Capítulo 2

Sofia Mendes estava morta.

Profissionalmente morta, pelo menos. Foi o que ela disse a si mesma quando assinou o contrato humilhante, trocando um ano de sua vida e de seu talento por um mês de liberdade para seu filho.

Um mês se passou. Um mês em que o mundo da arquitetura, que um dia a aclamou como um gênio, esqueceu seu nome. Um mês em que ela se tornou uma sombra dentro da própria casa, evitando o mundo, esperando o pesadelo acabar.

Mas o pesadelo estava apenas começando.

Ricardo Silva, o magnata da construção cuja empresa estava à beira da falência, finalmente se lembrou dela. Não por causa do acordo, mas por desespero.

Na sala de estar da mansão Mendes, o pequeno Lucas, com apenas cinco anos, estava ajoelhado diante do computador, as lágrimas escorrendo por seu rosto pálido.

"Ela não pode vir... A mamãe está morta", ele soluçou, a voz trêmula. "Ela morreu para a arquitetura. Ela não pode mais projetar nada."

A criança repetia as palavras que ouvira Sofia sussurrar em noites de insônia, a dolorosa verdade de seu sacrifício.

Do outro lado da videochamada, o rosto de Ricardo Silva se contorceu em uma carranca de desprezo. Seus olhos, frios como gelo, fixaram-se na imagem trêmula do menino.

"Morta?" A voz de Ricardo era um rosnado baixo e perigoso. "Que farsa."

A cena mudou abruptamente. Minutos depois, o próprio Ricardo Silva irrompeu pela porta da mansão Mendes, sem ser anunciado. Ele não veio sozinho. Dois seguranças corpulentos o flanqueavam, suas presenças enchendo a sala de uma ameaça silenciosa.

Lucas encolheu-se, o pequeno corpo tremendo.

Ricardo marchou até o menino, sua sombra engolindo a criança. Ele olhou para Lucas com uma raiva fria e calculada.

"Onde está sua mãe?" ele exigiu.

"Ela... ela não pode..."

Antes que Lucas pudesse terminar, a mão de Ricardo cortou o ar.

PLAFT!

O som estalado e agudo ecoou pela sala silenciosa. A cabeça de Lucas virou com a força do tapa, uma marca vermelha florescendo instantaneamente em sua bochecha. O menino cambaleou para trás, os olhos arregalados de choque e dor, mais lágrimas brotando.

"Que farsa!", Ricardo repetiu, a voz gotejando veneno. "É apenas um mês de afastamento, como alguém pode 'morrer' profissionalmente?"

Ele se agachou, ficando cara a cara com a criança aterrorizada. Seu hálito cheirava a café caro e impaciência.

"Diga à Sofia que se ela não aparecer no meu escritório amanhã com aquele projeto, ela nunca mais pisará em um escritório de arquitetura. Nunca."

Ricardo se levantou, ajeitando o terno impecável, como se tivesse acabado de esmagar um inseto.

"Toda a família Mendes, todos os seus projetos, tudo que seu pai construiu, será destruído em nome dela. Vou garantir que o nome Mendes se torne sinônimo de desgraça nesta cidade. Diga a ela que fui eu, Ricardo Silva, quem disse isso."

Ele se virou e saiu com a mesma rapidez com que entrou, deixando para trás uma criança soluçando no chão e o eco de sua ameaça pairando no ar como um gás tóxico. Lucas rastejou até um canto, abraçando os joelhos, o som de seu choro era a única prova de vida na vasta e silenciosa mansão.

Capítulo 3

No dia seguinte, o sol mal havia nascido quando o som de motores pesados quebrou a paz da vizinhança.

Ricardo Silva não estava blefando.

Uma fileira de SUVs pretos e blindados cercou a mansão Mendes. Homens de terno e com fones de ouvido discretos, parecendo mais uma força paramilitar do que seguranças corporativos, saíram dos veículos e tomaram posições estratégicas ao redor da propriedade. Eles se moviam com uma eficiência fria e brutal.

Ricardo saiu do carro da frente, o rosto uma máscara de impaciência. Ele não esperou por um convite. Com um aceno de cabeça, seus homens arrombaram os portões de ferro forjado. O barulho de metal se partindo foi o alarme que acordou a casa.

Os empregados, assustados, correram para o saguão, apenas para serem empurrados rudemente contra as paredes pelos homens de Ricardo.

Ricardo entrou na casa como um conquistador, seus sapatos caros batendo no mármore polido. Seus olhos percorreram o ambiente luxuoso, mas envelhecido, com um olhar de desdém.

"Onde ela está?", ele gritou para o vazio, a voz ecoando pelo pé-direito alto. "Sofia! Apareça! Acabou a brincadeira!"

Lucas, despertado pelo barulho, desceu as escadas correndo, vestindo apenas seu pijama. Seus olhos se arregalaram ao ver o caos, os homens estranhos e o rosto furioso de Ricardo.

"O que vocês estão fazendo?", o menino gritou, a voz fina e cheia de pânico.

Ricardo virou-se para ele, um sorriso cruel nos lábios. "Ah, o pequeno mentiroso. Sua mãe ainda não apareceu? Parece que ela te deixou para trás para lidar com a bagunça dela."

Ele caminhou em direção a Lucas, que recuou instintivamente a cada passo do homem.

"Por favor, vá embora!", Lucas implorou, as lágrimas já se formando em seus olhos. "Minha mãe está morta! Ela está morta!"

Ricardo o agarrou pelo braço, a força de seu aperto fazendo o menino gemer de dor. "Pare de repetir essa besteira! Você acha que eu sou estúpido?"

Ele arrastou Lucas pelo saguão. "Meu filho, Daniel, está doente por causa do que você fez. Ele chora o dia todo, traumatizado. A única pessoa que pode acalmá-lo é a sua mãe. A única pessoa que pode me dar o projeto que preciso é a sua mãe. Então ela não pode estar 'morta'. Ela está se escondendo. E eu vou encontrá-la."

A lógica distorcida de Ricardo era assustadora. Ele transformou o capricho de seu filho mimado em uma doença grave e a ausência profissional de Sofia em um crime pessoal contra ele. Para Ricardo, o mundo girava em torno de suas necessidades, e a realidade era apenas um detalhe a ser torcido à sua vontade.

"Ela não está se escondendo!", Lucas gritou, tentando se soltar. "Ela se foi!"

A resistência do menino apenas enfureceu Ricardo ainda mais. Ele empurrou Lucas com força. A criança perdeu o equilíbrio e caiu, sua cabeça batendo com um baque surdo contra a perna de uma mesa de carvalho.

Lucas choramingou, uma mão indo para a parte de trás da cabeça, onde um galo começava a se formar.

Ricardo não demonstrou um pingo de remorso. Ele se ergueu em toda a sua altura, a raiva emanando dele em ondas.

"Vasculhem cada centímetro desta casa!", ele ordenou a seus homens. "Quartos, armários, porão, sótão! Quebrem as paredes se for preciso! Eu quero Sofia Mendes encontrada. Agora!"

Os homens se espalharam, o som de portas sendo abertas com violência e objetos sendo revirados preenchendo a casa. A mansão Mendes, um santuário de memórias, estava sendo profanada. E no centro de tudo, um menino ferido chorava no chão, completamente desamparado.

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