No sábado daquela semana, cedinho, meus pais partiram para Noriah Norte em busca da herança do nosso tio desconhecido, Lewis Miller. Eu estava feliz, mas só acreditaria quando visse todo o dinheiro em posse da nossa família.
Assim que eles saíram, Martina anunciou:
- Vou passar o final de semana na casa de Dex.
- Eu avisei que não queria esta responsabilidade de cuidar de vocês. –disse Michelle. – Depois de nove meses você aparece grávida e ainda vou ser culpada.
- Acha mesmo que eu sou boba? – perguntou Martina.
- Sinceramente, acho. – disse Michelle dando de ombros e servindo café. – Vou voltar para cama.
Fiquei olhando as duas discutirem. Servi um café com leite e comecei a beber, sentada na cadeira pouco confortável, dura e fria da cozinha. Michelle voltou para o quarto. Eu disse:
- Ela pode ter razão...
- No que? – perguntou Martina. – Acha também que eu sou boba?
- Não... Só acho que você deve ser cuidar... Imagina engravidar com 15 anos. Seria horrível...
- Meg, eu posso apostar que sou mais esperta que você.
Eu fingi não ouvir. Não queria brigar com Martina. Ela saiu e eu continuei ali, olhando pela janela. O dia estava cinzento, embora não parecesse que iria chover. Parecia que estava frio na rua. Demorou uns dez minutos para minha irmã descer com uma mochila.
- Você vai mesmo? – perguntei.
- Acha que eu vou ficar fazendo o que nesta casa com vocês todo o final de semana?
- Martina, nossos pais foram buscar uma herança... Tem ideia de tudo que vai acontecer nas nossas vidas depois disso?
- Tenho... Acho que tudo pode ficar ainda melhor. Mas a vida é curta, Meg. Eu posso sair na rua e ser atropelada.
- A vida não é só fazer sexo, Martina.
- Você diz isso porque ainda não fez.
Olhei para ela e ri. Martina era sem noção. Ela me deu um beijo e disse:
- Amo você.
- Também te amo, Martina. Se cuida.
- Pode deixar. Você também... E tenta sair um pouco. Vai se divertir, Meg.
- Vou tentar fazer isso... Os dias cinzas de outono não me fazem muito bem.
- Lembre-se: a vida é curta.
- Pode não ser...
- Não comece...
Martina saiu. Eu peguei meu café e sentei no sofá, olhando para os vidros quadriculados que davam para a rua. Senti um pouco de frio e peguei uma coberta. Olhei no relógio e já passava das 10 horas. Liguei para Penélope, minha amiga.
- Oi, Meg.
- Oi, Pen. Como está?
- Bem... E você, caiu da cama?
- Não é cedo, Pen. Já passa das 10.
- Saudade de mim? – perguntou ela, me deixando ouvir a risada do outro lado da linha.
- Bem, meus pais saíram e estou me sentindo sozinha, numa casa com mais duas irmãs. – confessei.
- Olha só, Meg. Hoje vou dar uma festinha aqui em casa, à noite.
- Nem tinha me falado nada... – me fiz de triste.
- Eu tinha sim, mas você nunca dá importância...
- Pois acho que hoje pode ser diferente.
- Duvido... Eu poderia apostar que você não vem.
- Como você é má comigo... Eu vou. Como falei, estou sozinha.
- Sozinha não, com duas irmãs.
- Na verdade uma. – expliquei. – Martina já deu no pé.
Ouvi de novo a risada de Penélope, divertida, do outro lado da linha:
- Espero você... Ficar com a megera da Michelle ninguém merece. Por que não vem agora?
Olhei para a rua e disse:
- Está tão feio o tempo...
- Então vem logo... Pode chover depois...
- Eu não sou de açúcar. – contestei.
- Então você vem mais tarde? Que horas?
- Final da tarde... Prometo.
- Vou esperá-la então... Caso desista, me avise.
- Não vou desistir.
- Só acredito vendo. Você vai gostar, eu garanto. Sabe quem ficou de aparecer por aqui?
