Na segunda de manhã, acordo no horário de sempre, tomo um banho e vou tomar café. Depois seco meus cabelos, deixando-os bem lisos, preencho minha sobrancelha e passo corretivo, bronzer e finalizo com rímel para deixar meus olhos mais acentuados. Visto uma roupa social, calça e colete de alfaiataria e um mocassim. Me avalio no espelho antes de decidir que estou pronta para o dia, que com certeza será tenso.
Pego minha bolsa, e antes que eu me esqueça, coloco um par de brincos, alguns acessórios dourados e saio para pegar o metrô.
Quando chego no prédio em que trabalho dou uma boa olhada, alto, preto e imponente. Enquanto passo o cartão pela catraca me lembro da primeira vez em que estive aqui, eu sinceramente pensei que fosse vomitar de tanto nervosismo, mas foi tudo bem, todos são muito acolhedores.
Vou direto para os elevadores, faltam 20 minutos para a reunião começar. Quando o elevador chega, entro e pego meu celular para ver se Nat falou alguma coisa.
— Iana? – Não. Pode. Ser. Olho pro lado e me deparo com olhos verdes como jade me encarando.
Meu estomago dá um nó. Olhando ele melhor, percebo que sua barba é meio ruiva.
— Ian? Bom dia – dou uma boa olhada, ele fica ainda melhor de terno.
— Bom dia, quase não te reconheci com o cabelo arrumado.
Hmmm, então ele vai ficar me alfineteando? Os cabelos dele vão um pouco abaixo da orelha, loiro bem escuro com algumas partes ruivas, é estranho e sexy. Meu deus, preciso me controlar.
— Bom te encontrar sem ser praticamente atropelada – devolvo.
Nós dois caímos na risada e o elevador chega no meu andar.
— Bom, eu me despeço aqui, bom vê-lo novamente, Ian – e saio do elevador.
Estou no quinto andar, onde ficam as salas de reunião.
— Eu também estou nesse andar, sala principal?
— Hm, sim! Estou indo para lá agora – assim que digo isso meu celular toca, é minha chefe, Nat. – Preciso atender, siga o corredor à esquerda, a sala fica no final — ele assente e segue seu caminho.
— Oi Nat, já chegou?
— Ai Sam, você me perdoa? — pra ela já começar assim... — Estou parada em um congestionamento e não vou conseguir chegar a tempo, você revisou tudo né? Eu sei que sim. Consegue começar sem mim? – sinto um peso em meu estômago.
— Como assim? Hoje o filho do McDougall vai estar aqui, você não pode fazer isso comigo – ok, eu quero chorar.
— Samantha, eu sou sua chefe e preciso que faça isso, te recompenso com um jantar hoje! Eu sei que você consegue. Beijos Sam, boa sorte – e desliga.
Começo a suar de nervoso, como sempre acontece quando algo sai do meu controle, meu corpo esquenta e começo a ter taquicardia. Merda. Não pode ser, apresentar para o vice-presidente da matriz. Sozinha. Uma coisa é auxiliar em uma coisa ou outra, mas é totalmente diferente fazer tudo sozinha e sem supervisão.
Sem ter o que fazer, respiro fundo várias vezes, embora esteja meio trêmula, sigo para a sala de reuniões com a cabeça a mil, quando entro, vejo que o Diretor Financeiro – que eu nunca me lembro do nome, acho que é Saulo, ele está conversando com Ian, nos fundos da sala. No meio daquela confusão esqueci de perguntar o que ele fazia aqui.
Saulo olha para mim e pergunta:
— Dra. Natália já chegou?
— Bom dia, ela ficou presa no trânsito e não vai conseguir chegar a tempo — todos, incluindo o Ian, olham para mim.
— Você vai substituir ela? — Perguntou Saulo, ou é Paulo?
— Sim, vou começar a apresentação sem ela – digo, tentando ignorar o frio na barriga e conter minha ansiedade.
— Você consegue — diz baixinho a sempre simpática, Dra. Marina, Diretora de marketing.
Olho em volta tentando me situar, parece que todos já estão aqui...
— Bom, Samantha, esse é Ian McDougall, o vice-presidente da Matriz. – Por que eu não pensei nisso? Droga.
Ele sorri para mim de maneira acolhedora. Eu devia ter suspeitado, um desconhecido, simpático e bonito demais para ser qualquer um. Por um minuto, eu não soube dizer se tê-lo conhecido antes era uma coisa boa ou ruim, mas depois da reunião, presumi que sim. Depois daquele sorriso, 50% do meu nervosismo passou, arrumei as coisas para a minha apresentação e simplesmente falei.
Fui jogando informações, explicando gráficos e olhava ocasionalmente para Ian, que tomava notas de tudo que eu dizia, quando percebi, já havia acabado de falar e me sentei ao lado dele — o único vago, e aguardei até que todos os diretores fizessem a parte deles.
Durante a apresentação das finanças, descobri que na verdade o nome do diretor é Paulo.
