Capítulo 2

Naquele dia, o meu mundo virou-se de cabeça para baixo. Eu estava na praia, a sentir o sol quente na minha pele, quando recebi a mensagem de texto do meu marido, Pedro.

"Marta, o Tiago teve um acidente. Estou a caminho do hospital. Ele caiu da bicicleta e partiu a perna."

Tiago era o filho da minha melhor amiga, Sofia.

Eu li a mensagem uma e outra vez, sentindo um nó a formar-se no meu estômago.

"E o nosso filho, o Leo? Onde está o Leo?", digitei rapidamente, com os dedos a tremer.

Não houve resposta.

Liguei-lhe. Uma, duas, três vezes. A chamada ia sempre para o correio de voz. O pânico começou a instalar-se. O Leo estava com o Pedro. Eles tinham ido ao parque juntos.

Liguei para a Sofia. A voz dela estava tensa, mas ela atendeu.

"Sofia, o que se passa? Onde está o Pedro? Onde está o Leo?"

"Calma, Marta," disse ela, a sua voz soava distante. "O Pedro está aqui no hospital comigo. O Tiago está a ser tratado. Foi uma queda feia."

"E o Leo?", a minha voz saiu como um sussurro desesperado. "O Pedro levou o Leo com ele?"

Houve uma pausa. Uma pausa que durou uma eternidade.

"Não," disse a Sofia finalmente. "Ele disse que o Leo estava a dormir no carro, então ele deixou-o lá para não o acordar. O parque de estacionamento do hospital é seguro."

Deixou-o no carro.

Num dia de calor intenso, com o sol a bater forte.

O meu coração parou. Desliguei a chamada sem dizer mais nada. Corri para o meu carro, as minhas pernas mal me obedeciam. A viagem até ao hospital pareceu levar horas, cada segundo uma tortura.

Quando cheguei, vi o carro do Pedro. E vi o meu filho.

O Leo estava no banco de trás, o seu pequeno corpo imóvel, o rosto pálido. A janela estava apenas ligeiramente aberta. O calor dentro do carro era sufocante, mesmo do lado de fora.

Gritei. Gritei o nome dele enquanto tentava abrir a porta trancada. Um segurança ouviu os meus gritos e veio a correr, partindo o vidro.

Tirei o meu filho do carro. Ele estava mole, a sua pele quente como brasas.

Os médicos levaram-no de imediato. Corri atrás deles, mas barraram-me a entrada na sala de emergência.

Fiquei ali, no corredor frio, coberta do suor do meu filho, a tremer incontrolavelmente.

Foi aí que o Pedro apareceu, com a Sofia ao seu lado. O rosto dele estava pálido de preocupação.

"Marta! O que aconteceu? O Leo..."

"Tu deixaste-o no carro," disse eu, a minha voz vazia de qualquer emoção. "Tu deixaste o nosso filho a morrer no carro para poderes consolar a tua amiga."

O rosto do Pedro contorceu-se. "Não! Eu não pensei... foi só por um momento. O Tiago estava a gritar de dor..."

"O Tiago partiu uma perna," interrompi, o meu olhar fixo nele. "O nosso filho pode morrer. Por tua causa."

A Sofia deu um passo em frente, os seus olhos cheios de lágrimas. "Marta, a culpa não é dele. Eu estava em pânico. Ele só me estava a ajudar."

Olhei para ela. A minha melhor amiga. A mulher por quem o meu marido tinha abandonado o nosso filho.

"Saiam," disse eu, a minha voz baixa e perigosa. "Saiam daqui. Os dois."

Eles ficaram ali, a olhar para mim. Mas eu já não os via. Só via a porta fechada da sala de emergência, onde o destino do meu filho estava a ser decidido.

Naquele momento, eu soube. O meu casamento tinha acabado. A minha amizade tinha acabado.

Tudo tinha acabado.

Capítulo 3

O médico saiu da sala de emergência. O seu rosto era uma máscara de profissionalismo, mas os seus olhos traíam a gravidade da situação.

"Senhora Costa? Sou o Dr. Almeida."

Levantei-me, as minhas pernas a falhar. "O meu filho... ele vai ficar bem?"

O médico hesitou. "O seu filho sofreu uma insolação grave. A temperatura corporal dele estava criticamente elevada. Conseguimos estabilizá-lo, mas ele sofreu danos cerebrais significativos devido à falta de oxigénio."

Danos cerebrais. A palavra ecoou na minha cabeça, oca e terrível.

"O que... o que é que isso significa?", gaguejei.

"Significa que o Leo sobreviveu," disse o Dr. Almeida, a sua voz suave. "Mas ele não será o mesmo menino. Ele está em coma. Não sabemos quando, ou se, ele vai acordar. E se acordar, é provável que tenha sequelas neurológicas permanentes. Problemas de fala, de movimento, cognitivos..."

Ele continuou a falar, mas as palavras dele tornaram-se um zumbido distante. O mundo à minha volta desfocou-se. Senti o chão a fugir debaixo dos meus pés. A única coisa que me mantinha de pé era a imagem do rosto do meu filho, pálido e imóvel.

O Pedro e a Sofia tinham-se aproximado, a ouvir em silêncio horrorizado.

Quando o médico se afastou, o Pedro estendeu a mão para me tocar.

"Marta, eu..."

Afastei-me dele como se ele estivesse em chamas.

"Não me toques," sibilei. "Nunca mais me toques."

Virei-me para a Sofia. "E tu. Espero que o teu filho recupere totalmente. Para que ele possa viver uma vida longa e saudável, uma vida que tu e o meu marido roubaram ao meu filho."

As lágrimas corriam pelo rosto da Sofia. "Marta, por favor. Eu não queria isto."

"Mas aconteceu," disse eu, a minha voz cortante. "E vocês os dois são os responsáveis."

Virei-lhes as costas e caminhei em direção à unidade de cuidados intensivos, onde o meu filho estava a lutar pela vida. Cada passo era pesado, cada respiração uma dor.

Deixei-os para trás no corredor, as suas desculpas e arrependimentos inúteis para mim. Eles tinham feito a sua escolha.

Agora, eu tinha de fazer a minha.

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