- Quem? – perguntei pouco interessada.
- Axel Collins.
Eu senti meu coração bater mais forte:
- Axel?
- Sim...
- Você falou com ele?
- Não... Mas pedi para umas amigas em comum o deixarem ficar sabendo da festinha...
- Ideia genial. E... Eu tenho uma notícia bombástica para te contar.
- Conte...
- Não mesmo. Surpresa. Só vou contar quando chegar aí.
- Vai me matar de curiosidade.
Eu ri:
- Vou mesmo... E você não vai acreditar quando eu lhe contar.
- Aguardo você... E sua notícia. E vou torcer para você realmente aparecer desta vez.
- Beijos.
Desliguei o telefone. Deitei no sofá e me cobri. Não tinha nada para fazer. Penélope era minha amiga há um tempo. Estudávamos na mesma escola. Ela era rica e eu pobre. Ainda assim ela nunca se importou com isso. O mundo na escola onde eu era bolsista era diferente do meu. Ainda assim eu tinha me adaptado bem. Estava lá para estudar e não para fazer amigos. E assim o fiz. Sempre tirava as melhores notas. Era focada e interessada. Penélope também era inteligente e estudávamos juntas, nos ajudando quando uma de nós tinha dificuldade. O único deslize foi me interessar por um garoto lindo e misterioso chamado Axel Collins. Nos formaríamos naquele ano. Nunca estudamos juntos na mesma sala. Mas Axel chamava muito minha atenção. Embora sempre nas primeiras páginas de tudo que tinha a ver com a alta sociedade Noriah Sul, ele pessoalmente não parecia aquela pessoa. Era envolvido nas causas sociais da escola e embora sedutor e lindo, nunca o vi com uma garota na escola. Por isso ele chamava tanto a atenção de todas. Axel era magro, alto, moreno tinha olhos castanhos. Seus cabelos altos e encaracolados estavam sempre bem penteados e arrumados, assim como suas roupas... Tudo impecável. Ele não era um dos príncipes de Noriah, mas parecia um. Era sempre educado com todos. Nos cruzamos algumas vezes nos corredores e ele me cumprimentava. Isso não era um privilégio, infelizmente. Ele fazia isso com todo mundo. Não sei explicar o porquê, mas ele me chamava a atenção com seu belo par de olhos castanhos escuros que contrastavam com sua pele morena clara e as sobrancelhas bem desenhas e cheias. Eu cheguei a ter vários recortes dele no meu quarto e um pôster que ganhei de Penélope, que ela mandou imprimir especialmente para mim no meu último aniversário. Acabei retirando tudo das paredes há um tempo, por achar que eu já não era mais uma adolescente para manter aquele tipo de coisa. Mas ainda assim não tive coragem de jogar fora quando olhei as imagens dele me olhando. Então coloquei numa caixa. De vez em quando eu abria e olhava aquelas imagens. Aquele homem embora tão próximo de mim era um sonho distante. E acho que eu gostava dele exatamente por isso: era quase impossível. Acho que eu até preferia fingir às vezes que gostava dele mais do que realmente sentia, só para pararem de ficar tentando arrumar namorados para mim. Tanto Penélope quanto Martina eram focadas nisso: me arrumar um par. Mal sabiam elas que para mim aquilo não era tão importante. Por que eu tinha que gostar de alguém para ser feliz? Por que eu tinha que perder a virgindade por que todas elas já haviam perdido? Eu não precisava fazer o que todas faziam... Ainda assim tentava me igualar. Era sempre tida como “certinha”, correta, que não fazia nada errado ou fora dos padrões. Mas não era isso... Não havia motivos para fugir dos padrões... Eram os “meus padrões”.
Michelle nem acordou para o almoço. Eu também não comi nada. Não estava com fome, pois havia tomado café tarde. No início da tarde começou a cair uma chuva fina. O outono em Noriah Sul era assim: frio, chuvoso e cinzento... Um tanto quanto depressivo algumas vezes.
