando dali, um desespero me bateu. Olhei o relógio na parede, porque meu celular já morreu e eu não tenho um de pulso, aliás, preciso comprar. Observação anotada mentalmente com sucesso. Já são onze da manhã, ainda vou pegar um ônibus até o trabalho, almoçar e então chegar no escritório. Preciso sair daqui imediatamente.
— Não, não! Pode deixar que eu encontro o lugar.
— Tem certeza? — seus olhinhos miúdos brilham em esperança.
— Claro, eu posso encontrar o lugar, não se preocupe.
Ela sorriu voltando para seus afazeres.
Joguei os lençóis em cima das caixas no caminho e atravessei a saída por onde havia entrado, me lembrei de fingir dor novamente, vai que o médico está me observando.
Reduzi o passo, fiz careta e alisei a bunda. Deu tempo de tomar uma injeção, né, acho que sim. Atravesso a porta e vou para o ponto de ônibus, logo vem o coletivo e finalmente me parece que tive um pouco de sorte. Pego o ônibus vazio devido ao horário, nuca que eu ia trabalhar sentada. Sempre fazia o percurso de pé, salvo quando dava sorte de parar perto de alguém que saltava em um ponto até no máximo a metade do caminho. Porque depois disso, nem faz muita diferença.
Assim que relaxo no banco, me dou conta de que o papel não está na minha mão. Um frio percorre meu corpo. Não posso ter perdido tanto tempo a toa. Abro a bolsa e verifico dentro dela, vendo que não há nada ali. Bato com a mão na testa, me lembrando que possivelmente deixei os papéis junto com os lençóis sobre a caixa.
— Puta merda, que azar do cão, definitivamente hoje não é meu dia.
Fico pensando no que falar para o Dr. Carlos, ele vai acreditar em mim. Ao chegar, almoço e subo para o escritório
Explico a ele que acabei perdendo os papéis no ônibus, mas que ele pode pedir as câmeras do postinho que verá a minha imagem lá. Mas é óbvio que não fará isso. E já que estava enfrentando a fera, aproveitei e soltei o que precisava de uma vez.
— Tem mais uma coisa, Dr. Carlos. — Ele apoia os cotovelos sobre a mesa e me encara com aquele bigode branco enorme que mais uma parece uma mariposa gigante. — Eu ganhei o sorteio do cruzeiro, vou precisar ficar dez dias fora.
Peguei a revista em minha bolsa e coloquei sobre a mesa. Ele piscou muitas vezes, muitas vezes mesmo.
— Pode conferir o número da revista no site, se quiser.
— Dez dias?
— Senhor, eu trabalho há cinco anos no seu escritório. Nunca tirei férias, nunca cheguei atrasada, somente hoje. Sempre fiz o meu melhor para a sua empresa, só estou pedindo dez dias que é o que preciso para usufruir do meu prêmio.
Ele pega a revista, abre na parte da promoção e faz as mesmas observações que meu namorado havia feito. Confirmo tudo, o local, os dias, o fato de ser tudo pago.
Ele joga a revista na minha frente e fala:
— Vai ter que escolher: o prêmio ou o seu trabalho.
***
Adrian
Ainda bem que estava sentado, pois teria desabado no chão após a notícia. Meus joelhos perderam a força, minha boca se abriu e meus olhos se arregalaram.
— Como? — Ela riu como se eu tivesse contado a maior piada do mundo.
— Quer mesmo que eu te conte como? Eu tenho uma sugestão muito melhor, que tal relembrarmos o momento em que ele foi feito? — Ela fala e espalma a mão na barriga levemente elevada. Seria possível?
— Mas não temos nada há três meses, quase quatro! — exclamo — Como o filho pode ser meu?
Ela abre a bolsa, coloca alguns papéis sobre a mesa e se senta na cadeira do visitante.
— Aí está o laudo da ultrassonografia, o exame de sangue, e o que mais você quiser como prova estou disposta a fazer — ela muda seu tom de voz, agora falando sério, como poucas vezes a ouvi falar. — Nosso filho tem exatamente o tempo gestacional da nossa última relação, não estive com outro homem que não fosse você. Posso ser o que você quiser, mas não sou uma puta.
