Capítulo 2

Alessio 

O silêncio da sala de reunião pesa como chumbo. O relógio na parede parece zombar de cada segundo que se arrasta, marcando o tempo que me separa da chegada dele. Vittorio não precisa dizer nada; sua simples presença ao meu lado já é suficiente para lembrar que não existe saída. Que contestar é inútil. 

Os cabelos escuros agora trazem marcas do tempo, mas em vez de enfraquecê-lo, cada fio grisalho parece ter se transformado em cicatriz visível de poder. O terno preto, impecavelmente alinhado, molda sua figura rígida, quase pétrea, como se fosse feito de ferro. Ele não precisa erguer a voz nem mover um músculo - a ameaça está no silêncio, no olhar frio que corta como lâmina.

O poder da família Moretti foi forjado em sangue e selado com traição. Não herdamos nada - tomamos. Não pedimos lealdade - arrancamos pelo medo. Para Vittorio, isso bastava. Controle, influência, domínio: tudo à nossa volta pertence a nós. 

Tudo, exceto os Rinaldi. 

Quando a porta finalmente se abre, o ar muda. Giovanni Rinaldi atravessa o limiar como quem invade território inimigo, mas há algo nele que atrai e amedronta ao mesmo tempo. Postura ereta, queixo erguido, cada passo carregado da arrogância que só os nascidos com sangue Rinaldi sabem exibir. Seus olhos, marcados pelas duas cores da linhagem, fixam-se em mim como lâminas afiadas que cortam e prendem o olhar. Há uma força silenciosa em sua presença, quase magnética, que torna impossível desviar o olhar. Não há disfarce, não há polidez. Apenas ódio cru, mas carregado de um magnetismo que arrasta e intimida.

Por um instante, penso em como seria fácil retribuir o olhar, em como seria libertador lançar de volta todo o veneno que ferve dentro de mim. Mas me lembro do peso da mão de Vittorio sobre meus ombros desde a infância: controle absoluto.

Sustento o olhar de Giovanni. Não abaixo a cabeça. Não ofereço o que ele espera.

Ele é o primeiro a falar. 

- Então... é você. - A voz é carregada de desprezo. - O descendente Moretti escolhido para envenenar o meu nome.

Cada palavra dele é cuspida como se fosse sujeira.

- Chamaria de envenenar... ou de unir. - Minha resposta é calma, gelada, como o próprio Vittorio exigiria. - Depende de quem escreve a história.

Os olhos de Giovanni se estreitam, um brilho de fúria passando rápido, mas suficiente para me mostrar que o atingi.

- Não precisa de narradores para a sua família, Alessio. - Ele cospe meu nome como se queimasse. - A cidade inteira conhece os crimes dos Moretti.

Engulo a raiva. Cada músculo do meu corpo implora para reagir, mas sei que uma explosão agora só serviria para me envergonhar diante de Vittorio.

- E ainda assim está aqui. - Dou um passo à frente, reduzindo a distância que ele parecia querer manter. - Pronto para cumprir o contrato. Parece que até o ódio se curva ao destino.

Ele ri. Um som baixo, curto, sem alegria. 

- Não confunda dever com escolha. Estou aqui porque somos todos prisioneiros. Você tanto quanto eu.

A frase me atravessa de forma estranha, como se ele tivesse posto em voz alta algo que eu nunca admitiria. Mas não demonstro. Não diante dele.

- Não pensei que o Don da família Rinaldi se curvaria a uma decisão que não lhe agrada. - A minha voz é um fio de lâmina, carregada de desprezo. - Mas aqui está você, sorrindo para o que deveria sentir como afronta. Curioso... ou talvez apenas patético.

O silêncio retorna, denso, sufocante. Sinto o olhar de Vittorio sobre mim, avaliando cada mínimo gesto. Giovanni também percebe, porque o sorriso breve que surge em seus lábios tem gosto de provocação.

Por fim, ele se inclina, tão próximo que consigo sentir o calor do seu desprezo.

