Abro meus olhos e estou sentada no sofá da minha sala. Sinto meus braços pesados e uma sucção em meu seio direito, então olho para baixo e encontro a mais linda imagem que já vi na vida: um bebê de cabelos pretos e lisos caindo na testa, com os olhos fechados que mamava em meu peito, meu filho. Toco em seu cabelo, rosto e vejo suas bochechas ficarem rosadas.Sinto-me completa, pura e em paz. Olho para a roupinha dele, é um menino. Um lindo menino.
Acordo realizada e empolgada. Olho para Carlos que dormia tranquilamente, mas minha empolgação não me permite deixá—lo em paz, então começo a sacudir meu marido até que ele abre os olhos, assustado. Ele toca diretamente em minha barriga.
— Você está bem? Está tudo bem com nosso filho? — pergunta.
— Ele irá puxar o lado da sua família… é um menino — digo, feliz.
— Como assim? Como você sabe?
— Por que sonhei com ele — respondo, tranquila.
— Dália, foi apenas sonho, sonho de barriga cheia. — diz Carlos sorrindo.
— Sei bem do que estou falando — digo colocando a mão na garganta. Sinto meu estômago queimar, náuseas… — E por falar em barriga cheia…
Corro para o banheiro, enjoo matinal me dá as Boas-vindas para mais um dia de grávida.
****
Dois meses depois…
Ainda é surreal dizer que estou grávida. Vou até o quarto que será do bebê e ele continua do mesmo jeito, nem ânimo para comprar as roupas do meu filho, tenho por conta dos enjoos e do cansaço que sinto. A verdade é que a dúvida está me corroendo… Várias e várias noites em claro, apenas pensando... Os dias são para sentar no computador e tentar escrever para X., mas o que dizer? “ X, a nossa noite foi tão maravilhosa que talvez tenhamos um filho. Talvez, pois ele pode ser do meu marido com quem dormi no dia seguinte…” E o Carlos? E se esse filho não for dele? E se X decidir reivindicar o filho? O que eu farei?
— Não poderei ir à ecografia — confessa Carlos do outro lado da mesa. Ele me entrega um copo e o remédio contra enjoo, que tem sido meu melhor amigo — Marcaram à reunião para o mesmo horário com os japoneses. Sabe como é, novos acordos.
— Tudo bem — respondo, rapidamente. Não estou disposta a discutir sobre o fato de ser a primeira ecografia e o quanto é importante, não tenho ânimo e nem estômago para isso. Tomo o remédio o mais rápido que consigo — Pedirei para minha mãe me levar.
— Tudo bem — diz Carlos se aproximando e beijando minha testa — Sinto muito. Quer que eu traga algo pra você comer? Algo bem esquisito?
— Não, só de pensar já sinto ânsia — respondo enjoada.
De fato, desde que engravidei só sinto enjoo sem parar, em vez de ganhar peso eu só perdia.
— Sua mãe chegou — avisa Carlos me despertando dos meus pensamentos. Ele para atrás de mim e coloca seus braços, envolta da minha cintura, tocando em minha barriga — Você está linda.
— Você é um péssimo mentiroso — digo me afastando dele.
Olho no espelho e estou pele e osso, muito diferente daquela Dália cheia de curvas por quem Carlos se apaixonou… por quem X perdeu a linha. A verdade é que ninguém conta que nem tudo é belo na gravidez.
***
As batidas fortes do coração do bebe preenche a sala, para alegria da minha mãe e minha. Sorrio olhando para o monitor, sei que normalmente não dá para ver o sexo do bebê na primeira ecografia, mas é o que falta para completar minha ida a obstetra.Rúbia sorri satisfeita com os batimentos cardíacos do meu filho, então ela olha-me e pergunta:
— Você quer saber o sexo do seu bebê?
— Claro que sim — respondo sem precisar pensar, estou muito ansiosa para saber o sexo do meu bebê, apesar de sentir que serei mãe de um menino, preciso de uma prova.
Ela então coloca o aparelho de ultrassom em minha barriga, olho para minha mãe que segura minha mão, ansiosa. Não demorou muito, apesar que para mim, pareceu uma eternidade ela conseguir uma boa imagem, e então surgiu a prova da qual tanto precisava: serei mãe de um menino.
— Parabéns, mamãe — parabeniza Rúbia — Agora vista-se, pois precisamos conversar.
Visto-me preocupada: será que ela viu algo durante o ultrassom? Termino de me vestir e sento ao lado da minha mãe, esperando Rúbia terminar de analisar meus exames.
