Ao ouvir o barulho, um mordomo idoso de cabelos brancos aproximou-se da porta do quarto principal, mas, prudentemente, permaneceu do lado de fora.
Kaiden prezava a privacidade e não tolerava invasões em seu espaço pessoal.
"Cayson, você a deixou entrar?" A voz de Kaiden era afiada.
Na Solar Moon, apenas Cayson Buckley, que cuidara dele desde a infância, teria a ousadia de permitir a entrada de Ellie em seu quarto sem consentimento prévio.
Cayson respondeu com um suspiro: "Senhor Thorpe, a solidão não é eterna. A senhora Thorpe desejava que a senhorita Gordon se tornasse sua esposa, realizando o desejo dela como sua mãe."
Kaiden, aparentemente ignorando as palavras do mordomo, retrucou gelado: "Esta é a primeira e última vez que faz isso, Cayson."
Há apenas uma semana, Ellie estava noiva de seu sobrinho, Erick Thorpe.
Agora, ela estava lá fora, sob a chuva, sofrendo para ficar perto dele.
Kaiden refletiu sobre a volubilidade dos sentimentos femininos.
Não desejava alguém já escolhido por outro.
De pé junto à janela francesa, Kaiden tinha uma visão clara de Ellie.
Entre os relâmpagos, a figura dela era visível do lado de fora dos portões elaborados.
A pele macia, os olhos bem definidos, o nariz elegante e os lábios delicados a tornavam extraordinariamente bela, como uma flor rara na noite.
Estava encharcada, a chuva escorrendo pelo rosto, traçando um caminho da testa aos olhos, pelas bochechas e queixo, até cair no chão.
Contudo, isso não a desfigurava; em vez disso, emprestava-lhe um ar vulnerável.
De repente, como se pressentisse algo, a mulher sob a chuva ergueu o olhar.
Através do véu da chuva, a visão de Ellie limitava-se à silhueta alta junto à janela francesa no segundo andar.
Consciente de que Kaiden a observava, Ellie esboçou um sorriso sutil, inclinou a cabeça e acenou levemente para o andar de cima.
Sua postura parecia dócil e gentil, mas, vista de perto, era um desafio claro.
Era como se declarasse: "Serei a senhora Thorpe!"
"Leve-a de volta aos Gordon antes que morra de hipotermia", ordenou Kaiden, com uma presença glacial, enquanto se retirava para o escritório.
Oferecera-lhe uma saída. Contudo, se ela escolhesse desafiar a sorte, ele não interviria.
-
Do lado de fora da casa principal, a tempestade prosseguia seu ataque implacável.
Assim que Kaiden desapareceu da janela, Ellie desviou o olhar. A dor de cabeça intensificava-se sob a chuva incessante, o corpo a tremer de calafrios e febre.
Não teria suportado aquilo não fossem as ameaças dos Gordon, que usavam Cecelia Gordon, sua avó adotiva, como alavanca para manipulá-la a continuar prestando serviços.
Os Gordon nunca lhe mostraram bondade, apenas impunham exigências rigorosas. Mesmo quando era admirada como uma socialite de primeira linha, a insatisfação deles persistia.
Ellie lembrava-se dos maus-tratos sofridos no passado, que resultavam em hematomas e febres altas. Apenas Cecelia lhe demonstrara compaixão, levando-a ao hospital e cuidando dela.
Cecelia fora a única fonte de calor nos anos que Ellie passara com os Gordon.
Subitamente, o celular tocou.
"Ellie, basta implorar, e você poderá ficar ao meu lado", disse uma voz masculina familiar do outro lado da linha, transbordando condescendência.
Ellie sentiu uma onda de repulsa e bufou irritada: "Erick, você não passa de um traidor que me traiu estando noivos. Vai tomar no cu, seu escroque nojento! Me dá ânsia!"
As famílias Gordon e Thorpe haviam arranjado um noivado de longa data, com os Gordon escolhendo a família de Erick como aliada. Ordenaram a Ellie que se envolvesse com Erick, alguém por quem não sentia o menor interesse. Após sua verdadeira identidade ser exposta, os Gordon mudaram de planos, pressionando-a a casar com Kaiden para cumprir o compromisso do noivado.
Na véspera do casamento, Ellie flagrou Erick e Demi Gordon, a filha recém-reconhecida dos Gordon, em posição comprometedora.
Aquilo revelou o caso antigo entre eles, e Ellie percebeu o esquema dos Gordon: substituir Demi por ela no casamento com Kaiden.