Aqueles olhos claros me encaram e ela prossegue.
— Logo depois do fim do nosso relacionamento, fui para Paris e Londres, passar uns dias na casa de parentes que eu tenho lá, você sabe. E qual foi minha surpresa quando os primeiros sintomas começaram a surgir? — Ela pisca e um sorriso malicioso brota em seu rosto. — A mesma ou até pior que a sua. Tomei coragem pra voltar e te contar, e aqui estou. Eu tenho direitos, você tem direitos e ele tem direitos. — Conclui espalmando a mão novamente.
Observo os documentos. Ela se levanta e vai pegar a cachorrinha que ainda passeia pela sala despreocupadamente.
— O que você quer? — pergunto após analisar os papéis e constatar que ela tem razão.
— Que você dê toda assistência a mim e ao nosso filho. Começando por um apartamento próximo ao centro comercial, não quero precisar me deslocar quilômetros até a clínica ou até o shopping.
— Vou pedir o exame de DNA.
— Até agora, meu bem. Não sei se já pode fazer, mas se puder, estou disposta. — Ela encara as unhas perfeitas e torce o nariz — Estas unhas estão um horror. Venho te visitar em breve, meu bombom, agora vou fazer as unhas.
Andando calmamente, ela abre a porta da sala e me deixa totalmente embasbacado.
Encaro a porta branca fechada e um peso enorme se instala sobre meus ombros, eu não precisava de mais um motivo pra me preocupar. Não precisava de algo a mais para pensar. Com tanto desvio de verba acontecendo misteriosamente, ainda preciso dar assistência a mãe do meu filho e ao meu filho quando ele nascer.
Passo os dedos por debaixo dos óculos, apertando minhas vistas que pesam com a exaustão. Escuto a porta se abrir.
— É verdade? — ouço a voz da minha mãe. Não queria encará-la agora, continuo apertando os olhos.
— Puta merda, mano, não sei se te dou os parabéns ou os pêsames. — Meu irmão fala. Pronto, agora tá formado. A tropa tá quase toda aqui, só falta surgir Ariane, minha irmã gêmea, aqui na sala do nada. Como às vezes costuma aparecer, farejando treta.
— Quem morreu? — gemo, pois é inacreditável. Ariane sente a treta a quilômetros de distância.
Solto o ar pesado antes de encarar minha família inteira na minha frente.
— Eu vou morrer em breve.
Sem entender nada, minha irmã encara a todos nós esperando resposta.
— O que a lambisgoia da Mirela estava fazendo aqui?
— Veio trazer a coroa de flores — falo com desgosto e minha irmã olha em volta da sala, provavelmente sem entender a piada sobre mim mesmo.
Acabo resumindo para ela o meu dia de merda e o golpe de misericórdia da Mirela.
— Grávida! — ela fala alto. — Mas é esperta, mesmo. Sempre disse isso a você, aquela lá nunca teve cara de boba nem de fútil e burra. Ela usa aquela máscara pra enganar os trouxas iguais a você.
— Nossa, muito brigado por chutar o morto — reclamo.
Ela vem na minha direção e me abraça.
— Ah, irmãozinho, eu sei que é muita coisa pra você, mas quantas vezes te avisei, não foi? Pelo menos sobre ela. Mas esse babado da empresa, isso é coisa bem grande.
— Tenho um plano para tentar descobrir alguma coisa sobre isso. Tudo o que pude fazer daqui de dentro eu fiz, agora preciso buscar outras fontes. Aqui não tem nada, a pessoa que fez isso é muito competente.
— E o que vai fazer? — Ela se senta na cadeira para ouvir meu plano, minha mãe se acomoda atrás dela e meu irmão apoia o quadril na minha mesa e cruza os braços.
Conto tudo o que tenho planejado.
— Parece um bom plano — ela fala — sabe que pode contar comigo, não é.
— Eu sei que posso contar com todos vocês — falo encarando a minha família que está toda na minha frente.
Depois da morte de meu pai, parece que nos unimos ainda mais. Jairo que não trabalhava na empresa, veio para cá para ajudar a dar continuidade ao projeto do papai, só Ariane que decidiu continuar sua carreira de designer que por sinal estava indo muito bem.
