Anne ficou petrificada. Dono?
— Como assim? — ela perguntou, com o cenho franzido. — Dono desse salão?
Ele, então, deu um sorriso de deboche, mas ao mesmo tempo, safado.
— Você e eu vamo trocar umas ideia.
Ele segurou o braço de Anne e começou a levá-la para um canto. Anne olhou para Gabriela, pedindo socorro, mas Gabriela parecia estar sentindo dor por não poder fazer nada, e não fez. Ela não podia.
Então, Anne se mancou de que ela estava em uma comunidade, e as coisas eram diferentes. Ela tinha se esquecido completamente de que as pessoas e as regras sociais não se pareciam com as do lugar de onde ela tinha crescido.
Fortão a encostou na parede, longe dos olhos dos outros, e colocou uma mão de cada lado da cabeça dela.
— Tú não é daqui, não é?
Anne balançou a cabeça de um lado pro outro, negativamente.
— O-olha, me desculpa. Eu não… Eu não estou acostumada.
— Tú me desafiou, na frente dos outro! — ele se aproximou mais dela, o rosto dele bem próximo ao de Anne. — Eu devia te dar uns tapas.
— Por favor, não faça isso — ela pediu e engoliu em seco. — E… Não me obrigue a beber, também. Por favor.
— Ah, tú vai bebê, sim. Nem que seja um gole, pra todo mundo ver — ele encheu o peito. — Não vou ser desautorizado assim na frente da galera, não!
— Você só quer mostrar o seu poder! Isso… Olha, eu sei que as coisas aqui são diferentes, mas você não precisa fazer isso.
— Preciso, sim! Mulé ninhuma vai me desafiar assim, não! Agora, vai lá, pega a porra da latinha e bebe. Toda.
— Toda? — ela perguntou, com os olhos chorosos. Ela detestava cerveja.
— Toda. Ou tú quer beber outra coisa? — Fortão sorriu de lado.
— Sim, por favor — ela perguntou, sem entender o significado daquilo.
Por um momento, houve silêncio. Fortão sabia que ela não tinha entendido, mas ele não conseguia acreditar naquilo.
— Tú sabe do que eu to falando? — ele perguntou. Normalmente, ele não precisava, qualquer idiota sabia sobre o que ele estava falando. Mas aquela loirinha na frente dele parecia de outro mundo.
Ele tinha visto ela assim que ela colocou os pés no salão. Um dos camaradas dele só disse que ela era amiga de Gabriela e que as pessoas a chamavam de Princesinha. Ele a ficou observando e viu que ela não dançava, não falava. Parecia perdida. Por isso ele foi até ela e quando ela recusou a bebida, foi o mesmo que rejeitá-lo. Ele nunca tinha sido rejeitado.
— Você… Está me oferecendo outra coisa para beber. Algo que não é cerveja — Anne disse, olhando para ele como se estivesse tentando ler a mente dele. — É que eu não gosto de cerveja, sabe?
Ele soltou um ar de zombaria, apertou os lábios, e balançou a cabeça de um lado pro outro.
— Não, princesinha. Não é isso… — ele praticamente colou a boca no ouvido dela, fazendo Anne segurar a respiração e o gemido que quis sair. — Eu to falando de você usar essa boquinha linda.
— Boquinha? Você poderia ser mais claro, por favor? — Anne suspirou. — Para beber algo eu tenho que usar a boca.
Ele afastou o rosto, com os olhos arregalados. Ela não sabia mesmo do que ele estava falando. Se aproximando novamente do ouvido de Anne, ele falou com todas as letras que se tratava de fazer sexo oral nele.
Anne arregalou os olhos e usou as duas mãos para empurrar o peito de Fortão.
— Você… Ficou louco? — ela perguntou, claramente horrorizada, as bochechas vermelhas. Anne olhou em volta, mortificada.
Naquele momento, Fortão sabia que ela era uma daquelas boas meninas, virgens. Ele olhou para a boca dela e não resistiu, passando o dedão pelos lábios de Anne.
— Bonita pra cacete.
