Cresci nas vielas e ruas da favela Cidade de Deus. Digo isto, por quê realmente cresci neste lugar e nada nunca me aconteceu, mas não por não haver criminalidade, havia, mas por ninguém ser louco o bastante para mexer com a enteada do dono do morro.
Já fazia um bom tempo que meu padrasto comandava toda a favela e apesar da polícia querer tirá-lo a todo custo, vivo ou morto, ele perseverava e mantinha as coisas como achava certo.
Pode até parecer fácil para alguns minha vida, imaginarem que eu tinha uma vida com luxo, esbanjando dinheiro para todos os lugares que eu ia. Mas não era bem assim. Nossa vida estava em constante perigo e quando digo constante, é constante, não sabíamos quando a polícia iria invadir ou algum inimigo do meu padrasto.
Era difícil saber quando estava segura e quando não estava, só sabia que na favela era o lugar que estava mais segura, fora, era como se colocasse um alvo em minhas costas e pedisse para ser morta ou presa como associação ao tráfico.
Até aquele momento, havia passado toda a minha vida naquele lugar, não conseguia me imaginar em outro lugar e até conseguia, já que uma vez ou outra, saia da favela. Mas felizmente ou infelismente, aquela foi a saída que minha mãe encontrou para não morrermos.
Ela queria proteção e ela conseguiu, só que com isto, veio mais bagagem do que eu queria. Começando por Pedro Henrique.
Você pode achar que estou exagerando, que não é bem assim, mas é. Pedro Henrique faz questão de pegar no meu pé todo o santo dia, desde que começamos a morar na mesma casa.
Por quê? Não faço ideia.
No começo, achei que fosse por ele não aceitar que o pai começasse outro relacionamento, apesar da mãe dele não ter feito isto, por ter ficado paraplégica após um acidente de carro. Sempre me senti meio que...divida em relação à isto, quanto a minha opinião.
Nunca soube se ele fizera certo em seguir a vida dele ou se ele tinha que ter continuado ao lado dela, era difícil escolher qual lado eu ficaria. As vezes me colocava no lugar dela, deste modo iria querer que ele continuasse ao meu lado, mas desta forma, ele estaria jogando o restante da vida dele por causa de mim e não era justo. Então dessa forma, iria querer que ele seguisse com a vida dele, mesmo eu tendo que morar com ele e a nova enteada dele na mesma casa.
As implicâncias de Pedro Henrique continuaram durante os anos, era irritante e as vezes desejava que a minha mãe acordasse e, terminasse aquele relacionamento mas, a cada dia, ela parecia mais “feliz” e cega pelo dinheiro.
Os anos começaram a passar e comecei a igManuelar a existência de Pedro Henrique, só assim para viver na mesma casa que ele.
Só que agora não éramos mais crianças, muito menos adolescentes. Já era uma mulher e ele...continuava irritante e não via a hora dele sair daquela casa e ir morar em qualquer outro lugar, bem longe de nós.
Enquanto este dia não chegava, era obrigada a lidar com ele, mesmo um pouco da minha paciência indo embora todas as manhãs, quando ele fazia questão em me acordar do jeitinho gentil dele.
Era sempre a mesma coisa, entrava de fininho dentro do meu quarto, sem fazer nenhum barulho ou ruído. Depois disso, puxava com toda sua força a coberta que me cobria e simplesmente saia correndo e gritando.
Isto já era motivo suficiente para acordar de mal humor e querer torcer o pescoço dele com as minhas mãos, claro que nessa hora, não conseguia fazer isso, já que ele corria mais do que outra coisa e sempre se escondia atrás da minha mãe.
Naquela manhã, não foi diferente e já cansada dessa situação, corro atrás dele como um touro, já sentindo a textura do cabelo e da pele dele, antes mesmo de por minhas mãos nele.
Ele é rápido, como sempre, e corre para onde minha mãe estava, fazendo ela de escudo.
- O que é agora?! - Ele a sacode de um lado para o outro, tentando evitar que eu jogasse um objeto nele.
- Manuela quer me bater - diz ele com os olhos fixos em mim.
- Não quero só bater em você não! - digo entre dentes - Quero MATAR VOCÊ, PEDRO HENRIQUE! - grito, indo na direção deles.
- Sandra! - Pedro Henrique altera a voz, recuando levando minha mãe junto.
- Manuela, para! Você sabe muito bem que o Jorge não gosta dessas brincadeiras - adverte.