Morávamos numa casa pequena e simples, composta de três quartos pequenos, cozinha, um banheiro e uma sala. O banheiro era disputadíssimo. Nossa casa ficava na zona rural, afastada de muitas outras. Tínhamos um pátio enorme, onde quando pequenas usávamos muito para brincar e nos divertir. Hoje ele só servia para os dias quentes, quando estendíamos roupas no varal. Aquele lugar não era muito bom para plantio, nem mesmo de árvores. Um emaranhado de terra vermelha coberto por capim que crescia radicalmente no verão, ocupando grande parte do tempo do meu pai na poda. Eu gostava da varanda que existia por toda a extensão da casa. Praticamente só eu a usava. Deitava na rede para contemplar a noite e às vezes até dormia ali no forte do verão. Como seria nossa vida depois de ficarmos ricos? O que mudaria? Continuaríamos morando na Zona D? Será que meus pais quereriam mudar de casa? Estaríamos sempre unidos, mesmo com nossas diferenças, como sempre foi?
Michelle apareceu na sala, de cabelos úmidos. Acho que tinha saído do banho há pouco. Ela me olhou de relance enquanto ia para a cozinha e perguntou:
- Vai passar o dia aí?
- Não... Na verdade vou sair daqui a pouco. – eu disse.
Ela voltou e me olhou, com a sobrancelha arqueada, surpresa:
- Você, vai sair?
- Vou na casa de Penélope. Ela vai dar uma festa...
- E Megan Miller vai dar o prazer da sua presença?
- Está sendo irônica, Michelle?
- Eu? Imagina.
- Não vai reclamar, como fez com Martina?
- Claro que não. Quero mesmo que você vá. Vou trazer uns amigos para cá.
- Então Martina não é a única errada nisso tudo, não é mesmo?
- Não venha me dar lição de moral, Megan. Eu já tenho 24 anos. Martina tem 15. É uma criança ainda.
- Ainda assim você nem ligou quando ela saiu. – eu critiquei.
- Eu mandei ela se cuidar... E não engravidar.
- Bom conselho... – ironizei.
- Quer saber? Faça o mesmo que Martina e vá transar por aí que já está mais que na hora, Megan.
Olhei perplexa para ela. Minha irmã era muito cruel quando queria. Sempre a dona da razão. O que esta gente tinha contra minha vida e minhas escolhas? Talvez eu devesse ter mentido que já tinha dormido com alguém, assim ninguém ficaria preocupado com escolhas e decisões que deveriam caber somente a mim.
Levantei e fui para o banho. Realmente eu precisava sair. Não suportaria uma noite regada à bebidas e homens e mulheres sem cérebro querendo somente perversão. Era isso que Michelle transformaria nossa casa naquela noite. Ainda assim ela sempre era a preferida de meus pais. Nunca a criticavam. Sempre a consideravam perfeita.
Quando cheguei no quarto pensei no que vestir. Estava frio. Optei por uma calça jeans e uma blusa branca com um casaco marrom de couro por cima. Botas de cano baixo finalizaram a produção com uma maquiagem leve, que realçava minha pele clara e meus olhos castanho-esverdeados. Deixei meus cabelos castanhos claros soltos, caindo até a altura das minhas costas. Um batom claro ficou bem nos meus lábios volumosos. Peguei uma mochila e coloquei um par de roupas dentro, bem como meus pertences de higiene. Passaria a noite na casa de Penélope.
Quando percebi já começava a anoitecer. Penélope não morava perto e o ponto de ônibus era bem longe dali. Então liguei para Cássia, outra amiga, perguntando se ela iria também. Com a resposta positiva, combinei de passar na casa dela para pegar uma carona. Ela não morava muito longe, embora também não fosse perto. Uns trinta minutos de caminhada. Ela também não acreditou muito que eu iria. Pelo visto ninguém confiava que eu poderia ir na festa de Penélope e me divertir. Olhei para a rua e vi a chuva fininha caindo novamente. Pensei até em desistir. Mas ouvi vozes na sala e quando cheguei lá já havia chegado dois amigos de Michelle. Um deles eu conhecia de outros momentos e eu não simpatizava nada com ele. A forma como ele me olhava, parecendo me devorar, era detestável. Assim que me viu, ele cumprimentou:
- Boa noite.