Por fim, Ian agradeceu a presença de todos e fui a primeira a deixar a sala, peguei o elevador de serviços e parei no 13° andar, onde ficava o setor jurídico, e fui direto para minha sala. É pequena e conta apenas com uma mesa e uma cadeira — eu não recebo ninguém, mas sendo braço direito da Nat, eu ajudo a cuidar do setor inteiro.
Eu não deixo praticamente nada em cima da mesa, apenas o meu planer e um porta canetas, sempre tive toque com organização. Tiro o notebook da bolsa e começo a trabalhar.
O restante do dia foi um borrão, não vi mais o vice-presidente e não pensei muito nisso também, eu terei um dia cheio pela frente. Nat me mandou mensagem avisando que trabalharia de casa hoje e confirmou nosso jantar no lugar de sempre. Quando deu meu horário, fui para o elevador, e como o destino ama rir da minha cara, Ian estava lá, porém estava lendo algo em seu celular, decidi fingir não que não vi ele.
Não sei porque mas subitamente, me sinto envergonhada na presença dele. Possivelmente por tê-lo tratado antes de forma tão irreverente, e agora, sei que ele é o dono da empresa. Um dono mundial, poderoso. Saio rapidamente do elevador, mas dou menos de três passos antes de Ian chamar meu nome – Samantha – dessa vez.
Olho por cima do ombro com um sorrisinho despretensioso.
— Sim? – levantei as sobrancelhas.
— Quer jantar comigo hoje? Ando muito sozinho nessa cidade – ele disse isso de forma bem séria.
— Hm, terei de recusar, eu vou jantar com a Natália, ela me deve uma – sigo para a saída, ele vem atrás de mim.
— Natália Borges? A Diretora do jurídico?
— A própria.
— A sua chefe te deve uma?
— Deve ter notado que ela não apareceu para a apresentação de hoje – digo com sarcasmo e me arrependo da minha língua incontrolável.
— Sim, e não pude deixar de notar sua performance, você leva jeito para falar em público.
Eu quase disse a ele que não, eu não levo jeito para falar em público, e que única coisa que me impediu de desmaiar naquela sala foi o fato de ser ele lá e não o pai dele, a presença dele que me tranquilizou, afinal, eu já o havia conhecido e estava completamente despreparada para falar tudo sozinha. Porém...
— Obrigada, bom, vou in...
ELE ME INTERROMPE.
— Boa noite Samantha, tenha um ótimo jantar.
E sai andando sem olhar para trás.
Fico em choque com seu corte, e fico observando suas costas por um tempo – eu não esperava que ele me deixasse falando sozinha, vejo ele pegando o celular para falar com alguém. Sigo meu caminho para casa.
O fato dele não ter insistido me fez querer que ele tivesse feito exatamente isso. Okay, talvez tenha me chamado por ser uma pessoa conhecida, e é obvio que ele pode encontrar uma boa companhia em qualquer lugar por aqui, mas mesmo assim... Feriu meu ego.
Mas ok.
Chegando em casa, não pude deixar de reparar em como a minha quitinete é perfeita para mim, mesmo sendo pequena, eu amo a minha casa. O prédio em que moro não tem elevador, e por muita sorte, eu consegui um apartamento no primeiro andar, n° 113.
Entro em casa e me jogo no sofá — a sala de estar conta com um sofá de dois lugares cinza e um raque, que comporta uma tv pequena, o cômodo é pequeno, assim como todos os outros, e é separado da cozinha por um balcão. Não tem mesa exatamente por não ter muito espaço, no balcão há um vaso com uma orquídea roxa, que deve ser coisa da minha mãe, aliás...
— Mãe?! – gritei, só para provocá-la, ela odeia gritos.
— Não grita, menina! Os vizinhos – dou risada da sua reação, e a voz dela vem do quarto.
Me encosto no batente e a observo enquanto arruma sua mala.
— Oi mamis
— Oi filhota, como foi o trabalho?
— Hoje eu praticamente trabalhei no lugar da Natália, ela primeiro ficou presa no congestionamento e depois resolveu trabalhar de casa.
— Mas deu tudo certo no final?
— Sim – e sento na beirada da cama.
— É o que importa, e aposto que foi bom para você. Sai daí menina, estou arrumando minhas coisas!
— Esqueci completamente que você ia embora hoje, eu vou jantar com a Natália, mas posso desmarcar...
— Nada disso, você sempre tenta arrumar desculpas para não sair de casa, você vai sim — ela para o que está fazendo e olha pra mim. — Se arruma bem linda. A que horas é seu compromisso? Vou pro aeroporto às 20h, pode pegar carona no meu Uber se quiser.
Não pude me segurar e perguntei:
— Por que o papai afrouxou as rédeas e decidiu que você pode vir de avião?
— Não seja tão difícil com seu pai, esse é o jeito dele filha, tente entender por que as pessoas são como são – reviro os olhos, sempre apaziguadora. — Ele já te liberou do compromisso, por que ainda está guardando mágoa?
Dou de ombros.
Eu simplesmente acho um absurdo que eu seja obrigada a mandar 25% do meu salário para a casa dos meus pais.