— Mas é verdade, mesmo? — meu irmão ainda questiona.
— Sabia que você era lerdo, mas nem tanto — fala Ariane para Jairo.
— Cala a boca, fedelha.
— Fedelho é tu. Eu sou mais velha que você, e mais nova que Adrian só três minutos.
— Parem já! — minha mãe chama a atenção deles — Caramba! Parece que tem três anos de idade!
Os dois bufam.
— Para esclarecer, sim, é verdade. Mirela disse que vou ser pai, tudo indica que é verdade, mas vou pedir o DNA pra confirmar. E agora, por favor, preciso começar a trabalhar em cima da minha viagem em poucos dias. Tenho que deixar tudo aqui em ordem, e não é com vocês no meu ouvido que vou conseguir.
Eles entendem a mensagem e deixam minha sala. Ariane me dá um beijinho na bochecha antes de segui-los.
Não é pouco o que preciso organizar.
Passo o resto do dia no escritório, mas ainda tenho muita coisa pelos próximos dias. Quando finalmente dá a hora do fim do expediente, Antonela se despede e eu fico ainda por mais meia hora, antes de desligar o computador e sair da minha sala.
Os corredores da empresa já estão vazios. Desço pelo elevador até o estacionamento e pego meu carro, havia poucos carros em sua vaga, a maioria já foi embora.
Quando meu carro se aproxima da saída do prédio, vejo uma comoção grande do lado de fora e não faço a menor ideia do que pode ser. Saio devagar, mas as pessoas começam a cercar meu carro.
“Que diabos está acontecendo?”
A jornalista ruiva da Maior TV da cidade vem na direção do meu carro. Ela trabalha naqueles programas de fofoca e já deve estar sabendo sobre a gravidez de Mirela, se bobear, foi ela que chamou a imprensa para me pressionar. E a jornalista já não gosta, né. Jade me persegue há alguns anos, sempre que surge qualquer historinha sobre a minha vida ela vem me cercar, nem sei porque não a esperava no dia de hoje.
Abro a janela, pronto para confirmar a suspeita de que serei pai, mas não é isso que ela pergunta e seu real motivo por estar aqui no dia de hoje é uma surpresa para mim.
— Senhor Adrian Brandão, é verdade que sua empresa está sofrendo rombos misteriosos e que o senhor vai embarcar no próximo cruzeiro apenas para investigar possíveis fraudes?
Ela estende o microfone na minha frente e eu não sei o que responder, afinal, como ela soube de tudo isso?
Geovana
— O quê? — questiono ao meu chefe totalmente incrédula de suas palavras — Eu nunca tirei férias, nunca!
— Mas nunca foi obrigada. — Ele se recosta em sua cadeira e cruza os braços, seu sorriso me irrita e fez um ódio descomunal ferver em meu sangue. — Posso desenterrar todas as folhas que você assinou ao longo dos anos. Vá atrás de seus direitos. — Seu sorriso expandiu ainda mais, e eu quase explodi.
— Se acha que vou abrir mão do meu prêmio por causa desse emprego de merda, está muito enganado.
— Que bom que o classifica como um emprego de merda, pois estou promovendo em seu lugar a Paulinha que acabou de assumir o seu posto.
Precisei muito me controlar para não voar no pescoço do homem a minha frente.
— Quer dizer que promoveu uma recém chegada a um cargo melhor, mas não me promoveu em todo esse tempo?
Ele só estalou a língua, mostrando que não tinha interesse em dar prosseguimento a conversa.
— Afinal, vai querer seu emprego de merda ou sua viagem de nove dias e se tornar mais uma na estatística de desempregada no Brasil?
Falando daquela forma, é claro que me tornar uma desempregada depois daquilo era algo assustador, mas eu não poderia mais ficar ali. O que mais eu sofreria naquele lugar somente por meu chefe saber que eu tenho medo de perder meu emprego? Não podia voltar atrás. Não depois de chamar meu emprego de “emprego de merda”.
— Minha decisão está tomada, Dr. Carlos. É uma pena que seja tão egoísta, eu tinha a intenção de trazer uma lembrancinha para o senhor.