- E desde quando estou brincando com ele?! Nunca brinquei com o Pedro Henrique mas, ele faz questão de fazer essas brincadeiras idiotas comigo.
Minha mãe solta o ar dos pulmões impaciente.
- Já faz quase uma semana que você não sai daquele quarto. Ele fez um favor!
- Eu. Não. Estou. Bem, mãe! - digo pausadamente, tentando lembrar não só ela, mas também o idiota do Pedro Henrique, que estava sofrendo pelo término do meu relacionamento e o mínimo que ele tinha que fazer era ter um pouco de empatia, se é que ele sabia o quê era isso.
- Se eu fosse você, nem estaria mais sofrendo pelo Rogério. Pelo amor de Deus, minha filha, você merece coisa melhor, se valorize.
- Vai começar mesmo, mãe?
- Se eu fosse você, escutava sua mãe - diz Pedro Henrique de forma debochada.
- É melhor você calar tua boca, se não quiser ficar sem língua.
- Pedro, você não tem nada pra fazer não? - Minha mãe pergunta de forma gentil.
- Ter eu tenho, mas ela não vai deixar eu sair - Ele murmura.
- Manuela - diz minha mãe calmamente - Já chega.
Suspiro, cruzando os braços, dando um passo para o lado. Pedro Henrique solta minha mãe e olhando fixamente para mim, sai da cozinha, aumentando os passos somente quando já está fora do cômodo.
- Vocês tem que parar com isso - diz minha mãe, voltando para o quê estava fazendo - Vocês não são mais criança e sabe muito bem que o Jorge perde a paciência quando vocês ficam brigando.
- Mãe, não é eu que começo. É ele - Ressalto.
- E você tem que se importar? IgManuela ele. Uma hora ele vai cansar e vai parar.
- Já fiz isso e da última vez que ignorei ele, ele fez questão de me arrastar pela casa toda - E neste dia, ele fez questão de me igManuelar enquanto fazia isso. Então definitivamente igManuelar Pedro Henrique estava fora de questão, só Deus sabe o quê ele poderia fazer.
- Ele vai embora, Manuela.
- Quando?
- Assim que a casa dele e da mãe dele ficar pronta - Reviro os olhos. Já fazia mais de um ano que aquela casa estava em construção, se é que podia chamar de casa, já que era uma baita mansão, grande demais para duas pessoas, quer dizer uma, e achava um completo exagero.
Claro que Pedro Henrique não ficaria solteiro para sempre, um dia ele arrumaria uma esposa, depois filhos e já teria um lugar para morar com eles. Mas mesmo assim, achava grande demais.
Mas enfim, não via a hora disso acontecer. Finalmente eu teria paz e poderia dormir em paz também.
- Acho que está mais fácil eu ir embora - resmungo.
- Você não vai pra lugar nenhum - diz séria.
Dou de ombros.
- E não vou casar não?
- Se for com o Rogério, prefira que morra solteira.
- Nossa, mãe. Não começa - digo saindo da cozinha, nem um pouco a fim de ouvir ela falando o quanto ele era tóxico para mim e que eu merecia alguém muito melhor, alguém que me desse valor e que me amasse da mesma forma.
Só que eu já tinha alguém e era o Rogério, não precisava mais de ninguém e a única pessoa que não via isso, era a minha mãe.
Novamente em meu quarto, não estava mais com sono e nem um pouco a fim de voltar para minha cama. Invés disso, arrumo a cama e algumas coisas espalhadas pelo quarto.
Um banho depois e vestida na minha roupa mais confortável, decido abandonar o lugar que havia ficado enfiada nos últimos dias, esquecendo completamente que havia vida social do lado de fora daquele quarto.
Se era para me sentir melhor fora daquele quarto, não me senti. Me senti bem melhor e praticamente meu corpo gritou para voltar para a cama e, estava fazendo isso, quando escutei passos pesados atrás de mim.
- Manuela - A voz rouca de Jorge soa atrás de mim, me fazendo parar - Quero falar com você;.
- Pode falar - digo me virando.
Jorge diferente da minha mãe, não era branco, ele era negro, alto, musculoso. Para um coroa, até que bonito e aqueles fios brancos, com certeza faziam toda a diferença e o deixava mais atraente. Não que minha mãe não fosse, ela era, mas era o oposto dele, branca, loira e altura mediana. Graças a Deus, puxei as características do meu pai e foi agraciada com uma pele parda que, fazia questão de bronzear.
