Capítulo 2

— Não tenho dúvidas. Muito obrigado, chefe.

Após retirar todas as coisas da minha sala, passei pela situação mais constrangedora dos últimos tempos; me despedir de todos os colegas e ainda ter que responder a eles o que Flint Montgomery queria comigo em particular. Eu poderia ter mentido ou desconversado, mas de que adiantaria? Eles descobririam em breve de qualquer forma. E com alguns olhares raivosos e repletos de inveja eu dei meu último adeus àquele escritório que foi uma grande escola de Direito pra mim.

Preso no trânsito na volta pra casa, foi que todo o misto de sentimentos tomou conta. O cara que não conseguia conter o sorriso lá em cima tornou-se a pessoa mais medrosa do mundo. A partir de agora era viver tudo novo de novo. Senti um nó no estômago ao pensar em diversas questões. Afinal, que emprego era esse? Será que daria certo? Quanto iriam me pagar? Esse salário cobriria o que eu ganhava na Montgomery? E se eles não aceitassem alguém com nenhuma experiência efetiva em criminal? Será que Megan ficaria chateada se eu dissesse que era melhor não pensarmos na festa de casamento agora?

O desconhecido estava me causando muita angústia.

Abri a porta do meu apartamento com certa dificuldade pelo número de caixas que estava carregando e me deparei com Megan, minha namorada, dando um sorriso de orelha a orelha. Será que ela já sabia da indicação?

— Arrumei um emprego para você! — Ela gritou, levantando os braços. É, ainda não sabia, então. E provavelmente tinha ignorado nossa conversa da noite anterior, em que eu disse que não queria que ela ficasse procurando emprego pra mim.

Estranhando aquilo e já esperando uma ideia provavelmente mirabolante e nada eficaz de minha namorada, fui até a mesa de jantar e apoiei as caixas, tirando meu terno logo em seguida e jogando na cadeira.

— Megan, você prestou atenção em alguma coisa que conversamos

ontem? Eu não quero que você fique arrumando emprego pra mim. — Afrouxei a gravata e fui de encontro a geladeira, pegando algo para beber.

— Esse seu orgulho é tenebroso, Trenton. — Ela colocou as mãos na cintura. — Afinal, você quer saber o que eu arrumei ou não?

— Claro, diga! — Sentei-me na cadeira da mesa de jantar e abri a lata de coca-cola, dando o primeiro gole.

— Minha mãe disse que tio Hernandez, aquele que casou com tia Ingrid, está abrindo um negócio novo, de importação. Ele precisa de um advogado que entenda de aduaneira e tributário. É freelancer no começo, sabe? Mas quem sabe as coisas dando certo...

— Isso é sério, Megs? — Ri, sem humor nenhum.

Megan também era advogada, nos conhecemos na Escola de Direito de Savannah, e era muito difícil acreditar que ela realmente achava que aquilo era uma boa oportunidade. O cara que havia casado com a tia dela era o maior golpista dos últimos tempos e, escolher trabalhar com ele, por mais desesperado que eu estivesse, seria como se eu colocasse fogo em meu diploma e ignorasse todos os anos de experiência que obtive na Montgomery. Eu podia contar a ela da minha conversa com meu chefe mais cedo, da oportunidade na Parker Williams, mas, naquele momento, preferi esperar tudo se concretizar para então dar a notícia. Megan era muito ansiosa e caso algo desse errado, não saber causaria menos frustração.

— Ah, amor... — resmungou, manhosa fazendo um biquinho e sentou-se em meu colo. — É só uma coisa temporária.

— Eu não vou queimar minha carreira desse jeito por algo temporário, Megan. — Coloquei a mão em sua coxa.

— Mas nós precisamos juntar bastante dinheiro para a festa e não sei se vou dar conta de pagar tudo sozinha... — Ela falou baixo.

Eu estava noivo e prestes a marcar a data do casamento. Megan passou os últimos dois meses falando da festa e do que queria na celebração, quais flores eram mais bonitas, o que as madrinhas iam usar, qual seria seu vestido de noiva… e eu ainda me questionava o motivo de ter sequer pedido a mão da minha namorada. Me sentia dormente, caminhando por estradas sinuosas. A sensação era de estar em um piloto automático de estudar, começar a trabalhar, noivar, casar e ter filhos. Obviamente, a pressão da família não ajudava. Minha mãe perguntava em todas as nossas pouquíssimas conversas se já tínhamos marcado data, dizia que queria ajudar Megan a escolher o vestido, enviava para minha casa revistas de casamento que ela fizera assinatura e, no pior de seus surtos, comprou uma roupinha de neném alegando que estava com medo de que quando finalmente fôssemos ser pais, já não existisse mais na loja. Megan adorava essa empolgação da minha mãe.

