Capítulo 2

Quando abri os olhos, o cheiro forte de desinfetante invadiu as minhas narinas, e a luz branca do teto do hospital feria a minha vista.

A minha cabeça doía terrivelmente, e a memória do acidente de carro era um borrão confuso de metal a torcer-se e do som de vidro a estilhaçar-se.

Ao meu lado, a minha mãe, Sofia, dormia numa cadeira, com o rosto pálido e marcado pela preocupação.

Tentei mexer-me, mas uma dor aguda atravessou a minha perna direita, que estava imobilizada com gesso.

O meu telemóvel estava na mesinha de cabeceira, com o ecrã rachado. Com dificuldade, agarrei-o e liguei para o meu noivo, Miguel.

O telefone chamou, chamou, e quando eu já estava a perder a esperança, ele atendeu. A sua voz soava distante e irritada, abafada por música alta e risos.

"Helena? O que foi? Estou ocupado agora."

A sua falta de preocupação atingiu-me.

"Miguel, eu sofri um acidente. Estou no Hospital de Santa Maria."

Houve uma pausa do outro lado da linha.

"Um acidente? Estás bem? É grave?"

Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz feminina ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem. Era a Clara, a minha prima.

"Miguelito, amor, quem é? Anda dançar! Deixa o telemóvel."

O meu coração parou por um segundo. Miguelito? Amor?

"Miguel, a Clara está contigo?" perguntei, a minha voz a tremer.

Ele hesitou. "Sim, estamos numa festa. O pai dela, o meu tio, está a celebrar a promoção. Eu tinha de vir, é importante para a família."

"Uma festa," repeti, a palavra soava absurda. "Eu sofri um acidente de carro, estou num hospital, e tu estás numa festa com a minha prima?"

A sua voz tornou-se defensiva, mais alta.

"Helena, o que querias que eu fizesse? A festa já estava marcada! Além disso, a Clara estava muito ansiosa com a apresentação do pai dela, precisava de apoio. Tu sabes como ela é sensível."

Sensível? E eu? Eu estava com uma perna partida e possivelmente uma concussão.

"Eu preciso de ti aqui," disse eu, a minha voz a falhar.

"Não sejas dramática," ele respondeu bruscamente. "Já estás no hospital, os médicos estão a cuidar de ti. Eu vou aí amanhã de manhã. Agora tenho de ir, o tio vai fazer o discurso."

E desligou.

Simplesmente desligou o telefone na minha cara.

Olhei para o ecrã rachado do meu telemóvel. Tentei ligar de volta, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Ele tinha-me bloqueado.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios, tão alta que a minha mãe acordou sobressaltada.

"Filha? O que se passa? Estás com dores?"

Eu abanei a cabeça, incapaz de falar. As lágrimas que eu tinha segurado começaram a rolar pelo meu rosto.

O Miguel e eu estávamos noivos há seis meses. O casamento estava marcado para dali a dois meses.

Eu amava-o, ou pelo menos pensava que sim. Mas agora, tudo parecia uma mentira.

Ele escolheu a festa. Ele escolheu a Clara.

Ele não me escolheu a mim.

Enquanto a minha mãe me tentava acalmar, o seu próprio telemóvel começou a tocar. O nome no ecrã fez o meu sangue gelar.

Era o meu tio, o pai da Clara.

A minha mãe atendeu, colocando em alta-voz para que eu pudesse ouvir.

A voz do meu tio, normalmente tão jovial, soava agora fria e autoritária.

"Sofia! Onde está a tua educação? Porque é que a Helena está a ligar para o Miguel a fazer este drama todo? Ela não percebe que hoje é uma noite importante para a nossa família?"

"Rui, ela sofreu um acidente de carro! Está no hospital!" respondeu a minha mãe, chocada.

"Um acidente? E então? Ela não morreu, pois não? A Clara ficou tão nervosa com o telefonema que quase estragou a noite toda! Tens de ensinar a tua filha a não ser tão egoísta!"

Egoísta.

Eu era egoísta por precisar do meu noivo depois de um acidente de carro.

Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, com uma perna partida e um coração em pedaços, eu tomei uma decisão.

Este noivado acabou.

Capítulo 3

No dia seguinte, o Miguel apareceu.

Ele entrou no quarto do hospital com um ramo de flores baratas e um sorriso forçado no rosto.

"Bom dia, meu amor. Como te sentes?"

Ele tentou beijar-me, mas eu virei o rosto.

"Não me toques," disse eu, a minha voz fria como gelo.

Ele pareceu surpreendido, depois irritado.

"Helena, qual é o teu problema? Eu vim assim que pude."

"Assim que a festa acabou, queres tu dizer."

Ele suspirou, um som longo e exasperado. "Já vamos começar com isso outra vez? Eu já te expliquei. Era importante para a família."

"E eu não sou tua família? Nós vamos casar em dois meses, Miguel. Ou íamos."

Ele largou as flores na mesinha de cabeceira com um baque.

"O que é que isso quer dizer, 'íamos'? Estás a terminar tudo por causa de uma festa? Não sejas infantil."

"Infantil?" repeti, incrédula. "Eu liguei-te do hospital, assustada e com dores, e tu desligaste-me na cara para ir dançar com a minha prima! E depois bloqueaste-me!"

"Eu não te bloqueei! O meu telemóvel deve ter ficado sem bateria," mentiu ele, sem sequer olhar para mim.

"Não mintas para mim, Miguel. Eu não sou estúpida."

Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto que ele fazia sempre que estava frustrado.

"Olha, eu peço desculpa, está bem? Eu devia ter lidado com a situação de outra forma. Mas tu sabes como a Clara fica. Ela entra em pânico por coisas pequenas, e a pressão da festa do pai dela era enorme."

A menção do nome dela fez o meu estômago revirar.

"Sempre a Clara. Tudo é sempre sobre a Clara. Desde que éramos crianças. Se ela chorava, a culpa era minha. Se ela queria um brinquedo meu, eu tinha de lho dar. Estou farta disso, Miguel. Estou farta de ser sempre a segunda opção na vida de toda a gente, especialmente na tua."

Tirei o anel de noivado do meu dedo. A prata fria pareceu queimar a minha pele.

Estendi-lho.

"Acabou, Miguel. Podes ficar com o anel. Talvez o possas dar à Clara. Tenho a certeza de que ela adoraria."

O rosto dele ficou vermelho de raiva.

"Tu não estás a falar a sério. Estás a exagerar por causa dos medicamentos. Estás a deitar fora o nosso futuro por um mal-entendido estúpido."

"Não há mal-entendido nenhum," disse eu, a minha voz firme. "Eu vi tudo muito claramente ontem à noite. Vai-te embora, Miguel."

"Helena!"

"Vai-te embora!" gritei, a minha voz a ecoar no quarto silencioso.

A minha mãe, que tinha estado a observar em silêncio do canto, levantou-se e caminhou até à porta.

"Ouviste a minha filha. Sai."

O Miguel olhou dela para mim, o seu rosto uma máscara de incredulidade e fúria. Ele agarrou no anel da minha mão, virou-se e saiu, batendo a porta atrás de si.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Eu olhei para a minha mão, para a marca pálida onde o anel costumava estar.

Senti um alívio imenso.

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