— O meu filho está bem? — pergunto, ansiosa. Desteto suspense, sempre detestei e agora detesto mais ainda.
— O seu filho está ótimo. — garante Rúbia — Estou preocupada com você e sua perda de peso. Como tem se alimentado?
— Bem, eu…
— Ela tem enjoado bastante, doutora. — intromete-se minha mãe — Nada para no estômago dela, só vive deitada… Eu já lhe disse que gravidez não é doença, mas ela. Nem as roupas do bebê comprou.
— Esse quadro de indisposição deve ser por conta da baixa quantidade de nutrientes que você tem absorvido, já que tem enjoado muito — explica Rúbia — Esperarei você completar cinco meses e, nessa altura decidiremos o que fazer com relação a sua alimentação. Até lá, peço que tente ao máximo se alimentar.
— Tudo bem — digo, desinteressada. Tudo o que quero é uma foto da ultrassom com o sexo do meu filho para mostrar ao Carlos.
— Agora a parte boa — anuncia Rúbia me entregando finalmente a foto — Parabéns e espero que o papai também ame a novidade.
— Sem dúvida ele irá amar — respondo feliz.
Fico admirando a foto do meu filho durante o trajeto até minha casa, ignorando completamente minha mãe falando que o melhor seria eu ficar na casa dela. O motivo é bem mais perto do hospital, se eu tivesse algum problema seria mais fácil para eu ser socorrida, que o Carlos me deixa muito tempo sozinha... Ela está certa, mas não quero dar o braço a torcer. Gosto da liberdade que conquistei e morar com eles, ao meu ver, seria um retrocesso.
Entro em casa e já corro para preparar tudo para quando Carlos chegar e receber a grande notícia. Em duas horas, tudo estava pronto. Fico esperando ele chegar, então a porta se abre.
Assim que Carlos me vê, sorri ansioso, tanto quanto eu. Ele se aproxima e ajoelha beijando minha barriga. Fica um tempo falando com o bebê, então se levanta e me dá um beijo.
—Oi, estranha — diz sorrindo. — Como foi na ecografia
— Oi , estranho — respondo, feliz — Foi ótimo. Venha, vamos jantar.
Carlos senta em seu lugar e então me aproximo com seu prato. Coloco em sua frente e ele me olha confuso: dentro um envelope azul claro escrito: Ao Papai. Sento no meu lugar, olhando para o meu marido, ansiosa. Carlos abre o envelope com cuidado e tira a foto da ultrassom.
— Essa é a primeira foto... do nosso menininho — anuncio, radiante.
— Quer dizer então que…?
— Sim, Carlos… teremos um lindo meninino — respondo.
Ele se levanta do seu lugar se ajoelha perto de mim, tocando minha barriga, emocionado.
—Oi , garotão. Saiba que eu e sua mãe te amamos e esperamos você aqui fora. Meu filho.
— Tiago.
— Não… Lorenzo.
— Não.
— Murilo.
— Não… Ramon…
— O nome do meu pai não… deixa eu ver…
— Pablo — diz Carlos tocando na minha barriga. Ele se ajeita em nossa cama me olhando — É um bonito nome.
— Pablo? Pablo é tão comum — argumento olhando para o livro de nomes — Além disso, você sabe o que significa Pablo? Significa “pequeno” ou “de baixa estatura”. Meu filho não será um anão.
— Tudo bem… — diz Carlos — Qual sugere?
— Carlos — respondo olhando para ele. Ele sorri sem graça, está prestes a me contrariar — Além de ser o seu nome, achei o significado lindo. Significa “homem”, “guerreiro” ou “homem do povo”. É assim que desejo que seja meu filho.
— Eu aceito… com uma condição. — diz Carlos, enigmático.
— E qual seria? — pergunto, desconfiada.
— Se o primeiro nome for Juan. Então ele se chamaria Juan Carlos… o que acha?
— Deixa eu ver o significado — respondo — Significa “Deus é cheio de graça”, “agraciado por Deus” ou “a graça e misericórdia de Deus” e “Deus perdoa”.
— Então…? — pergunta Carlos passando a mão na minha barriga. Ele se aproxima dela e sussurra — Vai, filhão, dá uma ajuda pro papai.
— Ahahaha, o que pensa que o nosso filho fará para me persuadir? — pergunto, sorrindo.
— Se ele der um chute, esse é o nome — diz Carlos — Se ele não chutar, escolhemos outro.