Eu estava apavorado.

— Sobre isso... — comecei — Acho que enquanto eu não arrumar

algo certo é melhor não pensarmos em festa. — Meu coração batia desesperado no peito já antecipando a tempestade que viria a seguir. O jeito que Megan me olhava era assustador. Estávamos em uma situação muito delicada e eu preferia esperar tudo se ajeitar, principalmente no lado financeiro.

Ela saiu como um raio do meu colo e se pôs à minha frente, mãos na cintura mais uma vez.

— Trenton! Eu não vou aceitar isso. São anos e anos de namoro! É o nosso casamento, não é um eventinho qualquer.

— Eu sei que não é um evento qualquer, mas do que adianta planejarmos as coisas sem saber quando vamos ter dinheiro para pagar? — questionei, levantando-me e segurando suas mãos. — Vamos só esperar um pouco, por favor.

— EU NÃO QUERO ESPERAR! — gritou, os olhos cheios de lágrimas. — Pedirei o dinheiro para a minha mãe.

— Você não vai fazer isso! — falei entre dentes.

A mãe de Megan era uma socialite bem conhecida e cheia da grana, que desde o começo nunca foi com a minha cara. Eu tinha certeza que essa ideia do emprego com o colombiano vinha dela, pois o que ela mais queria era me tirar de cena. Já havia chegado ao cúmulo de me oferecer dinheiro para fazer um mestrado na Europa caso eu terminasse o nosso

relacionamento. E minha querida futura noiva sequer sabia disso.

— Vou sim! — rebateu — É o meu casamento.

— Pois é o meu casamento também, e se tiver um centavo da sua mãe envolvido nisso eu não vou nem cogitar me casar com você. — Quando vi a cara de sarcasmo dela, logo continuei. — E não estou falando da boca pra fora, estou falando muito sério.

O silêncio tomou conta da sala do meu apartamento e a única coisa que ouvi foi um trovão, uma tempestade se anunciava. Suspirei, levemente derrotado por estar em toda aquela situação chata e sentei-me novamente, dando outro gole em minha coca e lembrando que não tinha comida na geladeira, apenas um pacote de Doritos no armário. Eu teria que fazer compras debaixo de chuva para cozinhar um jantar para nós dois.

— Você ainda me ama, Trenton? — Perguntou depois de algum tempo. Eu já tinha ouvido aquilo mais de um milhão de vezes desde que começamos a namorar. Geralmente eu ria e achava graça, respondia com carinho, mas não era dia pra isso. Eu estava muito irritado.

— Não vou responder essa pergunta ridícula. — Automaticamente saiu da minha boca.

— Acho melhor eu ir para casa, então. — Ela disse com firmeza, pegando sua bolsa no sofá e me olhando. Eu estava tão tenso com tudo que aconteceu que não consegui me abalar com o seu drama. — Depois

conversamos, você está muito nervoso e não quero passar a noite com um cavalo.

Acho que ela esperou eu falar algo ou pedir que ficasse, mas eu estava sem forças. Minha vida estava uma bagunça e a única coisa que conseguia pensar era em como colocar todas as coisas no lugar para que tudo pudesse voltar ao normal.

Mas minha falta de resposta foi o suficiente para que ela saísse batendo seus saltos com força no chão do meu apartamento. Ela só não bateu a porta porque outra visita estava chegando, e uma bem inesperada. Ethan, meu melhor amigo.

Frequentamos a mesma faculdade, dividimos apartamento durante anos e eu havia sido padrinho de seu casamento. Ele chegou em minha sala com duas malas de rodinha, uma mochila nas costas e uma sacola com seu Playstation 4 dentro. Estava todo molhado e, por alguns segundos, me preocupei com o estado daquele videogame, depois de passear pela chuva daquele jeito.

Capítulo 3

— Cara... — grunhiu. Ele estava em um leve estado de choque.

Demorou um pouco para se recompor.

