Capítulo 2

CAPÍTULO UM: A CHEGADA DA REDENÇÃO 

O silêncio na vasta sala de estar da mansão do Kaleb era pesado, rompido apenas pelos passos inquietos do dono da casa. 

Kaleb andava de um lado para outro, num ritmo frenético e repetitivo, cruzando a imensidão do luxuoso ambiente. 

Ele estava irreconhecível, tomado por uma tríade de sentimentos que há muito havia exilado de sua vida: ansioso, consumido pela espera; aflito, pela incerteza da vida que resgatou; e nervoso, uma tensão palpável que jamais admitiria. 

Seu foco estava fixo na escadaria, esperando o doutor descer e falar sobre a garota que ele levou até sua casa, desacordada.

Scott por sua vez, estava sentado no sofá, um móvel de couro escuro e imponente, e com a mão firme, levava à boca um bom uísque, um líquido âmbar que refletia as luzes da sala. Contudo, ele também permanecia esperando o doutor, mantendo uma vigilância discreta, para saber da garota. 

Sua preocupação, nem se comparava ao do Kaleb. Scott observava o amigo com uma curiosidade velada; nem mesmo o Scott estava reconhecendo seu amigo, tamanha a intensidade daquele nervosismo. Mas era claro que ele nunca faria tal comentário! Jamais desafiaria Kaleb naquele estado. Nunca o viu tão nervoso, tão exposto, mas não seria louco de falar uma palavra sequer.

De repente, a espera terminou. O médico, Doutor Lorenzo, apareceu nos primeiros degraus do andar de cima, uma figura experiente e austera. E, sem hesitar, Kaleb subiu de encontro a ele. 

Ele não podia esperar mais um segundo. Subiu a escadaria imponente de dois em dois degraus, com a agilidade de um predador, chegando rapidamente ao lado do médico.

- Como ela está? - Perguntou, sem conseguir esconder sua preocupação. A voz, habitualmente fria e controlada, estava ligeiramente áspera, aflita, por uma resposta imediata.

A cara do médico era preocupante, carregada de seriedade, um mau sinal que não aliviava a tensão. Isso fez com que o coração do Kaleb, o qual, ele nem mesmo lembrava que tinha se apertasse dentro do peito. 

Kaleb estava perplexo, não sabia o que estava acontecendo, nem o que o dominava, pois nunca se sentiu assim antes.

Os dois homens desceram os degraus lentamente, o médico em silêncio, chegando até a sala onde o Scott continuava esperando por notícias também. 

Kaleb olhava para o doutor Lorenzo, apreensivo, mal piscando, querendo saber logo o estado da garota. Mas Lorenzo ainda se sentou no sofá, com uma calma calculada, e Kaleb se manteve ao lado dele, de pé, querendo ouvir logo sua resposta. 

O silêncio se prolongava, e o médico ainda não disse nada. Kaleb estava a ponto de explodir, sem conseguir esperar mais pela informação vital.

- Vai falar logo? - Kaleb perguntou, sem muita paciência. 

A irritação borbulhava. Paciência nunca foi seu ponto forte e agora então, naquele estado de nervos, estava por um fio!

O médico olhou para o Kaleb, sem dar muita importância, habituado por seu tom ríspido. Lorenzo já aprendeu a lidar com o Kaleb e suas explosões, afinal de contas, o conhecia desde criança e trabalhou sua vida inteira com o pai dele. Era um dos poucos que ousavam desafiá-lo ou ignorar seu temperamento, mas era claro que o Lorenzo sabia muito bem seu limite.

- A garota vai ficar bem. - Lorenzo contou, a frase simples liberando uma tonelada de tensão. Ele percebeu que o Kaleb respirou aliviado. Pôde ver até mesmo seu semblante suavizar, uma mudança quase imperceptível, mas que não passou despercebida. - O corte não foi muito profundo. Felizmente, as tentativas de automutilação não foram fatais. Está muito magra, em um estado de desnutrição preocupante, desidratada e, infelizmente, os cortes em seus pulsos, fez com que ela perdesse muito sangue. Ela vai precisar de muito repouso, de descanso absoluto, mas vai ficar bem. - Contou ele, com a voz clara, vendo o Kaleb, olhá-lo com atenção e absorver cada detalhe. - O corpo da garota está cheio de hematomas, como se tivesse sido torturada. É um caso de violência grave. Aquela pobre menina, deve ter sofrido bastante! - Lorenzo contou tudo o que viu, os sinais visíveis de abuso, enquanto a examinava. 