Ele se aproximou e Anne achou que o coração dela ia sair pela boca. Ele era bonito, cheirava super bem, mas era perigoso. Era alguém de quem ela tinha que manter distância. Usando toda a coragem dela, Anne finalmente falou.
— Eu bebo a cerveja! — ela disse e quando ele a olhou, assustado, ela aproveitou para passar por debaixo dos braços dele. — Eu to indo beber aquela cerveja. E desculpe!
Ela andou correndo pelo salão, para onde Fortão havia deixado a latinha da bebida, onde as pessoas estavam esperando para saber o que houve. Ela pegou a latinha, a abriu e bebeu todo o seu conteúdo.
O gosto amargo a fez querer vomitar, mas ela continuou até que a lata estivesse vazia. Quando ela colocou a garrafa para baixo, tudo girou. Gabriela a segurou.
— Caramba, Anne!
— Ai, minha nossa… — ela disse, sentindo-se tonta. — Eu to indo.
— Você tá bêbada!
— Tô ótima! Até amanhã.
Anne deu um beijo no rosto de Gabriela, lhe desejou feliz aniversário e caminhou com a dignidade que ainda lhe restava.
Fortão viu como ela estava trôpega. Ele olhou pros comparsas dele e fez sinal de que iria sair.
Assim que saiu do salão, ele viu Anne andando para longe. As pessoas em volta que o avistaram se afastaram, fazendo um aceno com a cabeça.
“Toda essa gente me trata que nem Rei, já essa loira…”, ele bufou e foi atrás dela.
— Deixa eu te ajudar.
Anne olhou para ele e soltou um gritinho.
— Ai, eu bebi. Eu bebi! Me deixa em paz!
Ela foi ríspida com ele e atrevida, mas ele conseguia ver que ela estava bêbada e quis segurar um riso.
Fortão se inclinou para baixo, a puxou para ele pela cintura, pegou um dos braços dela e passou pelo ombro dele e a levou para a casa dela, seguindo as instruções de Anne. Ela estava confusa.
Pela manhã, Anne sentia a cabeça latejar. Ela olhou em volta e viu que estava em casa e nada parecia fora do lugar, exceto por Gabriela, que a olhava da porta.
— Credo! — Anne disse, levando a mão ao peito e fechando os olhos.
— Eu vim ver como tú tá, ingrata!
Gabriela entrou no quarto e sentou na beirada da cama.
— Como eu estou? — Anne então teve lampejos da noite anterior e os olhos do moreno da noite anterior apareceram por trás dos olhos dela. — Gabi, o que aconteceu, ontem?
— É o que eu quero saber! O Fortão te trouxe em casa — Gabriela deu uma olhadinha nas roupas de cama de Anne e então, franziu a testa.
— O que foi?
— Ele não te comeu, pelo visto — Gabriela disse e olhou para Anne, que a olhava de boca aberta. — Sim, também estou de queixo no chão, amiga!
— É óbvio que ele não… Ai meu Deus, o que eu fiz? — Anne levou as mãos à cabeça.
— Pelo visto, nada.
Anne se deitou na cama de novo e colocou o travesseiro no rosto.
Infelizmente, ela não tinha como ficar ali, pensando e se lamentando. Ela se levantou, tomou banho e foi para o trabalho. No caminho para o ponto que ela pegava ou o ônibus ou a van, ela viu um grupo de mulheres. Elas estavam olhando para Anne de maneira estranha.
Quando Anne passou por elas, uma delas se levantou e se colocou na frente da moça.
— Tá indo pra onde, vadia?
Anne levantou as sobrancelhas e olhou em volta.
— Você… Tá falando comigo?
A mulher, de cabelos trançados, sobrancelhas bem marcadas e com extensão de cílios, a olhou de cima a baixo.
— E quem mais? A putinha que foi pra casa com o meu homem!
— Eu não sei do… — Anne tentou se defender.
— Cala a boca, puta! — ela esbravejou. — Vamos ver se ele vai te querer sem cabelo!
Anne arregalou os olhos.
“Elas vão… Raspar meu cabelo?”