- Lá em baixo.
Sem argumentar, o segui, nunca era bom argumentar com o Jorge. Ele era acostumado em dar ordens e os soldados dele obedecerem no mesmo instante, sem argumentar ou tentar qualquer outra coisa.
Assim eu fiz, encontrando minha mãe já tomando café e Pedro Henrique, sim, o peste estava bem ali, tão perto de mim que podia sentir o perfume dele e desejar fechar minhas mãos no pescoço dele.
Mas não fiz. Odiava quando Jorge chamava minha atenção e aquela manhã ele parecia ter algo importante para fazer.
- Tá pegando o quê, coroa? - Pedro Henrique pergunta mastigando.
- Mal educado - resmungo baixo, pegando um p]ao.
- Estou precisando de vocês aí - Ergo meu olhar no mesmo instante surpresa, não era todos os dias que Jorge pedia ajuda nossa para alguma coisa. As vezes tinha a impressão que ele tinha a impressão que éramos inúteis para ele, mesmo minha mãe se esforçando ao máximo para querer estar por dentro de todos os assuntos da favela.
Jorge até tentava atualizar ela de tudo, mas simplesmente a mente da minha mãe bugava quando se tratava de negociações incluindo as drogas. Ele tinha contatos com homens fora do Brasil, que mantinham a favela constantemente abastecida.
Mesmo que me pagassem, não iria querer aprender nem a metade. Era muita responsabilidade e não conseguia me imaginar nem por um minuto na frente daquele morro.
- E no que é? - Pedro Henrique decide fazer a pergunta que já estava na ponta da minha língua.
- No progresso da favela.
Ergo uma sobrancelha.
- Como assim?
- Pedro Henrique vai ficar encarregado com a gerência e você também. Um só não vai dar conta.
Abro e fecho a boca sem saber nem o quê pensar. Já não era mais do que suficiente eu ser enteada dele, ele ainda tinha que me colocar oficialmente no tráfico?
- Beleza - diz Pedro Henrique sem ao menos pensar.
Mas que porra!
Os olhos da mesa se fixam em mim.
- Eu... - Estava me sentindo mais do que incomodada mas, não podia transmitir isso. Tudo bem até aquele momento para mim, ter que conviver com drogas, armas, mortes e seja lá mais o quê, mas até então naquele momento, não usava drogas, não vendia drogas e muito menos tinha lidar com drogas.
Só que agora Jorge estava me pedindo isso e eu não sabia como dizer à ele que não queria e não poderia ser obrigada. Parecia simples, mas ali, naquele momento, sentindo toda aquela tensão com pressão, as palavras não saiam da minha boca, simplesmente ficavam engasgadas.
- Tá. Por mim tudo bem - murmuro contra a minha vontade.
Jorge não diz nada, apenas assenti, se concentrando em comer. Para ele aquele assunto já estava terminado mas, para mim, só estava começando.
Meu olhar se cruza com o de Pedro Henrique e por um momento tenho a impressão que aquilo não iria dar certo. Nada com Pedro Henrique no meio, dava certo.
O café da manhã continua num silêncio parcelado, minha mãe trocava poucas palavras com Jorge e não demorou para Pedro Henrique levantar e ir levar o café da manhã da mãe dele.
Já havia um bom tempo que morava com eles e até aquele momento não tinha visto ela de perto, muito menos trocado alguma palavra com ela. Primeiro, que Pedro Henrique só permitia que ele ou a cuidadora cuidasse dele e, segundo, minha mãe nunca achou uma boa ideia, irmos até o quarto dela, invadir a privacidade dela, o único ambiente no qual ela deveria se sentir bem e livre de nós. E sobre isto, não conseguia discordar, não iria gostar de estar na situação dela e simplesmente ter que ver meu ex-marido com outra, vivendo felizes, enquanto estava presa em uma cama dentro de um quarto.
Pedro Henrique demorava no quarto em todas as refeições, sempre quis saber o por quê de tanta demora, mas nunca descobri e quando ele saia de lá, estava normal, não permitindo que eu tirasse alguma conclusão.