Kaleb, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um aperto doloroso no peito, uma pontada de empatia e raiva, pelas palavras do médico, em saber o quão terrivelmente era o que tinha acontecido com a garota.

- Quem machucaria uma garota tão frágil daquela?! - Scott perguntou, irritado, a indignação colorindo sua voz, tomando um gole do seu uísque com um gesto brusco. - Ela não faria mal a uma mosca! É pura inocência.

Kaleb só conseguia ouvir, as palavras do médico e do amigo ecoavam em sua mente. Ele não tinha o que falar! Também pensava como o Scott, com a mesma fúria silenciosa, mas, as palavras não saíram de sua boca. Sua raiva foi internalizada, se transformando em um juramento.

Quem teria tanta crueldade e coragem de maltratar aquela doce garota? Se fosse, de fato, aquele homem que estava atrás dela, o tal Jorge, ele pagaria muito caro por ousar encostar as mãos em uma garota tão frágil. Kaleb jurou a si mesmo que iria encontrar o culpado que a machucou. A proteção dela se tornava uma obsessão repentina.

- Amanhã eu voltarei, preciso examiná-la quando estiver acordada, para uma avaliação mais completa, mas, por agora, descansar vai fazer bem. Ela precisa recuperar as energias. Aquela garota parece muito cansada. Exausta. Parece que não dorme a dias. Está em um sono tão profundo que nem mesmo acordou, quando eu a examinei. - Lorenzo contou um pouco mais, sobre sua paciente, indicando o nível de exaustão física e emocional da jovem.

- Obrigado por enquanto, Lorenzo. - Kaleb agradeceu, o reconhecimento de sua gratidão era raro, e se levantando do sofá, para acompanhá-lo até a porta.

- Sabe que sempre estarei aqui, pronto para ajudar, assim, como sempre estive por seu pai! - Lorenzo falou, atencioso, com a familiaridade de um antigo amigo, se levantando. - E falando nisso. Mudando de assunto, soube que sua tia está tentando casar você? - Falou rindo, uma risada suave, se divertindo, pelo rumo inesperado da conversa.

- Ela vai precisar de muita sorte! - Scott comentou, sarcástico. Ele riu, conhecendo muito bem seu amigo e sua aversão ao compromisso.

- Há se vai! - Lorenzo concordou com o Scott, achando graça da situação.

- Vão se foder, vocês dois! - Kaleb falou irritado, com um grunhido, por eles estarem se divertindo, zombando por sua desgraça e vida pessoal.

Kaleb acompanhou o doutor Lorenzo até a porta e, logo depois, o Scott também foi embora, saindo com seu carro. 

Kaleb ficou ali sozinho, com seus pensamentos tumultuados e a casa silenciosa.

Olhando para o fim da escada, para o andar superior, ele conseguia ver a porta do quarto, o local seguro onde a garota estava.

Calmamente foi caminhando, o ritmo agora lento e deliberado, subindo os degraus um a um até chegar à porta do quarto onde a Celina estava.

Meio indeciso, hesitando por um breve instante, ele pegou no trinco da porta. Nunca se sentiu assim, com tal mistura de sentimentos, mas ele estava estranho, preocupado pela garota. 

Finalmente, abriu a porta, suspirou fundo e ficou encarando a garota deitada na cama.

Seus cabelos loiros e claros estavam espalhados pelo travesseiro, como um raio de sol dourado. 

Ela dormia tão serenamente, com uma paz que contrastava com sua fuga, que por um segundo, Kaleb acreditou ser um anjo dormindo. Seu rosto delicado, de traços finos, dava mais impressão ainda de ser um anjo deitado sobre a cama.

Ele entrou no quarto, os passos silenciosos, indo até a cama e sentou-se ao lado dela calmamente, tomando todo o cuidado para não acordá-la. 

Ficou olhando, absorvendo a imagem, pensando no que aconteceu horas antes, em como ela havia pedido por sua ajuda, segurando sua cintura tão forte. Ele se maravilhou com a força daquele ato: Alguém tão frágil como ela, lutou com todas suas forças para se manter segura ao lado dele.

Celina não teve medo dele, o temido Kaleb. Ela se agarrou em seu corpo como se soubesse que ele a protegeria. Um sorriso involuntário saiu de seus lábios com o pensamento. Era a mais pura ironia: Todos o temem, sentem pavor, têm medo dele, ao menos, os que o conhecem, mas aquela garota não teve, pediu por sua ajuda, confiando nele!