Mentira, mentira. Aquela ideia nunca passou na minha mente, mas só pra alfinetar servia.
Não encarei sua face enrugada e joguei minha bolsa no ombro. Revoltada, resolvi voltar para casa, na verdade, me dirigi para a casa de meu namorado.
Pego o ônibus em direção a comunidade onde ele mora em uma vila de casas, não era muito distante de meu apartamento, onde moraríamos depois de casados. Aquele apartamento foi minha melhor aquisição. Desde que comecei a trabalhar e ainda vivia com meus pais, que eu juntei a maior parte de meu dinheiro para comprar algo que fosse somente meu. Depois de três anos juntando o dinheiro, pude dar uma bela entrada em meu apartamento e por sorte, havia acabado de quitá-lo há poucos meses.
Chego na vila com casinhas pintadas de amarelo, e quando abro o portão, vejo duas mulheres cochicharem e rirem ao me ver passar. Finjo que não vejo e continuo meu caminho. Não sei se é impressão minha, mas há mais pessoas olhando para mim.
Passo a mão na saia, será que ela subiu e estou mostrando mais do que devo? Não. A saia tá OK. Olho o sapato, OK. Olho a blusa, não está aberta ou suja. Pego o celular e me olho na tela escura como se fosse um espelho, também não está suja ou com a maquiagem borrada.
Começo a subir as escadas em direção ao segundo andar da vila, onde a casinha de meu namorado fica. Guardo o celular na bolsa e ao chegar na casa, abro diretamente a porta, ao mesmo tempo que a risada do lado de fora me atinge e um gemido dentro do apartamento me alerta.
Paro. Escuto. Mais um gemido, e então um grito. Não era um grito qualquer, era um grito de mulher e de uma muito satisfeita pelo som que lhe escapa da garganta e da frase que acompanha a seguir.
— Vai, gostoso! Isso, ah, soca mais.
Eu gelo, pois ouço seu urro em seguida. Nem fecho a porta para não fazer barulho, ando até seu quarto a tempo de vê-lo desabar em cima do corpo nu da vagabunda.
— Willian! — grito e seu olhar cansado e pele suada me atinge em cheio. Além da dor, tinha a humilhação.
Todas aquelas pessoas rindo do lado de fora. O cansaço e desinteresse que ele vinha apresentando ultimamente e sempre colocava a culpa no trabalho. Que fazia tudo sozinho, que era autônomo.
— Geo... vana?
— Não, sou a rainha da Inglaterra e vou mandar cortar a sua cabeça! — grito.
— Cala essa boca, garota — a outra fala — Não sabe bater na porta da casa dos outros, não?
Definitivamente, de todas as maneiras possíveis, hoje não é meu dia.
— Sai dessa cama agora, sua vadia. — Jogo as peças de roupa espalhadas pelo chão sobre ela, e começo a arrasta-la pelos cabelos.
— Ai, sua doida, me larga. — A idiota de cabelão liso e preto como o carvão sai da cama, mostrando a bunda dela, coisa que eu não queria ver.
— Enfia essa roupa e sai daqui, antes que eu a empurre pelada mesmo.
Ela me olha confusa e eu resolvo explicar para a doida o que estava acontecendo, porque eu cheguei a conclusão que a outra era só mais uma pobre coitada sendo enganada pelo safado do Willian.
— Ele é meu namorado, íamos nos casar. Ele não te disse, não é? É um safado e mentiroso!
Os olhos da outra lacrimejarem, o que me fez acreditar que minha teoria estava correta.
— Eu posso explicar, amor...
— Cala essa boca, Willian. Nem olha na minha cara, passa bem longe de meu apartamento e para de enganar as pessoas, isso é muito feio.
Não sei de onde tirei a calma.
Somente me virei de costas e escutei a outra saindo de seu transe de enganação.
— Quer dizer que você tem uma namorada, seu cachorro?
— Tem, não. Tinha! — corrijo, ao sair do cômodo.
Escuto os estalos da mão da outra na pele de meu ex-namorado e caminho na direção da saída.
— Espere, Geo, me escute.
Bato a porta ao deixar a casa e vi que a rodinha estava ainda maior do lado de fora, as fofoqueiras, todas elas sabiam que ele estava com outra em seu quarto. Por isso os cochichos e as risadinhas.