- Se acha que um Rinaldi vai se ajoelhar diante de um Moretti, está delirando. O casamento pode ser imposto, Alessio, mas o ódio... o ódio é livre, e cresce como veneno onde nenhum contrato alcança.

O olhar dele desliza sobre mim de cima a baixo, frio, calculista, como se estivesse catalogando cada fraqueza para cravá-la na primeira oportunidade. Eu me calo, erguendo o silêncio como única armadura.

- Vocês torceram o contrato, manipularam cada linha até achar uma brecha que parecesse vitória. Mas não confundam truque barato com poder, nem astúcia com inteligência. Os Rinaldi nasceram no fogo e no sangue, e quem ousa nos subestimar não vive para contar a história.

Ele se afasta um passo, deixando para trás o gosto amargo de cada palavra.

Eu não reajo. Não aqui, não agora. Ainda não. Mas por dentro, a corda que Vittorio colocou em volta do meu pescoço se aperta um pouco mais. Giovanni é mais que um noivo forçado. É o inimigo que agora dormirá sob o mesmo teto que eu. O inimigo que, por ironia cruel, se tornará a sombra mais próxima da minha vida.

Giovanni ainda me encara quando a voz de Vittorio corta o ar. Grave, calma, mas carregada do veneno que sempre me moldou.

- Chega. - Ele não levanta a voz, não precisa. A ordem ecoa como um decreto, impossível de ignorar. - O suficiente de teatro.

Giovanni solta um meio sorriso, insolente, antes de voltar o olhar para Vittorio. 

- Teatro? Eu diria que é só o primeiro ato.

O brilho nos olhos de meu pai endurece, e por um instante sinto o perigo latente no ar, como um trovão prestes a cair. Mas Vittorio se controla - e quando ele se controla, é ainda mais aterrorizante.

- Não importa o que vocês sentem. - Ele se levanta, impondo sua presença sobre nós dois como uma sombra que engole o ambiente. - O contrato foi assinado. Giovanni, você será ligado à nossa família pelo sangue da união.

Alessio, você será a peça que manterá esse acordo.

Cada palavra dele me prende ainda mais ao chão. Giovanni cruza os braços, a mandíbula rígida.

- E se eu recusar?

Vittorio se aproxima. O silêncio que antecede sua resposta é pior do que qualquer grito.

- Não vai recusar. Porque você conhece as consequências. - Ele fala devagar, saboreando cada sílaba. - E porque, no fundo, Giovanni, sabe que não há saída. Foi um acordo entre famílias. Feito antes de seu pai morrer. Sua última exigência. 

Giovanni sustentando o olhar de Vittorio. A raiva dele é palpável, mas até mesmo o filho dos Rinaldi compreende que há limites que não pode cruzar. Pelo menos por enquanto.

- Que assim seja. - Giovanni fala com seus olhos cravados aos meus. E soa como uma ameaça velada. 

Eu permaneço imóvel. O peso do olhar de ambos recai sobre mim, como se fosse o elo frágil entre dois mundos prestes a explodir.

Vittorio, então, volta-se para mim, e sua voz soa como uma sentença final:

- Lembre-se, Alessio. Você não está apenas aceitando um casamento. Está garantindo o futuro da nossa família. Se falhar... não será apenas o seu destino que estará em jogo.

Outra ameaça paira, clara, sem necessidade de mais explicações.

Quando Giovanni enfim se afasta sem me olhar uma ultima vez, a sala parece respirar de novo, mas eu não. O ar continua preso na minha garganta, como se a própria vida fosse uma corrente mantida pelas mãos de Vittorio.

O primeiro capítulo desse teatro termina no silêncio. Eu e Giovanni, inimigos acorrentados pela vontade de nossos pais, cientes de que o ódio que carregamos um pelo outro será apenas o início dessa guerra íntima.

Capítulo 3

Alessio 

O salão parecia um mausoléu. Mármore frio, cortinas pesadas e o tilintar discreto das taças de cristal não conseguiam disfarçar o peso daquilo que estava prestes a acontecer. Cada gesto, cada olhar, tinha a gravidade de uma sentença.