— O que aconteceu? — Me aproximei e fechei a porta da frente que ainda continuava aberta dando uma breve olhada no corredor para ver se Megan se encontrava ali pelos elevadores, mas não estava mais.

— Por que Megan saiu daquele jeito? — Apontou em direção à porta.

— Cheguei em uma péssima hora, não cheguei?

— Claro que não, foi só uma briga idiota, mas e você? O que foi que aconteceu? — Eu meio que já sabia o que tinha acontecido, aquela não era a primeira vez que Ethan aparecia com malas em minha casa, mas esperei sua confirmação.

— Alicia me botou pra fora de casa. Mais uma vez — suspirou —, acho que agora é definitivo. — Tirou sua mochila molhada das costas e jogou no sofá. — Posso ficar aqui de novo? Até encontrar um apartamento?

Assenti. Era tudo o que faltava para completar esse dia mais do que estranho.

Capítulo 2

— Chega! — A voz de Tyler ecoou por toda a minha academia.

— Não! Eu ainda consigo mais uma meia hora se você me deixar! — respondi ofegante, olhando o relógio e a quantidade de calorias que havia gasto até então.

— Eu sei que você consegue, mas você tem o histórico de ser muito exagerada e paranóica então, eu estou te pedindo para parar. Agora! — meu personal gritou novamente.

Quando percebeu que eu não ia sair dali, ele se aproximou e diminuiu a velocidade da esteira com toda a audácia do mundo.

— Ei! — reclamei.

— Você é impossível. — Ele falou sério, mas com o resquício de um sorriso, finalizando a corrida definitivamente.

— Posso fazer meia hora de escada, então? — perguntei me olhando no espelho, ajeitando o rabo de cavalo.

— De forma alguma, o único lugar que você vai agora é para a sua cozinha, tomar o seu super café da manhã e iniciar o seu lindo dia! — disse, me puxando pela mão. — Vamos! Carmela está esperando.

Ao sair da academia, dei mais uma inevitável olhadinha no espelho, me avaliando de cima a baixo. Queria me certificar que tudo estava do jeito

que eu queria, sem gordurinhas ou nada extra.

Diferente do que Tyler falava, não era exagero ou paranóia. Eu havia lutado muito para chegar onde havia chegado com relação ao meu corpo e à minha auto estima. Graças a muito exercício e minha força de vontade, agora eu tinha o corpo que sempre havia desejado. Era gratificante poder caber em qualquer roupa, das mais recatadas às mais ousadas; pegar um avião sem as pessoas te olhando de lado ou sem se preocupar de ter que pegar um extensor de cinto de segurança, sentar em uma cadeira sem ter o medo que ela quebrasse... entre outras situações que só quem está acima do peso passa.

Durante toda minha infância e boa parte da minha adolescência, sofri muito preconceito por ser uma garota obesa. Não soube o que era ter um acompanhante no baile de inverno, sofria bullying de todo o colégio, não podia nem sequer comer uma batata frita no intervalo que já me olhavam com repreensão, entre outros milhares de julgamentos infundados e dignos de trauma.

Depois de muito conversar com minha terapeuta, decidi que minha ida para a faculdade seria o meu renascimento. Entrei para a Georgia Southern University, relaxei e tentei estabelecer relações sociais saudáveis com as pessoas.

Nos três anos que passei lá, fiz alguns amigos mas nenhum que você possa dizer que duraria para a vida inteira. Frequentava as festas das

fraternidades e irmandades, participava das viagens, ia aos jogos de futebol americano do nosso time, os Georgia Southern Eagles, e não posso dizer que não curti bem aqueles anos. Só que ao final de toda essa temporada, eu estava vinte e cinco quilos mais gorda. Vinte e cinco quilos além do que eu estava no colégio. A quantidade de estudos era enorme, eu descontava a minha ansiedade pelas provas na comida, e foi impossível conter as lágrimas quando ouvi a costureira de minha mãe falar que ela teria que fazer um número ainda maior para meu vestido de formatura.

Era um pesadelo.

Tinha planos para aquela festa.

Finalmente ia me declarar para o cara que eu estava apaixonada.

Ia usar de toda a coragem que havia reunido desde o dia que o vi pela primeira vez, em nosso primeiro ano de Criminologia. E tudo o que você menos precisa nesse momento é de um choque de realidade que abale a sua auto-estima.