- O que aconteceu com você, pequena? - Perguntou, a voz baixa, quase um sussurro no silêncio do quarto, passando seu dedo suavemente, com uma ternura inesperada, tirando uma mecha de cabelo do rosto dela, delicadamente. 

Ele ficou encantado por ver o quão bonita ela é, mesmo com os hematomas. Kaleb não conseguia entender seu afeto por ela, aquela necessidade súbita de cuidar, mas sabia que devia proteger aquela garota, de tudo e de todos, e ele faria isso a todo custo! 

Nunca mais ela iria passar por aquilo, ele prometeu. Kaleb olhou os pulsos dela, agora enfaixados, e a promessa se solidificou em seu coração de gelo.

Capítulo 3

CAPÍTULO DOIS: A LUTA CONTRA O LEGADO.

DUAS SEMANAS ANTES... 

A cena se passava no imponente escritório do Kaleb, um espaço dominado por madeiras escuras e a aura de poder.

- Já disse que não irei me casar, tia! Eu já tomei minha decisão. Quando a senhora vai entender isso? Quando esta ideia sairá da sua cabeça? - Kaleb tentava se manter calmo, usava toda a sua força de vontade, mas falar de casamento era algo que o tirava do sério, o levava ao limite, ainda mais, seu próprio casamento. Era uma afronta à sua natureza solitária.

- Não vou entender nunca! Eu nunca vou desistir. Você sabe que merece ser feliz, Kaleb. Você tem direito à felicidade. - Daiana falou atenciosa, a voz carregada de amor, não se importando pela malcriação do seu sobrinho. Ela o amava incondicionalmente. - Estou velha e não estarei aqui para sempre, cuidando de você. Preciso saber que você terá alguém ao seu lado.

Suas palavras fizeram o Kaleb se manter mais calmo, pois tocavam em um ponto sensível do seu coração. Ele pode ser desalmado, sem coração, como todos diziam, mas sua tia é muito importante para ele. Ela era o último vestígio de calor em sua vida. Então ele se sentou em sua cadeira do escritório, respirando fundo, com um gesto de resignação, pronto para ouvi-la com atenção forçada.

- Sei que não quer se casar pelo que aconteceu a nossa família. Sei que o passado pesa sobre você. Sei que lembra de como sua mãe sofreu, as mágoas que ela carregou, mas você é diferente do seu pai. Você tem sua própria alma. - Disse ela, tentando convencê-lo com a lógica do afeto.

- E se eu não for, tia? E se eu for exatamente igual? - Kaleb perguntou, com peso em sua voz, uma angústia profunda, olhando para sua tia, sentada à sua frente.

Ele não conseguia se convencer. Ele não acreditava ser diferente do seu pai, pensava ser a cópia exata, era o mesmo desalmado e sem coração que seu pai sempre foi. Afinal, ele mesmo quem o ensinou ser daquela maneira!

- Você não é Kaleb! E isso basta. Sei que meu irmão fez de você alguém que sua mãe não queria. Ela tinha sonhos diferentes para você. Ela queria te criar com todo amor e carinho, cercado de afeto, mas seu pai fez de você o seguidor dele em seus negócios sombrios e desde pequeno você só conhece tortura e morte. É a única vida que meu irmão te mostrou. Você Aprendeu com seu pai a ser alguém sem sentimentos. - Daiana falou emotiva, a memória do sofrimento voltando, lembrando de como seu irmão era um homem desumano e cruel.

- Esse sou eu, tia Daiana! A verdade nua e crua. - Admitiu ele, aceitando a própria escuridão.

- Mas você é muito mais, Kaleb. Eu sei disso. - Disse ela atenciosa, com um carinho maternal, se levantando, chegando a frente do seu sobrinho. Ela estendeu a mão. - Não posso nem imaginar o que você carrega aqui. - Falou, colocando a mão na cabeça dele com carinho. - Mas aqui dentro... sei que pode deixar alguém entrar. - Ela Colocou a mão no peito dele, sobre a camisa do Kaleb, onde seu coração estava. - Você só precisa se deixar amar e ser amado e amar com a mesma intensidade. Você merece isso. Você precisa ser feliz, sua mãe queria muito isso! - Disse ela, batendo no ponto fraco, usando a memória mais dolorosa do Kaleb.

Kaleb não tinha muita recordação de sua mãe, apenas fragmentos. Ela morreu quando ele tinha dez anos. E o pouco que se lembrava, era das brigas constantes com seu pai, discussões violentas. Às vezes ele até batia nela, quando ela tentava impedir ele de levar o Kaleb, de tirá-lo dela, para aprender tudo o que aprendeu sobre o mundo do crime, mas ainda se recordava do quão amorosa ela era. 

