Capítulo 2

Minha mão pequena bate no vidro escuro do carro, que brilha ao sol do meio-dia, um homem de sorriso maldoso e olhar malicioso, cabelos brancos bem penteados, aparece na janela.

— Te dou tudo que quiser... É só entrar...Te dou até um banho, pra ficar...

Com o tempo eu aprendi o que cada olhar significava, observando os homens que apareciam lá em casa então eu corro para o mais distante possível, mas quando percebo meus passos estão me levando de volta para o inferno não tenho nem como me arrepender, pois ouço gritos desesperados do Báh, sinto a sua dor. Estou em frente à porta que se abre com violência..."

Sinto meu corpo sacolejar, e acordo suada, perdida, eu já deveria ter me acostumado, aos pesadelos vívidos em minha memória, que estão sempre lá, esperando um momento, um cochilo então ela invade meus sonhos e os transformam em pesadelos cruéis.

— Sil... Sil... Acorda... Estamos atrasados...— Levanto-me num salto e olho o garotinho de cinco anos e sorriso maroto de garoto inteligente.

Ele adora me acordar cedo, e me sorrir banguela, é nessas horas que eu ganho meu dia, minha semana.

Dou banho em Daniel, o responsável por me acordar antes das seis da madrugada, com seus olhos azuis incríveis e cabelos loiros.

Que nunca me perguntou por que somos diferentes, já até bateu num coleguinha que lhe disse que eu não sou sua irmã, ele me olha como se eu fosse a pessoa mais incrível do mundo.

Minha mãe... Ah esse nome se tornou tão doce em meus lábios que a primeira vez que falei, repeti e repeti tantas vezes, ela sempre diz a ele que eu sou uma super heroína que eu venci o monstro e também a morte, então ele me pergunta sempre quais são meus super poderes.

— Atravessa paredes? Solta lasers pelos olhos?

Estamos quase entrando na van escolar enquanto sou bombardeada por perguntas, sou uma garota fechada, mas com meu irmão eu não consigo manter a capa que criei para me proteger, eu não sei como, mas a doutora Olívia Mendes para falar a verdade eu sei como eles conseguiram ultrapassar essa parede que eu criei, foi com muito amor, paciência e carinho, ela e o homem que hoje em dia chamo de pai, o doutor Jonathan Mendes ou John. Eu não tinha chances de ser adotada por uma família se fosse parar no abrigo de menores, as ruas e a prostituição eram um inevitável destino, alguns anos depois veio o Daniel, mesmo calada eu senti medo de perder o amor e o carinho deles, mas quando aquele bebezinho, fofinho de olhos azuis foi posto em meu colo eu o amei, como amava meu irmão.

Vocês devem estar se perguntando: Onde está o Escobar? Você não voltou para buscar ele? Voltei sim, voltei e volto todas as noites mesmo que em pesadelos, quando eu cheguei lá acompanhada da polícia e da doutora Olívia, que eu não conseguia mais soltar a mão, sempre senti nela a segurança que tanto precisava e eu só me sentia calma com ela por perto, encontraram apenas um cadáver carbonizado de uma mulher, dívida de drogas, o crime não perdoa, e sem calcular as consequências que isso poderia trazer um dia, a declararam morta, sem exames de DNA, simplesmente pela identidade na bolsa próximo ao corpo.

Eu, eu não senti nada, só um alívio na alma, o peso dos meus ombros foram retirados, e então pude suspirar tranquila, só para me desesperar alguns minutos depois ao descobrir que o Escobar não estava mais lá, me desesperei e gritei por meu irmão, mas de nada adiantou, a vizinha disse a um dos policiais que um carro grande o havia levado, e rogo a Deus até hoje que ele não tenha sido vendido.

Desço da van escolar e seguro a mão do Dan, o deixo em sua sala e vou para minha escola que fica ao lado, as garotas saem da frente quando eu passo, elas sabem o que pode acontecer se cruzarem o meu caminho, eu fui formada na escola do terror por nome de barraco, por isso nunca precisei bater em ninguém para impor respeito e distância, aprendi a mostrar um olhar frio e cruel quando precisei, infelizmente aprendi com a melhor como suscitar o medo nas pessoas.