Minha mãe não falava sobre o assunto, ela evitava claramente, explicitamente, não gostava de falar da condição dela, ela continuava a temer que as pessoas a julgassem ainda mais, então preferia ficar quieta. Já Jorge, pelo menos duas vezes ao dia, ia até o quarto perguntar se ela estava se alimentando bem, se precisava de alguma coisa e insistir que ela tomasse banho de sol, duas vezes na semana, isso acontecia e quando isso acontecia, evitava de ficar andando de um lado para o outro, mostrando minha existência.
Poucas vezes, quero ressaltar que poucas vezes, sentia muito por Pedro Henrique, não deveria ter sido fácil e nem deveria ser, ver a mãe naquele estado e não poder fazer muita coisa, além de a deixar o mais confortável possível e ser o mais presente possível. Mas essa minha empatia sumida rapidamente, quando ele começava a me irritar e até conseguia me esquecer da existência da mãe dele e o ameaçar o mais alto possível de morte.
Não era minha culpa, ele me obrigava à isso, parecia que ele gostava de me irritar, de me ver correr atrás dele prestes para matá-lo de verdade. A verdade era que não conseguia entender ele e duvidava que um dia iria.
Mas enquanto isso não acontecia, iria fazer o que Jorge queria e pedir com todas as minhas forças mentalmente que ele me tirasse deste cargo rapidamente e eu pudesse voltar para a minha vida que não era muito agitada ultimamente.
Só queria voltar a sofrer por amor. Pelo meu amor.
Ainda precisava descobrir um meio de fazer Rogério voltar atrás o mais rápido possível, mas estava sendo mais difícil do que pensava e não conseguia pensar em nada, muito menos estava recebendo ajuda de alguém para isso.
Sentia que o tempo estava contra mim e estava desperdiçando o tempo quando não pensava em nada brilhante
- Manda comprar a carne - Ouço Jorge dizer para a minha mãe, antes de sair de casa, isso faz com que eu apure meus ouvidos;
- O mesmo de sempre?
- É - Em seguida o ouço sair de casa.
"O mesmo de sempre" significava uma ótima oportunidade para mim. Um churrasco na laje de casa!
Fazia exatamente quinze minutos que Pedro Henrique buzinava insistentemente e sem parar. Tudo isso para tentar me fazer me arrumar mais rápido, só que não estava adiantando nem um pouco.
Já havia terminado de me arrumar, mesmo assim, estava sentada nos pés da cama olhando as redes sociais, sempre tinha alguma novidade e estava em busca de alguma novidade relacionada a Rogério.
Desde o nosso término, ele não postava nada, nem suas idas aos bares, nada. Não havia nem uma marcação de seus amigos, primeiro com isto temi que algo tivesse acontecido, mas se tivesse, eu saberia. Depois, algo ainda mais pior, que ele deveria ter encontrado consolo nos braços de alguém.
Sem pensar duas vezes, preferia a primeira opção. Preferia que ele tivesse sofrido um acidente, que estivesse em coma ou sei lá seja o quê mas, não com outra pessoa.
Olhei toda sua rede social, as fotos recentes, em busca de algum comentário novo, mas não havia nada. Já não havia mesmo fotos nossas na rede social dele, diferente das minhas que ainda continuavam no mesmo lugar, mesmo assim, senti que algo estava acontecendo, só não conseguia adivinhar bem o quê.
Minha mãe para em frente a porta do meu quarto, soltando o ar dos pulmões.
- Sério, Manuela?
Ergo o olhar do celular.
- O quê?
- Pedro buzinando há quase uma hora e você aí sentada com esse celular.
- Não sei por quê ele está com tanta pressa - digo voltando o olhar para o celular.
- Você ainda pergunta? Se esqueceu do que o Jorge falou com vocês hoje de manhã?
Suspiro, olhando para ela.
- Não, mãe, não me esqueci. E não gostei nem um pouco disso - murmuro.
Ela olha para o final do corredor.
- Então é melhor começar a gostar, se não quiser voltar a passar fome. Claro, se quiser trabalhar nas cozinhas dos outros, vá em frente, mas eu que não quero mais essa vida pra mim - diz no mesmo instante, entre dentes - Agora levanta e vai logo - Dito isto, ela sai pisando duro, me deixando com mais raiva que eu estava.
Minha mãe não temia que Jorge fosse preso ou morto, até temia, mas o quê ela temia com todas suas forças, era ter que voltar a trabalhar, levantar cedo, ganhar menos que um salário mínimo e trabalhar para os outros.
