Capítulo 2

Leonard e Vivian estavam juntos e iriam se casar. 

Eu ainda me culpava por deixá-la me enganar por tanto tempo. 

Agora, minha mentira me obrigava a agir. Eu precisava recuperar minha reputação, e o único jeito era aparecer em público ao lado de um homem que todos acreditassem ser meu namorado — um homem importante e rico.

 Ainda que eu duvidasse da minha propria capacidade de encontrar alguém para me ajudar, era tarde demais para desistir. Todos no campus estavam falando sobre isso.

Entrei no meu quarto para tentar me concentrar, quando o celular piscou com uma nova notificação:

— Serviços de Acompanhamento Premium. Encontre o seu par perfeito para eventos exclusivos.

Agarrei o aparelho. Havia me cadastrado para receber notificações sobre isso, em um pico de desespero. Imediatamente, anotei o endereço e comecei a me preparar.

Peguei minha bolsa e enfiei dentro dela o cartão com todas as minhas economias. Não pesquisei referências, não chequei a segurança do site. Olhei apenas para o endereço e para o dinheiro que iria gastar. Não importava se seriam quinze mil dólares — eu precisava acabar com aquilo, provar para Leonard, Vivian e para todos que eu não era a vadia que diziam.

Caminhei para fora do campus. A noite estrelada me surpreendeu. A porta se abriu e, olhando para o céu, não percebi Vivian parada à frente e esbarrei nela. O rosto parcialmente escondido nas sombras me fez tapar os lábios para não gritar.

Ela olhou nos meus olhos. Isso deveria tê-la assustado, mas não foi o que aconteceu.

— Onde você está indo? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Você nunca sai do campus.

Senti o olhar quente dela sobre mim. Uma estranha sensação surgiu, de que Vivian estava me vigiando.

— Não somos mais amigas, então não preciso explicar nada.

Ergui os olhos para ela, seus cílios grossos e cerrados piscando, incrédula com o que acabara de ouvir. Algo perigoso se agitou dentro de mim e meu rosto esquentou como brasas. Desviei o corpo, pronta para partir, quando Vivian agarrou meu braço com força.

Suas unhas fincaram minha pele, esfoliando-a.

— Imagina os boatos amanhã sobre o que você faz quando sai à noite do campus. 

Ela estava me ameaçando outra vez. Era tolice desafiá-la. Eu poderia ser expulsa da universidade por confrontar a sobrinha do reitor.

Encolhi os ombros, sem querer responder de imediato, quando a voz de Leonard interrompeu as intenções de Vivian. Olhar em seus olhos ainda era desconfortável, mas minhas mãos tremiam quando Vivian me soltou e eu percebi minha pele sangrar e arder.

— Oi, meu amor — Vivian se jogou nos braços dele e Leonard sorriu. — Você acredita que a Roberta quer sair da universidade? Vai se encontrar com o namorado rico?

Engoli o nó na garganta enquanto olhava mais uma vez para o homem que ainda amava. Seu olhar era tão frio que uma sentença de morte seria menos dolorosa do que o desprezo dele. Leonard riu; ele não acreditava que eu pudesse ter um namorado. Ninguém acreditava, mas eu estava pronta para provar que eles estavam errados.

— Você está certa, eu estou indo vê-lo — meu tom de voz, como sempre, era suave, mas falho. — Seria horrível se eu não pudesse ir ao seu noivado, acompanhada do meu namorado. Voce quer tanto conhecê-lo.

Vivian se calou, trocando olhares com Leonard. Ele revirou os olhos, cansado de estar ali. Colocou o braço atrás, segurando a cintura de Vivian. Meu coração disparou de dor. Eu não deveria sofrer por um homem que me rejeitava e que ajudou a me arruinar, mas um amor como aquele não parecia fácil de esquecer.

— Amanhã veremos se existe algum homem realmente corajoso nessa cidade para namorar você ou se você só está inventando essa história para se livrar do erro que cometeu.

Precisei de alguns segundos para entender que era comigo que Leonard estava falando. A voz dele era tão seca quando falava comigo. Meu rosto deve ter entregado o que eu sentia, porque Vivian falou em seguida:

— Ninguém vai saber que você saiu, afinal, não fazemos ideia do que você está tramando.

Ela deu uma risada, me avaliando minuciosamente antes de finalmente se afastar. À medida que eles diminuíam a distância entre nós, eu senti meus joelhos perderem a força. Leonard abriu os braços e Vivian se alinhou entre eles. Ele a puxou para perto e a beijou nos lábios.