Eu respondi com um aceno e me dirigi para a porta. Definitivamente melhor ir para a noite que prometia diversão na casa de minha amiga do que aturar aquela gente que eu não gostava.
- Não vai ficar, querida? – ele perguntou me olhando.
Michelle saiu da cozinha, trazendo latas de cerveja e colocando sobre a mesa de centro.
- Ela vai numa festinha. – explicou Michelle ironicamente.
- Mas aqui também vai rolar uma festinha. – ele disse. – E vai ser divertido. Posso apostar que muito melhor que a sua.
- Tire os olhos da minha irmã, Raul. Você é muito velho para ela.
Olhei para eles e abri a porta, saindo. Respirei fundo, sentindo o ventinho frio. Coloquei a mochila nas costas e segui meu caminho na estrada úmida da chuva que não se decidia entre parar ou continuar. A noite havia caído definitivamente.
Andei um pouco pela rua deserta na noite escura e sem lua. Campo por todos os lados. Eu estava acostumada com aquela paisagem, mesmo durante a noite. O curioso é que eu morria de medo do escuro, no entanto amava as noites. O que eu não imaginava era que começaria uma chuva torrencial do nada, ofuscando completamente minha visão. Em poucos minutos fiquei encharcada. Peguei meu telefone na mochila a fim de ligar para Michelle me buscar, mas estava sem sinal. Fui mais para o meio da rua, levantando o aparelho para cima, tentando buscar um pontinho de antena. Quando virei, vi uma luz forte na minha direção e não consegui correr. Fiquei completamente imóvel. O carro iria bater em mim... Eu gritei e fechei meus olhos... E tudo ficou escuro.
Eu senti um pouco de dor de cabeça. Abri meus olhos e vi que estava deitada num sofá enorme e confortável, coberta por uma manta grossa e quente. Uma lareira com labaredas de fogo consumiam a lenha vorazmente, deixando o lugar agradável e aconchegante. Levantei a cabeça e olhei à minha volta, não vendo ninguém. O lugar era muito amplo. A sala era bonita e bem decorada e as janelas de vidro ocupavam todo o espaço das paredes em madeira de lei escuras. Tentei levantar e percebi que estava somente de calcinha e sutiã. Fiquei com medo e meu coração acelerou. O que estava acontecendo? Vi minhas roupas penduradas próximo do fogo e tentei me acalmar. Se alguém tivesse me sequestrado não seria cuidadoso para secar minhas roupas. Não vi minha mochila em nenhum lugar. Eu tinha roupas secas lá dentro. Logo vi um homem vindo na minha direção. Meu coração disparou instantaneamente, parecendo querer pular para fora do meu peito. Quem era aquele estranho? Ele sorriu, mostrando os dentes brancos e perfeitamente alinhados na boca bem desenhada e harmoniosa com seu rosto. Ele era alto, e tinha os cabelos castanhos lisos e desalinhados. A barba estava por fazer, mas ainda assim o deixava extremamente sensual. Ele era bonito. Fitei o belo par de olhos castanhos, confusa. Ele me perguntou:
- Você está bem?
- Quem é você?
Ele sentou na poltrona, próximo de mim, em frente à lareira. Tomou um gole da bebida escura que trazia no copo, tranquilamente. Usava calça jeans escura e uma camisa branca dobrada até a altura dos cotovelos, com vários botões abertos, mostrando o peito desnudo.
- Eu perguntei quem é você? – repeti no caso de ele não ter me ouvido, fingindo não ter sido completamente ignorada.
- E eu perguntei se você está bem.
- O que aconteceu?
- Você não lembra o que aconteceu? Vai me dizer que perder a memória?
- Você... Estava no carro por acaso? É o louco que me atropelou?