Passo por elas sem nem olhar, mas então vejo que seus olhos e risadas não estão mais voltadas para mim e sim para o alto, no segundo andar de onde saí há poucos minutos.
Pedaços de roupas caíam pela janela do quarto. Gritos masculinos e femininos se misturavam. A garota cortava suas camisas, calças, cuecas, meias... tudo... e jogava pela janela do quarto.
Atravessei o portão com a promessa feita a mim mesma de jamais pisar naquele lugar.
Ao chegar no ponto de ônibus, pego meu telefone e sinto o choque do momento passar, a dor começa a me invadir, a realidade começa a se assentar em meu peito e em minha mente e um soluço explode por minha garganta. Uma torrente de lágrimas ganha a liberdade, escorrendo por meu rosto, deixando minhas bochechas molhadas.
Ligo para Nataly que me atende de imediato.
— E aí, sortuda, qual a novidade agora? — Ela fala alegremente, pena que dentro de mim não há uma gota de felicidade neste momento.
— O Willian, Naty, ele estava me traindo... — falo sem conseguir controlar o choro. Agradeço aos céus por estar sozinha no ponto e o ônibus estar demorando a passar.
— O quê? Não acredito, aquele filho da puta não podia fazer isso com você. Onde está?
— No ponto de ônibus na frente da Vila que ele mora.
— Sai desse ponto, agora, vai para o outro mais a frente. Vou te pegar lá.
— Mas... e seu trabalho, Nataly? Não pode largar o seu salão, assim. — falo já andando para o outro ponto de ônibus.
— As meninas ficam aqui pra mim. Respira fundo, compra uma água e engole esse choro. Não chorou na frente dele não, né, amiga?
— Não, estava em choque demais pra isso.
— Ótimo, ele pode ir atrás de você e te pegar de cara inchada. Compra uma água gelada e lava a cara, bebe e se acalma. Em casa você chora tudo o que puder.
Balanço a cabeça concordando, mesmo sabendo que ela não pode me ver.
— Tudo bem — respondo.
— Ótimo, já estou saindo.
Escuto o barulho das chaves em sua mão, antes da ligação ser encerrada. Faço o que ela falou e compro uma água gelada de um senhorzinho que aparentou preocupação me perguntando se eu estava bem.
Jogo um pouco da água no rosto, mas percebo que é melhor colocar a garrafa mesmo. Seguro-a contra os olhos e bochecha e já sinto refrescar a pele que antes estava quente. Tento afastar da mente o que eu vi, pois sempre que me lembro uma lágrima teima em escorrer.
Alguns minutos depois vejo o carro de minha amiga chegar, um lindo sedan branco que ela batalhou para comprar. Um carro é o meu próximo objetivo, ou era, pois agora estou desempregada.
Ela abre a porta preocupada e vem até mim e me abraça.
— Vem, Geo, entra no carro.
Fiz o que ela pediu, suspiro fundo e conto o que vi. Ela me ouviu, chocada. Nem ela desconfiava de Willian. E eu já estava esquecendo de contar a ela o que mais de ruim aconteceu neste dia.
— E isso não é tudo.
— O que ele fez? Não me diz que ele te bateu?
— Não, Naty. Meu emprego. Contei ao Dr. Carlos sobre meu prêmio e sobre precisar de dez dias, ele disse para eu escolher entre meu emprego e o prêmio.
Ela me observou com seus olhos injetados de raiva.
— Ele não fez isso.
— Fez.
— Processa ele, Geo.
— Ele é advogado, eu posso tentar, mas será difícil. Eu assinei um monte de papel pra ele. Agora até penso em ligar dizendo que me arrependi da decisão.
Desanimada. Libero meus ombros para frente, totalmente derrotada.
— E desistir do seu prêmio, amiga?
— Sozinha, Naty? O que eu vou fazer em um cruzeiro sozinha?
— Conhecer um gato maravilhoso que também esteja sozinho.
Eu ri dela, nunca que em um cruzeiro luxuoso como aquele eu encontraria outro azarado como eu. Pego meu telefone.