Aquilo doeu como facas perfurando meu peito. Lágrimas riscaram meus olhos. Eu precisava conviver com esse sentimento diariamente e não fazia ideia de quando essa dor cessaria.

Girei os pés novamente para fora, concentrando-me apenas na minha missão. Mal me lembrava da última vez que saí daquelas paredes. Eu estava o tempo todo tão focada nos estudos que esquecia que aqui fora existia vida e que eu precisava vivê-la. O motorista que chamei pelo aplicativo já estava do lado de fora me esperando. As luzes da cidade brilhavam nos meus olhos, as ruas agitadas. 

O veículo parou em frente a um hotel de luxo no centro. A placa de néon brilhando dizia:

 The Sovereign Lounge.

Meu coração congelou.

Eu ia mesmo fazer isso? Pagar uma fortuna para um homem que eu não conhecia fingir ser meu namorado?

Estava a um passo de desistir. Poderia inventar uma desculpa para Vivian. Mas, se eu fizesse isso, seria arruinada para sempre. Respirei fundo e desci do automóvel, sorrindo para o motorista para esconder minhas mãos trêmulas.

Ajeitei meus óculos, que insistiam em cair do meu rosto magro. Meu All Star desbotado e o vestido velho que ia abaixo do joelho me faziam sentir como uma aberração. Mas não havia tempo para pensar sobre isso.

Caminhei em passos tímidos para o interior do lounge, olhando ao redor. Em vez de uma agência, encontrei um bar de luxo, repleto de empresários de terno e mulheres vestidas para impressionar.

Meu coração disparou. Limpei a garganta e me aproximei do homem mais bem-vestido perto do balcão de check-in — o recepcionista do hotel.

— Quero um acompanhante — minha voz saiu rouca e fraca.

Ele se virou e vi a surpresa em seus olhos. A eliminação profissional de qualquer traço de julgamento foi quase instantânea. Ele pigarreou:

— Para que tipo de eventos? E por quantos dias?

— Para um noivado — disse, ganhando um pouco de confiança. — Quero o homem mais caro que vocês tiverem.

Meus olhos se estreitaram para além do atendente, fixando-se em um homem encostado na parede, mexendo no celular. Ele não estava de terno, mas a camiseta preta que vestia parecia ter sido costurada à mão, e o relógio de pulso brilhava com um luxo discreto. Ele tinha uma aparência perigosa, de poder. Era o homem mais lindo que eu já havia visto.

Ele levantou o olhar e me encarou.

— Quero aquele homem — apontei na direção dele. — Eu pago para que ele finja ser meu namorado por um mês.

Capítulo 3

POV Miguel Carrascal 

Eu franzi a testa, meu corpo enrijecendo visivelmente. À minha frente, a garota dos óculos gigantes, vestida estranhamente, estava, indiscutivelmente, apontando o dedo na minha direção.

Suas palavras martelavam na minha cabeça: “Eu quero aquele homem. Eu pago para ele ser meu namorado falso por um mês.” 

— Perdão — enfiei o celular no bolso e caminhei na direção dela, olhando ao redor para ter certeza de que ela não se referia a mais ninguém no lounge. — Você está me confundindo. 

Os olhos de Gregory caíram imediatamente sobre mim. Ele gaguejou, na intenção de desfazer o mal-entendido, mas foi interrompido pelas palavras impacientes da garota. 

— Entenda, eu não tenho muito tempo. O homem que me humilhou publicamente vai noivar amanhã. Eu disse que levaria o meu namorado rico. Eu não posso chegar de mãos vazias.

Essa garota estava achando que eu era um objeto para ela carregar? 

— Senhorita, acho que há um engano — meus olhos cinzas se estreitaram sobre ela. Tentei dar um passo à frente, mas Gregory colocou a mão na minha frente, me bloqueando. 

— Você quer que ele a acompanhe neste projeto? — Gregory perguntou, voltando a apontar para mim.

— Sim, eu o quero. Ele é bonito e parece muito rico. Não tem como dar errado.

— Então você terá — as palavras de Gregory me pegaram totalmente desprevenido. Agarrei o braço dele, exigindo uma explicação silenciosa, mas ele continuou, como se eu não estivesse ali. — O investimento inicial é de quinze mil dólares para esta parceria de um mês. 

