Capítulo 2

Ponto de Vista: Laura Arruda

Na manhã seguinte, eu fiz a ligação. Fazia sete anos que eu não discava aquele número, mas meus dedos se lembravam da sequência como se fosse ontem.

Uma voz nítida e familiar atendeu no primeiro toque. "Residência Monteiro."

"Sou eu", eu disse, minha voz falhando um pouco.

Houve um silêncio atordoado, depois um soluço contido. "Senhorita Laura? Oh, meu Deus, é você mesma?"

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto eu falava com a governanta do meu pai, uma mulher que praticamente me criou. Quando contei a ela sobre Davi, seu neto, o silêncio do outro lado da linha foi profundo, pesado de emoção não dita.

"Ele quer saber quando você volta para casa", disse ela, com a voz embargada pelas lágrimas. "Ele quer conhecer o neto. Ele disse que mandará um jato, um helicóptero, o que você precisar. Apenas volte para casa, Laura. Por favor."

Casa. A palavra parecia estranha, um país distante que eu não visitava há anos.

Olhei para Davi, dormindo em sua cama, agarrado ao pequeno lobo de madeira que Heitor havia esculpido para ele. Ele estava resmungando durante o sono. "Papai prometeu... festa grande..."

Seu quinto aniversário era em dois dias. Uma onda de náusea me atingiu. Eu queria que ele saísse deste lugar com memórias felizes, não com a ferida aberta de uma promessa quebrada. Eu queria que ele tivesse um último dia perfeito.

Esse foi o meu erro. A esperança é uma coisa perigosa.

Ao amanhecer, dois dias depois, a batida forte na porta não era uma surpresa de aniversário. Era Constança Sampaio, a mãe de Heitor, ladeada por dois homens imponentes. Ela nunca gostou de mim. Para ela, eu era uma vira-lata sem nome e sem pais que havia manchado sua preciosa linhagem. Ela olhava para Davi com um nojo mal disfarçado, como se ele fosse uma mancha infeliz na reputação impecável da família.

"Vistam-se", ela ordenou, sua voz fria como uma manhã de inverno. "Os dois. Heitor fará um anúncio importante na mansão da família. Vocês são obrigados a estar lá."

Os olhos de Davi se iluminaram. "O papai está lá? Ele está me esperando?"

Eu não consegui responder. Um nó de pavor se apertou no meu estômago. Eu sabia que não se tratava de um aniversário. Era uma execução.

A mansão dos Sampaio era vasta e ostensiva, um monumento ao dinheiro novo tentando desesperadamente parecer antigo. Enquanto éramos conduzidos ao grande salão de festas, um mar de rostos desaprovadores se virou para nos encarar. O ar estava pesado com o cheiro de lírios e julgamento. E lá, de pé em um tablado elevado, estava Heitor.

Ele não estava olhando para mim. Seus olhos estavam fixos em Sofia Alencar, que estava ao seu lado, com a mão delicadamente pousada sobre a barriga. Ela brilhava com um esplendor presunçoso e predatório.

Constança deu um passo à frente, sua voz ressoando com autoridade. "Reuni todos vocês aqui hoje para compartilhar uma notícia alegre. Sofia está grávida. Um herdeiro para a fortuna dos Sampaio."

Uma onda de aplausos educados percorreu o salão.

"Esta criança", continuou Constança, seu olhar varrendo a multidão e pousando em mim com uma precisão arrepiante, "será o único herdeiro legítimo da Sampaio Inovações. Heitor e Sofia serão oficialmente unidos em uma cerimônia no próximo mês."

Eu encarei Heitor, procurando por qualquer lampejo do homem que um dia amei. Ele não encontrava meus olhos. Ele apenas ficou lá, uma bela estátua, enquanto sua mãe sistematicamente me apagava, junto com nosso filho, de sua vida. Ele gentilmente colocou a mão sobre a de Sofia em sua barriga. "Mal posso esperar para ser pai", disse ele, com a voz alta o suficiente para que todos ouvissem.

Uma mãozinha apertou a minha, tremendo. Olhei para Davi. Seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados de confusão e uma dor tão profunda que partiu meu coração.

"Mamãe", ele sussurrou, sua voz quase inaudível. "O papai disse que mal pode esperar para ser pai... Se ela vai ter um bebê... então o que eu sou?"