Levantei a coberta e olhei para o meu corpo. Não tinha nenhum arranhão. Percebi-o me olhando divertidamente e puxei rapidamente a manta, me cobrindo envergonhada.
- Não sou o louco que a atropelou... Na verdade você é a louca que se atravessou na frente do meu carro. Estava tentando se matar?
- Claro que não... Estava tentando achar sinal no meu celular.
- No meio da rua? Durante uma chuva torrencial? Seu celular nem funciona mais.
- Você tentou usá-lo por acaso? Onde estão minhas coisas? E... Minhas roupas.
Ele apontou para as roupas penduradas.
- Onde está minha mochila? Tenho roupas secas lá dentro.
Ele levantou e saiu, voltando em seguida com a mochila, me entregando.
- Pode me dizer o que houve, por favor? – pedi um pouco mais gentil, afinal, ele não estava de um todo errado. Eu havia sido uma idiota descuidada ao parar no meio da rua, mesmo que quase nunca passasse carro por ali.
- Eu quase a atropelei. Por sorte consegui frear a tempo. Mas você acabou desmaiando. E eu trouxe você para minha casa.
- Por que... Não me levou para um hospital?
- Porque eu não atropelei você. Como deve ter visto, você não tem nenhum arranhão. Para onde eu a levaria? Não sei onde você mora... E não podia deixá-la desacordada no meio da estrada naquela chuva toda. Aliás, a chuva continua.
Olhei pela janela e não vi a chuva, mas ouvia o som dela caindo. Levantei-me e usei a manta para me cobrir.
- Há um lugar onde eu possa me trocar?
- Subindo as escadas, primeira porta à direita.
Eu peguei a mochila e subi. Pisei na manta e cai um lance de escada, sendo observada debochadamente por ele. Entrei no cômodo com uma enorme e bem arrumada cama de casal e um armário grande. O chão era de madeira, exatamente igual as paredes. Abri a mochila e coloquei o jeans seco e uma camiseta mais larga branca. Troquei também minhas roupas íntimas. Naquela hora fiquei brava comigo mesma por não usar nada mais sexy ou sensual. Ao tirar minhas roupas ele se deparou uma calcinha larga e confortável de algodão e um sutiã da mesma cor. Antes eu tivesse ouvido os conselhos de Martina: “viva a vida, vai que você seja atropelada”. Ela só não imaginou que eu pudesse ser atropelada pelo homem mais lindo de Noriah. Droga, eu quase tinha sido atropelada... Poderia ter sido sério. E estava na casa de um desconhecido. Eu deveria sentir medo e não me preocupar com o que ele viu quando tirou minha roupa. Eu não era assim.
Desci, descalça, levando comigo minha mochila agarrada ao peito.
- Poderia me levar embora? – eu pedi.
- Nem pensar. – ele disse. – A estrada está péssima, a chuva forte e não há iluminação nesta estrada maldita.
- Poderia me emprestar seu telefone?
- Sem sinal.
- Que diabos de lugar estamos? – perguntei.
- Na minha casa.
Eu suspirei e sentei no sofá.
- Que horas são?
Ele olhou o relógio de pulso e disse:
- 9 horas.
- Eu... Tenho pessoas que devem estar preocupadas comigo. – eu afirmei, com um pouco de medo.
- Aposto que sim, por isso deixaram você naquela estrada deserta na chuva durante a noite.
Eu olhei-o confusa. Ele pensava que ninguém se preocupava comigo? Pensei em meus pais em Noriah Norte, correndo atrás da herança do tio desconhecido que nos deixara rico. Martina devia estar aproveitando a vida como ela mesma sempre dizia: transando como se não houvesse amanhã. Michelle provavelmente já havia bebido tudo que podia e em pouco tempo estaria em seu quarto acompanhada de um dos amigos. Penélope nem sei se me esperaria de verdade em sua casa, pois deixou claro que não acreditava que eu iria. Nem mesmo minha carona acreditava que eu pudesse aparecer. Então realmente ninguém sabia onde eu estava... E pouco se preocupavam com isso.
