Havia um problema, porém. Um dos grandes. Os Pazzani não eram apenas empresários; eles lidavam com negócios escuros e perigosos. Todos os funcionários sabiam disso, selados por um termo de confidencialidade que ninguém ousava quebrar. Eu conhecia bem o destino daqueles que não pagavam suas dívidas ou falhavam com a família. Mas o tempo de Rebeca estava acabando.
Bati à porta do escritório e ouvi um "entre" abafado.
- Ali? - O Senhor Pazzani pronunciou meu nome, surpreso pela minha expressão.
- Senhor...
- Que rosto é esse, homem? O que aconteceu? - Ele se levantou, percebendo meu estado de choque.
- Eu... eu preciso da sua ajuda.
- Diga logo! - ele exclamou, já em alerta.
- Minha esposa. - Ele me encarava, esperando o resto. - Ela precisa de uma cirurgia urgente e eu não tenho os recursos. Senhor, eu imploro, me empreste esse dinheiro.
Houve um breve silêncio antes de ele responder:
- Ali, acalme-se. Vamos até o hospital agora e veremos o que pode ser feito.
Assenti, sentindo um misto de alívio e terror. Eu sabia que, ao aceitar aquela ajuda, minha alma pertenceria aos Pazzani para sempre. E foi assim que tudo começou...
O trajeto até o hospital foi um borrão de luzes da cidade e o som do motor potente do carro do Senhor Pazzani. Eu não conseguia parar de apertar as mãos, sentindo o suor frio escorrer pela nuca. Ele não disse uma palavra, apenas dirigia com aquela postura rígida de quem está acostumado a carregar o peso do mundo - ou o peso de uma organização inteira.
Ao cruzarmos as portas da unidade de terapia intensiva, o cheiro de antisséptico pareceu me sufocar. Nazla estava sentada em um banco de espera, com o rosto inchado de chorar, enquanto Nazli andava de um lado para o outro, como uma leoa enjaulada, pronta para atacar qualquer um que desse uma notícia ruim.
- Pai! - Nazla correu para os meus braços, mas parou abruptamente ao ver quem me acompanhava.
Nazli também estancou. Seus olhos, idênticos aos da mãe, mas com o fogo que herdou de mim, percorreram o Senhor Pazzani de cima a baixo. Ela sabia quem ele era. Ela sabia o que aquele homem representava.
- Onde está o médico? - a voz do Senhor Pazzani ecoou pelo corredor, autoritária, atraindo olhares de enfermeiras e seguranças.
Um homem de jaleco branco aproximou-se, consultando uma prancheta.
- O estado da Senhora Rebeca é crítico. O bloqueio arterial é severo e o plano de saúde não cobre a prótese necessária para a cirurgia de emergência. Sem o depósito imediato de...
- Não me fale de números - interrompeu Pazzani, com uma calma que chegava a ser assustadora. - Faça o que precisa ser feito. Use os melhores cirurgiões da Sicília. Eu assino o que for necessário.
O médico hesitou por um segundo, mas, ao encarar os olhos gélidos do meu patrão, apenas assentiu e saiu apressado.
Senti um peso sair do meu peito, mas um novo, muito mais denso, se instalou em meus ombros. Eu estava salvo, e ao mesmo tempo, condenado. Olhei para Nazli; ela não parecia aliviada como a irmã. Ela me encarava com uma pergunta muda: "A que preço, pai?".
O Senhor Pazzani se aproximou de mim e colocou uma mão pesada sobre o meu ombro. Ele não sorria.
- Ela vai ficar bem, Ali. Rebeca é da família. E nós cuidamos dos nossos.
Ele enfatizou a palavra "nossos". Naquele momento, entendi que eu não era mais apenas o motorista ou o funcionário de confiança. Eu acabara de me tornar uma dívida viva.
- Obrigado, senhor. Eu farei qualquer coisa para retribuir... - as palavras saíram antes que eu pudesse contê-las.
- Eu sei que fará - ele respondeu, com um brilho enigmático no olhar. - Na verdade, Dante está precisando de alguém com a sua lealdade para uma "viagem de negócios" amanhã cedo. Considere isso o início do seu pagamento.
O pavor gelou meu sangue. Dante. O filho implacável. O homem que não conhecia a palavra misericórdia. Minha esposa ainda nem tinha entrado na sala de cirurgia, e as sombras da Sicília já estavam cobrando o seu dízimo.