— Sem chances, Nataly, eu não vou. Vou é ligar pro Dr. Carlos. Chifruda já é bem ruim, chifruda e desempregada é bem pior.
Ela pega meu telefone e joga no chão do carro.
— Você vai nesse cruzeiro, sim, e vai encontrar um boy lindo lá.
Eu não fazia ideia se Nataly tinha razão ou não, mas o fato é que eu acabaria dentro daquele cruzeiro.
***
Adrian
— Tem nada acontecendo — respondo tentando levantar o vidro do carro para despistar, mas Jade empurra o microfone para dentro do veículo.
— Nossa fonte garantiu que havia rombos misteriosos, como o senhor explica isso?
— Sua fonte está enganada. Agora, me dê licença, por favor.
Começo a avançar com o carro lentamente, tentando fazer as pessoas se afastarem.
— O senhor vai mesmo embarcar em seu cruzeiro para investigação?
— Não tem o que ser investigado, querida. Por favor, me dê licença.
Ela ainda tentou insistir, mas me desviei de toda forma possível, e consegui fechar o vidro e sair com o carro.
Balancei os ombros e a cabeça, afastando a tensão que se formava. Meu telefone tocou e era minha mãe, mas não queria falar com ninguém, precisava colocar minha cabeça no lugar e decidir o que eu faria agora. Afinal, meu plano foi descoberto, e de alguma forma a informação que deveria ser sigilosa escapou.
Ao chegar em meu apartamento, retiro a camisa e o sapato e vou para a minha área de treinamento. Gosto muito de luta, e socar o saco de bater é minha forma de extravasar o que estou sentindo e colocar a mente no lugar.
Enrolo uma faixa nas mãos e começo a socar e chutar o saco de bater. Sinto o suor escorrer conforme me lembro da conversa de hoje com minha ex-namora e a notícia sobre ser pai. A realidade me atinge como um soco no estômago.
Eu quero ser pai um dia, mas não com uma mulher com quem nem consigo dialogar mais. Uma mulher que me persegue, que quer saber cada passo meu. Ter um filho em meio a essa circunstância é algo que eu não queria, mas se for verdade, não há o que ser feito além de aceitar a criança e criá-la com todo amor que ela merece.
Já estou totalmente lavado de suor, o cós da minha calça já está umidecido e minha pele molhada brilha. Chego a uma conclusão quando estou exausto e meus músculos doem: preciso embarcar nesse cruzeiro, essa informação só vazou porque é de interesse de alguém. Como que a imprensa ficou sabendo do rombo e da minha viagem, mas não ficou sabendo da gravidez?
Giro o corpo dando um último chute forte e certeiro no saco de bater. Vou tomar uma belo banho já decidido sobre o que farei.
Quando saio de meu banho com apenas uma toalha enrolada na cintura, vejo que meu telefone toca novamente. Desta vez atendo, pois sei que depois ouviria um mundo de coisas.
— Fala, mamãe. Acabei de sair do banho e estou morto de fome — falo caminhando para minha cozinha e preparando um sanduíche.
— Fiquei sabendo que a Jade te cercou na saída do prédio, o que ela queria?
— Ela perguntou sobre o rombo e sobre a minha viagem.
— Mas não era segredo?
— Era, mas de alguma forma isso vazou. — Coloco o pão com queijo na sanduicheira para aquecer o pão e derreter o queijo. Amo.
— E agora, o que vai fazer?
— De que adiantaria, mamãe. Se eu embarcar todos os envolvidos já sabem, então, mudança de planos. Vou contratar detetives.
— Sério?
— É, mamãe, não tem jeito. A senhora teria uma ideia melhor?
Ela fica em silêncio por um tempo e então responde.
— Não, meu filho, eu não tenho — suspira fundo e eu a acompanho no gesto.
— Bom, mamãe, meu lanche está pronto. Vou comer que estou cheio de fome.
Ela dá uma risada e se despede.
Não sei se há escutas pela casa ou pelo escritório; pessoas infiltradas; falsos amigos... por tanto minhas ideias estão guardadas só para mim, e durante o restante da semana não falei nada com ninguém nem mesmo falei sozinho dentro de casa. Meus novos planos estão em total sigilo, desta vez quero ver alguém descobrir.