— Para de ser boba menina, seu pai guardou o dinheiro esse tempo todo em uma poupança para você. Você fica focada em coisas que não fazem o menor sentido e desfoca das coisas mais importantes. Você não sabia cuidar do seu dinheiro, todo mês você recebe, paga suas contas e gasta o restante com roupas e... Livros? – ela olha para mim com ar de dúvida quando diz “livros” como se não soubesse se era ruim ou bom o fato de eu investir em muitos deles.
Mas o real problema para mim é o jeito controlador do meu pai de fazer as coisas, nunca nada está bom! E por que eu não posso comprar roupas? Eu comprei roupas para trabalhar, e não sei se isso é tão errado como meus pais fazem parecer, já que eu comprei com o meu dinheiro.
— Nunca passou pela sua cabeça guardar um pouco para possíveis emergências?— Ela continua, e quero responder “sim mãe, eu penso, mas não me sobrava dinheiro para guardar”, mas prefiro me abster e só escutar.
— E tenho certeza de que se eu não tivesse providenciado os móveis, você não os teria, mas veja Samantha, você tem uma casa boa e aconchegante que é só sua, que já é muito mais do que tive na sua idade. Além disso, tem uma reserva de dinheiro, uma garantia para o seu futuro, e mesmo que isso te fizesse achar seu pai chato e controlador, como você já pontuou várias vezes, ele estava fazendo o que acha certo – ela para e respira por um momento. – Eu sei que ele não é bom com palavras e as vezes é grosseiro, mas fez o que achava certo para você.
Eu apenas murmuro um “entendi mãe” e vou pro chuveiro. Ela não me entende e não importa o que eu diga, a verdade é que ela não sabe se eu teria móveis, nem eu, porque eles sempre tomam a frente de tudo. E é exatamente por isso que não posso voltar para perto deles. E nem para a influência deles.
Só eu sei como foi difícil sair.
Não quero isso para minha vida. Meu pai quando se trata de dinheiro, é um mão de vaca da pior espécie, me lembro que quando eu estava no quarto ano de faculdade nós precisávamos de dinheiro em casa. Eu não sabia como ajudar, meu pai é um homem muito difícil, e vivia brigando com minha mãe que queria que eu só estudasse, enquanto meu pai queria que eu saísse para trabalhar, acreditem, eu também queria.
Um dia surgiu a oportunidade de estagiar para a Doutora Natália Borges, o estágio era voluntário, que com muita discussão por fim, consegui ir, sob o argumento de que eu precisaria de alguma experiência para ingressar no mercado de trabalho.
Meu pai falava sem parar para eu pedir uma bolsa “pois ninguém trabalha de graça” e eram todos os dias a mesma coisa, mas estagiei por um ano de graça. E esse estágio abriu portas que eu nunca imaginaria, a Dra. Foi chamada para trabalhar no setor jurídico da McDougall e me trouxe junto com ela, como estagiaria.
Antes de eu me mudar à São Paulo continuei na minha cidade — e dessa vez remunerada, mas, a distância, para que eu pudesse terminar a faculdade e ajudar a Nat – passamos a usar um apelido ao longo do tempo, revisando papéis do escritório e protocolando petições, já que a mesma teve de sair às pressas do escritório, então trabalhamos através de videoconferência por um ano.
Em dezembro do mesmo ano me mudei para São Paulo e iniciei minha nova vida, eu havia guardado metade da bolsa que eu recebia da Nat para alugar uma quitinete e comprar coisas básicas. Eu já estou em São Paulo há dois anos, agora como braço direito da Diretora Executiva da McDougall, o que é muito bom para o currículo, mas preciso procurar maneiras de evoluir e subir na vida.
Assim que saí do banheiro, minha mãe já havia retirado as coisas dela do quarto e estava na cozinha. Olhei o relógio, sete horas, eu teria uma hora para me arrumar. Coloquei o babyliss na tomada e fui me maquiar, passei base, contorno, iluminador, para os olhos apostei em um delineado fino de gatinho para destacar meus olhos cor de mel e resolvi passar um batom vermelho, num tom fechado. Ondulei meu cabelo e coloquei um vestido preto mula manca, midi e com uma fenda, dando um ar mais sensual para aquela roupa simples, e coloquei uma sandália de salto de tiras.
Passei perfume e creme nas pernas e braços e como sempre, ia me esquecendo dos brincos. Sempre uso dourado, prata não combina com meu tom de ruivo.
— Mãe, estou pronta.
Ela me avalia por um momento e abre um sorriso:
— Está linda Sam, já chamei o Uber.
Ajudo minha mãe a descer as coisas e vamos em silêncio até o restaurante. Chegando lá, minha mãe desce para que nos despedíssemos.
— Desculpa qualquer coisa mãe, eu amo todos vocês.
— E nós amamos você, sempre.
Eu sei que ela não entende qual é o problema para mim e está tudo bem, estrou trilhando um caminho que é só meu, e estou doida para descobrir onde isso vai me levar.