Não mostro minhas fraquezas, para ninguém além da minha mãe, sento em minha cadeira e retiro meu caderno de matemática, coloco de volta e pego o de português, sou dedicada aos meus estudos, minhas notas e meu comportamento exemplar me fizeram avançar rapidamente de turma.

Nunca falo sem ser convidada, não tenho amigos, não socializo e também considero o popular da turma um idiota que se escora nas sem cérebro, que se dizem caidinhas por ele, na minha opinião isso tudo é fogo, só querem um motivo pra sair com os caras, mas não julgo, elas não tem culpa dos meus traumas, são só adolescentes.

Faço minha rotina de sempre, busco o Daniel na sala dele e pegamos a van escolar, chego em casa e a Nice está no fogão, nossa mãe a contratou antes mesmo de eu chegar aqui, mesmo depois de muitas terapias e tratamentos eu ainda não confio em muitas pessoas, mesmo a Nice me tratando bem, nunca vi nada em seu olhar que me causasse desconforto ou desconfiança.

— Quer ajuda aí Nice?! — ela me dirige o olhar de sempre, um olhar terno quase maternal ao ouvir minha voz calma.

— Não querida, pode ir estudar, daqui a pouco te chamo pra almoçar. Balanço os ombros indiferente e subo os pequenos degraus, encontro Dan no meio do quarto espalhando seus brinquedos.

— Já sabe, não é? — faço a pergunta de sempre.

— Sim Sil, juntar e guardar tudo assim que terminar.

Lanço-lhe um dos meus raros sorrisos em resposta, Daniel é um garoto muito esperto às vezes eu fico boba com sua inteligência.

— Dan vamos tomar um banho para almoçar. — Eu cuido dele, não por imposição dos meus pais, mas porque o amo, quando minha mãe falou em contratar uma babá eu fui totalmente contra, tive medo de alguma delas machucarem meu bebê, sempre que cuido do Dan peço a Deus que alguém esteja cuidando do meu Báh.

Nosso pai de vez em quando vem em casa almoçar com a gente, então quando a porta da frente é aberta e eu o vejo abraçado a minha mãe que chora copiosamente em seus braços eu corro em sua direção, ela me vê e percebe a dor que sinto a vendo chorar, ela me agarra e me abraça como se eu fosse seu bote salva vidas, Dan que estava almoçando distraído vê o choro da mãe e corre para nós. Ainda não sei o que houve, só sei que minha alma também sangra com seu sofrimento, eu não poderia não amar essa mulher, ela foi muito corajosa adotando uma pré-adolescente e me arrancando da escuridão em que fui jogada, ela me amou primeiro.

Ela nos abraça e nos aconchega em seu colo no sofá da sala que não chega nem perto do conforto dos seus braços.

— Eu preciso de vocês hoje, grudem em mim.

— Não precisa nem pedir mãe — respondo feliz por ter uma mãe de verdade, eu nunca imaginei que era o início de um tormento, mas fazia ideia da gravidade ao ver as lágrimas nos olhos de John, mas não perguntei nada apenas me aconchego no meu lugar favorito, Dan também veio e ficou calado, mas eu sei que ele está estranhando o choro da nossa mãe.

Capítulo 3

Sílvia Mendes

Mais uma vez a vida é uma cadela comigo, nunca vou me achar digna de ser feliz, pois ela me arranca tudo de bom que aparece em minha vida e mais uma vez me arrasta pela lama, aquela mesma lama fedida daquele barraco, não sei quantas rasteiras vou ter que levar para desistir de vez. Incontáveis, esses são os números de rasteiras que essa puta barata me deu. Quantas vezes tenho que me lembrar de suas últimas palavras para não voltar para a escuridão, me agarro a elas sempre que fraquejo, sempre que minhas pernas travam e meus pés tentam parar, quando eu só quero ficar em minha cama e nunca mais sair, eu me lembro.

