Capítulo 2

Fora, o dia parecia cheio duma atmosfera fresca e úmida como o cenário ficaria após uma garoa gelada, com trinados de pássaros se fundindo ao buzinar dos automóveis, os quais chegavam a todo momento no estacionamento do Hospital Long Horata – um prédio imponente que rasgava o azul vibrante do céu como uma enorme fenda branca repleta de vidraças espelhadas.

De longe, a luz do sol ricocheteava nos vidros das janelas como se estas, de repente, fossem lanternas que cintilavam em plena manhã.

Em um quarto do Long Horata – nome dado em homenagem ao seu fundador cuja propriedade natal carregava nome semelhante –, na área VIP, um homem assentado sobre a típica poltrona de couro branco de Hospital segurava seu laptop em mãos, parecia deveras concentrado no que fazia.

Nesse momento, do lado de fora, alguns homens conversavam no acostamento.

Num canto do quarto, onde a luz chegava sem força, encontrava-se uma mulher com seu corpo magro estendido nos lençóis claros do leito; um soro estremecia aos poucos acima de sua cabeça, a cada gota que deslizava e sumia no tubo transparente.

Alguns fios, vindos dos aparelhos ligados às máquinas que estavam na cabeceira da cama, emaranhavam-se em outras partes de sua figura.

Sua cabeça estava enfaixada com gaze branca, seu rosto estava pálido.

A moça usava roupas hospitalares, exibia um aspecto abatido, um tanto lamentável. De repente, suas pálpebras tremeram. Os longos cílios negros se moveram vagamente.

Ela tentou abrir os olhos, porém, a hipersensibilidade à luz lhe causou dor, ela os fechou outra vez e gemeu, o que chamou a atenção da outra pessoa no quarto.

O Senhor Jiang olhou para ela, nesse momento ela ainda tentava abrir os olhos. Tudo estava embaçado e uma quantidade significativa de lágrimas embotavam seus orbes, tornando impossível distinguir as formas à sua frente. Heitor observou o seu esforço e decidiu se inclinar.

A mulher lutou mais uma vez para enxergar, seus os olhos já vermelhos viram um lindo rosto se aproximar dela. Os lábios do homem se mexiam, pareciam pronunciar algumas palavras, mas a mulher não conseguia ouvi-lo com clareza, tampouco entender o que ele dizia apenas por leitura labial, ela estava desorientada.

Sua expressão confusa seria até engraçada, se as circunstâncias não fossem trágicas.

Ela gemeu.

Então Heitor saiu da sala, sem demora retornou com um homem de meia-idade alto, esguio e coberto por roupas brancas. Era o médico. Ele a examinou:

"Senhor Jiang, é como eu lhe disse, a paciente está muito debilitada", ele começou. "É um milagre acordar do coma. Mas as sequelas são incalculáveis, precisamos monitorá-la para dar um parecer mais preciso".

Expressou o médico com o olhar preocupado, "eu sou um médico, eu não faço milagres", disse a si mesmo enquanto olhava para a mulher na cama.

Longe do Senhor Jiang ouvir seus pensamentos. Seria o seu fim.

"Doutor, veja, ela já está acordada, no entanto, parece não me ouvir. O senhor precisa fazer alguma coisa; é para isso que está aqui, certo? Então faça algo!", ordenou o Senhor como se o médico fosse um de seus subordinados.

"O cérebro humano é um mistério", fingiu não se afetar pelo tom autoritário do jovem homem, porém, ao ter um par de olhos tão terrificantes em si, não pôde evitar dar um passo para trás e se mover para o lado; numa distância que julgou segura, prosseguiu:

"Não podemos afirmar com precisão tudo o que vai acontecer a esta paciente. As sequelas neste caso são inevitáveis, meu Senhor. Conseguimos retirar a bala com sucesso, sem riscos, porque não atingiu nenhum órgão vital, mas o trauma na cabeça...", outra pausa por segurança.

Se os olhares congelassem, o médico já seria uma pedra de gelo há tempos. Mas o quê?! A culpa não era sua. Ele apenas faria seu trabalho.

Expelir a última frase não seria fácil; porém, ele tomou coragem e terminou:

"Bom..., fez um estrago enorme. Ela pode perder os movimentos ou até mesmo nunca se lembrar de nada".

"O quê?! Amnésia permanente? Sem movimentos?", O Senhor Jiang espremeu o cenho, seus dedos percorreram seus cabelos num movimento instintivo. Ele estava atordoado.

Aquela mulher na cama salvou a vida de seu filho. Ela se machucou pela criança e ele nem sabia quem ela era, sua família, seu nome, enfim nada, era uma total desconhecida. Mas ainda assim, ele se sentia responsável por ela.

"O que devo fazer?", resmungou internamente. Ele prometeu ao filho salvar a vida da mulher. Perdido em pensamentos, de repente houve um balbuciar na sala.