As duas famílias estavam sentadas frente a frente, como exércitos inimigos em uma trégua frágil de uma guerra que já durava gerações. Vittorio Moretti, meu pai, ocupava o centro da mesa, imponente. Ao lado dele, Bianca mantinha o olhar frio e indiferente, embora seus olhos carregassem segredos que eu sequer ousava imaginar.

Giovanni Rinaldi, o noivo que não escolhi, mantinha-se ereto, o queixo erguido, os olhos faiscando ódio contido.

Quando Vittorio segurou a caneta e riscou o contrato, o som da ponta arranhando o papel ecoou como o disparo de uma arma. O silêncio que se seguiu não era respeito - era medo.

Nossas assinaturas vieram logo depois, meras formalidades de um acordo já decidido. Não havia escolha, nunca houve. Não para mim. A bile subiu ácida pela minha garganta, mas mantive a mão firme enquanto escrevia meu nome no documento, selando o meu destino.

Giovanni retirou sua caneta de dentro do paletó, como se recusasse a tocar em algo que tivesse passado por mãos de um Moretti. Sua assinatura foi rápida, firme, um corte preciso, e em seguida ele entregou o papel ao seu Capo.

Um a um, chefes e conselheiros assinaram. Taças se ergueram em um brinde gélido, mas nenhum sorriso era verdadeiro. Aquela não era uma celebração. Era um funeral disfarçado de acordo - todos ali sabiam que estavam enterrando o futuro junto com a última palavra escrita no contrato.

Eu observei meu pai. O sorriso dele era pequeno demais, o olhar frio demais. Não era o semblante de quem sela uma aliança - era o de um homem que prepara uma execução. Foi ali que compreendi, talvez tarde demais: Vittorio não queria unir famílias. Queria apodrecer os Rinaldi por dentro, sugar cada gota de poder até restar apenas a carcaça.

Então vieram as alianças. Mais uma farsa envenenada, servida como espetáculo. Giovanni tirou a caixa de veludo preto do paletó e a jogou sobre a mesa com força desnecessária, o impacto seco ecoando no salão. Empurrou-a na minha direção como quem marca território. Dentro, o ouro brilhava sob a luz, gravado com o brasão dos Rinaldi. Um gesto calculado. Uma marca de posse. Um aviso: você agora me pertence.

Peguei a aliança e deslizei em seu dedo. Giovanni arrancou a mão como se meu toque fosse fogo. Mas, antes que eu pudesse recuar, ele agarrou a minha. A pele dele queimava, quente, impaciente, contrastando com o frio que corria pelas minhas veias. Seu olhar prendeu-se às minhas mãos - as sardas, as cicatrizes, as marcas que carregavam mais história do que eu gostaria de lembrar.

Quando o anel fechou em torno do meu dedo, não foi ouro o que senti.

Foi ferro.

Não era promessa.

Era algema.

Senti o olhar de Giovanni me atravessar. Ele não precisava dizer nada para me deixar claro o que pensava. Ainda assim, sua voz veio, baixa, dirigida apenas a mim:

- Não se iluda, Moretti. Vocês podem ter arrancado minha assinatura, mas nunca terão a minha rendição.

O veneno em suas palavras queimou mais do que qualquer insulto aberto. Respondi com silêncio, a única arma que me restava.

Quando a cerimônia terminou, Giovanni se levantou, afastando-se de mim. Vittorio me chamou de lado. Estávamos cercados dos nossos. A mão pesada dele pousou sobre meu ombro, e o tom em sua voz baixa e carregava uma calma que me deu calafrios.

- Lembre-se, Alessio, este casamento é apenas o primeiro passo. O nome Rinaldi logo será apenas uma lembrança - e será você a chave disso.

Olhei para ele, tentando decifrar até onde ia aquela loucura. Mas ele já tinha decidido meu papel muito antes de eu perceber.

- Você vai dormir ao lado dele - continuou, sem espaço para recusa. - Vai conquistar a confiança dele. Cada palavra que Giovanni soltar, cada segredo que escapar, você trará para mim.