Antes que Anne pudesse perguntar ou reagir, duas das mulheres a seguraram e arrastaram-na para um dos becos e logo, pra dentro de uma das casas.
— Não! Eu não estou com o seu namorado nem nada! — Anne disse, chorosa. Ela não conseguia nem lembrar o que exatamente a mulher havia dito antes.
— Ah, não? Tú foi para casa com ele, caralho! Não banca a inocente não , ô, Princesinha!
— Você tá falando daquele tal… como é… Fortão? — Anne perguntou.
A mulher segurou o cabelo de Anne pela nuca, bem perto do escalpo, arrancando um grito da moça.
— Eu vou arrancá esses teus cabelo e rasgá tua cara, piranha!
Anne ouviu o som da máquina e se desesperou. Ela não era lá muito apegada ao cabelo dela, no entanto, ela sabia que ali na comunidade a mulher que aparecia com a cabeça raspada daquele jeito, ficava marcada como “ladra de homem”.
— Por favor, não! Eu… Eu não fiz nada com ele! Eu tava bêbada e eu acordei de roupa e tudo!
— Num interessa! Ele tá de olho em tú. Então, vô acabá com as tuas fuça! — a mulher cuspiu no chão, perto de Anne. — Quero vê ele fodê com uma puta estropiada!
A porta do barraco abriu com tudo, fazendo um barulho tremendo.
— Que caralho é esse aqui? — um homem perguntou esbravejando e as mulheres soltaram um grito, menos a que segurava os cabelos de Anne.
— Se mete aqui não, ô Morcegão! Essa quenga tá de sacanagem ca minha cara e eu vô dá uma lição nela!
— Késia, tú solta ela ou o Fortão te come na porrada — o tal Morcegão disse. — Ordi dele. Solta ela ou ele te arrasa!
Anne foi jogada longe.
— Pega essa piranha e mantém ela longe das minhas vista! — Anne olhou pra mulher e esta apontou o dedo na direção da loira. — Se eu te vê de novo perto do meu homem, eu te quebro!
As mulheres saíram e Anne estava no chão, chorando, com o couro cabeludo doendo horrores.
— O-obrigada — ela falou, se levantando e limpando a roupa.
— Tem nada não. Eu tô aqui seguindo ordi.
Anne olhou para o homem, que era magro, mas malhado. O cabelo bem cortado, sem camisa, uma arma na cintura.
— De todo jeito, obrigada — Anne passou pela porta e foi para o ponto de ônibus.
Ao chegar no trabalho, o chefe dela levou um susto.
— Que que é isso, ô Anne? Foi atropelada?
— Quase — ela choramingou. — Umas mulheres ficaram com raiva de mim porque o namorado de uma ficou interessado em mim e aí ela ia me machucar.
O chefe, o Senhor Pereira, balançou a cabeça de um lado pro outro.
— Caramba! Essa vida na comunidade é difícil. Eu já morei em uma, sei como é.
— Eu nem sei como eu vou ter coragem de voltar pra lá! — Anne disse, cobrindo o rosto com as mãos.
— Seguinte, Anne, toma uma água, respira fundo e se prepara pro trabalho. Mas se você precisar dar um tempo de vez em quando, só avisar, tudo bem?
— Obrigada, Sr. Pereira!
— Nada, nada.
O Sr. Pereira era um homem baixo, de cabelos escuros e um pouco cheinho. Ele era sempre muito educado e tentava compreender os funcionários. Anne gostava muito dele.
Ela bebeu água, se acalmou e respirou fundo.
“Vamos à luta, porque as lágrimas não pagam as contas!”
Ao final do expediente, ela foi para casa, se tremendo de medo de encontrar com a tal Késia. Para a sorte dela, a mulher não estava em nenhum lugar onde pudesse ser vista. Anne andou rápido até em casa e trancou a porta ao entrar.
Depois de tomar banho, ela resolveu assistir à Netflix. Ela dividia a senha com Gabriela. Quando encontrou qual filme iria assistir, alguém bateu na porta dela. Anne estava de pijamas e pegou o roupão e o colocou por cima.