Nunca soube o quê é isso, confesso. Assim que completei 18 anos, Jorge fez questão de montar uma loja de roupas para mim e o dinheiro que eu ganhava, dava e sobrava para mim, já que morava ainda com eles e não tinha que me preocupar com mais nada além de mim.
Ele fez a mesma coisa com o filho, mas diferente de mim e pelo filho sempre estar mexendo em algum carro velho ou moto, ele preferiu montar uma oficina. O quê no começo foi bom, pois não via a cara de Pedro Henrique mas, agora era dificilmente ele aparecer por lá.
Mas ali estava eu novamente, entre a cruz e a espada, sendo praticamente obrigada em fazer algo que claramente não queria. Não quis lidar com drogas, mesmo nosso estilo de vida vindo das drogas, principalmente minha loja de roupas que só teve um começo por causa deste dinheiro.
Jorge não havia me pedido algo simples, o quê ele queria era que eu colocasse minha vida em risco. Em troco de quê? Era isso que não conseguia entender. Por quê isto agora?
Pedro Henrique continua com sua sequência de buzinas e antes que minha mãe voltasse e me jogasse dali de cima, decido ir ao encontro dele e acabar logo com isto.
Mesmo ele me vendo, não para de buzinar, continua, fazendo de próposito com os olhos castanhos-escuros fixos em mim e um meio sorriso nos lábios.
- Vai parar ou preciso arrancar sua mão pra isso? - pergunto séria, cruzando os braços.
Ele dá uma última buzinada, longa.
- Ficou esse tempo todo lá em cima pra quê? - Ele me olha de cima abaixo.
- Não é da sua conta - Contorno o carro, entrando no veículo.
- Tava falando com seu namoradinho? - Ele pergunta, sentando na frente do volante.
- Já disse que não é da sua conta.
- Então não vai querer saber onde foi que vi ele ontem.
Pressiono os lábios, respirando fundo. Era um maldito jogo de Pedro Henrique, já havia caído nisso algumas vezes e ele não tinha nenhuma informação útil para me dar, só queria tirar com a minha cara e se divertir as minhas custas, quer dizer, com meu sofrimento, pois era o quê ele sabia fazer muito bem.
- Não quero saber.
Ele dá partida, me dando uma rápida olhada.
- Tem certeza?
Continuo pressionando os lábios.
- Vamos acabar logo com isso, tá? Tenho mais o quê fazer.
- Ah, sei muito bem - Ele murmura, os olhos na rua - Ficar dentro do seu quarto chorando por uma pessoa que não quer você.
- Você não sabe de nada, cala a boca - digo sem pensar duas vezes.
- E você sabe, não é?
- O relacionamento é meu, Pedro Henrique. Não seu - digo erguendo uma sobrancelha ao olhar para ele.
- Me diga uma coisa - diz pela primeira vez em tom sério, entrando em uma rua - Seu relacionamento é a dois ou a três?
Engulo em seco, demorando alguns segundos para entender aquela pergunta.
- Me deixa em paz.
- Responde aí.
- ME DEIXA EM PAZ, PORRA! - Altero a voz, deixando minha irritação ainda mais em evidência não só por ele, mas também por Jorge por me fazer estar naquele momento dentro de um carro com ele.
Pela primeira vez em sei lá quantos anos, Pedro Henrique resolve me obedecer e me deixa em paz. O quê poderia ser facilmente considerado um milagre.
Ele assim como a minha mãe, não entendia meu relacionamento, não entendia Rogério por completo e a verdade é que não fazia nenhuma questão de fazer eles entenderem. Já não me importava com isso e a única coisa que me importava era Rogério, só isso.
Sabia dos deslizes de Rogério, mas como mencionei agora, eram deslizes e erros todo mundo comete. Ninguém é perfeito, é? Não!
Só que na cabeça de vento de Pedro Henrique, todos tinham que ser perfeitos e isto incluía meu namorado.
Sabia que o quê Jorge nos mandou fazer, era tedioso. Na primeira boca, Pedro Henrique desce do carro e conversa com os responsáveis, não prestei atenção na conversa e nem queria, só queria ir embora dali o mais rápido.
A conversa dura mais tempo do que o necessário e ele repete todo este processo nas próximas duas. Em determinado ponto, o calor já estava me matando e a sede começava a persistir, tentava me decidir se iria me arriscar em busca de água ou se aguentaria ali por mais um pouco.