A pergunta pairou no ar, uma acusação devastadora que silenciou o salão. Alguns primos de Heitor riram.

"Olha o bastardinho", um deles zombou. "Ele realmente acha que tem um lugar aqui?"

"Uma criança ilegítima seria uma mancha na reputação da nossa família", acrescentou outro. "Ele não pode ser o herdeiro."

O sorriso de Constança era triunfante, cruel. "Não se preocupem. Temos uma solução. Para evitar qualquer escândalo, permitiremos graciosamente que o menino fique, como um órfão adotado sob os cuidados da família. E quanto à sua babá", disse ela, seus olhos cravados em mim, "ela pode permanecer a nosso serviço como empregada."

Lembrei-me então de uma conversa que ouvi semanas atrás. A voz de Constança, afiada e conspiratória, dizendo a Sofia: "Você é de sangue puro, minha querida. Você deve dar a Heitor um herdeiro adequado."

Tudo tinha sido uma mentira. Um plano cuidadosamente construído para nos descartar.

Davi começou a chorar, lágrimas silenciosas traçando caminhos por seu rostinho. "Eu não sou órfão", ele sussurrou, seu corpo tremendo. "Eu não sou."

Heitor finalmente vacilou. Ele deu um meio passo à frente, sua boca se abrindo como se fosse falar, mas Sofia colocou uma mão restritiva em seu braço. Ele olhou para ela, depois de volta para nós, sua mandíbula tensa de indecisão. Ele não disse nada. Ele a escolheu. Ele escolheu a ambição.

Foi isso. A última centelha de esperança morreu, deixando para trás apenas uma raiva fria e dura.

Dei um passo à frente, puxando Davi para trás de mim. "Ele não tem nada a ver com vocês", eu disse, minha voz clara e firme. "Ele não é um Sampaio."

Ajoelhei-me, segurando o rosto de Davi em minhas mãos. Suas lágrimas encharcaram meus dedos. "Davi", eu disse, minha própria voz quebrando. "Escute-me. De agora em diante, ele não é seu pai. Você entende? Nunca mais o chame assim."

A cabeça de Heitor se ergueu bruscamente, seus olhos arregalados de choque. Ele finalmente olhou para mim, realmente olhou para mim, uma expressão desesperada e questionadora em seu rosto. Mas o amor que eu via ali antes se fora, substituído por um vazio. Eu não sentia mais nada por ele. Nada além de desprezo.

Davi soluçou, um som angustiante do mundo de uma criança de cinco anos desmoronando.

Quando me levantei para sair, Sofia parou na minha frente, bloqueando meu caminho. Seu sorriso era veneno. "Não tão rápido. Há a questão do anel."

Ela apontou para o simples anel de safira no meu dedo. Pertenceu à avó de Heitor. Ele me deu no dia em que Davi nasceu, prometendo que era um substituto para uma aliança de verdade, um símbolo de que eu era sua verdadeira companheira, sua única.

"Heitor", perguntei, minha voz perigosamente baixa, "você concordou com isso?"

Ele se encolheu, desviando o olhar. "É apenas... uma herança de família, Laura. Pertence à... família."

Claro. Era tudo sobre a família. A família deles.

Lentamente, deliberadamente, tirei o anel do meu dedo. Parecia frio contra minha pele. Eu o estendi para Sofia, deixando-o cair em sua palma perfeitamente manicure.

"Parabéns", eu disse, meus lábios se curvando em um sorriso que não alcançou meus olhos. "Espero que lhe traga toda a felicidade que você merece."

Heitor me encarou, seu rosto uma máscara de incredulidade.

Eu me virei, pegando um Davi soluçante em meus braços. Não olhei para trás. Ele me viu partir, sua boca ligeiramente aberta, como se só agora estivesse percebendo que o chão sob seus pés havia desmoronado.

Era tarde demais.

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Capítulo 3

Ponto de Vista: Laura Arruda

Davi chorou até dormir em meus braços, seu corpinho sacudido por soluços que me rasgavam como estilhaços. Eu o segurei perto, sussurrando promessas de uma nova vida, de um avô que já nos esperava, que nos amava.