"Fui para a cama com a Demi porque você é muito recatada. Já estávamos noivos, e você nem me deixava tocá-la!"
Ele não via defeito algum em suas ações.
Para Erick, a beleza de Ellie era inútil se permanecesse intocável.
"Ellie, o Kaiden não pode te dar o que você precisa, especialmente na cama. Se quer viver bem, tem que ficar comigo."
"Erick, acorda! Eu me recuso a descer ao seu nível! Você é um lixo!", sibilou Ellie.
De repente, uma ideia lhe ocorreu, e ela sorriu maliciosamente antes de acrescentar: "Ah, e não se esqueça de me chamar de tia Ellie de agora em diante!"
Desligando a chamada, Ellie sentiu uma onda de triunfo, imaginando a fúria de Erick.
Dado que o pai de Erick era meio-irmão de Kaiden, Erick era, tecnicamente, seu sobrinho.
Aquele canalha do Erick como seu sobrinho parecia uma pequena vitória.
Com o passar do tempo, a consciência de Ellie esvaía-se, o corpo alternando entre calafrios e ondas de calor, lutando para se manter alerta.
Ela estava determinada e não se renderia.
O que seria de Cecelia se ela desmaiasse ali?
A primeira luz do amanhecer raiou no céu a leste.
Já era manhã.
A chuva, outrora torrencial, reduziu-se a uma garoa antes de cessar por completo.
Quando as empregadas abriram o portão principal da Solar Moon, uma cadeira de rodas rolou sobre as pedras do caminho, o eco das rodas repercutindo.
Kaiden estava sentado na cadeira de rodas, o semblante relaxado. Notou que Ellie ainda estava à porta, encharcada e com visíveis sinais de fraqueza.
Os cabelos molhados colavam-se ao rosto, a pele apresentava um rubor anormal e os lábios estavam alarmantemente pálidos.
No entanto, seus olhos brilhavam com uma mistura de determinação e... desafio.
Com um aceno frágil, cumprimentou-o: "Bom dia, senhor Thorpe!"
A voz, embora fraca e rouca, pareceu ecoar dentro de Kaiden.
Kaiden franziu a testa, a expressão tão impenetrável como sempre.
Dirigiu a Ellie apenas duas palavras: "Ainda viva?"
"Desapontado, senhor Thorpe?" O estado febril de Ellie emprestou um tom de ousadia às suas palavras. "Lembre-se do que disse: se eu sobrevivesse à noite, seria a senhora Thorpe."
Agora, ele não poderia simplesmente dispensá-la!
Kaiden manobrou a cadeira de rodas com perícia, parando a centímetros de Ellie.
Mesmo sentado, sua estatura elevada permitiu-lhe inclinar o queixo dela para cima sem esforço.
Apoiando-se na cadeira de rodas para se equilibrar, ela fitou-o, a respiração presa pela surpresa.
De perto, os traços de Kaiden eram incrivelmente nítidos, até os detalhes finos de seus cílios.
Ele olhou para ela, os olhos frios e inabaláveis.
"Então, Ellie, você está tão ansiosa para ser minha esposa? É?"
"Ai!" Ellie fez uma careta, sentindo uma pressão intensa no maxilar.
"Isso dói?" O sorriso de Kaiden não tinha nenhum humor. "Então me diga, Ellie, como você planeja cumprir seus deveres de esposa na cama?"
Na cama...
Deveres...
A insinuação em suas palavras fez as bochechas dela queimarem.
Legalmente, ela estava sujeita a tais responsabilidades.
Kaiden observou seu constrangimento com um traço de ironia.
Ela não havia dormido com Erick? Mas ali estava, fingindo inocência.
"Você vai precisar fazer tudo, dada a minha deficiência", disse Kaiden, sua voz carregada de zombaria, embora a expressão permanecesse inalterada.
O rosto de Ellie ficou ainda mais vermelho, os olhos colados no chão.
Kaiden era implacável em sua farsa de deficiente.
"Responda", exigiu ele.
Engolindo o orgulho, Ellie gaguejou: "Eu posso... tentar aprender... a fazer o que for preciso... Não tenho medo..."
Pensou que Kaiden, apesar da fachada, parecia improvável de se envolver com ela, a quem considerava inferior.
"Desprezível", murmurou ele, soltando-a abruptamente. Naquele instante, notou as marcas vermelhas que seus dedos haviam deixado em sua pele.