“Você é forte, Sil, nunca vi nada e nem ninguém mais forte que você, estarei lá por você aonde quer que esteja, levante-se e olhe sempre para a frente.“

— Serei forte e Sil, aguentarei o máximo que puder, por vocês, meus filhos e pelo John, mas principalmente por você que me mostrou o quão forte podemos ser, não perca o brilho sorria, por mim, não se perca em sua dor, por seu pai, seu irmão que ainda é tão novo e precisa de ti.

Ela lutou por três anos, três anos de incontáveis idas ao hospital do câncer, incontáveis quimioterapias, tentativas frustradas de transplantes de medula, três anos vendo-a definhar, perder os lindos cabelos, o peso e o seu brilho, três malditos anos lutando contra algo que no fim a venceu, derrubou e por fim a tirou de mim.

“Não perca o foco Sil, continue cuidando do seu irmão, você pode fazer isso por mim? Cuide também do seu pai, ele é maravilhoso! Não se esqueça de sorrir por mim...”

— Não me sinto forte agora mãe... Não sou forte, nunca fui, covardia não pode ser confundida com força — falo ao acordar de um sonho com ela.

Como sorrir? Para uma vida que tudo que eu recebo de bom trata de logo me arrancar? Ninguém verá meu sorriso, ninguém verá alegria em mim, além do Daniel que perdeu sua mãe e também sofre por sua falta, meu pai... Esse só sabe trabalhar, também perdeu o brilho, a vontade de viver, naquele dia não perdi apenas uma mãe, perdi uma amiga, mas percebo que estou perdendo também um pai. Já se faz um ano que ela se foi e a cada canto dessa casa tem lembranças suas, de momentos felizes ou momentos em que ela buscou trazer um sorriso nem que fosse mínimo aos meus lábios.

É tarde de sexta-feira eu e Dan acabamos de chegar da escola, estou no meu último ano escolar e ele em seu quinto ano, é raro seus sorrisos, acho que minha tristeza só aumenta pela tristeza dele, subimos e guardamos nossos materiais escolares, ele não sobe as escadas correndo como antes, seus ombros encurvado mostram que ele não está feliz com o horário do almoço, esse é o horário mais doloroso para todos nós, pois é o horário que ela vinha almoçar em casa, às vezes escuto o som da porta se fechando e as chaves sendo colocadas no aparador, chego a levantar para ir ver, mas a realidade bate e desisto, desço para almoçar e Nice não diz absolutamente nada ao ver minha expressão fechada, ela já se acostumou, eu sempre fui calada, mas estou muito mais reservada que antes, não ofereço ajuda, sempre que chego e vejo que a pia tem alguma louça suja eu lavo, e ela não diz nada, acho que tem medo da minha reação.

Passa alguns minutos e ouço coisas se quebrando no quarto do Dan, corro escada acima com o coração acelerado e o que vejo transforma minha alma quebrada em caquinhos pela milionésima vez, o Dan joga seus brinquedos preferidos, seu notebook no chão, e empurra sua estante de brinquedos e livros a derruba, entro no quarto desvio dos objetos, os porta-retratos de vidro quebrados e o abraço, ele esperneia e tenta me ferir, mas sou mais forte e o seguro, então ele chora e se agarra a mim.

— Shiiii... Shiiii...— o abraço forte e choro junto a ele que se acalma aos poucos, cansado.

— Estou esquecendo ela Sil... Estou esquecendo seu rosto...— ele volta a chorar.

— Até o papai está morrendo Sil... Não quero perder o papai também...— Meu coração partido se quebra pela milionésima vez e se junta para consolar o meu irmãozinho do coração.

Estamos sentados no chão do seu quarto, junto todas as minhas forças e me levanto com ele que dorme cansado de chorar, não suporto vê-lo assim, ele que por tantas vezes tentou tirar um sorriso meu, agora precisa que eu o faça sorrir, não me sinto pronta ainda, mas preciso ficar, preciso mudar, por ele, por mim, e também pelo meu pai.