— Tudo bem — concordo, nós dois sabemos que ele nunca me chutou e não será agora. Ajeito na cama e digo — Juan Carlos.
Minha barriga nem se mexe, olho para Carlos e dou com os ombros, não será esse nome, hora de escolher outro.
— Juan Carlos — chama Carlos. Então sinto uma pontada… o primeiro chute do Juan Carlos.
Ficamos por horas chamando o nome do Juan que chutava prontamente. Foi um dos melhores dias da nossa vida... Mas nem tudo são flores. Completei cinco meses de gestação e continuava enjoando sem parar ficando cada vez mais magra, adquiri alergia a ouro e fui obrigada a tirar minha aliança de casamento, fiquei intolerante a lactose e ácidos e para fechar com chave de ouro: voltei a morar com os meus pais até o Juan nascer. Indo em casa somente para abrir minhas correspondências e buscar as roupas. Tomamos essa decisão por conta do hospital ser bem perto da casa deles.
***
Três meses depois...
Oito meses de gestação, olho para o espelho e tudo o que vejo é minha imagem magra com um barrigão. Pelo menos os enjoos foram controlados, mas ainda moro nos pais e não comprei nada para o meu filho até agora. Um dos motivos é o fato de estar na casa deles e o outro é que não sou bem o tipo que descobriu que está grávida e já vai logo comprar o sapatinho do bebê. No quesito compras, sempre sou prática, quando comprarei algo, sei exatamente o que quero e não gosto de andar por várias lojas. Contudo, agora sinto que o Juan está prestes a nascer e preciso comprar as coisas dele.
— Mas ainda falta um mês — argumenta Valéria deitada na cama.
— Sim, mas acredito que o Juan nascerá antes — explico. Toco em minha barriga e falo — Coisa de mãe.
— Tudo bem, eu vou com você — cede minha irmã — Mas só porque eu não quero ficar com tersol.
Fomos ao shopping e já fui direto a loja de artigos para bebê, onde comprei tudo: desde roupas a berço, fraldário, banheira, cadeirinha. Só ficou faltando mesmo o carrinho, já que meu sonho de consumo era ter um de três rodas. Assim que voltamos, só queria deitar em minha cama e descansar, pois, minhas costas estavam me matando.
Depois de algum tempo Carlos chega super empolgado no quarto e me enche de beijos, deitando ao meu lado.
— Então, como foi as compras?
— Boas, só não consegui comprar o bendito carrinho de três rodas — digo, irritada. Quero muito esse carrinho.
— Hummm... tenho a solução para os seus problemas — diz Carlos se levantando. Ele vai até à porta do quarto e a abre trazendo o carrinho de três rodas para dentro do quarto — Tcharãn!
— Não acredito! — exclamo levantando da cama. Carlos comprou o carrinho que eu tanto queria — Como você…?
— Hoje tirei folga a tarde e fui atrás dele para você — explica Carlos sorrindo. — Sou ou não o melhor pai do mundo?
— Eu te amo , amor — declaro abraçando meu marido — E sem dúvida é o melhor pai do mundo.
Mesmo talvez não sendo o pai biológico do Juan…
***
Um mês depois… ou 40 semana de gravidez…, ou nove meses de gestação
Rúbia me examina cuidadosamente, já tenho 40 semanas e nada do Juan Carlos nascer, o que me preocupa muito. Ela termina e troco de roupa imaginando o que poderia estar errado.
— Bom, aparentemente está tudo dentro do normal — explica a obstetra — Apesar de que esse mocinho já deveria estar aqui fora e não ainda se divertindo na barriga da mamãe. A minha ideia é esperar mais uma semana e caso não nasça até lá, induziremos o parto.
— Tudo bem, mas o Juan está bem? — pergunto.
— Seu filho está perfeito. Sabe, é normal a criança não sair na data prevista. Existem casos de crianças que só nasceram com doze meses de gestação.
— Nossa, mas é muito tempo — digo, preocupada. Um ano com o Juan dentro de mim, é demais, por mais que eu o ame, não dá mais para ficar carregando ele dentro da minha barriga.
— Não se preocupe, esse rapazinho sem dúvida nascerá bem antes disso — diz Rúbia. — Caso sinta dores, com uma frequência de cinco minutos, vá para o hospital imediatamente e peça para me acionar.
Deixei o parto marcado e fui para casa acreditando que o bebê nasceria na próxima semana. Cheguei em casa, contei a novidade a todos e meu marido então desistiu de tirar as férias por agora, já que ainda ia demorar algum tempo pro bebê nascer.