"Ela é uma mulher tão delicada", resmungou para si mesmo.
Ellie, disfarçando o alívio com um sorriso composto, disse: "Estou muito ansiosa para viver com você, senhor Thorpe."
O rosto de Kaiden escureceu enquanto ele manobrava a cadeira de rodas para se afastar.
Dessa vez, porém, decidiu deixá-la ficar e não expulsá-la.
O corpo de Ellie, debilitado pela febre, balançou. A visão ficou turva, e ela desmaiou...
Ao despertar mais tarde, Ellie sentiu-se desorientada, a mão dolorida por causa da agulha do soro.
Estava em um quarto de hóspades ao lado do de Kaiden.
Enfrentando a doença, tomou o remédio, envolveu-se nos cobertores e suou profusamente.
Quando o sono a dominou, um momento de clareza surgiu:
Kaiden era um homem a ser evitado; antagonizá-lo não era uma boa ideia.
Ellie resolveu ignorar sua deficiência fingida. A curiosidade, naquele caso, não era sua aliada.
Depois de algum tempo, foi acordada por batidas insistentes.
"Senhora Thorpe, o senhor Thorpe solicita sua presença no pequeno depósito do primeiro andar para tratar do seu dote", informou uma empregada, o rosto marcado pela preocupação.
Ellie sabia pouco sobre o dote preparado pela família Gordon, mas seu instinto lhe dizia que aquilo seria complicado.
No depósito, o ar estava pesado, tenso.
Kaiden estava sentado em sua cadeira de rodas, um objeto na mão, com uma aura intimidadora.
"Senhor Th..."
Pum!
Antes que Ellie pudesse completar a frase, Kaiden atirou um objeto abruptamente nela.
"Quantos truques nojentos você ainda tem na manga, Ellie?", cuspiu ele, os olhos gélidos.
O objeto atingiu Ellie, e o conteúdo se espalhou sobre ela e pelo chão.
Entre os itens, havia lingerie provocante e várias caixas de medicamentos.
De mente acelerada, Ellie agachou-se para inspecioná-los.
As caixas continham vários afrodisíacos, inclusive poções supostamente para conceber uma criança, e até... pílulas para aumentar a potência.
Era um insulto claro a Kaiden, uma inclusão chocante dos Gordons em seu dote.
"Ellie, você está tão desesperada assim para dividir minha cama e ter meu filho?" Kaiden fitou-a com um olhar inescrutável.
Ellie, fervendo por dentro com o insulto dos Gordons, recompôs-se e levantou. "Senhor Thorpe, eu não fazia ideia de que esses itens estavam incluídos."
"E isso aqui?" Kaiden perguntou com uma risada sarcástica, apontando para uma caixa de maquiagem sobre a mesa.
O coração de Ellie disparou enquanto se aproximava da caixa para ver melhor.
Dentro, havia uma foto forjada dela com Erick, um colar em forma de coração e várias cartas de amor — nenhuma delas era sua!
Aff!
Os dedos de Kaiden apertaram suas bochechas de repente, forçando-a a encarar seus olhos frios e impassíveis.
Aqueles objetos fraudulentos eram um insulto a Kaiden, algo que nenhum homem aceitaria facilmente.
"Ellie, casar-se comigo enquanto guarda lembranças de outro homem... é muita ousadia."
"Não fui eu. Os Gordons providenciaram o dote, eu..."
Sua tentativa de esclarecer foi inútil.
Qualquer explicação soaria como uma desculpa esfarrapada.
Resignada, Ellie baixou o olhar.
Curvou-se ligeiramente. "Peço desculpas."
Deveria ter prestado mais atenção ao dote.
Naquele momento, a percepção de Kaiden sobre ela mudou.
A rebeldia da noite anterior desaparecera, substituída pela submissão.
"Ellie, muitas disputam o papel de minha esposa. Não assuma que garantiu um lugar só porque está aqui."
Era um aviso.
Embora afastado do pai, Jorge Thorpe, e sem influência na família Thorpe, o fato de Kaiden ser o único filho legítimo de Jorge ainda atraía muitas pretendentes.
Se descobrissem que Kaiden não era realmente deficiente, a competição se intensificaria.
O dote dos Gordons foi descartado de Solar Moon como lixo.
Refletindo sobre a origem daquelas supostas lembranças de amor, Ellie percebeu a verdade.
Tinha sido Demi!
Ela fora a única a ter acesso à caixa do dote antes do casamento.