Ele lembrava do toque. Quando sua mãe ia até o quarto dele dar um beijo de boa noite escondido, murmurando o quanto o amava.

Na época, Kaleb não ligou muito aos fatos, não entendia a gravidade, mas hoje, ele acreditava que sua mãe morreu de desgosto pelo o homem que ele se tornou. A dor a consumiu. Ela não suportou viver sabendo do monstro que seu marido iria criar.

- Eu não sei como, tia! Não me ensinaram isso. - Disse ele, cabisbaixo, sua voz denotando a impotência.

E Kaleb não sabia mesmo! Sua vida foi um treinamento brutal. Foi criado por seu pai. Aprendeu como torturar, até mesmo matar, como ferir sem remorso, mas nunca como amar. As mulheres com quem andava, eram apenas distração, sexo sem afeto. 

Ele nunca foi carinhoso, sempre bruto e frio, e ele não sabia como ser diferente. E uma esposa, ele não queria que tivesse a mesma vida que sua falecida mãe.

Kaleb não queria ser um monstro com sua esposa, nem com a mãe dos seus filhos. Não queria que outra pessoa sofresse tudo o que sua mãe sofreu. Esse medo era seu maior bloqueio.

- Você vai aprender, filho. O amor é um instinto. Só precisa encontrar a pessoa certa no momento certo e você vai ver. A mudança virá. Vai aprender a amar e será mais forte o amor do que todo o resto que aprendeu. A bondade prevalecerá. Só se permita viver. - Disse ela, abraçando-o com ternura, carinho puro e genuíno.

Kaleb não era muito afetuoso, a rigidez era sua segunda pele, mas permitiu o abraço da sua tia, sentindo-se estranhamente em paz, abraçando-a, meio sem jeito. 

Não era acostumado a fazer aquilo, a expressar sentimentos, mas, de certa forma, gostava de como ela não se afetava pela maneira, em como ele sempre a tratava, com sua frieza, sem muito sentimento.

(...)

O tempo se arrastava. De volta à realidade, no quarto luxuoso, Kaleb se mantinha sentado na cadeira à horas, uma vigilância incansável, esperando a garota acordar. 

Seu novo objetivo. Ele não se importava em ficar olhando para ela, pelo contrário, a observação era fascinante! 

Ela chamava sua atenção, como ninguém nunca o fez. Era um ímã irresistível. Passou a noite toda ali e nem se importou, por estar no mesmo lugar quando o sol nasceu.

- Bom dia. - Kaleb falou, tentando ser simpático, suavizando a voz, ao ver que a garota abriu os olhos lentamente.

Ela se moveu, se levantou, sentando-se, assustada, os olhos arregalados, por ver aquele homem ao lado da cama.

- Por favor, fique calma. Está tudo bem. Não vou te machucar. Eu sou seu protetor. - Kaleb se levantou, caminhando até ela com lentidão, tentando acalmá-la.

Ela o observou, seu corpo inteiro em alerta, e se encolheu, abraçando as pernas, escondendo a cabeça no meio dos joelhos.

Celina ficou apavorada ao ver aquele homem enorme, a memória do padrasto ainda fresca.

- Por favor, não me machuque. Eu imploro. - Disse ela, em um sussurro de medo, aterrorizada pelo que aquele homem poderia fazer a ela.

- Não vou te machucar. De forma alguma. - Disse ele, triste, uma dor que o surpreendeu, por ela pensar aquilo. Pela primeira vez, Kaleb se sentiu mal, em ver alguém com medo dele.

Causar medo, pânico, pavor, era algo que sempre o deixou bem, que definia seu poder, mas agora, ele não queria que ela tivesse medo dele. Queria confiança.

- Eu te ajudei ontem, se lembra? Eu estava lá. Eu protegi você. - Falou, tentando acalmá-la com a lembrança da noite anterior.

Ela ergueu seu rosto calmamente, lentamente, olhando para o Kaleb parado a sua frente. Parecia que finalmente ela tinha se recordado dele, o vulto da salvação.

- Você não vai me machucar? - Perguntou ela, um pouco receosa, a dúvida ainda presente, olhando timidamente para ele.

- Não! Eu prometo. - Confirmou ele, com firmeza. 

Kaleb percebeu os ombros dela relaxarem, uma pequena rendição ao alívio.

Celina o encarava, agora com mais atenção, se recordando da noite passada, e de como ele lhe ajudou. 

Continua...

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