E quando chegasse em casa, não iria só beber água, também tomaria um bom banho e depois descansaria.
Pedro Henrique entra no carro com um suspiro, ligando o motor no mesmo instante, pelos próximos minutos dirige concentrado na rua, até que na quarta boca, se vira para mim.
- Sua vez.
Ergo as sobrancelhas, sem ter ideia do que ele estava falando.
- Do quê?
- Vai lá ver como estão as coisas.
- Mas é você que está fazendo isso - Lembro, temendo que ele tenha esquecido o quê estava fazendo desde que saímos de casa.
- Já fiz isso, agora é sua vez - Olho para os quatro homens na calçada sem conseguir me imaginar indo até eles.
- Não - digo com um meio sorriso. Nem fudendo que iria até aqueles caras, que fazia questão de igManuelar no meu dia a dia, perguntar sobre drogas.
- Vou ter que ligar pro meu pai? - pergunta sério, sem aquele tom de brincadeira brincalhão.
- Está me ameaçando?
Ele dá de ombros, olhando para frente.
Inspiro profundamente, mordendo o lábios inferior.
- E o quê eu faço?
- O que eu estava fazendo.
Ergo as sobrancelhas sem ter ideia do que ele estava fazendo. Ele só descia do carro, conversava com eles e voltava. Se fosse isso, poderia fazer facilmente.
Irritada novamente com Pedro Henrique, por se negar em me ajudar, desço do carro atraindo os olhares masculinos em cima da calçada para mim. Caminho para eles determinada, parando antes de subir na calçada.
- E aí - digo com a voz firme, observando-os me cumprimentar com a cabeça - Como tá as drogas?
- Tá aí - diz um deles, sem precisar pensar muito.
Assinto devagar, sem saber o quê mais perguntar.
- Estão vendendo muito?
- Tá fluindo.
Franzo os lábios, os movendo de um lado para o outro.
- Então tá - digo voltando para o quarto, tentando fugir do calor e do sol.
Pedro Henrique me observa entrar no carro.
- Viu o caderno das vendas? - pergunta sem rodeios.
- E por quê eu faria isso?
- Por quê é por isso que estamos aqui? - Ele responde com outra pergunta.
- Eles disseram que as vendas estão boas.
- E como você vai saber se não ver o caderno?
- Não tem por quê eles mentir - Não fazia nenhum sentido. Eles não eram loucos de roubar o Jorge.
Ou eram?
Pela cara de Pedro Henrique, parecia que eles eram loucos sim.
Aparentemente irritado, Pedro Henrique desce do carro e vai conversar com eles. Não demorou para um deles voltar com um caderno e ele começar a folheá-lo e os encher de perguntas, depois disso, vão num canto e parece que mostram as drogas para ele.
Se era para admitir que Pedro Henrique se saía muito melhor que eu naquilo? Eu falaria só para me livrar.
Pedro Henrique volta algum tempo depois, ele não me diz nada inicialmente, apenas liga o carro e parte para a próxima boca.
- Vai querer que eu vá? - Ouso perguntar.
- Não - diz sem pensar duas vezes.
É assim pela próxima boca, a outra e a outra. Até que reconheço o caminho que estávamos indo, para casa finalmente.
- O melhor que você tem que fazer, é dizer para seu pai que dá conta sozinho - Sugiro, pedindo com todas as minhas forças que ele me escutasse.
- Não vou dizer nada pra ele.
Ergo uma sobrancelha.
- Não dou pra isso.
Ele suspira.
- Pensasse nisso antes.
- Como se tivesse como dizer não - Resmungo.
- Não vi ele obrigando você.
- É o seu pai, Pedro Henrique, não vejo você dizendo não.
- Por ele ser meu pai - diz dando de ombros.
- Você também tem medo dele.
- Não tem medo dele.
- Claro que não - A maioria daquelas pessoas tinham medo de Jorge. A maioria! Pois sabiam que ele conseguia ser justo e severo ao mesmo tempo, e modo como julgava os culpados não era nada bonito de se ver.
- Você não sabe de nada - diz baixo.
- E você sabe, né? - Olho pela janela, me imaginando facilmente em minha cama.
Na garagem de casa, hesito em sair do carro, ainda com as palavras de Pedro Henrique antes de sairmos de casa ecoando em minha mente. E se ele soubesse mesmo alguma coisa sobre Rogério? Naquele momento tudo era válido e eu precisava desesperadamente saber o quê estava acontecendo com ele e, se precisava de mim.