"Mas... o papai não me ama mais?", ele soluçou no meu ombro, sua voz pequena e quebrada. "Só você me ama, mamãe?"

"Não, meu amor", eu disse engasgada, minhas próprias lágrimas caindo em seu cabelo. "Muitas pessoas te amam. O vovô Jorge mal pode esperar para te conhecer. Você vai ser um príncipe."

"Podemos ir agora?", ele perguntou, afastando-se para me olhar, seus olhos vermelhos e inchados. "Podemos ir ver o vovô?"

Ele hesitou, sua mãozinha agarrando o lobo de madeira em seu bolso. Foi o último presente que Heitor lhe deu. "Mas... eu não quero deixar o papai."

Meu coração se partiu. Engoli o nó na garganta, forçando-me a ser a forte. "Eu sei, meu bem. Mas o papai e a mãe dele... eles não querem que a gente fique aqui. Eles querem que você o chame de 'tio Heitor' de agora em diante. Você consegue fazer isso?"

Ele me encarou, sua expressão vazia de choque. Lentamente, sua mão soltou o lobo de madeira. Lágrimas brotaram em seus olhos novamente. "Não", ele sussurrou.

Então, um apelo desesperado. "Mamãe, podemos esperar, por favor? Só até o meu aniversário? Talvez... talvez ele venha. Só por um pouquinho. Depois a gente vai. Eu prometo."

Ele estava implorando por uma última lembrança, um último fragmento de amor do homem que acabara de renegá-lo publicamente. Como eu poderia dizer não?

"Tudo bem, meu amor", sussurrei, beijando sua bochecha manchada de lágrimas. "Nós vamos esperar."

Mas Heitor não veio. O aniversário de Davi chegou, um bolo com cinco velas intocado sobre a mesa. O silêncio em nossa pequena casa era ensurdecedor. Eu finalmente explodi, pegando meu telefone e discando o número dele, minhas mãos tremendo de raiva.

"Você prometeu a ele", sibilei quando ele atendeu. "Ele tem cinco anos, Heitor. Ele está sentado perto da janela o dia todo esperando por você. Como você pôde fazer isso com ele?"

A linha ficou em silêncio por um longo momento. Então, um clique. Ele havia desligado na minha cara.

Davi olhou para as velas apagadas, seus ombros caídos em derrota. "Tudo bem, mamãe. Ele está ocupado." Ele forçou um sorriso pequeno e vacilante. "O tio Heitor é um homem muito importante."

A palavra 'tio' pareceu um golpe físico. Meu coração se partiu em um milhão de pedacinhos. Eu estava prestes a ligar para Heitor de volta, para gritar e exigir que ele consertasse o que havia quebrado, quando uma mensagem de texto iluminou minha tela. Era dele.

Venha para a mansão. Tenho uma surpresa para o Davi.

Mostrei o telefone para Davi. Uma pequena centelha de esperança se acendeu em seus olhos. "Ele lembrou! Mamãe, ele lembrou do meu aniversário! Você acha que ele me deu o caminhão vermelho grande?"

Outra mensagem chegou. Tenho uma festa inteira esperando por ele. Rápido.

Davi ficou exultante, me puxando em direção à porta, sua dor anterior esquecida. Ele tagarelou animadamente durante todo o caminho, um fluxo de esperanças e sonhos de uma criança de cinco anos.

Mas no momento em que entramos no salão de festas, eu soube que havíamos sido enganados. O salão não estava cheio de balões e serpentinas. Estava cheio de rosas, centenas delas, e convidados elegantemente vestidos bebendo champanhe. Não era uma festa de aniversário infantil. Era uma festa de noivado.

Davi não percebeu. Ele viu Heitor parado ao lado de um bolo imponente de vários andares e correu direto para ele, seu rosto iluminado de pura alegria.

"Papai!", ele gritou, sua voz ecoando no salão subitamente silencioso. "Você está esperando por mim para te ajudar a cortar o bolo?"

Heitor olhou para cima, seus olhos se arregalando em choque genuíno ao nos ver. "Laura? Davi? O que vocês estão fazendo aqui?" Ele estava vestido com um smoking sob medida, Sofia agarrada ao seu braço em um vestido de noite brilhante.

Os convidados começaram a sussurrar, seus olhos dardejando entre Davi e Heitor. "Esse é... o filho dele?" "Pensei que ele não tivesse filhos."