A porta obviamente não tinha olho-mágico.
— Quem é?
Ela tinha medo que a mulher de mais cedo tivesse seguido ela.
— É o Morcegão! — o homem que a salvou de Késia. Anne abriu a porta, incerta e olhou em volta. — O patrão qué falá com tú.
— O patrão?
— Fortão, Princesinha. Ele disse pra tú ‘i lá falá com ele. Vem cumigo que eu ti levo.
— Hmmm, certo — Anne mordeu o lábio. — Deixa só eu colocar uma roupa, ok? Eu já venho.
Ele fez sinal positivo com a cabeça com o dedo e ela fechou a porta.
“O que raios esse homem quer comigo? Ele já me causou muitos problemas!”
Anne optou por uma calça jeans e uma blusa de manga 3/4 . O cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Ela se olhou no espelho. A roupa era simples, mas limpa e, o mais importante, “comportada”.
— Prontinho — ela falou para o tal Morcegão que nem a olhava direito. Quando o Fortão resolvia que queria uma mulher, ninguém podia olhar pra ela.
Anne caminhou logo atrás de Morcegão, olhando em volta, com medo.
— Relaxa, Princesinha. A Késia num vai te encher mais, não!
— Obrigada! — ela agradeceu, mas o homem soltou uma bufada de riso.
— Eu num tenho nada a vê com isso, não. Agradece o pai.
O “pai”, ela compreendeu, devia se tratar do próprio Fortão.
Assim que chegaram ao “barraco” dele, Anne ficou de queixo caído. Ali, no meio da comunidade, tinha uma casa que podia ser considerada de luxo. Claro, não era nada perto das mansões que ela estava acostumada a ver, mas ainda assim, para os padrões do local…
Ela entrou pela porta que Morcegão abriu para ela e foi caminhando atrás do mesmo, até chegar na sala. Fortão estava sentado atrás de uma mesa, jogando cartas com uns outros homens. As armas estavam em um canto e ela estremeceu. Anne tinha pavor daquilo.
Fortão se levantou, com um sorriso no rosto. Ele estava sem camisa e Anne pode perceber que ele tinha tatuagens por todo o torso, porém, ela não manteve o olhar no homem a fim de vê-las melhor. Pelo contrário, Anne desviou o olhar para baixo.
— A minha Princesinha chegou! — ele disse, abrindo os braços. Ele chegou perto de Anne e a abraçou. Ela levou um susto, e também, estremeceu ante o toque dele. Não de medo, mas de algo que ela não compreendia.
— Você… Você pediu que eu viesse. Em que eu posso ajudar? — ela perguntou, séria.
Fortão olhou pra ela sem entender e riu. Os outros riram junto, mas ele olhou para eles, mandando que se calassem.
— Eu só queria vê a minha gata! Num posso?
Anne olhou em volta e depois, para ele.
— Ah, você se importa se conversarmos bem ali? — ela indicou um canto, visível aos outros, porém, mais afastado. Os outros homens se levantaram, a fim de dar privacidade aos dois. — Não, não pre…
— Deixa eles ir — Fortão se despediu dos homens com batidas nas mãos e tapas nas costas, dizendo coisas como, “valeu!”, “já é, irmão!”. — Pronto, gata.
Ele segurou Anne pela cintura e ela seria uma mentirosa se dissesse que não se sentiu balançada, porém, ela tinha que se concentrar.
— Eu não estou entendendo o que está havendo?
— Eu adoro que tú fala tudo certinho — ele brincou e aproximou o rosto do dela. — É bonito pra caramba.
— Olha só … — ela colocou a mão no peito dele e logo se arrependeu. Ele estava desnudo, ali e o calor do corpo dele a fazia querer mais! Por isso, ela retirou as mãos rapidamente. — Eu não estou com você… Tipo um casal. Eu realmente não sei o que está acontecendo.
Ele passou a língua pelos lábios e sorriu pra ela, com jeito safado.
— Deixa eu te mostrá o que tá rolando.
Ele puxou Anne mais para ele e a beijou.