Foi traumático. Com a confiança abalada a coragem virou pó e não consegui me aproximar dele a noite inteira da festa. Quando já estava perto de terminar, pedi a uma amiga que finalmente perguntasse à ele se estaria disponível para conversar comigo e ela voltou cabisbaixa, pedindo para que eu não ficasse triste pois eu provavelmente não fazia o tipo dele.

E naquele momento, esperando o motorista do meu pai me buscar,

tendo que ouvir minha cabeça me julgando e falando que ele jamais ficaria com uma garota gorda feito eu, jurei para mim mesma que aquela seria a última vez que alguém me rejeitaria pelo meu peso.

Depois da Georgia Southern, passei para a Emory University Law School, uma das melhores Universidades de Direito de Atlanta, e junto a muito estudo, fiz o que poderia ser chamada de a maior reeducação alimentar já vista na face da terra. Não foi nada fácil e sim, extremamente desafiador. Durante o meu acompanhamento, os médicos não acreditavam que eu pudesse conseguir, uma vez que a maioria indicava a cirurgia de redução de estômago para o meu caso. E em meio a tantas incredulidades, resolvi me dar aquela única e última chance.

E eu consegui.

Foi nessa época, ao procurar por ajuda, que conheci Tyler e o mundo fitness. Foi quando criei amor por me exercitar, uma paixão que até então não conhecia, e principalmente, amor por mim. Dei tudo o que pude e tive a determinação de ser uma pessoa saudável. E desde então, meu desejo era esfregar na cara daquele idiota que me fez sofrer que eu era perfeita. Que ele certamente agora ficaria com uma pessoa como eu.

Mas os anos, muitos deles, se passaram e aquela lembrança e vontade de vingança eram apenas uma mancha motivacional.

— Amanhã, mesma hora. — Tyler disse pegando sua mochila e seu

celular.

— Ok. Podemos aumentar a série?

— Não acho necessário, Caroline. — Franziu a testa.

— Por favooor! — Fiz uma carinha que certamente ganharia do

gatinho do Shrek.

Ele riu.

— Não. Até amanhã, Caroline.

— Até amanhã, Ty.

Desliguei o som da sala de ginástica e desci as escadas do meu triplex, indo em direção à cozinha. O café da manhã já me esperava e junto ao meu prato, o New York Times e o meu celular.

— Buenos dias, Senhorita Parker.

— Bom dia, Carmela. — Peguei o jornal e me sentei no longo banco anexo à ilha.

— A señorita quer que eu ligue no noticiário?

— Por favor. — Foi a vez de pegar o celular e checar se tinha alguma ligação não atendida.

Após um breve gole em meu café, abri o jornal para ler as notícias, quando a televisão me fez prestar atenção.

"Hilden Jull, famoso empresário do ramo industrial de Michigan foi absolvido das acusações de fraude do Imposto de Renda. Sua advogada,

Caroline Parker Williams, filha do famoso advogado Stanley Parker Williams, falecido no trágico acidente aéreo, foi a grande responsável pela liberação do réu, que saiu livre de todas as acusações, depois de uma audiência de mais de seis horas."

Dois anos haviam se passado do acidente e sempre que mencionavam o nome do meu pai, lembravam daquela maldita queda do avião.

— Nossa Senhora de Guadalupe, Srta. Parker! Seis horas de reunião?

— Carmela exclamou enquanto trazia meu Iogurte natural.

— Se chama audiência, Carmela... — Ri. — Seis horas sim. Que pareceram seis dias. Por isso que cheguei com tanta dor de cabeça em casa.

— Mas a senhorita conseguiu. E da melhor forma. Seu pai deve estar muito orgulhoso lá no céu! — Ela uniu suas mãos e me fitou com carinho.

— Eu prometi que não iria decepcioná-lo.

Desde que meus pais faleceram, dois anos atrás, eu fui a responsável por tomar as rédeas de pouco mais da metade da Parker Williams, o escritório de direito de minha família. A outra parte, pertencia a meu tio Richard, pois fora acordado no testamento. Meu avô foi o fundador e meu pai amava aquele lugar mais do que tudo em sua vida. Stanley Parker Williams foi o grande responsável por me passar todos os princípios da ética da advocacia e me ensinar que o trabalho engrandecia o ser humano.

Qua

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