"Água..., por favor, eu quero um pouco de água", a moça sem nome bodejou. A figura tentou se levantar, mas não podia, além de tantos aparelhos, não possuía forças. Apenas olhou ao redor e não gostou daquele lugar.

"Por favor, não se mexa, senhorita, vou lhe dar água". Imediatamente o homem de rosto bonito se aproximou com um copo de água na mão.

Deixou o copo de vidro na mesinha ao lado da cama, enquanto ajudava a levantar o corpo da mulher para que pudesse beber água.

"Obrigada", disse quase que em um fio de voz. "Hum...", mais um gemido. "Minha cabeça dói".

"Mas é claro! Você caiu e bateu a cabeça", ela olhou o desconhecido que praticamente resmungou. "Lembra disso?", indagou o homem com muita expectativa.

Ela levou as mãos até a cabeça, como se quisesse conferir esse fato, sentiu a textura áspera da gaze e olhou para ele cada vez mais confusa.

"É? Quem é você, mesmo?", indagou, sua expressão tornava-se complicada a cada dúvida sobre si que ela não encontrava resposta em sua mente, "Aliás, quem sou eu? E que lugar é este? Aconteceu algo, não é? O que aconteceu? Por que isso aconteceu? O que você é para mim? Por que está aqui?"

A pobre jorrou uma série de perguntas que deixou Heitor quase tão aturdido quanto ela por um momento, a ponto de ele precisar segurar a própria cabeça. "Ah..., sobre isso...", murmurou.

Sem saber o que responder, depois de um tempo, no qual ela o admirou bem, com os olhos inteiros abertos, ele falou:

"Eu sou Heitor Jiang, sou o pai de Demian Jiang, o garotinho que você salvou".

Confusa demais, ela não entendeu o que o homem disse. Quer dizer, óbvio que ela entendeu as palavras usadas, e entendeu o que a palavra salvar significava, porém, não compreendia a situação, muito menos o que se sucedeu.

Então se deitou bem devagar e pensou consigo: "Demian? Quem diabos é Demian?", repetia essa frase, mas não conseguia se lembrar de nada. Sua mente estava em completo branco, feito uma folha de papel a qual acabou de sair das lâminas da fábrica. E por que ela o salvaria? Ela era guarda-costas ou policial, por acaso?

"Quem é Demian?", perguntou em voz alta.

"É o meu filho", Heitor repetiu pacientemente, apesar de sua postura fria. "Ele foi sequestrado; você o salvou. Ele contou como tudo aconteceu". Então olhou para ela, analisou seu semblante e prosseguiu, "Você não se lembra, certo?"

"Não", tentou balançar a cabeça, porém sentiu uma pitada de dor a fazê-lo. "Eu não me lembro de nada, eu realmente não consigo me lembra", a mulher passou a mão na testa outra vez.

Viu suas mãos com agulhas e fios, ela ficou nervosa e queria tirar tudo aquilo. Podia não recordar quem era, nem o que fazia, mas tinha certeza de uma coisa: aquele lugar lhe dava fobia.

Todos aqueles aparelhos gelados e aquele bip irritante que eriçava até o último de seus pelos. Ela não gostava de nada daquilo.

"Você não pode fazer isso, okay? Não pode", O Senhor Jiang prendeu-lhe os braços e disse casualmente como se falasse com uma criança. "Tente se acalmar, o médico vai ajudá-la."

Ela assentiu e relaxou as costas. Mesmo por um momento, o estranho Senhor sem expressões, que mais parecia uma estátua, passou-lhe um pouco de segurança.

No entanto, sua cabeça ainda estava dando voltas e mais indagações brotavam em seu cérebro como mato silvestre após chuvas torrenciais: quem era ela, qual o seu nome, o que de fato aconteceu, quem era aquele homem que estava com ela.

Aliás, quem poderia lhe dar as respostas?

Capítulo 3

Nesse ínterim, a mulher direcionou toda a sua atenção para o Senhor Jiang, olhou-o de cima a baixo sem o mínimo de decoro. Absorvia cada centímetro daquela ótima aparência à sua frente. Não possuía qualquer catálogo de imagens viris em sua mente para comparar, porém o tal sujeito Jiang era, sem dúvidas, alto e forte. Bonito?

Bom, seus braços, mesmo sob o tecido denso das mangas do blazer preto, pareciam estarem repletos de relevos notáveis, palpáveis e atrativos, suas pernas eram longas.

Em seu rosto as feições angulares encaixavam-se bem definidas as suas demais características faciais. Todo seu rosto trazia uma harmonia digna de uma escultura em mármore. Ele tinha olhos azuis brilhantes, com a borda da íris acentuada. Longos cílios arrebitados guarneciam suas pálpebras bem marcadas.

Céus, ele ainda tinha lábios modelados e vermelhos, sem qualquer sombra de um sorriso; ele era um homem realmente muito atraente. De cabelos escuros e curtos. Algumas mechas caiam em sua testa, o que criava um contraste com a sua pele clara e delicada, imaculada.