Preciso me reconstruir, para ergue-los, preciso jogar minhas dores para o canto mais escuro da minha alma para tentar amenizar as dores deles, vou sorrir mesmo que minha alma chore e sangre. Acabo dormindo em sua cama abraçada a ele e acordo com um carinho em meu rosto, abro os olhos e vejo as lágrimas nos olhos amorosos do meu pai, não vejo maldade neles, só a dor e a tristeza de ter perdido seu grande amor.

Dan ainda dorme agarrado a mim, John faz sinal para que eu o siga e sai do quarto, eu o acompanho, ele entra no escritório, eu entro logo em seguida, confio nele sei que seu coração é bom, fecho a porta e o encontro sentado atrás de sua mesa, ele parece tão cansado, mais velho e com olheiras, entendo sobre morte em vida já estive lá, mesmo aos dezenove anos sei como é se sentir assim.

Olho para a janela incapaz de me ver refletida em seu olhar que se tornaram poços profundos de dor.

— Sei que não tenho sido um bom pai... Tenho estado ausente...

Dou um sorriso amargo, não o culpo.

— Eu gostaria de estar ausente...

Ele concorda com a cabeça.

— Nice me ligou... Vim correndo, mas cheguei tarde... — ele suspira.

— O senhor não chegou tarde, ainda dá tempo, e é bom que seja rápido, ele sente a falta dela, sentimos a falta dela, mas precisamos nos reerguer, senão por ela, que seja por ele.

Ele disfarça uma lágrima, tentando parecer forte.

— Está difícil... Sil. — Ele olha pela janela.

— Parece que ela vai chegar a qualquer momento nos abraçar e dizer que somos as pessoas mais importantes do mundo. — Pela primeira vez meu sorriso sai verdadeiro.

— E éramos... — Pelo menos eu fui amada por uma mãe verdadeira.

— Às vezes esqueço e faço o percurso que fazia para buscá-la na clínica e a dor é tão grande quando eu não a encontro me esperando que me falta ar.

— Eu sei um pouco como é essa dor, e eu nunca vou me esquecer do dia em que ela me contou como me encontrou, por que foi nesse dia que eu descobri o que era ser amada.

Me perco nas lembranças.

" Estávamos acampando na mata do outro lado da comunidade quando vimos duas mulheres descerem de um antigo carro meio enferrujado e um homem mal encarado, graças a Deus ele não nos viu, eles abriram um cava rasa e jogaram o corpo de uma criança, seu corpo, dentro e jogaram algumas pás de terra."

" Eu sei, ela pensou que havia me matado."

Foi minha resposta.

" Então quando eles foram embora não pensamos duas vezes em verificar o que havia acontecido com aquela criança, e quando a vimos nos apaixonamos por você, era uma menina magrinha, com marcas de espancamento por todo corpo, me perdoe querida mas foi você quem pediu."

" Eu sei, ela sabia ser cruel, não apenas com o fio..."— Meu corpo inteiro tremeu em repulsa.

" A senhora me salvou duas vezes, ela ia me vender, como a mãe da Bruna a vendeu para um americano endinheirado, ele sempre comprava meninas de algumas mães usuárias desesperadas por dinheiro."

Ela fez uma careta indignada.

— Vamos nos mudar daqui… — Sou arrancada dos meus devaneios com a declaração. — Comprei uma casa um pouco mais afastada da cidade, vamos nos refazer, o Dan precisa de nós.

Isso encheu-me de esperança, escuto a porta ser aberta e Dan entra com os olhos vermelhos de lágrimas.

— Pensei que você tinha ido embora também Sil...— me diz triste e eu o abraço.

— Eu nunca vou embora Dan. — prometo sabendo que promessas nem sempre são cumpridas.

— Filho... — nosso pai exclama e nos abraça, eu sinto nesse abraço o abraço dela e isso me conforta.

**********

Uma semana depois estamos entrando em uma casa grande numa rua arborizada, com casinha na árvore, balanço e até uma piscina.

Nessas duas semanas o Dan pareceu mais feliz, voltou a acordar cedo e me olhar dormindo.

Nosso pai está mais leve e parece que está saindo com alguém, tenho quase certeza que é do trabalho.

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