- Pois bem, a escolha de ir por aquela estrada foi minha... Mas eu não estava tentando me matar, acredite. Estava indo para a casa de uma amiga.
- Então talvez ela a procure... Vai dar sua falta. Mas infelizmente não temos o que fazer.
- Não... Ela não vai dar minha falta. Ela nunca acreditou que eu realmente iria chegar lá. – confessei rindo tristemente da minha situação.
Com tantas pessoas sabendo onde eu estava, incrivelmente ninguém daria a minha falta. Minhas irmãs achavam que eu estaria na casa de Penélope. Esta, por sua vez, acharia que eu estava na minha casa e que havia desistido de ir.
- E sua família? – ele perguntou.
- Cada um fazendo uma coisa diferente neste momento... E pode apostar que tudo é bem mais importante do que eu. – falei ironicamente e nem entendendo bem o porque estava conversando aquilo com aquele estranho.
Ele riu e continuou:
- Namorado, marido? Ele vai dar falta de você.
Balancei minha cabeça:
- Acho que exatamente por ninguém dar falta de mim é que não tenho um namorado.
- O mundo não a quer... – ele brincou. – Sei bem como é isso. Uma típica revolta adolescente.
Encarei-o seriamente. Será que ele realmente sabia o que era aquilo? Não. Certamente aquele homem tinha qualquer mulher que quisesse aos seus pés. E... Eu não era adolescente.
- Quem é você? – perguntei.
- Um estranho... E de partida.
- Como assim?
- Estou partindo de Noriah... E espero nunca mais voltar.
- Nossa, que ódio é este do reino?
- Não é do reino... É das pessoas que fazem parte dele. E não me refiro à rainha, acredite.
Eu ri:
- Entendo...
- Então você me confessou que ninguém está à sua procura? Posso fazer o que quiser com você que ninguém sentirá sua falta?
- Não... Eu não disse isso... No caso que você pode fazer o que quiser comigo. – expliquei preocupada.
- Estou brincando.
- Eu... Sei. – falei sem estar muito certa do que eu dizia.
Meus olhos encontraram os dele novamente. Meu coração acelerou. Que poder aquele desconhecido tinha sobre mim e meu corpo? Eu nunca senti aquilo antes. Medo misturado com desejo. Eu tremi ao perceber o olhar firme dele sobre mim.
- Esta casa linda e perfeita é sua e você vai deixá-la? – tentei falar sobre outra coisa para aliviar a tensão.
- Sim.
- Onde exatamente estamos? – perguntei.
- Zona B.
Eu levantei confusa:
- Zona B? Como eu vim parar aqui? Agora estou preocupada. Você me trouxe para muito longe.
- Calma, menina. Está tudo bem. Amanhã vai ser domingo... O dia vai amanhecer sem chuva e eu vou deixá-la exatamente onde eu a encontrei.
- No meio da rua? – perguntei sarcasticamente.
- Se você quiser, sim.
Eu sentei novamente.
- Está com fome? – ele perguntou.
- Sim... – confessei.
- Me acompanha até a cozinha? – ele me ofereceu a mão.
Eu aceitei, pegando a mão dele e seguindo até a cozinha ampla e planejada, sob medida. Paramos próximos da mesa e ele me fitou, não soltando a mão. Senti a pele quente dele junto da minha e meu corpo arrepiou-se involuntariamente. Senti pela primeira vez na minha vida um desejo intenso se apossar de mim, tendo vontade de tocar naquele homem e explorar cada parte do seu corpo. Pensei nele me tocando o corei. Nossos olhos se encontraram novamente e ele perguntou, ainda segurando a minha mão:
- Seria muito indiscreto perguntar a sua idade?
- Eu... Tenho 18. – menti.
Por que menti? Eu não tinha certeza. Acho que não queria que ele pensasse que estava com uma garota de 17. Eu sabia que ele era mais velho e de alguma forma não queria que parecesse que tínhamos grande diferença de idade.
- E você? – perguntei.
- Eu tenho... Mais... Um pouco mais. – ele se limitou a dizer, misteriosamente.