***
Com apenas uma mochila nas costas e roupas escuras e um boné, entro sorrateiramente junto aos funcionários que embarcariam no navio. O cruzeiro partiria bem cedo, por isso os funcionários estavam a bordo antes mesmo do Sol nascer, e com a escuridão, tudo fica ainda melhor para mim.
Peguei o crachá de um funcionário que estava designado a embarcar naquela madrugada e a intenção era entrar no navio como se fosse o rapaz. Escolhi um funcionário com características semelhantes as minhas, é claro: negro, alto, cabelos quase que raspados, corpo atlético. O funcionário escolhido recebeu uma promoção inesperada, sendo obrigado a comparecer ao RH para receber as devidas instruções naquela manhã.
Enquanto o funcionário estaria todo feliz recebendo a sua promoção, eu estaria embarcando em seu lugar.
Passo o cartão do funcionário e meu acesso é liberado. Estando dentro do navio, o desafio maior seria me manter no escuro sem que ninguém me notasse.
Começo a me afastar da multidão que embarcou comigo, todos foram para a área reservada aos funcionários. Aquele seria o último lugar para que eu pudesse me acomodar, me descobririam rapidamente.
Alguns poucos seguiram caminhos diferentes, mas logo eu estava sozinho na imensidão do navio que eu conhecia como a palma da minha mão. Me dirijo até a área destinada aos quartos e invado um deles. Antes de embarcar verifiquei os quartos não confirmados. Às vezes algumas pessoas acabam desistindo das viagens ou reagendando e os quartos ficam vagos, são poucos casos, mas acontece e, por sorte, havia um quarto não confirmado. O que não era garantia de nada, mas era uma chance.
Invado o quarto com o número 34B. Jogo a mochila no canto e inicio minha jornada de investigação, queria ver a sala da diretoria. Àquela hora não estaria ocupada.
O navio entra em movimento.
Entro de fininho na sala e com uma lanterna que havia levado, começo a mexer nos papéis do navio. Até o momento nada de errado. Isso é frustrante. Mas algumas coisas não dá para analisar assim, às pressas.
Pego meu celular do bolso e tiro fotos dos papéis de contabilidade, vou analisá-los um a um no quarto. A hora avança e alguém pode entrar aqui e me descobrir, nesse caso, fim da investigação.
Abro a porta devagar e olho aos arredores, ouço vozes, mas ainda estão distantes. Me apresso em deixar o cômodo e me dirijo para o quarto. A luz natural começa a entrar pelas janelas do quarto que em nada lembrava que estávamos em um navio, o quarto parecia mais como um quarto de hotel.
Me sento na cama e começo a analisar as fotos tiradas. Uma a uma eu passo as imagens. Analiso número por número e me frustro por ainda não encontrar nada.
Sinto que o navio ancora e deixo o quarto por medida de segurança, está na hora do embarque. Sei que o quarto não será ocupado, mas haverá movimentação intensa nesta área até que todos se acomodem e a primeira atividade inicie.
Como ainda quero investigar a despensa, onde os tais vinhos de duzentos mil reais devem estar, me dirijo para lá.
O tempo passa enquanto estou na parte da despensa que havia sido reservada como adega, analisando item a item, e devo ter passado tempo demais, pois a movimentação nesta área aumenta. Mas encontro as tais garrafas superfaturadas. Eram poucas entre outras de marcas diferentes e compradas a preços normais. Mas diante da descoberta fico sem saber o que fazer. Não posso retira-las daqui, também não faria diferença já que elas foram apenas um objeto para favorecer toda a falcatrua, mas é uma prova de que elas existem. Pego meu celular e tiro fotos das garrafas no exato momento em que ouço uma voz falar comigo.
— Ei, rapaz, pegue os sacos de batata.
Me viro e encaro o homem e me lembro que aqui eu sou só um funcionário e muitos não vão me reconhecer, pois deixei a barba crescer um pouco e estou usando lentes de contato e não os costumeiros óculos. Além das roupas simples que estou usando.
Respirando aliviado pelo homem não ter me reconhecido, não tenho outra alternativa que não seja atender ao seu pedido.