Engoli a raiva, o choque, o desespero. Mais uma vez aprendi que, no mundo que meu pai governa, não há espaço para escolha. Só para sobrevivência. Meus olhos me trairam e foram de encontro a ele. Giovanni. Ele me olhava com intensidade, seus olhos faiscando como se pudessem atravessar a muralha de silêncio que eu tentava erguer dentro de mim. Havia algo ali - orgulho, raiva, talvez uma fagulha de curiosidade. Eu não sabia. Mas soube, naquele instante, que meu pai subestimava a força que pulsava naquela família. Subestimava aquele homem.

Senti o peso do contrato recém-assinado queimando em minhas mãos, como grilhões invisíveis. As taças tilintaram ao fundo, brindes falsos celebrando uma união que mais parecia sentença.

Meu pai ainda falava, a voz grave ecoando como uma ordem irreversível, mas já não ouvia nada além da batida acelerada do meu próprio coração. Eu não via Giovanni como um alvo. Não ainda. Eu o via como um precipício: um passo em falso, e eu cairia para sempre.

Quando a reunião terminou, fomos deixados sozinhos por um instante. Ninguém ousava se aproximar de nós, dois herdeiros condenados a se devorar sob o disfarce de um matrimônio.

Uma guerra travada no silêncio da cama, e eu era a arma escolhida por Vittorio.

Meu estômago revirou quando ouvi a voz dele, baixa, cortante:

- Parece que não está feliz, Alessio. Deve ser duro assinar a própria sentença ao lado de um estranho.

Engoli em seco. Cada palavra dele era um veneno calculado. Eu queria responder, cuspir a verdade na cara dele - que sim, era uma sentença, que eu me sentia vendido, usado como moeda de troca. Mas não podia. Não devia. A disciplina que anos de treinamento me impuseram dizia: silêncio é a arma mais afiada.

Levantei o queixo, sustentando o olhar dele. Não para enfrentá-lo de verdade, mas para mostrar que não sou a presa fácil que ele imagina.

Giovanni sorriu baixo.

- Então, Alessio Moretti... espero que saiba dançar bem. Porque nesse jogo, um passo em falso pode custar a vida.

Minha respiração falhou por um instante. Eu sabia dançar, sim - só não sabia se seria com ele ou contra ele. Mas havia algo na forma como ele me observava que me desmontava por dentro. Temia que ele  me visse. Além da máscara, além da frieza que eu lutava para manter.

Me inclinei em sua direção, perto o suficiente para sentir seu perfume. Tudo nele gritava domínio e calor. Um tipo que parecia grudar na pele minha pele. Algo dentro de mim alertava que eu precisava me afastar, que mais um passo e eu não saberia como me libertar, mas me mantive firme.

- Então... vamos começar esse "jogo" - ouvi minha própria voz dizer, firme, mas baixa demais. - Quero ver se você consegue acompanhar.

Estávamos próximos demais, quase de uma maneira que poderia ser considerada inadequada para o salão em que estávamos. 

- Não se engane - minha voz apenas um murmúrio, ele se inclinou em minha direção, talvez para ouvir melhor, talvez para me intimidar. Não soube dizer - Nem tudo aqui é só aparência.

Me forcei a desviar a atenção dele, ajustei a manga da minha roupa. Mas Giovanna fechou s distância entre nós. E por um instante não soube como reagir. 

Por um instante, eu quis acreditar que Giovanni era só meu inimigo. Seria mais fácil. Mas quando nossos olhares se prenderam de novo, percebi a verdade incômoda: havia algo em mim que respondia àquela proximidade. Algo que me atraía para o abismo.

- Cuidado, Alessio - seu tom ela baixo, quase íntimo. - Porque nesse jogo, eu também sei jogar... e às vezes, jogo para chegar mais perto do que o esperado.

Giovanni não queria apenas me destruir. Ele queria me desmontar por dentro, peça por peça, até que eu não soubesse mais onde terminava a disciplina e começava o desejo.

E eu, maldito que fosse, não sabia se teria forças para resistir.

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