— Você está me comparando a uma mercadoria? — Eu sussurrei, minha fúria contida me fazendo ranger os dentes. 

A garota sorriu, abrindo a bolsa e entregando um cartão de crédito a Gregory. Ele continuou me ignorando, pegando o cartão e efetuando o pagamento. Meus olhos se arregalaram quando percebi o que meu amigo acabara de fazer. 

— Preciso que você esteja amanhã, em frente à universidade. Por favor, esteja bem-vestido e com um bom veículo. Eu disse que você era rico, então você precisa parecer rico, entendeu?

Quanta arrogância. O que ela pensava que eu era? A pele do meu pescoço queimou com irritação. Ela falava sem parar, atropelando as palavras, nervosa. Por um momento, a paixão desesperada em sua voz foi encantadora. Até eu me lembrar da confusão em que eu estava metido. Eu não sabia o nome dela, e nem precisava. 

Eu precisava desfazer esse mal-entendido. 

Ela ajeitou os óculos que caíam constantemente do seu rosto após deixar o endereço onde eu deveria encontrá-la sobre o balcão. Lançou um último olhar para mim; seus olhos estavam tristes, desesperados, mas em seguida um brilho surgiu neles, como se tivesse acabado de encontrar a solução para um problema de vida ou morte. 

Abri os lábios para explicar quem eu era, quando ela girou os pés e saiu correndo. Fiquei com os punhos fechados, observando a garota desaparecer. Eu não acredito que me coloquei nessa situação e não consegui desfazer o problema.

— O que diabos aconteceu aqui? 

Perguntei, e Gregory não conseguiu abafar o sorriso. Ele caminhou até mim, retirando o crachá de “Recepcionista”. 

— Aquela garota te contratou para ser o namorado falso dela por um mês, Miguel. 

Gregory é meu melhor amigo e, sim, o dono deste “lounge” que ele usa como fachada para a agência. Venho aqui quase diariamente. Conversar com ele é a única coisa que tem me ajudado a tentar esquecer o que aconteceu nos últimos trinta dias. 

— Eu não sou seu funcionário, nem um acompanhante de luxo. Chame essa garota de volta e desfaça o negócio. 

— Tarde demais, o dinheiro já está na minha conta. E a taxa é irrevogável. 

Aquilo só podia ser uma brincadeira de mau gosto. Eu sabia que ele não estava blefando. 

— Eu não vou ajudar aquela garota a se vingar de ninguém. 

— Eu vou dividir os quinze mil dólares com você. 

— Você parece que esqueceu quem sou — balancei a cabeça, incrédulo. — Acha que preciso desse dinheiro? Quinze mil dólares não pagam nem os sapatos que estou usando. 

— Eu sei disso — Gregory concordou, sério. — Mas pensei que seria bom para você sair de casa e ir a uma festa. Um mês já se passou, Miguel. Você não pode viver o resto da vida se culpando. 

— Eu deveria decidir isso, e não você — minha voz soou autoritária, carregada de dor. — Pode esquecer esse negócio. Eu não vou aparecer na universidade para vê-la. 

— Ela tem vinte e seis anos e está no último semestre da faculdade de direito, Roberta. Você prestou atenção em tudo o que ela disse? — Gregory zombou, me provocando. 

— Eu não quero saber nada sobre essa mulher — bufei, interrompendo suas palavras. — Arrume um dos seus funcionários para ir no meu lugar. 

Balancei a cabeça, as palmas das mãos úmidas. Girei a aliança no meu dedo, distraído. A expressão de Gregory se fechou. 

— Você precisa seguir sua vida, Miguel. Amanda ia querer isso. 

— Seguir a vida saindo com uma estranha e mentindo para todo mundo? — A dor estava gravada em minha expressão de angústia. — Eu não deveria ter vindo aqui. 

Afastei-me sem dizer mais nada, um nó apertando minha garganta. Percebi que a garota não estava mais por perto e me senti um idiota por não ir atrás dela e desfazer a confusão. 

Enquanto ligava o veículo, decidi esquecer tudo. A agência era de Gregory, e ele que resolvesse seus problemas. Mas no caminho para casa, lembrei dos olhos tristes daquela mulher e do quanto ela parecia desesperada. 

Pensar nisso me encheu de raiva, porque eu já estava envolvido. 

Que se dane! Foi um dia longo. Enfiei o papel com o endereço da universidade no bolso que peguei no balcão sem Gregory perceber e decidi que pensaria sobre isso depois. 

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