O rosto de Heitor endureceu. Ele deu um passo para trás de Davi, um gesto cruel e desdenhoso. "Quem você está chamando de Papai?", ele perguntou, sua voz fria e afiada. Ele empurrou Davi, não com força, mas o suficiente para fazer meu pequeno filho tropeçar e cair no chão polido.

Davi olhou para ele, seus olhos arregalados de medo e confusão.

Corri para frente, pegando-o em meus braços. "Estamos de saída."

"Saindo tão cedo?", a voz de Sofia pingava veneno sacarino. Ela parou na nossa frente, um sorriso triunfante no rosto. "Mas a festa está apenas começando. Eu esperava tanto que você viesse." Ela ergueu o telefone, mostrando-me as mensagens que havia enviado do número de Heitor. "Achei que Davi merecia uma celebração adequada por se tornar um órfão."

Ela se pressionou contra o lado de Heitor. "Diga a eles, querido. Diga a todos que esta criança de rua não tem nada a ver com você."

Heitor olhou para mim, seus olhos implorando por uma compreensão que eu não possuía mais. Então, ele olhou para Sofia, para os convidados poderosos e influentes, para o império que ele estava tão perto de garantir. Ele deu um aceno pequeno, quase imperceptível.

Essa foi a sua resposta.

"Meu filho não é um vira-lata", cuspi, minha voz tremendo de fúria. "E o pai dele é o maior homem do mundo. Um homem que você nunca poderia sonhar em ser."

Virei-me para sair, mas Sofia agarrou meu braço. "Como ousa!", ela gritou, e então sua mão voou, o ardor agudo de seu tapa ecoando pelo salão. "Você mente e insulta esta família! Você e seu filho bastardo!"

Ela se virou para a multidão, seu rosto uma máscara de indignação justa. "Ela está tentando estragar tudo! Tirem-na daqui!"

Os parentes de Constança avançaram, seus rostos contorcidos de ódio. Eles me cercaram, empurrando e me agredindo. Um punho atingiu meu estômago, tirando meu fôlego. Curvei meu corpo ao redor de Davi, tentando protegê-lo enquanto os golpes choviam em minhas costas e cabeça.

Através da névoa de dor, olhei para Heitor. Ele estava paralisado, seu rosto uma tela de horror e indecisão. Ele não fez nada.

E naquele momento, eu soube. A dívida que eu sentia que devia a ele por salvar minha vida todos aqueles anos atrás? Estava paga. Com juros.

De repente, uma voz pequena e desesperada cortou o caos. Davi se desvencilhou dos meus braços e se jogou aos pés de Heitor, suas mãozinhas agarrando o tecido de suas calças.

"Por favor", ele soluçou, sua voz crua com uma dor que nenhuma criança deveria conhecer. "Por favor, senhor. Pare eles. Não machuque minha mamãe."

Senhor. Não Papai. Senhor.

O mundo parou. As agressões pararam. Heitor olhou para Davi, seu rosto pálido, seu corpo inteiro tremendo. "O que... o que você me chamou?"

Davi olhou para cima, lágrimas escorrendo pelo rosto, mas seu olhar era firme, sobrenaturalmente adulto. "Nós vamos embora agora, senhor. Não seremos mais um incômodo."

Ele se levantou cambaleante e me ajudou a levantar. De mãos dadas, um menino pequeno e quebrado liderando sua mãe espancada, saímos daquele salão de festas enquanto todos os olhos no local nos observavam.

Meu telefone vibrou no meu bolso. Uma mensagem de Heitor. Vá para casa, Laura. Leve o Davi. Estarei lá hoje à noite. Vamos consertar isso.

Davi olhou para a tela, seu rosto impassível. Ele olhou para mim. "Mamãe", disse ele, sua voz baixa, mas firme. "O vovô Jorge sente nossa falta?"

"Mais do que tudo", sussurrei.

"Então vamos agora."

Naquela noite, acendi um fogo na lareira. Queimei tudo. Cada fotografia, cada carta, o pequeno lobo de madeira. Enquanto a última memória de nossa vida aqui se transformava em cinzas, peguei a mão de Davi.

Saímos pela porta e nunca mais olhamos para trás.

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