- Pedro Henrique - Chamo com a voz firme, atraindo a atenção dele no momento em que ele estava para descer do carro.
- O quê? - diz ainda com a voz séria. Qual era o problema dele? Normalmente era eu que ficava daquele jeito com ele e não ele comigo, geralmente ele fingia que não estava se importando com meu comportamento e continuava a me perturbar.
- Você viu mesmo o Rogério? - pergunto baixo, entretanto com a voz mansa.
Ele ergue o queixo, parecendo pensar.
- Você quer saber mesmo?
- Se não quisesse, não estaria perguntando.
- Você e sua ignorância - Ele faz menção em sair do carro, mas sou rápida e seguro seu braço, pela primeira vez, o impedindo de sair e de me dizer o quê ele sabia.
- Ah, qual foi, Pedro Henrique. Custa me dizer?
- Quer saber mesmo? Custa muito.
Reviro os olhos.
- Vai me dizer ou não?
- Vi ele sim, Manuela - diz alterando a voz - E não estava sozinho não - Franzo o cenho, inicialmente sem acreditar nas palavras dele. Rogério não... claro, ele poderia estar sofrendo. Sim, poderia, mas não... - Tem certas coisas que a pessoa não precisa saber, não é? - Sua voz soa gentil enquanto me observa, depois disso, sai do carro, entrando na casa.
Não consigo sair do carro de imediato, muito menos sabia como estava me sentindo. Já havia vivenciado isso, sim, diversas vezes, mas sempre era como se fosse a primeira, sentia a mesma coisa, sofria da mesma forma e só queria que ele voltasse para mim e me amasse. Só isso.
Precisava trazer Rogério de volta para mim e só iria conseguir isso, com o churrasco que a minha mãe e Jorge estava planejando. Sendo assim, saio rapidamente do carro em busca da minha mãe.
Não a encontro no primeiro andar, apenas em seu quarto, deitada no meio da cama mexendo no celular enquanto a televisão falava sozinha.
- Mãe - digo ao entrar de repente no quarto.
- É o quê, Manuela?
- Vai fazer mesmo o churrasco? - Ela me olha por um momento, antes de voltar para o celular.
- Vai depender do Jorge.
- Tem como falar com ele?
- Por quê?
- Mãe - digo séria e impaciente - Só fala com ele e tenta fazer amanhã de noite - Já tinha quase tudo planejado em minha mente.
- Vou ver.
- Não, mãe. Fala com ele agora - Insisto.
- Mas que coisa, Manuela! - diz parcialmente irritada comigo, decidindo ligar para meu padrasto - Jorge - diz ainda irritada - Diz aí, vai fazer o churrasco? - Começo a ouvir a conversa nervosa, mexendo as mãos em frente do corpo.
Claro que minha mãe entra e sai facilmente do assunto principal, falando da vizinha, conhecidos e até do cachorro do outro lado da rua que latia demais. Gesticulo para ela voltar para o assunto do churrasco e a contra gosto ele volta, ouvindo atentamente o quê meu padrasto falava. Até que o quê pareceu ser uma eternidade depois, ela desliga e me olha forçando um sorriso, ao inclinar a cabeça para o lado.
- Ele vai fazer, Manuela. Agora pode sair do meu quarto e me deixar em paz?
Sorrio, mais do que feliz por meu plano estar caminhando.
- Você é a melhor mãe do mundo, sabia? - Seguro o rosto dela entre as mãos e beijo sua testa, querendo demonstrar todo meu agradecimento.
- Sei - diz séria, voltando para o celular. E só assim, saio do quarto saltitando.
Eu iria ter meu namorado de volta. Eu iria ter meu namorado de volta, cantarolo a música inventada por mim mesma em minha cabeça. Tão feliz que tudo ao meu redor se tornou mais do que colorido. Estava sempre disposta em fazer de tudo para salvar meu relacionamento, até ajudar meu padrasto a fazer um churrasco na laje, mesmo eu odiando aquela fumaça e o entre e sai de casa. Era tudo por Rogério e faria tudo novamente se fosse preciso.
Até esqueci que Pedro Henrique estava com raiva à toa. Ele também não importava. Não era o Rogério, se fosse, poderia até me importar, mas já que não era, e podia muito bem lidar com o próprio sentimento dele, sem ter que descontar a raiva dele em ninguém.