Esse tal homem tinha a aura de um rei, ele era imponente em seus movimentos, feito um lustre que rouba a atenção de todos no centro do salão. Suas palavras eram firmes e banhadas de uma autoridade ressoante. Ele parecia um sujeito dominador.

"Mas o que ela está pensando?", o Senhor Jiang remoeu internamente ao notar dois orbes vidrados em sua silhueta. Até se incomodou! Ora, pois. Aquela mulher o olhava tão atentamente que parecia sugá-lo para dentro de seus olhos.

Ao mesmo tempo, Heitor resolveu examiná-la, este queria entender o que a mulher estava pensando, desejava entender cada expressão, mas era difícil. Tão difícil quanto ler o coração de uma pedra!

Essa estranha tinha olhos claros, tingidos de uma profundidade tão intensa quanto um poço sem fim, um olhar distante, porém desconfiado. Mesmo sua figura abatida não diminuía a essência de sua alma, ela parecia ter uma nobreza natural.

Entretanto, uma coisa ele já sabia, ela era teimosa. Muito teimosa. E orgulhosa. Ela tentou se levantar da cama com as próprias forças, sem ao menos considerar pedir ajuda a ele. Primeiro, o Senhor Jiang não fez menção de que iria interferir. Apenas a observou solene, de braços cruzados e um sorriso velado nos olhos.

"O médico não disse que ela não iria andar?", pensou Heitor irônico. Quando percebeu que ela não pararia por si só, após fracassar de início, o Senhor Jiang tentou segurá-la na cama. "Acho melhor não fazer isso. Pelo que sei, você ainda está muito fraca".

"Preciso ir ao banheiro", respondeu. Seu corpo magro ainda tentava se sentar na cama.

"Então eu vou ajudá-la". Heitor a aparou com suas mãos grandes e a puxou para se apoiar melhor no leito.

Em pouco tempo, após o momento que ele deu a ela para se nortear na nova posição, Heitor fez menção de guiá-la. Nesse período, o ambiente estava quase isento de sons, apenas alguns ruídos mecânicos eram ouvidos pelo corredor e o cochicho de alguns profissionais vestidos de branco que passavam frente ao quarto.

Assim que entendeu a intenção do jovem homem, a senhorita franziu a testa. "Esse tio quer me levar pessoalmente ao banheiro?", cogitou.

"Senhor, eu não o conheço, agradeço a sua ajuda. Mas como eu posso ir ao banheiro com um homem estranho?", ela enfatizou bem os termos homem e estranho. Seu tom de voz deveras sugestivo.

Logo Heitor compreendeu o que ela queria dizer e sugeriu chamar uma enfermeira, a qual com uma agilidade magistral, veio e ajudou em tudo. Sempre com uma paciência materna e um sorriso afetivo.

Aliviado, o homem pensou que isso era bom.

Pelo menos ele já sabia que a mulher não havia perdido nenhum de seus movimentos, que ela falava, enxergava e tinha um pingo de senso rastejando em algum lugar de sua cabeça. No entanto, infelizmente, não se lembrava de nada.

Já se havia passado um mês desde o incidente, ela estava em coma todo esse tempo. Entre a vida e a morte, cercada por riscos e chances negativas. Felizmente ela despertou, como que por um milagre, disse o médico.

Todos os dias Heitor ia ao hospital e ficava com ela, por algum tempo, ele tinha uma dívida eterna com ela. Ela cuidou de seu filho quando ele não pôde. Como ele poderia ignorar isso?

Além disso, Demian se afeiçoou aquela mulher, uma vez que ninguém o tratava assim desde que ele conseguia se lembrar. Todas as suas babás – ou outras mulheres – que eram gentis com ele faziam isso só por causa de seu pai. Todas elas queriam a mesma coisa: ser sua madrasta. Na sua compreensão, eram todas mulheres más.

Por isso nunca deixou nenhuma se aproximar. Por isso era tão fechado, como o Senhor Jiang. Ele só confiava em seu pai, até agora. Até essa desconhecida aparecer e o salvar daquele lugar horrível e das mãos dos bandidos. Ainda por cima, levou um tiro por ele!

Quem faria isso?

Foi assim que Demian abriu o seu coração para aquela desconhecida. Todos os dias o garoto perguntava ao seu pai pela sua salvadora. Às vezes ele estava pessoalmente no hospital só para vê-la.

Na sua visão, ela era como as princesas dos contos de fadas. Era a bela adormecida a qual ele ansiava que acordasse logo. Quando seu pai lhe deu a maravilhosa notícia de que sua heroína havia enfim despertado, Demian vibrou de alegria.

Claro! Ele sabia que ela havia se machucado por ele. E ele queria vê-la novamente, falar com ela, estar com ela. Bom, isso foi o que ele fez.

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